Jogo de Sombras
As sombras não existiriam se não se fizesse luz
12 de Janeiro de 2012
O imaginário conspirativo
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]
11 de Janeiro de 2012
O corrimão do lixo
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]
6 de Janeiro de 2012
Uma causa comum
Já ouvimos demasiadas explicações, em todos os ciclos de poder da última década ou década e meia, sobre a calma que era preciso manter enquanto as forças vivas se mexiam nos corredores do poder e tentavam defender-nos com discrição.
O resultado foi, nas mais das vezes, terem-nos passado ao lado estratégias, decisões e investimentos – que outros aproveitaram. Tudo isto com o silêncio e o desinteresse da comunidade, que é tão mau, senão pior, como a falta de liderança.
Ao lançar, ela própria, uma campanha em defesa da Maternidade, fazendo questão de alertar que o que está em causa é mesmo a continuidade do serviço, a Unidade Local de Saúde da Guarda toma uma decisão aparentemente sensata em vários planos.
Desde logo porque assume que existe um problema, que poderá significar a perda de uma valência cujo fim arrastaria muita da importância da Guarda na área da saúde.
Depois, porque enfrenta esse problema e com isso envolve todos aqueles que têm que sentir que a questão lhes diz respeito, a começar pelos profissionais de saúde. E também porque, assumindo-se parte reivindicativa, a unidade de saúde já não pode vista como estando outro lado da barricada.
Por fim, o mais importante: dá o exemplo e passa a ter voz para exigir tanto ou mais empenho das forças vivas e da sociedade em geral.
A fragilidade destas causas, que deviam ser colectivas, consiste normalmente num lavar de mãos: os políticos que decidam e os técnicos que cumpram, concordem ou não.
Agora parece que não será assim. E a menos que o entusiasmo esmoreça teremos pela primeira vez condições para nos unirmos à volta de algo.
Oxalá que, a partir do exemplo da Maternidade, surja uma saudável competição, a ver quem mais faz e o quê.
Porque a Maternidade é só um detalhe – mesmo sendo o detalhe primordial.
Para haver nascimentos na Guarda, é preciso haver quem nasça – e quem encontre na Guarda razões para ficar e decidir fazer nascer.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]
5 de Janeiro de 2012
Empobrecer por falta de exigência
Criticou-se – e bem – o aumento da qualificação por via estatística, conseguido à custa da emissão de diplomas de valor discutível. Questionou-se – e bem – a idoneidade de algumas entidades que certificam os conhecimentos. Mas eis que na Guarda a sacrificada é aquela que procurava conciliar modelos, programas e requisitos.
Há muitas maneiras de atingir o empobrecimento para o qual nos dizem que devemos estar preparados. A falta de exigência é uma delas. E mais grave que a falta de dinheiro.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]
4 de Janeiro de 2012
Persistência para realizar o impossível
A questão é que nós insistimos em viver aqui e alimentamos continuamente esta quimera que é fazer com que o Mundo seja… aqui!
Por isso, repetimos hoje diante de todos a pergunta: por que é que a Guarda não há-de estar já a mexer-se, para atrair uma parte do estímulo à indústria e à economia nacional prometido pela multinacional chinesa que comprou a posição maioritária da EDP?
Um dos investimentos garantidos será uma fábrica de aerogeradores, vocacionada para o mercado europeu, que passará a representar qualquer coisa como 500 milhões de euros anuais nas exportações portuguesas.
Se o que não falta na região da Guarda é espaço, nem acessibilidades directas e eficientes por via rodoviária e ferroviária ao resto da Europa, por que não havemos de ambicionar este investimento, tal como ambicionámos – ainda se lembram? – várias fábricas de componentes para torres eólicas do consórcio Iberdrola/Gamesa (um projecto de 2006, fracassado)? Tal como podíamos ter ambicionado a área comercial que a IKEA desistiu de localizar em Gaia (em vez de termos achado a ideia irrealista). Tal como podíamos ter ambicionado o centro de dados da PT, em vez de termos sido apanhados de calças na mão, sem nunca termos sequer manifestado interesse num investimento que acabou por se localizar na Covilhã (por ser uma cidade… alta e fria!). Tal como podíamos ter ambicionado outro destino, que não o vazio, para antiga Delphi.
