22 de dezembro de 2012

Vitórias absolutas, derrotas relativas e um casamento em segundas núpcias ameaçado pelos ex

Por cinco se ganha, por cinco se perde. José Martins Igreja é o vencedor das ‘directas’ no PS e será candidato à Câmara da Guarda. Lavou, assim, a própria honra, depois de o partido lhe ter prometido e imediatamente negado o lugar de deputado e o cargo de governador civil, pelo menos. Lutou pelo ressarcimento e obteve-o, legitimado numa votação. Resta saber se, resolvida a questão que tinha com o partido, era mesmo ser candidato a Presidente da Câmara aquilo que queria e se já caiu na realidade daquilo que o espera (ou, pior para ele, daquilo que outros esperam dele e da circunstância).
Virgílio Bento, por seu lado, alguma coisa ganhou, perdendo. Não quis sair sem ir a jogo. Testou, por própria conta e risco, aquilo que julgava valer num terreno que outros tentavam decidir nas suas costas que não lhe estava destinado. Se tivesse perdido por muitos, talvez hoje devesse estar a escrever a carta de renúncia ao lugar de vereador. Assim, conseguiu congregar à sua volta metade do partido, e ninguém poderá dizer que essa conclusão provenha de uma teoria filosófica nem de um estudo de opinião - é o resultado dos votos (89 contra 94), numa abstenção quase nula.
Legitimou-se para o que resta de mandato e tornou-se, no actual executivo (Joaquim Valente incluído), naquele a quem menos poderão pedir responsabilidades por uma eventual derrota do PS nas próximas autárquicas.
Será determinante, mesmo para as expectativas do próprio candidato José Igreja, acompanhar os acontecimentos do próximo ano e compreender até que ponto continuará Virgílio Bento a querer ser o bombeiro de serviço e, principalmente, até que ponto o provável termo dessa sua propensão deixará a imagem da Câmara (e, no fim de contas, a imagem da «marca» PS no governo local) pior do que já está.
António José Seguro, secretário-geral e militante inscrito na Guarda, é que não se percebe o que quer: inventou as ‘directas’, lançou o partido nesta confusão e, na hora, nem se dignou vir votar.
Finalmente, José Albano: desta vez conseguiu ganhar na Guarda. E com a táctica perfeita: dando quase a ideia de que não teve nada a ver com o assunto. A verdade é que foram as suas tropas que ajudaram a dar a diferença a José Igreja, e o agora cabeça de lista à Câmara fica a dever-lhe isso. Cada candidato tentou pescar o melhor que pôde em todas as águas (Virgílio Bento também o fez) e na política dificilmente se obtêm apoios sem compromissos.

É, em suma, o que me parece. E também me parece que a actual situação do PS era a mais desejada pelo PSD. Mas igualmente me parece, até por isso, que vai ser longa e tumultuosa a definição do candidato social-democrata.
O partido da oposição na Câmara tem, desta vez, a vantagem daquilo que se pode assemelhar a um enlace em segundas núpcias entre duas facções quase sempre desavindas, protagonizado por Manuel Rodrigues (presidente da concelhia) e por Júlio Sarmento (presidente da distrital). Acordaram uma solução em que ambos dão a cara, Rodrigues como candidato à Câmara e Sarmento como candidato à Assembleia. Parece lógico e pode potenciar um novo ciclo.
Mas, como na maioria dos matrimónios em segundas núpcias, os ex não deixarão de lhes fazer a vida negra. Isso de que «quero é que a família seja mais feliz convosco do que o foi comigo» fica bem ser dito mas é quase sempre uma treta… Como se verá neste caso, provavelmente.

