29 de novembro de 2001

29 Nov 2001: Serviço de urgência

Um cidadão vai com o filho de dois anos e meio à urgência geral do Hospital Sousa Martins, num sábado de manhã, depois de goradas outras tentativas: o pediatra habitual mora em Viseu mas nesse fim-de-semana está ausente daquela cidade, não se prevendo que venha à Guarda, como faz duas vezes por semana, atender no consultório particular onde tem uma extensa lista de utentes, formada durante e após a fugaz e traumatizante passagem pelo serviço de pediatria do hospital; e os conhecimentos do costume, possíveis num meio onde ainda prevalecem as relações de proximidade, estão incontactáveis. Mas como os sintomas surgidos durante a noite mal dormida apontam para uma provável inflamação dos ouvidos, padecimento banal nesta época e naquela idade, o risco de um diagnóstico ligeiro numa urgência não especializada acaba por afigurar-se menor. Mas é sábado – e desaguam ali todos os aflitos que nos dias de expediente tiram a senha nos centros de saúde. A criança espera mais de uma hora e desespera: chora porque quer ficar na rua; chora porque quer ir para casa; chora porque tem medo. O átrio exterior das urgências é uma sombria junção de correntes de ar (uma originalidade numa obra terminada há três anos), nada própria para quem é suposto vir curar-se de dores de ouvidos. As salas de espera estão cheias – e nas poucas cadeiras vagas amontoam-se sobretudos e cachecóis, despidos para enfrentar um calor artificial sufocante. Finalmente chamam-na. Mas ela resiste e faz uma birra colossal. A médica de serviço, mal a vê entrar, deita as mãos à cabeça e clama: «se isto vai ser o meu dia, eu dou em doida!». É declarada a impossibilidade tácita de auscultar as vias respiratórias ou tirar a febre. Apenas os ouvidos serão observados, e à força de quatro mãos, confirmando o diagnóstico: uma otite, nada de mais. O receituário é o trivial (mas eficaz) e a médica, ainda a recuperar dos pontapés, vira-se para o pequeno paciente e pergunta-lhe: «com o teu pediatra também és assim?». Ao pai apetece-lhe responder que «é tudo uma questão de talento, senhora doutora» mas contém-se e despede-se delicadamente. Afinal, ela é a menos culpada por estar à hora errada no lugar errado. E o grau de habilidade para lidar com crianças quando se está de banco às urgências gerais não é decisivo na avaliação das competências de um clínico.O que este episódio revela é a total ausência de sensibilidade daquele hospital para enfrentar uma das suas carências mais graves. Durante a semana, o problema é minorado pelo funcionamento do Serviço de Atendimento Permanente, precisamente no espaço destinado à extinta urgência pediátrica. O Centro de Saúde, responsável pelo serviço, além de nunca ter actualizado a sinalética, tomou ponderadamente como prioritária a assistência à saúde infantil, através de um atendimento metódico e, em certas horas, mais vocacionado para as crianças. Mas nem por ver este exemplo o «senhorio» trata de assegurar padrões semelhantes para os fins-de-semana. E também não se resolve a salvaguardar, junto dos hospitais da Covilhã e de Viseu, que qualquer utente da Guarda possa dirigir-se às urgências pediátricas sem lhe ser exigida a triagem prévia no Sousa Martins.A gente ouve falar os responsáveis do hospital e tudo corre, pela boca deles, no melhor dos mundos. Ao ponto de já ter sido proclamada a «pacificação» do serviço de pediatria, como se nunca mais houvesse legitimidade para falar do problema. Vê-se agora que tipo de paz lá reina: as duas especialistas que entraram este ano são transportadas de Viana do Castelo e da Póvoa do Varzim em carro com motorista; é-lhes supostamente permitido cumprir todo o horário semanal num período consecutivo de dois dias e meio, para voltarem cedo a casa; e ninguém lhes tira a áurea de «salvadoras da Pátria», mesmo sendo médicas em começo de carreira e à procura de um vínculo definitivo. E isto, como é óbvio, traz indignada a generalidade da restante classe médica, ao ponto de um já considerável número de clínicos se ter declarado «moralmente desobrigados do dever de solidariedade» [ver reportagem nas páginas 2 e 3] e ameaçado recorrer aos tribunais. É no que dão as soluções de gato escondido com o rabo de fora, decididas sob pressão da opinião pública e em confrangedora cedência ao pensamento politicamente correcto.E assim se explica, em boa parte, que uma médica de serviço às urgências num sábado de manhã veja entrar uma criança chorosa e entre em incomodativo descontrolo. Pois não a levam a casa em carro com motorista. Nem lhe permitem cumprir todo o horário em dois dias e meio de trabalho semanal. Nem a trazem nas palminhas das mãos. Mas é ela que leva os pontapés e aguenta as birras. E é ela que, no fim, se sujeita a que um pai menos complacente ainda a mande àquela parte.
«Terras da Beira»

22 de novembro de 2001

22 Nov 2001: Duplicação de intenções

A Plataforma Logística de Iniciativa Empresarial é talvez o primeiro projecto lançado na Guarda onde se pode pressentir um horizonte estratégico programado. Em vez de um mero loteamento industrial, aquilo que a Câmara pretende implantar na zona da Gata é um parque de serviços, indústria, logística e tecnologia, suficientemente afastado da cidade para não se ver constrangido, em poucos anos, pelo crescimento da malha urbana e, sobretudo, bem localizado à beira de auto-estradas e de linhas ferroviárias. Com estas condições únicas, não só os maiores grupos empresariais da Guarda se mostraram interessados em constituir-se parceiros como houve uma companhia ibérica de distribuição, por sinal das maiores, que disse já ter encontrado ali a infra-estrutura ideal para um entreposto regional e transfronteiriço. Cumpre-se, assim, uma vocação repetidamente proclamada mas nunca levada à prática: a da Guarda como placa giratória de excepção entre os chamados «eixos estruturantes» actuais ou projectados. Essa aptidão esteve sempre na génese da nossa existência como cidade de fronteira estrategicamente localizada mas foi sucessivamente descomposta a favor de outras – na saúde, no ensino e nos serviços, por exemplo. A maioria das vezes por culpa de uma incapacidade reinante para projectar, agregar, reivindicar.É neste contexto que a ideia da Plataforma Logística surge como uma luz ao fundo do túnel, devolvendo estatuto, importância e utilidade. E não é menos relevante que o projecto, tendo os parceiros que a autarquia diz já ter, confirme um papel de charneira na complementaridade de meios e serviços entre ambos os lados da linha de fronteira (assumida também no recente convénio entre os municípios da Guarda, de Ciudad Rodrigo e de Salamanca), própria de um espaço comunitário dinâmico e global e em clara oposição à paisagem de capelinhas que nos fomos habituando a percorrer. Mas – há sempre um mas – eis que surge o projecto do novo aeroporto da Covilhã, apresentado publicamente anteontem. A ampliação da pista em trezentos metros já traz de substancial a possibilidade do reinício dos voos regulares tanto para território nacional como para o estrangeiro. Mas o mais interessante é o plano que lhe surge associado: terminal de mercadorias, unidades hoteleiras, ligação à auto-estrada, parque empresarial, parceria com a universidade, fomento do comércio internacional e desenvolvimento turístico. Em duas palavras: plataforma logística. Com as associações industriais e comerciais envolvidas de raiz e já a reivindicar a uma só voz, com a autarquia, a rápida materialização da auto-estrada entre a Covilhã e Coimbra (o programado IC6) e a modernização da linha da Beira Baixa, como vias fundamentais (de par com o IP2) para a autonomização do novo complexo e a sua rápida ligação a toda a parte. E com o presidente da Câmara a assegurar que existe «disponibilidade da administração central para apoiar um plano grandioso». A mesma administração que investiu no hospital e na faculdade de medicina, só para citar os «planos grandiosos» mais recentes.Como é costume, a Guarda foi apanhada de surpresa. E os responsáveis pela plataforma logística, quando confrontados com isto, revelam saber tanto sobre o projecto deles como eles acerca do nosso. Ou seja: nada. Apesar da curta distância entre ambos, prestes a ficar reduzida a uns escassos trinta quilómetros de auto-estrada, está à vista que não houve um mínimo de diálogo nem de coordenação para jogar na complementaridade e evitar a duplicação de intenções. A experiência ensina-nos para que lado costuma pender a decisão, quando ambas as cidades mostram expectativas de tipo semelhante. O responsável da Câmara da Guarda pela plataforma logística mostra-se despreocupado e defende que a natureza e a localização da obra projectada a tornam estrategicamente prioritária, sem medo da competição. Oxalá. Mas se a intenção é ter o novo parque empresarial a operar em pleno dentro de dois anos (como foi anunciado em Junho último), também já vai sendo altura de ter algo mais concreto para mostrar (e, porque não, para exibir com o mesmo espavento usado anteontem na Covilhã). Antes que os parceiros troquem de par.
«Terras da Beira»