Há duas características que a mentalidade chinesa valoriza: a ousadia e o pragmatismo.
Com certeza que são muitas, neste momento, as cidades que se posicionam para receber investimento. Mas na Guarda acham graça a que façamos a pergunta. O que é revelador de algo muito preocupante: não se sentem capazes de imaginar tal hipótese; e nem sequer fazem ideia de como é que ela poderia ser desenvolvida.
Esta é a realidade. Triste mas autêntica.
Teremos que nos adaptar a ela, e pensar todos por ela? Não. Prefiro que sigamos um provérbio chinês: «A persistência realiza o impossível».
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]
3 de Janeiro de 2012
Três previsões
A primeira: nem Júlio Sarmento, nem Manuel Rodrigues nem Ana Manso serão candidatos à Câmara da Guarda pelo PSD. Cito estes porque são os que o próprio Júlio Sarmento considerou, considerando-se, os melhores. Compreendo, aliás, agora perfeitamente por que é que o disse (e da maneira que o disse).
A segunda: o PSD estará tão interessado conquistar a Câmara da Guarda em 2013 como o esteve na maior parte das vezes, ou seja, pouco ou nada.
A terceira: a solução para as próximas autárquicas há-de ser muito semelhante – na forma, no método e na escolha do perfil – à que foi seguida... em 1985.
As nomeações nem sempre são feitas para pagar favores. Há algumas que funcionam como pagamento especial por conta.
17 de Novembro de 2010
29 de Março de 2010
Cinquenta anos depois
O segundo maior projecto de aproveitamento hidroagrícola do país teve início há pelo menos cinquenta anos. Recordo a figura bonacheirona do engenheiro Courinha, nos meus tempos iniciáticos no Jornal do Fundão (há mais de duas décadas): ele era o operacional, compartilhado entre a exaltação e a resignação, de uma obra que se percebia vital para o desenvolvimento da região mas que não desencalhava. José Lopes Courinha passava muito tempo no JF, porque tempo era o que lhe sobrava numa estratégia que só estava pronta no papel mas não saltava para o terreno. Falava daquilo com paixão. Mais do que o futuro, era a sobrevivência. Percebi melhor o que estava em causa quando o meu avô paterno anteviu como inútil o esforço que despendera na abertura de canais de irrigação a partir da ribeira e dos três poços da quinta: a água não tardaria a minguar. E minguou, assim que a moda dos furos sem regras anulou recursos. Os meus avós morreram, como tantos outros, à espera do regadio. O meu pai, que se dedicava especialmente ao trato do olival, dizia que aquele seria o lugar perfeito… quando lhe repusessem a água furtada aos poços talhados no xisto. No outro dia passei a manhã, com o meu irmão, a negociar com a Direcção-Geral da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. O bloco de rega da Capinha, que integra a última fase do Regadio da Cova da Beira, atravessa-nos a quinta nos Enxames. Leva-nos sete oliveiras e 35 pinheiros. Mas deixa-nos três saídas de água para a nossa propriedade de oito hectares. Água proveniente da barragem do Sabugal. Agora sim, vai ser o lugar perfeito. Quando já não estão vivas as pessoas que o construíram nem as que ainda lá idealizaram um futuro sustentável. Quando já só vivem cinco famílias (de idade avançada) em todo o vale. Quando a paisagem é de abandono. O Regadio chegou na terceira geração: aquela que fez menos e que provavelmente vai ser assediada pelos espanhóis para celebrar um grande negócio, como nos vaticinava um fundador da associação de regantes. É o que estão a fazer outros herdeiros das margens do regadio. Terra e água: uma combinação de rendimento acessível. Que as gerações anteriores construíram com suor e lágrimas. Mas mais vale tarde que nunca: pelo menos neste caso as gerações seguintes não vivem longe, assumem-se gratas depositárias do legado e gostam de passar por ali em busca de um interregno de paz nesta voragem dos dias. Quando calha na companhia de um parente que resiste nas vizinhanças e nos recebe, afectuoso, com aquilo que a terra dá: pão caseiro, queijo queimoso e vinho de uva. Momentos breves que apetece perpetuar num breve sempre. Que bom que é ter um lugar nosso para encontrar o silêncio e recuperar forças para enfrentar o ruído. Um lugar assim: que parece parado no tempo e distante do mundo.