17 de abril de 2012

Elevar o debate político

Desde que Manuel Meirinho veio, no ano passado, para cabeça de lista do PSD às eleições antecipadas que a vida política local não tinha uma notícia diferente. Podia dizer: uma boa notícia; mas não há notícias boas nem más, há notícias (o que, da maneira como as coisas estão, já é bom). Não é que a Guarda tenha beneficiado, por aí além, da eleição do catedrático natural do Soito para deputado. A questão é que, fruto de uma degradação da vida política local – que não se percebe, pois não é por falta de gente, talvez seja por falta de vontades –, caía-se no risco de que os eleitores deste distrito ficassem na contingência de escolher, para primeiros representantes na Assembleia da República, entre um Carlos Peixoto e um José Albano. Entenda-se que nada tenho no plano pessoal contra nenhum. Nem contra nem a favor. Não são do meu relacionamento e, se eu fosse amigo deles, dir-lhes-ia olhos nos olhos o que penso, com a exigência e a franqueza que julgo devidas entre amigos. A minha análise é, pois, no plano político. E refere-se a situações, nunca a pessoas. Mas a verdade é que o resultado de três-um do PSD em relação ao PS – o mesmo PS que à última hora arregimentou Paulo Campos mas não evitou as faixas nos comícios com “força, Zé Albano!” nem a patética campanha autónoma centrada no ego do presidente da federação – não terá resultado de outra coisa que não de uma reacção dos eleitores a toda esta inacreditável exibição do princípio de Peter e da lei de Murphy. A notícia agora diferente é a de que alguém com o calibre profissional e político de António Fonseca Ferreira se disponibiliza para concorrer à federação da Guarda do PS. Mais uma vez digo: não será por falta de alternativas; será, de novo, por falta de vontades. Mas, vendo o processo a partir de fora, penso não faria nada bem à vida política local que num partido de poder as opções fossem José Albano ou ninguém. Se quisermos ser rigorosos na percepção dos motivos pelos quais a Guarda está como está, facilmente encontraremos na debilidade das lideranças partidárias – e na falta de credibilidade pública, porque a questão não se resume a conquistar os partidos – um dos principais, e dos piores. Fonseca Ferreira poderá nem levar a candidatura até ao fim ou poderá, levando-a, nem ganhar. Mas o simples facto de aparecer e ter vontade de avançar já é um factor de qualificação da vida partidária e de elevação do debate político na Guarda. É assim que eu vejo as coisas, enquanto cidadão às vezes envergonhado de ser representado por certo tipo de gente que nunca fez nada na vida ou a quem não se conhece uma ideia, um projecto, uma realização ou uma causa (e aqui poderei estar a fazer uma avaliação abrangente e transversal). Digo mais: dê no que der, a disponibilidade manifestada por Fonseca Ferreira deve é ser aproveitada pela Guarda. Afinal, se desde 1997 todos os partidos têm feito programas eleitorais para o concelho baseados no Plano Estratégico da Guarda, não há melhor do que ir chamar quem o escreveu, para assim explicar o que quis dizer e demonstrar como é que se lá chega. Que é o que tem faltado.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]


Foto: De um dos muitos comunicados à imprensa, sobre os feitos do líder, enviados pelo PS da Guarda, neste caso quando deixou a Assembleia da República (tinha sido eleito em 2009), para se nomear director do Centro Distrital de Segurança Social, em 2010. Uma manifestação «espontânea» e «de surpresa», que meteu almoçarada, aguardou-o em Celorico da Beira, onde «o distrito» lhe agradeceu o regresso.

