10 de fevereiro de 1998

10 Fev 1998: O Titanic no Côa

Estas coisas apreciam-se melhor do lado de fora. Em meados de Outubro do ano passado, quando um acidente aparatoso (mais um) na curva do Alvendre ceifava por junto a vida de seis pessoas, a televisão central da China dava conta do caso em oito ou nove segundos de imagens distribuídas pelas agências internacionais. Precisamente naquele dia regressava de uma curta estadia na Guarda e um amigo que entende a língua dava-me assim conta da novidade: “falaram da tua terra em Pequim”.
O mais curioso desta história não é o facto de os acidentes no IP5 serem noticiados a mais de vinte mil quilómetros. O conceito da “aldeia global” já não é mera imagem literária. O mundo encolheu, de facto. E, infelizmente, a sucessão de desastres aparatosos já transformou esta via-rápida num referenciável caminho de morte.
Espantoso é isto: para explicar onde fica Kua Ehr Da (forma romanizada dos três caracteres chineses que compõem o nome da portuguesa cidade da Guarda em mandarim, segundo glossário oficial), a televisão chinesa situou o local da notícia nas proximidades de um importante acervo paleolítico recentemente descoberto nas margens do Rio Douro.
Não vale a pena entrarmos em preciosismos de distâncias, porque a referência foi feita à escala natural da gigantesca cidade de Pequim, onde há avenidas com quarenta quilómetros e mais.
O que este episódio reflecte é uma realidade na qual todos devíamos ter motivo de orgulho, não fosse o caminho que as coisas estão a levar. As descobertas no Vale do Côa e a decisão de suspender as obras da barragem lançaram Portugal num ciclo genuíno de notoriedade e prestígio. Bem mais, por pouco evidente que isso se torne agora, do que um evento como a Expo98, o qual, apesar de grandioso, não passará de um arraial de armar e desarmar e o mais que deixa antever para o dia seguinte é uma incómoda dor de costas na apanha das canas.
O Côa, pelo contrário, é um santuário único, reclamado desde a insipiência pela comunidade científica internacional. As maiores cadeias mundiais de televisão debatiam o tema em prime-time, enquanto por cá víamos o assunto reduzido à expressão de papelinho de arremesso entre comissões políticas. Mesmo assim, honra lhes seja. Não fora o calendário eleitoral e passaríamos todos por anjinhos. No fundo, e salvo honrosas excepções, a nova maioria teria tanta vontade de se molhar nas águas do Côa como a velha.
Situar a Guarda, numa notícia, nas proximidades do Douro é sintomático. Não fosse esta nova realidade e que referências serviriam para identificar a cidade nos antípodas? É a mais alta? Só o é na nossa medida. Está na Serra da Estrela? Quem se lembra dela, para lá dos Pirinéus, a não ser pelo queijo? Tem lá uns figurões bem colocados com queda para a asneira? Qual é a terra que os não tem?
Por tudo isto, a existência de um parque arqueológico de tamanha importância, aliada à riqueza natural e ao legado histórico da região, devia motivar uma inversão de coordenadas. Para uma grande fatia dos visitantes da Expo98 –­­ a que provém de Espanha por via terrestre – Lisboa é que é distante, não o contrário. O distrito da Guarda será uma nunca projectada Porta Nascente da exposição mundial e das únicas a permanecer abertas depois de Setembro.
Uma reputada consultora internacional nesta área, a Deloitte & Touche, concluiu, num estudo realizado há cerca de um ano para o ICEP, que a animação turística em Portugal é praticamente inexistente, por más infra-estruturas, falta de parques temáticos e escassa dinamização das reservas naturais. No entanto, considera que há espaço para algum optimismo, enunciando dois grandes projectos neste segmento: o Oceanário da Expo98 e o complexo do Vale do Côa.
No caso que nos diz - ou devia dizer - directamente respeito, a consultora atende a uma série de factores envolventes que podem funcionar como meio de dinamização e diversificação do produto turístico: a bacia do Douro, a Serra da Estrela, os núcleos históricos, o espaço rural, a localização fronteiriça e os já razoáveis acessos. Estes são os ingredientes. A receita consiste em pegar neles e trabalhar de forma a aumentar o número e a despesa média dos visitantes, compensar a natureza sazonal de algumas actividades e investir na melhoria constante do produto e dos serviços. Mas nada disto parece ocupar em demasia as forças vivas da região. A três meses da abertura da Expo98 anda tudo entretido em capelinhas.
O Programa para o Desenvolvimento Integrado do Vale do Côa, megalómano ou não, tinha rasgo. Numa das suas vertentes mais arrojadas – o Plano Estratégico do Parque Arqueológico – era anunciado um investimento de mais de três milhões de contos num museu do Paleolítico na Canada da Inferno, com o rio a correr ao fundo; num museu de arte moderna; num teleférico para ligar o complexo; num restaurante junto ao rio, com ancoradouro; com o aumento real e diversificado da oferta hoteleira; e até se pensava num túnel para desviar o curso do Côa, permitindo deixar à vista outras gravuras. E isto era só uma parte do plano global, que previa investir a prazo 25 milhões de contos na região também na criação de um parque temático, no reaproveitamento do complexo da barragem até onde fora construído e na recuperação de centros rurais e aldeias históricas. Com o essencial a funcionar, evidentemente, a tempo do previsível fluxo de 150 mil pessoas durante a Expo98. E num horizonte de conclusão a apontar para 1999.
Muita fruta? Talvez. Dois anos e três coordenadores depois (um dos quais disse que saía por estar “farto de esperar”) veio a secretária de Estado do Desenvolvimento Regional declarar que o Parque Arqueológico só deverá funcionar em 2004 e que foram dadas “expectativas pouco fundamentadas” às pessoas, estando os projectos a ser revistos. E ao último Expresso, o presidente da Câmara de Foz Côa diz que há uma total frustração, resumindo mundos e fundos num “bluff”.
Um outro lado incómodo desta história é que grande parte dos projectos foi anunciada ou confirmada, com toda a pompa, diante do Rei de Espanha e de Frederico Mayor, director-geral da UNESCO, quando estiveram no Vale do Côa, há oito meses. Os espanhóis devem estar fartos de rir. E a nossa sorte é que nenhuma gravura que se possa relacionar com aquele que é considerado o maior conjunto paleolítico ao ar livre foi, até ver, descoberta para lá da fronteira. No dia em que isso sucedesse deixaríamos de ouvir falar no Côa e rapidamente o mundo passaria a conhecer os prodígios realizados en el Duero. E de pouco nos havia de valer o nacionalismo bacoco com que andámos a reagir à “invasão” da Expo98 pelos castelhanos.
Nisto tudo, ao menos, a Adega Cooperativa de Foz Côa é que a soube toda. Rotulou os tintos e brancos de “Paleolítico”, “Arte do Côa”, “Gravuras do Côa” e “Vale Sagrado” e passou a facturar milhões.
Quanto ao mais, oxalá não se torne profética aquela sentença, já não me lembro de quem, no auge da polémica, que via na submersão das gravuras a melhor forma de as proteger.
O encanto do Titanic também começou no naufrágio.
«Terras da Beira»