12 de Março de 2010
Cidade Rádio (reescrito)
O tango de Francisco Canaro é um adeus sentido às planícies de terra amarela da Argentina. A melodia sentida faz lembrar o nosso fado, o que tem lógica: é provável que ambos os géneros encontrem raízes na tradição celta, supondo-se que os escravos africanos a tenham transportado para lá do Atlântico, de onde regressou à Europa já na primeira metade do século XX como novidade dançável e sensual. «Adiós, Pampa Mia» é de 1946 e também trina o começo de uma aventura que percorrerá o sonho e a esperança. É, apesar de tudo, menos fatalista do que o fado cantado. Talvez esse tenha sido o motivo: a opção pela confiança no lugar do desalento; da ousadia em vez do desengano. A 29 de Julho de 1949 foi este poema de "Pirincho" Canaro com arranjo de Mariano Mores que rodou num vinil de 78 rotações editado pela londrina «The Parlophone» pela primeira vez, oficialmente, na Rádio Altitude. Assim o testemunha a velha placa exposta, juntamente com o disco original, no «Átrio da Memória» da Casa da Rádio. Estudos respeitáveis de Hélder Sequeira, anterior director, mestre em História e Museologia (com tese dedicada, precisamente, à história da Rádio Altitude, que constitui o único documento credível do género) e agora empenhado Provedor do Ouvinte (uma figura inédita na rádio em Portugal, instituída sem obrigação legal, no pressuposto assumido de que cometemos muitos erros mas tentamos não cair no pior de todos, que é nunca reconhecê-los nem corrigi-los), concluíram que as emissões regulares desta Rádio começaram um ano antes, e que mesmo em 1946 a rádio já existia e transmitia, datando de 21 de Outubro de 1947 o primeiro regulamento interno, assinado pelo então director do Sanatório, Ladislau Patrício. A Rádio Altitude é, pois, uma sexagenária e muito respeitável Senhora, com espírito jovem e arejado – tentando sempre surpreender com novas causas, novas abordagens e novos intervenientes. A mais exaltante característica do recente mas intenso percurso da actual Equipa tem sido, precisamente, a constante reinvenção. E os sinais de aceitação, retorno e credibilidade – que surgem continuamente e consolidam a Rádio Altitude como órgão de comunicação social de referência e um dos poucos oásis no deserto da informação que se produz no interior do país – robustecem a nossa responsabilidade e desafiam incessantemente a nossa imaginação. Temos um notável grupo de trabalho. Contamos, a montante, com a confiança exigente e com a solidariedade atenta de uma estrutura empresarial, que assume um compromisso social e afectivo para com a Guarda, numa área que, se fosse vista como mero negócio, não teria viabilidade. Amigos e colegas formam uma Equipa que se destaca pelo profissionalismo e pela vontade de alcançar os objectivos que em conjunto nos propomos. Acrescente-se o inestimável contributo de um grupo de mais de quarenta cronistas, comentadores e autores ou colaboradores de programas temáticos. Alguns também com um lugar merecido na história da rádio em Portugal, como o «Escape Livre», em emissão desde 1973. Poder contar com a participação de tantos cidadãos – de diferentes sensibilidades profissionais, etárias, sociais, cívicas e políticas – é uma distinção para a rádio; cruzar quotidianamente tão plurais pontos de vista acerca das nossas coisas e das nossas causas é um legado para a cidade e para a região. Vivemos aqui um desusado ambiente de auto-estima, é verdade – umas vezes a raiar a hipérbole e outras (tantas, tantas…) a provocar invídia e, por isso, a fazer-nos aturar, não raras vezes, afrontas e desrespeitos. Mas não importa: soubemos erguer uma herança desacreditada e essa é a resposta que temos, e teremos sempre, para dar. Só não desejamos fazer ainda uma rádio