12 de janeiro de 2012

O imaginário conspirativo

Pronto: não há nada como um tema que ninguém percebe, mas sobre o qual toda a gente opina, para criar o efeito de folga nas costas – neste caso enquanto o pau vem. De repente, a raiz dos nossos males passou a estar no facto de altas esferas da sociedade pertencerem, supostamente, a sociedades secretas. Embora tais organizações até tenham presença institucional na Internet e os líderes – presentes e passados – dêem entrevistas e prestem esclarecimentos nessa qualidade. No imaginário conspirativo de uma opinião pública que, por herança história ou razão genética, ainda é nas trevas que se sente confortável, temos aqui um labirinto subterrâneo, infindável, que – olha a sorte! – nos distrai do que acontece à superfície. E eis que regressa (por alguma coisa dizem que a História é como um pêndulo) uma compulsão inquisitória que quando existiu no passado o que nos deixou foi mais pobres. Assim como noutros tempos chamar «judeu» a alguém era a pior das ofensas, e mais na idade contemporânea era insulto dizer «comuna» ou «facho» (conforme as tendências), agora parece que recuámos cem anos: «Tu és maçom!» é um clamor de que os antigos ainda se lembram. Muito usado no período entre revoluções, da primeira República para a segunda. O que veio a seguir foi uma ditadura de meio século, durante a qual todo o funcionário ou representante público, além de apresentar um atestado de bom comportamento moral passado pelo pároco, tinha de se prover de declaração de repúdio ao Partido Comunista ou a outras formas de subversão. Que estranha semelhança, para não dizer perigosa semelhança, com o que agora se está a sugerir. E que ironia que sejam pessoas como Mota Amaral ou o Cardeal de Lisboa a declarar tal ideia como disparate. Mas por que não entrou o regime no mesmo turbilhão, por exemplo, quando em 1998 o primeiro-ministro socialista Guterres empatou a lei da despenalização do aborto (foi preciso esperar nove anos) por manifesta obediência à consciência católica? Ou quando, no auge do processo Casa Pia e no dia da detenção de um deputado do PS, em 2003, todo o topo do Estado achou melhor não cancelar a ida à final da taça UEFA, em Sevilha, que classificou como «trabalho político»? Isto só para citar duas organizações, a religião e o futebol, que têm manifesta influência sobre este país – às vezes, até, uma influência lesiva. Mas nestes casos, de facto, estamos a falar de rituais que a maioria da população pratica. E sempre é mais fácil sublevarmo-nos contra aquilo que não entendemos.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

11 de janeiro de 2012

O corrimão do lixo

Há coisas que não se entendem, mas pode ser que alguém se digne explicá-las e demonstre que têm uma razão de ser. As taxas de recolha e tratamento de lixo sofreram, na Guarda, um aumento brutal. O valor que o cidadão paga, de maneira coerciva, na factura dos Serviços Municipalizados, vai supostamente para as empresas que fazem a recolha do lixo e a limpeza urbana. Empresas que, com frequência, declaram ter em atraso por parte da intermediária a autarquia o pagamento desse serviço. Um atraso que se existir por parte do cidadão poderá levar a juros de mora ou ao corte do fornecimento de água. Mas neste quadro alguém se lembrou de enfeitar contentores de lixo com delimitadores metálicos. Já se vêem, um pouco por toda a cidade. Alguma parte (a Câmara, as juntas de freguesia ou a empresa que cobra um serviço à Câmara) terá entendido que podia desbaratar o que pagamos em taxas de recolha de lixo num tipo de inutilidade bricoleira. Aquilo não serve para nada. Podia ser a cereja no cimo do bolo, se a cidade estivesse arranjada, ordenada, regenerada e reabilitada e ainda sobrasse dinheiro. Mas está longe de ser este o caso. O único facto visível é que custa dinheiro. O que leva às conclusões que cada cada qual quiser tirar.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

6 de janeiro de 2012

Uma causa comum

O futuro da Maternidade da Guarda deixou de ser, pelo menos, tema tabu ou matéria reservada aos ínvios caminhos das magistraturas de influência. Afinal, existe um problema. E falar dele não é tão contraproducente como às vezes pintavam (como se chamar a atenção para as coisas fosse a raiz dos fracassos).
Já ouvimos demasiadas explicações, em todos os ciclos de poder da última década ou década e meia, sobre a calma que era preciso manter enquanto as forças vivas se mexiam nos corredores do poder e tentavam defender-nos com discrição.
O resultado foi, nas mais das vezes, terem-nos passado ao lado estratégias, decisões e investimentos – que outros aproveitaram. Tudo isto com o silêncio e o desinteresse da comunidade, que é tão mau, senão pior, como a falta de liderança.
Ao lançar, ela própria, uma campanha em defesa da Maternidade, fazendo questão de alertar que o que está em causa é mesmo a continuidade do serviço, a Unidade Local de Saúde da Guarda toma uma decisão aparentemente sensata em vários planos.
Desde logo porque assume que existe um problema, que poderá significar a perda de uma valência cujo fim arrastaria muita da importância da Guarda na área da saúde.
Depois, porque enfrenta esse problema e com isso envolve todos aqueles que têm que sentir que a questão lhes diz respeito, a começar pelos profissionais de saúde. E também porque, assumindo-se parte reivindicativa, a unidade de saúde já não pode vista como estando outro lado da barricada.
Por fim, o mais importante: dá o exemplo e passa a ter voz para exigir tanto ou mais empenho das forças vivas e da sociedade em geral.