20 de novembro de 2001

20 Set 2001: Sete rotundas à cintura

Regresso ao cabo de três semanas de férias e encontro a cidade remexida, em torno de uma mão-cheia de novas rotundas, naquilo que vai ser, finalmente, a via de cintura à Guarda. Já nem vale a pena repetir que esta foi uma obra iniciada pelo avesso: a segunda fase, que agora se conclui, devia ter sido a primeira. Uma ligação de quatro faixas entre o acesso ao IP5 e a estrada para Castelo Branco – desviando todo o tráfego que não tem alternativa a atravessar a cidade – há anos que era urgente, mesmo que mais nenhuma tivesse sido construída. Mas decidiram começar o edifício pelo telhado, terminando primeiro o troço entre a Dorna e o Bairro dos Remédios, cuja conveniência se viu bem qual foi: pouca ou nenhuma. E continuará a sê-lo durante mais uns anos, até que a nova ligação ao IP5 pelo Zambito e pelo Alvendre fique pronta, completando a verdadeira estrada de circunvalação à Guarda.Mas mais do que este aparente desacerto na ordem das prioridades, o que espanta na obra agora meio desvendada é que todo o tempo de espera entre a primeira fase e a segunda não tenha sido aproveitado para corrigir erros de concepção que, se não eram perceptíveis há dez anos, já hoje o são de forma flagrante. As sete (sim: sete!) rotundas entre o Torrão e o Rio Diz poderão fornecer um campo vastíssimo de expressão artística, permitindo até escrever o nome da Guarda com todas as letras. Mas dentro de poucas semanas veremos tratar-se de um erro grosseiro de planeamento – qualquer uma delas podia ter sido substituída, de raiz, por passagens desniveladas, como seria recomendável numa via que, dentro de poucos anos, dará acesso a duas auto-estradas. E o pior é que nestas novas rotundas contam-se dois cruzamentos de má memória: o da Escola de São Miguel e o do Rio Diz. Não houve engenho para fazer túneis nem viadutos – vai tudo circular à roda do canteiro, sem estar, sequer, garantida a abertura em simultâneo de pontes para peões nem de sinalização luminosa.Chamam a isto Via de Cintura Externa mas uma prova de bom senso e agilidade mental seria rebaptizarem-na, já na inauguração, de Via de Cintura Interna ou VICIG. E anunciar, com rasgo estratégico, que a verdadeira VICEG está a ser aberta, a bom ritmo, quilómetros adiante. Porque dentro de poucos anos o melhor caminho entre o centro da cidade e a Estação será pela rotunda dos Galegos até ao nó do IP2 e daí por auto-estrada até ao nó de Pinhel, seguindo depois pela avenida de São Miguel. Apostamos já hoje a que será mais rápido?
«Terras da Beira»

15 de novembro de 2001

15 Nov 2001: Desportiva a troco de quê?

A hipótese de a Desportiva da Guarda dar lugar a uma sociedade anónima entusiasmou muito as hostes, ao ponto quase ninguém se ter questionado acerca do essencial: como é que se transforma um clube daqueles numa «empresa de sucesso»? Este caminho já tinha sido avançado, internamente, mais do que uma vez, desde que a fórmula empresarial das sociedades anónimas desportivas começou a fazer moda na generalidade das agremiações futebolísticas. Mas sempre que tal possibilidade veio a lume causou sorrisos: afinal, como podia alguém pensar fazer um negócio rentável a partir de uma colectividade desacreditada, sem património, endividada e dependente de subsídios?O empresário da Covilhã que se propõe «levar a carta a Garcia» diz ser possível negociar o passivo, equilibrar as contas, devolver o prestígio ao clube e catapultar a equipa de futebol para os campeonatos nacionais. Isto se obtiver o acordo e a parceria das «forças vivas» da cidade. E essas, a avaliar pelas reacções imediatas, assinam de cruz. Só a actual comissão administrativa manifestou reservas, mais pela forma – não gostou de saber da proposta pela imprensa, sem antes ter sido contactada pelo latente investidor – do que pela substância. Na essência, velhos e novos dirigentes estão de acordo: é preciso um D. Sebastião que venha salvar isto.E na ânsia de uma solução airosa que não fizesse perder a face a nenhuma das partes, ninguém se interrogou acerca do essencial: o que quererá este mecenas em troca? É fácil imaginar que à Desportiva ainda sobrem franjas residuais de proveito, desde a nebulosa titularidade de uma concessão de abastecimento de combustíveis à nunca revogada condição de fiel depositária do Estádio Municipal na sua globalidade, passando por orlas de terreno negociável no perímetro do próprio estádio ou nas imediações (como o cobiçado espaço das antigas piscinas, por exemplo). Difícil será admitir que um grupo económico com uma tal dimensão e tantos interesses cruzados se disponha a jogar a feijões, sem nada em vista.Esta atitude é diferente daquela que a generalidade das «forças vivas» locais já teve em relação à Desportiva? Não o é, infelizmente. Aquilo que se tenta a todo o custo fazer perdurar como património de afectos serviu também para tirocinar candidatos à Câmara, reabilitar imagens e encobrir negócios de duvidosa natureza, entre muitas outras situações. Todos se serviram dela, em uniões de conveniência, e largaram-na quando deixou de interessar.Agora abre-se ao capital «estrangeiro», na linha do interesse que o mesmo grupo tem manifestado em investir na Guarda. Fala-se em hotéis, centros comerciais, salas de cinema, campos de golfe e condomínios fechados. Isto tanto pode ser visto na lógica de uma OPA desavergonhada, cedendo a interesses estranhos à terra, como na do perspicaz aproveitamento pelos de fora de potencialidades que a Guarda tem mas não sabe explorar por si própria. É à escolha.Seja como for, também não pode ser afastada a hipótese de tudo ficar em águas de bacalhau – seja porque o preço a pagar é demasiado caro na óptica dos interesses da cidade (sobretudo se partir do pressuposto do comércio imobiliário como «moeda de troca») face àquilo que a Desportiva realmente vale; seja pela incapacidade de decisão que começa a tornar-se proverbial. Ainda não há muito tempo, os planos do mesmo empresário para a Quinta da Maúnça eram publicamente louvados por concretizarem a aposta de um grande grupo no futuro da Guarda. Assim o proclamava a Câmara, para justificar o negócio de privilégio que consistia na entrega de quase todo o espaço ao grupo da Covilhã, por módicos 120 mil contos, para desenvolver o tal projecto turístico e comercial. Viu-se no que deu. Aquilo que parecia uma decisão politicamente assumida para o bem e para o mal tornou-se num processo de «estudos profundos» e «discussão alargada». Ou seja: empatar para não resolver. E permitir que qualquer D. Sebastião de trazer por casa nos vá deixando de levar a sério.
«Terras da Beira»