perfeita – apenas cumprimos uma aventura na qual sabemos que a etapa actual tem que ser melhor do que a anterior e obrigatoriamente pior do que a seguinte. Tem sido assim, temporada após temporada. Porque também não queremos conformar-nos com a rádio realizável. Nem com a cidade possível. Afinal de contas, a vida não é a feijões. Pelo menos para alguns dos que escolheram cá viver e trabalhar. Entre os quais está esta pequena mas enorme Equipa da Rádio Altitude – a mais antiga estação de radiodifusão local em Portugal, um património que deve ser motivo de orgulho para toda a Região. Hoje apeteceu-me recordar aqui os princípios que o actual grupo de trabalho abraçou há seis anos, pelo menos. Um grupo que integra algumas das (raras?) pessoas que não querem desistir da Guarda. Nos bons como nos maus momentos, como é próprio dos afectos verdadeiros e vividos com intensidade. Há seis anos: uma longevidade inédita de engrandecimento e afirmação, numa história que também já foi feita de consulsões de sobressaltos. É por isso que, no final de cada jornada, quando vamos à nossa vida restante e ao reencontro dos nossos (outros?) afectos primoridiais, deixamos sempre o lugar onde trabalhamos com um sussurro: «Fica bonita, Rádio!». Porque a Rádio Altitude é uma paixão. 10 de Dezembro de 2009
Há dez anos
Edição especial dedicada a Macau, a um mês da Cerimónia de Transferência de Poderes.
Macau, 1999 - Há dez anos (Cerimónia de Transferência de Poderes)
Extracto da emissão da RTP 1 a partir das 15h57, hora de Lisboa (23h57 em Macau), em 19 de Dezembro de 1999. Momento do arriar das bandeiras Nacional de Portugal e do Leal Senado de Macau e do hastear das bandeiras Nacional da República Popular da China e da Região Administrativa Especial de Macau. O sinal de televisão, livre e limpo (clean feed), foi continuamente transmitido por satélite para todo o mundo e utilizado por centenas de estações (68 das quais deslocaram equipas para o acompanhamento a partir de Macau), tendo para isso sido criado um Host Broadcaster (atribuído à RTP e à TDM em consórcio) que recolheu, realizou e difundiu as imagens em directo das cerimónias. A Televisão Nacional Central da China (CCTV) organizou, por acordo entre os dois países e em paralelo (e nalgumas situações em complementaridade), idêntica operação. Origem deste vídeo: Youtube/Helder de Brito Dias
Macau, 1999 - Há dez anos (Cerimónia de Despedida do Palácio da Praia Grande)
Extracto da emissão da RTP 1 a partir das 9h00, hora de Lisboa (17h00 em Macau), em 19 de Dezembro de 1999. Momento do arriar da Bandeira Nacional de Portugal no Palácio da Praia Grande, sede do Governo do Território. Origem deste vídeo: Youtube/Helder de Brito Dias
Macau, 1999 - Há dez anos (Álbum VI: Cápsula do Tempo)




Cinco séculos – é muito tempo? Cinquenta anos – são muitos anos?
Uma Cerimónia de Transferência de Poderes, no final de 1999, anunciou junto a este local uma nova etapa da História de Macau. Portugal administrou o Território durante 442 anos, e a República Popular da China, conforme acordado com a República Portuguesa, instituiu, ao reassumir o exercício da soberania, a Região Administrativa Especial de Macau, com autonomia e modo de vida próprio por 50 anos.
Um dia antes da data histórica foram depositados nesta cápsula do tempo os documentos mais significativos da última fase do período de Transição.
O encerramento da cápsula foi testemunhado por Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, e pelo Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira.
Este espaço é uma mensagem para o futuro, para aqueles que, no dia 19 de Dezembro de 2049, queiram retirar ensinamentos do seu conteúdo.
Macau, 18 de Dezembro de 1999»

























