A fragilidade destas causas, que deviam ser colectivas, consiste normalmente num lavar de mãos: os políticos que decidam e os técnicos que cumpram, concordem ou não.
Agora parece que não será assim. E a menos que o entusiasmo esmoreça teremos pela primeira vez condições para nos unirmos à volta de algo.
Oxalá que, a partir do exemplo da Maternidade, surja uma saudável competição, a ver quem mais faz e o quê.
Porque a Maternidade é só um detalhe – mesmo sendo o detalhe primordial.
Para haver nascimentos na Guarda, é preciso haver quem nasça – e quem encontre na Guarda razões para ficar e decidir fazer nascer.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

5 de janeiro de 2012

Empobrecer por falta de exigência

Afinal, a moralização do programa «Novas Oportunidades», que tanto deu que falar na campanha eleitoral, tem como resultado o fecho do único centro que na Guarda dava algumas garantias de exigência, na medida em que era gerido por uma escola secundária, a Afonso de Albuquerque, e tinha como público-alvo aqueles alunos que não conseguiram, na devida altura, concluir o nono ano ou terminar disciplinas do décimo segundo. No fundo, a escola seguia o espírito da educação para adultos, muito diferente do esquema que concede, em escassos meses, uma certificação que para todos os efeitos equivale à habilitação mas nem sempre obedece a padrões de rigor. Basta conhecer minimamente algumas das instituições envolvidas.
Criticou-se – e bem – o aumento da qualificação por via estatística, conseguido à custa da emissão de diplomas de valor discutível. Questionou-se – e bem – a idoneidade de algumas entidades que certificam os conhecimentos. Mas eis que na Guarda a sacrificada é aquela que procurava conciliar modelos, programas e requisitos.
Há muitas maneiras de atingir o empobrecimento para o qual nos dizem que devemos estar preparados. A falta de exigência é uma delas. E mais grave que a falta de dinheiro.

[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

4 de janeiro de 2012

Persistência para realizar o impossível

Uma pessoa a certa altura também se farta de ser tomada como tonta ou extravagante só por fazer as tais perguntas que não lembram ao diabo. Ontem fizemos mais uma: como é que a Guarda está a posicionar-se para acolher eventual investimento chinês? Fomos recebidos, de novo, com aquele sorriso complacente dos que acham que insistimos em fingir que vivemos noutro mundo.
A questão é que nós insistimos em viver aqui e alimentamos continuamente esta quimera que é fazer com que o Mundo seja… aqui!
Por isso, repetimos hoje diante de todos a pergunta: por que é que a Guarda não há-de estar já a mexer-se, para atrair uma parte do estímulo à indústria e à economia nacional prometido pela multinacional chinesa que comprou a posição maioritária da EDP?
Um dos investimentos garantidos será uma fábrica de aerogeradores, vocacionada para o mercado europeu, que passará a representar qualquer coisa como 500 milhões de euros anuais nas exportações portuguesas.
Se o que não falta na região da Guarda é espaço, nem acessibilidades directas e eficientes por via rodoviária e ferroviária ao resto da Europa, por que não havemos de ambicionar este investimento, tal como ambicionámos – ainda se lembram? – várias fábricas de componentes para torres eólicas do consórcio Iberdrola/Gamesa (um projecto de 2006, fracassado)? Tal como podíamos ter ambicionado a área comercial que a IKEA desistiu de localizar em Gaia (em vez de termos achado a ideia irrealista). Tal como podíamos ter ambicionado o centro de dados da PT, em vez de termos sido apanhados de calças na mão, sem nunca termos sequer manifestado interesse num investimento que acabou por se localizar na Covilhã (por ser uma cidade… alta e fria!). Tal como podíamos ter ambicionado outro destino, que não o vazio, para antiga Delphi.
Há duas características que a mentalidade chinesa valoriza: a ousadia e o pragmatismo.
Com certeza que são muitas, neste momento, as cidades que se posicionam para receber investimento. Mas na Guarda acham graça a que façamos a pergunta. O que é revelador de algo muito preocupante: não se sentem capazes de imaginar tal hipótese; e nem sequer fazem ideia de como é que ela poderia ser desenvolvida.
Esta é a realidade. Triste mas autêntica.
Teremos de nos adaptar a ela, e pensar todos por ela? Não. Prefiro que sigamos um provérbio chinês: «A persistência realiza o impossível».
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