13 de novembro de 2001

13 Set 2001: Se houver dia seguinte

Nenhuma ficção, nenhuma super-produção, nenhuma saga arrebatadora com bombistas ou com extraterrestres conseguiu jamais, na infinita série de fitas do género, chegar tão longe como o filme real que nos surpreendeu à hora do almoço de anteontem. Escrevo precisamente neste dia, com um vago sentimento de que poderá ter sido o primeiro do resto dos dias. Alguém, minuciosamente, acaba de atingir letalmente um conjunto de órgãos vitais do país que se diz polícia do Mundo e que reclama as virtualidades do Big Brother em nome da segurança planetária. Mais do que o maior assassínio em massa alguma vez cometido fora de um cenário de guerra, os atentados contra alvos alegóricos dos poderes político, económico e militar dos EUA ferem principalmente a honra de um país que, pelos vistos, de tão entretido que andava com a «Guerra das Estrelas», descurou as batalhas em terra firme. E só por respeito às vítimas se deve evitar dizer o óbvio: que esta tragédia cobriu de ridículo algo que se tinha por infalível sistema de segurança e espionagem. Ou pelo menos aquilo que os filmes da especialidade nos andaram a impingir. O pior é que o sequestro de uns quantos aviões, o ataque cirúrgico às torres gémeas de Nova Iorque (fazendo-as desaparecer para sempre da paisagem), a brecha aberta no «impenetrável» pentágono, a brincadeira de crianças que se revelou ser um ataque com carro armadilhado a um edifício de alta segurança e tudo o mais que se teme que esteja para vir [cinjo-me àquilo que é actualidade ao fim da tarde de Terça-feira, quando escrevo esta crónica] não fazem parte de nenhum quarto episódio do Die Hard. É, infelizmente, uma série da vida real. A que também se vai assistir, durante dias e dias, num sofá diante da televisão. Mas nunca, qualquer que seja o lugar do mundo de onde se observe, com uma postura de desprendimento ou com legítimo sentimento de segurança. Porque o pior de tudo, nesta história, não é a falta de heróis – é a ausência do vilão. Os suspeitos do costume foram, um a um, céleres na condenação do acto. Resta [restava, escassas horas depois dos atentados] Bin Laden, que já havia prometido uma «acção em grande escala» contra os EUA. Será, do mal, o menos: se houver uma reacção «dente por dente», antes seja sumariamente contra um inimigo com rosto e contra quem o apoia do que contra um país ou, simplesmente, contra um povo sem terra – sobretudo sabendo-se qual é a predisposição do actual poder norte-americano para com a questão palestiniana – ou contra um culpado externo designado à pressa. Não é difícil odiar visceralmente quem fez aquilo e desejar uma vingança implacável já no dia seguinte. Difícil é determinar o curso dos «jogos de guerra» que se adivinha já terem começado. E saber por quanto tempo isso não comprometerá o dia seguinte.
«Terras da Beira»

8 de novembro de 2001

8 Nov 2001: A promessa que nunca o foi

O distrito da Guarda subiu da décima sétima para a décima sexta posição no ranking dos investimentos da Administração Central, ou seja, passou de penúltimo a antepenúltimo contemplado na relação dos dinheiros que o Orçamento de Estado destina a obras concretas a realizar durante o próximo ano. Tanto bastou para que as vozes da situação viessem proclamar a magnanimidade da proposta do Governo, cumprindo o papel que lhes compete. Mesmo quando este acaba por ser, no eixo «clássico» da interioridade, um dos distritos mais penalizados: em números redondos Bragança recebe mais seis milhões de contos que a Guarda; Castelo Branco mais dez milhões; Portalegre menos um milhão; Évora mais oito milhões; e Beja mais 17 milhões. E note-se que, com a excepção de Castelo Branco, qualquer dos outros distritos tem menos população residente que o nosso, sendo esse à partida o critério em que assenta a repartição do «bolo».Ainda assim, os 19 milhões e oitocentos mil que nos estão destinados representam um valor de investimento per capita na ordem dos 110 contos. Sempre há distritos onde o preço foi calculado mais por baixo: Aveiro, Braga, Coimbra, Leiria, Santarém, Vila Real e Viseu ficaram-se por valores entre 60 e 90 contos, por exemplo. Cada uma das nossas cabeças tem, portanto, uma importância maior para o Governo, o que repõe algum equilíbrio perante a constante desproporção entre regiões ricas e regiões pobres. E como há investimentos a correr fora do PIDDAC que totalizam quase outro tanto (no que se incluem as duas auto-estradas), sempre é possível reconhecer que não estamos a ser completamente açoitados. Os dirigentes locais do PS vieram esta semana vangloriar-se disso, fazendo contas de 50 milhões a tudo quanto o Estado investirá ou dará às autarquias para investir no próximo ano. É deixá-los, visto que não estão inteiramente fora da razão.O problema é que falta lá qualquer coisa. Falta, concretamente, um hospital novo para a Guarda. Não é que alguém acreditasse que algum dia esta obra pudesse aparecer feita. Sejamos razoáveis de uma vez por todas: parece óbvio que quem já inaugurou as unidades que estão à vista na Covilhã e em Viseu – ambas abertas pelos governos do PS – considere, muito friamente, que criar algo semelhante a meio do caminho seria estar a desbaratar recursos.Mas quem foi que criou a ilusão do contrário? Foi o mesmíssimo PS, que deixou a presidente da Câmara da Guarda alimentar (de boa fé, não duvido) um tabu, fazendo depender da promessa de um hospital novo a sua própria recandidatura. O mesmíssimo partido que lhe mandou o ministro da Saúde, no limite do «prazo», a anunciar para o próximo ano o arranque da remodelação dos pavilhões existentes e a construção de alguns novos (tudo quanto estava no papel desde 1998 com mais uns acertos), entendidos no conjunto como um novo hospital, capaz de corresponder às exigências como qualquer hospital novo. O mesmíssimo Governo que afinal dá o dito por não dito, reservando para o Hospital da Guarda, na proposta do próximo Orçamento de Estado, 300 mil contos para projectos e outros 300 mil para a continuação dos remendos que por lá têm vindo a ser feitos.Pode o deputado Carlos Santos ter-se apressado a requerer explicações ao ministro, mal o partido percebeu que a coisa iria tornar-se patente. Podem agora vir tentar explicar que as contas estão certas e que os 600 mil contos são a prestação destinada ao arranque da grande obra. Podem até dizer que a absoluta ausência de alusão à «conquista» de um hospital para a Guarda, no discurso de apresentação da candidatura do PS à Câmara, foi modéstia e não constrangimento (ou peso na consciência). A verdade é nua e crua: não há hospital para ninguém. Como já quase toda a gente tinha percebido.A conclusão a tirar é a de que a promessa nunca o foi e toda esta história nunca passou de um logro. Esperava-se era que fosse disfarçado com mais classe. E espera-se que quem se meteu nela saiba agora tirar as devidas consequências.
«Terras da Beira»

6 de novembro de 2001

6 Set 2001: Portugal do coração

Confesso: esta semana desfiz uma curiosidade antiga e comprei pelo menos quatro revistas dessas que presumivelmente se enquadram num género editorial emergente mas plenamente consolidado, o da «sociedade». Quando se está de ventre para o ar, na quietação de uma praia, cria-se de facto uma apetência específica para este tipo de leituras. Além disso, também é esta a época do ano em que a relação entre o preço de capa e o número de páginas das ditas publicações se apresenta mais favorável na óptica do consumidor. Enquanto os jornais e as revistas de informação geral se debatem com uma silly season que se prolonga Setembro adentro, tendo que reduzir nas páginas ou disfarçando o espaço remanescente com anúncios de si próprios, qualquer Caras, Nova Gente, Lux ou Vip enche a barriguinha durante o Verão, vivendo nestes meses a temporada áurea das «reportagens» sobre o diário dos famosos.Mas quem são, afinal, os nossos famosos? A primeira impressão que sobressai a um novo utilizador é que houve uma espécie de «erro de casting». Uma pessoa imagina este género de imprensa à luz das congéneres de Espanha ou da Grã-Bretanha, onde existe uma forte tradição no ramo mas também uma matéria-prima natural, assente nas realezas. Em Portugal, quando tudo começou, também eram os duques e os condes – embora sem ducados nem condados – os únicos que tinham acesso à selecta galeria de retratos da pioneira Olá!. Os plebeus só muito mais tarde conquistariam o mesmo direito, na base de pelo menos uma de duas premissas: nome ou fortuna. Os Mello, os Espírito Santo, os Ribeiro da Cunha e outros da mesma linhagem foram povoando este imaginário, ainda que precedidos de Pituxa, Xaxão ou Kiki. E ficávamo-nos por aqui.Hoje não. A gente folheia qualquer uma das quatro revistas que mencionei (as únicas que recolhi de um extenso escaparate de títulos, na presunção de que seriam uma boa amostra e na resistência a desbaratar mais do que um conto de réis no devaneio) e a primeira surpresa que tem é que a chamada «alta sociedade» está literalmente arredada das publicações que lhe são dedicadas. Será por pudor? Por recusar misturas? Por viver um quotidiano desinteressante? Eis aqui um enigma. Tão grande como a razão que leva a que Margarida Marante seja uma das capas, acompanhada pelas filhas e a conceder revelações tão importantes como aquela de que o marido é um líder carismático.Que Paulo Portas se deixe fotografar numa noite de copos com a namorada de Santana Lopes, a tal Cinha, ainda vá – resulta numa subtileza bem disposta. Que aquele tipo a quem Bárbara Guimarães teria enfiado o chapéu verde (expressão chinesa para marido enganado) venha reconstituir as primeiras vinte e quatro horas após o casamento em Punta Cana, também se admite – o Expresso, que é o Expresso, já se tinha dedicado de coração e alma ao assunto. Agora o que me choca é ver um Carlos do Carmo ou um Luís Represas naqueles propósitos: a expor as famílias e a debitar futilidades. E se uma publicação, destas ou das outras, vasculhasse a vida de tais personagens e lhes pusesse à vista as aflições e os fracassos, no pressuposto do mesmo direito à informação? Aí, provavelmente, agiriam como virgens arrependidas, bramindo contra a invasão da privacidade. No entanto, ei-las nas revistas do coração, na versão «autorizada» da história das suas vidas. Ao lado, por exemplo, da reportagem sobre o novo amor de Cristina Caras Lindas, a tal que agora é escritora e já toma balanço para um segundo romance, visto o sucesso do primeiro. Vai competir, nos tops, com a literatura de umas tais Maria João Lopo de Carvalho, Margarida Rebelo Pinto, Luísa Castelo Branco e Mafalda Belmonte. Dá vontade de rir – mas o assunto é sério. Tal como as revistas do coração lideram as vendas da imprensa, estes livros com histórias do género «quando o amante é o marido da melhor amiga» também estão no topo da procura. É como se este país tivesse adormecido ao som das ondas, no remanso do areal, numa tarde de Verão. Agora tenta acordar mas não consegue.
«Terras da Beira»

1 de novembro de 2001

1 Nov 2001: Lirismo e realidade

Fernando Pessoa voltou aos discursos. Desde a época áurea do nascimento do Instituto Politécnico que a «Mensagem» não era lida em público. Havia nesse tempo um insigne orador que a citava muito, nas prédicas que reservava para as ocasiões mais solenes, embora também recorresse a Camões, a Torga, a Gedeão, a Agostinho. Cada dissertação era um cântico ao saber, um hino à erudição, uma ode ao arrojo.Vá lá entender-se a coincidência, Maria do Carmo Borges abriu o discurso da apresentação da sua candidatura declamando igualmente «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce». É um belo excerto. Mas dito daquela forma soa mais a invocação do santo nome em vão do que a outra coisa. Pelos vistos, a presidente da Câmara também já entrou na fase de classificar a sua própria obra como o advento de um traço divino que só ela terá logrado decifrar e aplicar no terreno. É um clássico, talvez inspirado pelo enorme estaleiro em que a cidade se transformou. Mas oxalá Deus nos tenha em melhor conta do que isso.É claro que a política é, acima de tudo, a arte do possível. Começa-se por se exigir tudo e acaba-se por aceitar (considerando-o, se necessário, uma vitória) o que estiver ao alcance. Neste cenário, ninguém retirará a Maria do Carmo Borges a legitimidade para fazer o discurso que fez, independentemente das tiradas líricas. Enumerando a obra feita, a obra em curso e obra projectada, o mais fácil foi concluir que tudo corre no melhor dos mundos. Já Roma e Pavia não se fizeram num dia – também a Guarda não se fez em quatro anos.Daí que o vencedor destas eleições, quem quer que seja, vá também a conquistar antecipadamente a vitória nas seguintes, tal é o volume de empreendimentos (IP2, IP5, Polis, Viceg, nova estação ferroviária, Plataforma Logística, Sala de Espectáculos, Biblioteca, etc, etc) já lançados e que terão consumação plena nos anos que se seguem. E dos quais, naturalmente, tirará devido proveito quem estiver à frente da autarquia nos próximos mandato, mesmo que, no caso de a presidência mudar de rosto em Dezembro, se trate de uma herança.Estaria tudo muito bem, não fosse a sensação que isto nos provoca: a de não estarmos senão a recuperar do atraso de décadas no que diz respeito às infra-estruturas, às acessibilidades e ao ordenamento, atingindo finalmente um ponto de normalidade em relação a pólos urbanos semelhantes. Mesmo que tenha sido mera consequência da conjuntura, a verdade que ocorreu principalmente sob o mandato de Maria do Carmo. Mas o enigma essencial continua por resolver: qual é, afinal, a utilidade que nos atribuem no mapa? Ser-se pobre e excepcional pode ter as suas vantagens. Mas pobre e normal é mais difícil. Não basta fazer alarido em torno do «reforço da posição estratégica da Guarda» e outros slogans de circunstância, venham eles inscritos nas Grandes Opções do Plano ou não. É preciso perceber (se é que alguém o sabe explicar) que significado prático poderá isso ter numa cidade que tem permitido, nos últimos quinze anos, a saída de quase tudo – instituições, serviços, importância.Porque há uma pergunta que ninguém viu respondida no Sábado: que adiantou ter vindo António José Seguro proclamar Maria do Carmo Borges como «autarca de referência» para os socialistas, se o PS está há mais tempo no Governo do que ela na presidência da Câmara e não foi, sequer, capaz de lhe garantir que a Guarda terá um hospital novo? Ou a omissão desta obra nos discursos de um e de outra – depois de tanto tabu – foi mero esquecimento?
«Terras da Beira»