29 de março de 2010

Cinquenta anos depois

O segundo maior projecto de aproveitamento hidroagrícola do país teve início há pelo menos cinquenta anos. Recordo a figura bonacheirona do engenheiro Courinha, nos meus tempos iniciáticos no Jornal do Fundão (há mais de duas décadas): ele era o operacional, compartilhado entre a exaltação e a resignação, de uma obra que se percebia vital para o desenvolvimento da região mas que não desencalhava. José Lopes Courinha passava muito tempo no JF, porque tempo era o que lhe sobrava numa estratégia que só estava pronta no papel mas não saltava para o terreno. Falava daquilo com paixão. Mais do que o futuro, era a sobrevivência. Percebi melhor o que estava em causa quando o meu avô paterno anteviu como inútil o esforço que despendera na abertura de canais de irrigação a partir da ribeira e dos três poços da quinta: a água não tardaria a minguar. E minguou, assim que a moda dos furos sem regras anulou recursos. Os meus avós morreram, como tantos outros, à espera do regadio. O meu pai, que se dedicava especialmente ao trato do olival, dizia que aquele seria o lugar perfeito… quando lhe repusessem a água furtada aos poços talhados no xisto. No outro dia passei a manhã, com o meu irmão, a negociar com a Direcção-Geral da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. O bloco de rega da Capinha, que integra a última fase do Regadio da Cova da Beira, atravessa-nos a quinta nos Enxames. Leva-nos sete oliveiras e 35 pinheiros. Mas deixa-nos três saídas de água para a nossa propriedade de oito hectares. Água proveniente da barragem do Sabugal. Agora sim, vai ser o lugar perfeito. Quando já não estão vivas as pessoas que o construíram nem as que ainda lá idealizaram um futuro sustentável. Quando já só vivem cinco famílias (de idade avançada) em todo o vale. Quando a paisagem é de abandono. O Regadio chegou na terceira geração: aquela que fez menos e que provavelmente vai ser assediada pelos espanhóis para celebrar um grande negócio, como nos vaticinava um fundador da associação de regantes. É o que estão a fazer outros herdeiros das margens do regadio. Terra e água: uma combinação de rendimento acessível. Que as gerações anteriores construíram com suor e lágrimas. Mas mais vale tarde que nunca: pelo menos neste caso as gerações seguintes não vivem longe, assumem-se gratas depositárias do legado e gostam de passar por ali em busca de um interregno de paz nesta voragem dos dias. Quando calha na companhia de um parente que resiste nas vizinhanças e nos recebe, afectuoso, com aquilo que a terra dá: pão caseiro, queijo queimoso e vinho de uva. Momentos breves que apetece perpetuar num breve sempre. Que bom que é ter um lugar nosso para encontrar o silêncio e recuperar forças para enfrentar o ruído. Um lugar assim: que parece parado no tempo e distante do mundo.