25 de outubro de 2001

25 Out 2001: O poder local e os cidadãos

É uma das essências da vida política ou, pelo menos, do seu discurso. Prometer. Pressagiar. Traçar. Assegurar que a vontade move montanhas, transforma cidades, faz felizes as pessoas. Entregues as listas, as propostas voluntaristas vão começar a multiplicar-se. Em momento de recessão económica, as ilusões da vontade vão ter um excepcional mercado. Numa altura em que as dúvidas mundiais são de dimensão absolutamente desconhecida, as maiores certezas vão esgrimir-se em torno do nosso bairro, da nossa rua, da nossa ombreira. É isto que faz das autárquicas, apesar de tudo, uma clareira aprazível no clima de descrença generalizada em relação à política. Ouviremos, como é óbvio, juras quiméricas, promessas impossíveis, argumentos nulos, louvores duvidosos, manha infindável. Mas há algumas diferenças, apesar de tudo: estas são as eleições em que as escolhas dos cidadãos se afiguram mais razoáveis. Porque podem penalizar autoridades com nome próprio; seleccionar partidos, pessoas, gente que se vê; votar diversamente para uma assembleia ou para um órgão executivo; e recompensar ou castigar os seus representantes, sem estarem a renegar nada. As autárquicas são as eleições que nos oferecem a única pragmática possibilidade deste legítimo exercício: escolher. As que agora se aproximam, em concreto, trazem ainda outro registo positivo. Em mais de vinte e cinco anos de regime, nunca a umas eleições se tinha apresentado um tão elevado número de independentes. Não só surge uma nova geração em campo como há uma massa crítica que gradualmente tem vindo a dar o corpo ao manifesto. Isto abre, desde logo, possibilidades interessantes para o futuro do poder local. Mas, claro, não sejamos excessivamente fantasistas: nada garante que o fenómeno leve o municipalismo a depender cada vez menos da estética partidária e mais do perfil técnico dos intervenientes; nem que o clássico instrumento do caciquismo se transforme, do pé para a mão, no palco da plenitude democrática; e muito menos que a hostilidade urbanística, verdadeira imagem de marca do sector, ditada umas vezes pela incultura tácita e outras vezes sabe-se lá por que interesses obscuros, dê lugar, como que se de magia se tratasse, à sensibilidade paisagística e à harmonia planeada. A questão, obviamente, não se põe na simples troca de militantes partidários por independentes, como se isso resolvesse todos os problemas (ou como se uns fossem mais permeáveis à tentação do que os outros). Põe-se, tão só, na necessidade de abrir os destinos dos municípios a um espectro de participação cada vez mais amplo, correspondendo a uma tendência de vontades que tem vindo a emergir.Porque, tirando isso, o que é estas autárquicas nos podem trazer de verdadeiramente novo?
«Terras da Beira»

18 de outubro de 2001

18 Out 2001: As confissões da ex-ministra

As confissões da ex-ministra Manuela Arcanjo não deixou o lugar de ministra da Saúde assim há tanto tempo que não se lembre do que deixou por tratar. Então no que respeita ao hospital da Guarda, é improvável que tenha esquecido as arrelias que o problema da pediatria lhe causou, uma vez que foi ela quem apanhou, no curto mandato de menos de dois anos, o auge da contestação à falta de especialistas. Chegou mesmo a esperar-se que viesse em pessoa mandar resolver o mal pela raiz, com aquela têmpera que lhe serviu de marca. Mas a entrevista que deu ao «Público», no domingo passado, acabou por revelar muita coisa: não só o mau feitio era um máscara afivelada contra as mais íntimas fragilidades de quem, confessa-o agora, chegava a chorar com pena dos dirigentes sindicais a quem impunha, no tempo em que era secretária de Estado do Orçamento, tectos salariais irrisórios, como, pelos vistos, o conhecimento que tinha dos problemas que se viviam no Hospital Sousa Martins não era tão completo quanto se presumia. Há uma passagem da entrevista que é esclarecedora: «(...) pediatria na Guarda: tem três médicos e foi um esforço para os manter, enquanto Santa Maria dispõe de cem!». Dito desta forma, é a verdade pura e dura. O problema é que o pressuposto em que Manuela Arcanjo baseia uma tal constatação está errado. É altamente improvável que alguma vez tenha sido necessário fazer grande esforço para manter no hospital da Guarda os actuais pediatras. Por duas razões: dois deles jamais terão manifestado vontade de sair; e a terceira, admitida em Março deste ano (tal como a quarta, incorporada na semana passada), veio num contingente de início de carreira, sem outra alternativa. Houve, de facto, especialistas que bateram com a porta – nada menos que quatro, no espaço de dois anos – e os responsáveis do hospital não souberam segurá-los. Mas isso não ficou a dever-se à «desertificação», nem à «falta de incentivos para trabalhar das regiões do interior», nem a outras desculpas do mesmo género que a ex-ministra utiliza (e que já se revelaram recorrentes no discurso do sucessor) para justificar, de modo sumário, as críticas à política de incremento desregrado de novas unidades hospitalares. A prová-lo está o facto de todos os pediatras que saíram terem permanecido por aqui mesmo – em Viseu ou na Covilhã –, mantendo concorridíssimos consultórios privados na Guarda, onde atendem até de madrugada. Portanto, o motivo há-de ter sido algo menos prosaico. Terá tudo a ver com procedimentos dentro do hospital – ontem na pediatria como hoje noutras valências [ver notícia na página 4 desta edição]. Nunca ninguém teve foi a coragem de o denunciar em voz alta. Nem mesmo o esquecido Movimento P’la Criança, que chegou a dar nas vistas mas depois, à primeira oportunidade para interpelar um ministro de carne e osso no próprio «local do crime», optou por ficar a banhos, legitimando suspeitas sobre o carácter ad-hoc da organização e a sua subsequente inutilidade. E Arcanjo, de quem se pensava que de tudo sabia e que iria chegar um dia aqui, de espada justiceira em punho, para decepar os poderzinhos instalados neste hospital, afinal não sabia de nada. Mas será que alguém quer saber?
«Terras da Beira»

18 Out 2001: Má língua

Outro alfobre
Para provarem que o microclima de Pinhel consegue fazer medrar alfobres tão bons ou melhores que os da Guarda, os socialistas da cidade-falcão conseguiram a proeza de ter três candidatos em três semanas. António Cavalheiro compareceu em primeiro lugar, mas um certo carácter dinástico da lista que quis apresentar inviabilizou a recandidatura – as autarquias são órgãos republicanos, não se cedem à família por dote. A verdade, porém, é que o «tabu» demorou tempo demais. E acabou por deixar o PS local à beira de um ataque de nervos. Posta de parte, num primeiro momento, a hipótese de ser Vítor Silva a avançar, foi-se à lista de precedências e tirou-se Armando Reis, dirigente distrital. Honra lhe seja: sabia que um dos cenários prováveis era a sua própria imolação política mas não virou o nome à luta, na falta de acordo entre os da terra. Fez ver a muito boa gente. E, como disse o porta-voz da concelhia socialista, Francisco Monteiro, «todas as notícias dadas ontem [terça-feira] foram correctíssimas», ou seja, o director do Centro de Emprego de Pinhel ia mesmo avançar. Mas a noite, essa boa conselheira, pôs de novo as peças todas em cima do tabuleiro. E Vítor Silva é o homem que se segue, com uma lista aparentemente livre, lá nos lugares do topo, da proverbial e arriscada «imprevisibilidade» dos independentes. E com estes avanços e recuos chega-se à véspera da data limite para a apresentação das listas a todos os órgãos autárquicos. Adivinha-se que o PS ainda vá ter mais umas noites sem descanso. E Pinhel transformou-se, assim, num dos «casos» a seguir com maior atenção. O que, a juntar ao caso de Celorico da Beira, não é propriamente bom para um partido que já teve mais de metade das câmaras do distrito e depois veio por aí abaixo, passando para o empate com o PSD há oito anos e acabando, há quatro, numa desvantagem de cinco contra nove. Resta saber a que alturas estão agora a colocar a fasquia.
As marcas não vendem
Na abertura da sede de campanha, Ana Manso confirmou a filosofia que está implícita ao marketing da candidatura: não há qualquer referência ao PSD, partido a que preside no distrito e pelo qual concorre à Câmara da Guarda. A imagem é ela e as mensagens são as promessas concretas de tudo quanto julga que a cidade e o concelho precisam. Nem uma setinha, sequer, indica a marca do capote partidário. É uma estratégia que não se pode considerar despropositada. E se Maria do Carmo Borges, dentro de dias, optar pela mesma filosofia e também esconder as rosas e os punhos dos seus próprios cartazes, poderemos concluir que num ponto já ganhámos todos: ambas as candidatas se mostrarão, finalmente, conscientes de que as marcas que representam já não vendem. Porque fizeram, em vinte e tal anos de alternância, mal que bastasse à Guarda. Renegá-las pode ser um bom começo...
«Terras da Beira»

11 de outubro de 2001

11 Out 2001: A guerra possível

Na Idade Média cercavam-se os povos pela fome; no século passado isolavam-se em sanções económicas e comerciais, outra forma de castigo através da necessidade. Mas a guerra do novo milénio ostenta a sarcástica contradição do arremesso de alimentos por entre disparos de mísseis. Há muito que os conflitos mundiais deixaram de se caracterizar pela conquista através da agressão corpo a corpo, tendo dado lugar à destruição maciça de alvos precisos. Sabe-se, ao menos pelo cinema – e note-se que a 11 de Setembro ficou provado que a ficção já não é capaz de acompanhar o passo da realidade – , que cada centímetro do planeta está a ser vigiado e que neste momento, ou noutro qualquer, é possível dirigir, a partir de um asséptico gabinete no Pentágono e como se de uma tarefa de expediente se tratasse, um ataque rápido e mortífero contra um objectivo isolado. Mas a dúvida é sempre a mesma: por apurada que seja a perícia militar e por sofisticada que seja a tecnologia, dificilmente conseguirá que as bombas atinjam apenas os maus e que o auxílio humanitário alimente só os bons.O que nos pode ajudar a aliviar a incerteza é o facto de esta não ser uma guerra qualquer: ao menos por agora, aceitamo-la como uma missão de polícia. Não é fácil encontrar o criminoso, porque na realidade não há senão um retrato-robot. Luta-se contra um inimigo disseminado, sem rosto mas com muitos caras, que não está em lugar algum mas pode surgir em toda a parte. Bin Laden é apenas o talismã, o objectivo supremo, a vitória supranumerária. Neutralizar a utilização de um país com base terrorista e inutilizar a capacidade militar de um regime macabro é tudo quanto está em causa neste momento. Mesmo que a campanha se revele um tiro no escuro, tê-la iniciado é a honra mínima devida à memória de todas as pessoas – e nunca chegaremos a saber ao certo quantas – que perderam a vida num acto sórdido. Essas foram as autênticas vítimas inocentes desta guerra.Porque, quer se queira quer não, nasceu há quatro mil anos, a partir da Grécia antiga, a mais justa e mais compassiva civilização que o mundo conseguiu conceber: a civilização democrática ocidental. Tenha os defeitos que tiver, é pelo menos fundada nos princípios do governo legítimo, dos direitos de cidadania e do progresso das artes e das ciências. E uma coisa, pelo menos, é certa: as sociedades democráticas não combatem em nome de Deus nem clamam pela guerra santa.Da batalha que acaba de começar, o que se espera é que resulte em algo mais do que no mero alívio da consciência colectiva perante os ataques de 11 de Setembro. Que abale as organizações terroristas mas principalmente ataque os fundamentos sociais e culturais do terrorismo. Porque já antes tinham o regime taliban dado exemplos incríveis da ignorância e do fanatismo em que assentam as suas raízes. E já antes tinham cometido autênticos crimes contra a humanidade.Sabe-se que Bush lê essencialmente a Bíblia. Mas Tony Blair é capaz de nestes dias ter passado os olhos por Kant e pelas antinomias da razão pura: há razões contraditórias que se alcançam sempre que se pretende determinar a natureza absoluta do mundo. Ou dito de modo mais simples: há alturas em que é conveniente uma das mãos fingir ignorar o que faz a outra.
«Terras da Beira»

4 de outubro de 2001

4 Out 2001: Má língua

O seguro paga o penso
A Assembleia Municipal da Guarda chegou, na Sexta-feira passada, ao enlevo máximo – capaz de fazer lembrar, com muita propriedade, os acalorados debates no parlamento de Taipei, onde sessão sim, sessão não, voam cadeiras sobre as cabeças. Aqui não chegaram a tanto, é certo, mas a discussão à volta do assunto da Quinta da Maúnça quase levou o deputado Pereira da Silva, do PP, e o vereador Carlos de Jesus, do PSD, a vias de facto. Só não se consumou a refrega porque todo o Executivo agarrou o colega edil, a tempo de evitar a esboçada troca de tabefes. A sessão esteve suspensa, os ânimos arrefeceram, houve pedido de desculpas – e tudo prosseguiu a bem, enlevando os digníssimos senadores nas importantes e frutuosas discussões a que é costume dedicarem-se no período de antes da ordem do dia. Só houve um aspecto que causou desconfiança: depois de reatada a sessão, toda a mesa reclamava mazelas, por causa do desaguisado ocorrido minutos antes. A um doía-lhe o pulso, a outro a canela, um terceiro protestava o arranhão uns quantos sacos de gelo faziam périplo junto de ilustres tornozelos. Será o seguro de saúde dos autarcas assim tão bom?
Balsemão traz a trouxa
Está explicada a designação que Ana Manso concedeu a Francisco Pinto Balsemão: mandatário político. O mesmo é dizer padrinho, protector, patrono e por aí diante. Um cargo que não existe mas que, dado o calibre da personagem, é o mais apropriado. Porque mandatário, mesmo, há-de a candidata ter de arranjar outro. Ou seja: alguém que trate das continhas, que a represente nos assuntos formais, que organize as listas e as entregue no dia aprazado. Ora, ninguém está a imaginar o patrão da SIC a dar-se a tais estorvos, com as chatices que já tem lá para as bandas de Carnaxide. Daí que o militante número um do PSD não tenha vindo fazer mais do que fazem todos os “veteranos” nesta altura, pelo país fora. Só que Ana Manso, manhosa, deu-lhe um título: mandatário... mas apenas político. A menos que até meados deste mês, data limite para fazer transferências, o magnata da comunicação mude o recenseamento para o concelho da Guarda, o que lhe permitirá exercer aqui a plenitude dos direitos políticos. Tudo é possível... até porque Balsemão também está a precisar de sangue novo. Balsemão, nome de aldeia ali próximo do Barracão – entenda-se.
Jet Set de cartaz
Uns espanhóis ligados a qualquer coisa transfronteiriça, que não vinham à Guarda há uns meses, ficaram espantados com os cartazes de Ana Manso. E parece que a apreciação que fizeram foi muito positiva. Com toda a autoridade e o olho clínico que nuestros hermanos já provaram ter nestas coisas, houve quem comentasse que parecida saída da capa da Hola!. E ainda eles nem tinham topado o resto da lista.
Como é que está o jogo?
Concorridíssimo, também em termos do Jet Set local, esteve o concerto do Dia Mundial da Música, na Catedral (na outra, não naquela em que estão a pensar). Na primeira fila aprumavam-se os notáveis do regime, assistindo, com apropriados modos, ao War Requiem. Mas nalguns casos a bota batia tão mal com a perdigota, que houve logo quem jurasse que os que eles tinham era um rádio com auricular – e estavam, com aquele arzinho, a seguir mas era o jogo do Sporting. Má língua do piorio, foi o que foi.
«Terras da Beira»