12 de março de 2010

Cidade Rádio (reescrito)

O tango de Francisco Canaro é um adeus sentido às planícies de terra amarela da Argentina. A melodia sentida faz lembrar o nosso fado, o que tem lógica: é provável que ambos os géneros encontrem raízes na tradição celta, supondo-se que os escravos africanos a tenham transportado para lá do Atlântico, de onde regressou à Europa já na primeira metade do século XX como novidade dançável e sensual. «Adiós, Pampa Mia» é de 1946 e também trina o começo de uma aventura que percorrerá o sonho e a esperança. É, apesar de tudo, menos fatalista do que o fado cantado. Talvez esse tenha sido o motivo: a opção pela confiança no lugar do desalento; da ousadia em vez do desengano. A 29 de Julho de 1949 foi este poema de "Pirincho" Canaro com arranjo de Mariano Mores que rodou num vinil de 78 rotações editado pela londrina «The Parlophone» pela primeira vez, oficialmente, na Rádio Altitude. Assim o testemunha a velha placa exposta, juntamente com o disco original, no «Átrio da Memória» da Casa da Rádio. Estudos respeitáveis de Hélder Sequeira, anterior director, mestre em História e Museologia (com tese dedicada, precisamente, à história da Rádio Altitude, que constitui o único documento credível do género) e agora empenhado Provedor do Ouvinte (uma figura inédita na rádio em Portugal, instituída sem obrigação legal, no pressuposto assumido de que cometemos muitos erros mas tentamos não cair no pior de todos, que é nunca reconhecê-los nem corrigi-los), concluíram que as emissões regulares desta Rádio começaram um ano antes, e que mesmo em 1946 a rádio já existia e transmitia, datando de 21 de Outubro de 1947 o primeiro regulamento interno, assinado pelo então director do Sanatório, Ladislau Patrício. A Rádio Altitude é, pois, uma sexagenária e muito respeitável Senhora, com espírito jovem e arejado – tentando sempre surpreender com novas causas, novas abordagens e novos intervenientes. A mais exaltante característica do recente mas intenso percurso da actual Equipa tem sido, precisamente, a constante reinvenção. E os sinais de aceitação, retorno e credibilidade – que surgem continuamente e consolidam a Rádio Altitude como órgão de comunicação social de referência e um dos poucos oásis no deserto da informação que se produz no interior do país – robustecem a nossa responsabilidade e desafiam incessantemente a nossa imaginação. Temos um notável grupo de trabalho. Contamos, a montante, com a confiança exigente e com a solidariedade atenta de uma estrutura empresarial, que assume um compromisso social e afectivo para com a Guarda, numa área que, se fosse vista como mero negócio, não teria viabilidade. Amigos e colegas formam uma Equipa que se destaca pelo profissionalismo e pela vontade de alcançar os objectivos que em conjunto nos propomos. Acrescente-se o inestimável contributo de um grupo de mais de quarenta cronistas, comentadores e autores ou colaboradores de programas temáticos. Alguns também com um lugar merecido na história da rádio em Portugal, como o «Escape Livre», em emissão desde 1973. Poder contar com a participação de tantos cidadãos – de diferentes sensibilidades profissionais, etárias, sociais, cívicas e políticas – é uma distinção para a rádio; cruzar quotidianamente tão plurais pontos de vista acerca das nossas coisas e das nossas causas é um legado para a cidade e para a região. Vivemos aqui um desusado ambiente de auto-estima, é verdade – umas vezes a raiar a hipérbole e outras (tantas, tantas…) a provocar invídia e, por isso, a fazer-nos aturar, não raras vezes, afrontas e desrespeitos. Mas não importa: soubemos erguer uma herança desacreditada e essa é a resposta que temos, e teremos sempre, para dar. Só não desejamos fazer ainda uma rádio perfeita – apenas cumprimos uma aventura na qual sabemos que a etapa actual tem que ser melhor do que a anterior e obrigatoriamente pior do que a seguinte. Tem sido assim, temporada após temporada. Porque também não queremos conformar-nos com a rádio realizável. Nem com a cidade possível. Afinal de contas, a vida não é a feijões. Pelo menos para alguns dos que escolheram cá viver e trabalhar. Entre os quais está esta pequena mas enorme Equipa da Rádio Altitude – a mais antiga estação de radiodifusão local em Portugal, um património que deve ser motivo de orgulho para toda a Região. Hoje apeteceu-me recordar aqui os princípios que o actual grupo de trabalho abraçou há seis anos, pelo menos. Um grupo que integra algumas das (raras?) pessoas que não querem desistir da Guarda. Nos bons como nos maus momentos, como é próprio dos afectos verdadeiros e vividos com intensidade. Há seis anos: uma longevidade inédita de engrandecimento e afirmação, numa história que também já foi feita de consulsões de sobressaltos. É por isso que, no final de cada jornada, quando vamos à nossa vida restante e ao reencontro dos nossos (outros?) afectos primoridiais, deixamos sempre o lugar onde trabalhamos com um sussurro: «Fica bonita, Rádio!». Porque a Rádio Altitude é uma paixão.
(Foto: João Neves)