27 de setembro de 2001

27 Set 2001: Que falta fizeram os carros?

Afinal, a lição que se tira das comemorações do Dia Europeu sem Carros na Guarda é mesmo só uma: a de que a cidade pode passar bem sem eles. É verdade que o tempo não esteve de feição para um tal tipo de festejos, que a informação pecou por escassez, que muito boa gente desviou as barreiras como bem lhe apeteceu e que houve «regimes excepcionais» impróprios e veículos estacionados nos lugares do costume e à hora de sempre. Tudo isto estará inteiramente certo. Mas também não será propriamente um raciocínio pelo absurdo dizer-se que o trânsito automóvel não fez falta absolutamente nenhuma nas ruas e praças onde esteve interdito. Em primeiro lugar, porque a área restrita salvaguardou circuitos alternativos aparentemente aceitáveis. Em segundo, porque não há prazer comparável ao de ter uma cidade assim: limpa, tranquila, devolvida aos cidadãos.Isto leva-nos à questão de sempre: por que razão não fecham definitivamente a zona histórica aos automóveis? Tão velha é a pergunta que há trinta anos, pelo menos, havia quem a pusesse. E segundo a investigação do TB [ver reportagem nas páginas 2 e 3 desta edição], ousava-se planear, já naquele tempo, não só o calcetamento definitivo de toda a área como a construção de uma cobertura envidraçada sobre as ruas Direita e do Comércio, com aquecimento integrado. Megalomania? É possível, tanto que a ideia nunca atravessou um círculo restrito de «notáveis». Mas houve outras soluções, ao longo destas décadas, que chegaram à fase de ante-projecto ou de discussão pública. Para esbarrarem invariavelmente numa enorme falta de coragem.Todas as cidades onde já se optou por fechar o trânsito nas zonas mais emblemáticas tiveram em comum dois registos opostos: uma forte polémica, antes de concretizada a intervenção; e uma aceitação generalizada, depois de concluída a obra. Porque, evidentemente, está em causa algo mais do que a colocação de placas de circulação interdita: é preciso mexer na paisagem, transformar as velhas ruas em atractivas zonas pedonais, criar recantos, revitalizar espaços, instalar serviços.O que a iniciativa do passado fim-de-semana também provou foi que esta discussão pode facilmente alargar-se a zonas fora do traçado da muralha medieval, como a Misericórdia e o Largo Frei Pedro. Não custa imaginar uma soberba praça pública desde o Jardim José de Lemos até à Sé. Nem parece que dois grandes parques de estacionamento convenientemente situados e com bons acessos – um na Avenida dos Bombeiros e outro nos terrenos do antigo quartel, por exemplo – não anulassem o único obstáculo racional à concretização de uma solução deste tipo.E, bem vistas as coisas, seria mais barato e teria maior proveito do que um túnel entre a Rua 31 de Janeiro o largo da Misericórdia. Como se o trânsito que circula de um lado para o outro não tivesse outras alternativas, quando fechassem a Praça Velha, a Rua do Comércio e as outras vielas. Como se, por existir um túnel, os comerciantes e os moradores do centro histórico deixassem de querer estacionar à porta. Como se isto tudo não fosse um problema de mentalidades – mais do que visível à superfície.
«Terras da Beira»

23 de agosto de 2001

23 Ago 2001: festas, romarias e dedicatórias

Parece que a cidade política em peso assistiu ao show de umas tais Bruna e Liliana nas festas da Póvoa do Mileu. Tenho que confessar a minha insensibilidade: nunca ouvi falar delas e os vagos acordes que me entraram pela frincha da janela – vivo ali perto – não me deixaram boa impressão do estilo musical e do próprio talento das raparigas. Mas agora percebo que tive, sem o saber, o privilégio de adormecer ao som de uma girls-band que possui quase um clube de fãs na Guarda, ao ponto de ter sido a própria Câmara a pagar o espectáculo, contrariando a ideia de que apenas faz programação cultural para as elites. Pelos vistos, uns e outros, programadores e elites propriamente ditas, desforram-se em Agosto nos arraiais populares e nos espectáculos pimba. E não é só pelo ambiente autêntico que se vive nestas festas. Aparentemente, a letra das cantigas também não passa despercebida ao mais exigente dos públicos. Assim se explica o que aconteceu na festa do Mileu, naquela noite. Bruna e Liliana terão, segundo uns, dedicado uma canção à «velha amiga» Ana Manso. Segundo outros, ter-lhe-ão apenas dirigido «um beijinho». A candidata do PSD à Câmara da Guarda estava presente. E dois vereadores do PS também. Nenhum deles confirma mais do que isso mas o empresário das artistas acusa-os de terem ido apoquentá-lo, exigindo-lhe uma retractação. Muitas modas depois, alguém terá subido ao palco a desfiar a lista de agradecimentos, sem esquecer um «muito especial» à presidente da Câmara, equilibrando o repertório.Anda-se há meses à espera de uma pista, de uma intenção, de um desígnio. No final de tudo, o que resta de mais empolgante são cenas como esta. E a isto – e ao caricato acotovelamento entre a presidente candidata e a candidata a presidente noutras festas do género – se resume tudo quanto o a pré-campanha conseguiu produzir até agora.Digam o que disserem, o desenlace do “tabu” de Maria do Carmo Borges também não ajudou à melhoria deste estado de coisas. Há agora, nas hostes do Partido Socialista, quem tente resumir tudo às “más leituras” da imprensa sobre o caso, como era de prever. Mas lidos os jornais que relataram o acontecimento chega-se facilmente à conclusão de que sofremos todos do mesmo defeito: nenhum de nós teve clarividência suficiente para descobrir o tal «hospital novo» nos planos expostos durante a visita do ministro. Só que, de facto, o único compromisso expresso foi o de que um plano director à volta do qual se trabalha há mais de seis anos levará a partir de agora menos de seis meses para começar a ser concretizado. Que isso represente a melhor garantia realizável nesta altura, é uma coisa. Que corresponda por inteiro à exigência da presidente da Câmara, é outra. Foi a conquista possível, o que não quer dizer que tenha sido a conquista desejada. À política, como aos hospitais, aplica-se o velho aforismo: vale mais um pássaro na mão do que dois a voarem. Toda a gente percebeu isso. E Maria do Carmo Borges também, ainda que tardiamente. Espera-se é que tenha modéstia para o admitir e para o explicar aos pares.Caso contrário, a seriedade desta campanha nunca chegará sequer a alcançar o nível de um concerto de Bruna e Liliana. E depois, como lembra aquele outro provérbio, boa romaria faz quem em sua casa fica em paz.
«Terras da Beira»