10 de dezembro de 2009

Há dez anos

Revista «Visão», 18 de Novembro de 1999.
Edição especial dedicada a Macau, a um mês da Cerimónia de Transferência de Poderes.

Macau, 1999 - Há dez anos (Cerimónia de Transferência de Poderes)


Extracto da emissão da RTP 1 a partir das 15h57, hora de Lisboa (23h57 em Macau), em 19 de Dezembro de 1999. Momento do arriar das bandeiras Nacional de Portugal e do Leal Senado de Macau e do hastear das bandeiras Nacional da República Popular da China e da Região Administrativa Especial de Macau. O sinal de televisão, livre e limpo (clean feed), foi continuamente transmitido por satélite para todo o mundo e utilizado por centenas de estações (68 das quais deslocaram equipas para o acompanhamento a partir de Macau), tendo para isso sido criado um Host Broadcaster (atribuído à RTP e à TDM em consórcio) que recolheu, realizou e difundiu as imagens em directo das cerimónias. A Televisão Nacional Central da China (CCTV) organizou, por acordo entre os dois países e em paralelo (e nalgumas situações em complementaridade), idêntica operação. Origem deste vídeo: Youtube/Helder de Brito Dias

Macau, 1999 - Há dez anos (Cerimónia de Despedida do Palácio da Praia Grande)


Extracto da emissão da RTP 1 a partir das 9h00, hora de Lisboa (17h00 em Macau), em 19 de Dezembro de 1999. Momento do arriar da Bandeira Nacional de Portugal no Palácio da Praia Grande, sede do Governo do Território. Origem deste vídeo: Youtube/Helder de Brito Dias

Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum XII: O mais importante dos legados)



Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum XI: Primeiras horas da Administração Chinesa)





Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum X: Últimas horas da Administração Portuguesa)





Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum IX: Arriar da Bandeira no Palácio da Praia Grande)


Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum VIII: Cerimónia de Transferência de Poderes)







Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum VII: Cerimónia de Transferência de Poderes)















Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum VI: Cápsula do Tempo)





«Cápsula do Tempo
Cinco séculos – é muito tempo? Cinquenta anos – são muitos anos?
Uma Cerimónia de Transferência de Poderes, no final de 1999, anunciou junto a este local uma nova etapa da História de Macau. Portugal administrou o Território durante 442 anos, e a República Popular da China, conforme acordado com a República Portuguesa, instituiu, ao reassumir o exercício da soberania, a Região Administrativa Especial de Macau, com autonomia e modo de vida próprio por 50 anos.
Um dia antes da data histórica foram depositados nesta cápsula do tempo os documentos mais significativos da última fase do período de Transição.
O encerramento da cápsula foi testemunhado por Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, e pelo Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira.
Este espaço é uma mensagem para o futuro, para aqueles que, no dia 19 de Dezembro de 2049, queiram retirar ensinamentos do seu conteúdo.
Macau, 18 de Dezembro de 1999»
(Texto gravado numa lápide descerrada diante da Cápsula do Tempo)

Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum V: Ensaios da Cerimónia de Transferência)