16 de agosto de 2001

16 Ago 2001: Um novo hospital em vez de um hospital novo

O “tabu” de Maria do Carmo Borges não alcançou um resultado muito além do previsível e, em termos práticos, não trouxe nada de novo para a Guarda. Mas o desfecho deixou mais nítido o contorno deste drama, sendo provável que tenha servido mais para assustar o PS do que para exigir uma obra que a lógica tornava irrealizável. E mesmo que tenha havido um princípio de genuína vontade para levar as coisas até às últimas consequências, o nervosismo infligido ao partido foi bastante para dar o caso por terminado, baixando a fasquia com um subtil jogo de palavras. Como a própria autarca faz questão de lembrar [ver entrevista na página 4], a primeira das condições que colocou para ser candidata foi obter o apoio incondicional do PS local. Ora esse apoio só foi tornado público quando já corriam rumores sobre os apetites de todo o inner circle socialista em relação aos lugares elegíveis, cenário que punha Maria do Carmo na condição de cabeça de lista por exclusão de partes, porventura para cumprir calendário até que o promissor «alfobre» brotasse. Isso significaria, portanto, que a sua margem de manobra estaria sempre diminuída.Ao colocar o PS perante uma exigência deste calibre a pouco tempo das eleições, ela não só o responsabilizou por tudo quanto viesse a acontecer como esvaziou qualquer possível candidatura alternativa: para quê votar num partido que, sendo governo, não tinha sido capaz de assegurar a construção de um hospital?Com muito nervosismo e alguma circunspecção, os dirigentes socialistas lá foram tratando o caso o melhor que puderam. E terem trazido à Guarda um ministro com o perfil de Correia de Campos, dando-lhe pretexto para anunciar com espavento um plano director que já estava em curso, não foi propriamente mal conseguido. Politicamente, pelo menos, arrumou-se o assunto. Mas em termos práticos fica a pairar uma suspeita de fingimento.Desde 1994 que se fala de um plano director para o Hospital da Guarda mas só em 1998 é que a segunda comissão nomeada para o efeito teve pronto um documento que serviria de guião aos projectos lançados a concurso. As ideias de base seguem a mesma lógica desde esse tempo: a construção de um «novo hospital» na Guarda passaria sempre pela remodelação do actual edifício e pela recuperação dos antigos pavilhões do ex-Sanatório, e nunca pela concentração de todos os serviços numa só construção de raiz, fosse naquele ou noutro local da cidade. A actual administração, nomeada em Junho de 1999, agarrou a ideia como sua e aperfeiçoou-a, dando-lhe a forma que é conhecida desde meados do ano passado e que, com mais uns acertos, foi tida como finalizada em Dezembro último. O modelo final é a «menina dos olhos» do director, José Guilherme, que em mais do que uma ocasião fez questão de publicitar os projectos do novo hospital – da demolição do miolo do actual pavilhão principal ao aproveitamento dos dois velhos edifícios mais próximos, passando pela construção de quatro novos blocos, contíguos ao corpo principal. Isto apesar das dúvidas que chegaram a ser levantadas acerca da sensatez destas opções: fosse porque o edifício principal não tem um valor patrimonial por aí além que justifique manter a estrutura de base como um espartilho; fosse porque os dois pavilhões que realmente têm importância histórica já se encontram num estado tão avançado de degradação que se torna difícil imaginar que ainda possuam uma ponta por onde se lhes pegue (especialmente o Dona Amélia, com a intrincada estrutura de ferro e aço); fosse, em última análise, porque enquanto se insistiu ao longo de sete anos neste protótipo para a Guarda, tanto Viseu como a Covilhã viram nascer hospitais novos, no único sentido verdadeiro do termo.Não é de crer que Maria do Carmo Borges desconhecesse um plano que há muito era do domínio público. Nem é provável que se referisse a outra coisa quando, em ocasiões anteriores, criticava os remendos legados pelo PSD e lamentava que o PS estivesse a seguir pelo mesmo caminho, reclamando para a Guarda o mesmo que fora concedido às outras cidades.O problema terá estado, afinal, numa interpretação errada das palavras da autarca. Ela nunca exigiu um hospital novo – bastar-lhe-ia um novo hospital.

6 de agosto de 2001

6 Ago 2001: E, apesar de tudo, eles vêm

Onde em tempos foi inaugurado com toda a pompa um posto de turismo já não existe coisa alguma. Ainda lá estão os dizeres em metal mas esse é o elemento que se distingue do ar decrépito que a antiga loja de atendimento a visitantes, no piso térreo do edifício da Câmara, há muito exibe. Tão decrépito que o único recado para quem ainda ali vai ao engano é uma simples folha colada na porta poeirenta, onde se informa que o posto agora funciona noutro local, junto à Sé. Sem uma única linha escrita noutra língua e sem, sequer, um mapa da cidade a indicar o sítio. Quem não tiver conhecimentos de português nem souber como chegar à Praça Velha, fica à deriva. E o mais certo é que tome o mesmo caminho de onde veio, maldizendo tal desvio.Talvez essa experiência esteja presente nas notas de viagem de Julia Wilkinson e John King, a dupla de australianos que assina no «Guia de Portugal» da Lonely Planet, e essa seja, afinal, a explicação para o que o mais famoso «manual de sobrevivência» para viajantes diz acerca da Guarda. Que é, literalmente, isto: «A descrição tradicional da Guarda – fria, farta, forte e feia – dificilmente será atractiva. E para sermos francos a cidade não parece ter problemas em conviver com tal reputação, de tão severa e distante que surge. Dificilmente causará uma primeira impressão ideal aos visitantes que chegam de Espanha ou de França através de Vilar Formoso. Apesar de a cidade ter uma história de oitocentos anos (foi fundada em 1199 para guardar a fronteira) há pouco para ver ou para fazer aqui. Então para quê vir? Porque a cidade é uma boa base para explorar a área montanhosa circundante, a menos conhecida zona do nordeste da Serra da Estrela. Há um posto de turismo junto à Catedral. Mas tem um horário incerto e é de pouca ajuda».Que a digam feia em vez de fiel e formosa é falta de informação. Que não encontrem nada para ver ou fazer é falta de atenção. Mas quando por cá passaram ocorreu-lhes, provavelmente, o mesmo que aos turistas acidentais interpelados esta semana pelo TB [ver reportagem nas páginas 6 e 7], que vagueavam por aí, depois de terem subido em vão as escadas da Sé ou da Igreja da Misericórdia – dois dos raros pontos de referência nos guias internacionais mas que permanecem, incompreensivelmente, fechados a maior parte do tempo.Ainda assim, eles vêm: seja porque o contorno da cidade atrai quem de longe entra por Vilar Formoso; seja porque é, simplesmente, um local obrigatório de passagem. Não há números precisos mas estima-se que largas centenas de visitantes parem todos os dias na Guarda. Basta andar nas ruas para perceber isso. Não é uma realidade de hoje – é de há muitos anos. E se no Verão a cidade recebe mais estrangeiros, no Inverno vira-se para a procura interna, cumprindo a tal vocação de destino periférico da Serra.E como respondemos a esta realidade? Com um papel afixado no vidro surrado de um posto de turismo desactivado, mandando os curiosos procurar informação noutro lugar, que funciona sobretudo nos dias úteis e dentro das horas de expediente. Com monumentos inacessíveis e sem qualquer indicação acerca de um conjecturável horário de abertura. Com locais de chegada, pontos de encontro, e ruas principais onde não há sequer um mapa da cidade, um banal «você está aqui». Com sinalética na língua materna e a fornecer principalmente indicações tão úteis como «Direcção de Finanças», «Governo Civil» e «Tribunal». Com uma total ausência de imaginação, que não dá sequer para copiar as experiências de outras cidades históricas, promovendo, por exemplo, percursos diários guiados (para visitantes e para residentes), na linha, aliás, da feliz iniciativa que o INATEL tem estado a organizar em todo o distrito. Com um dos raros centros históricos onde ainda circulam carros. Com um comércio absolutamente zeloso no cumprimento das horas de descanso.Com um parque de campismo decadente, geminado com um parque urbano alugado para casamentos. Com uma série de projectos na gaveta, o mais emblemático dos quais aproveitaria turisticamente o Caldeirão. Com um ramo hoteleiro que aos domingos e feriados mete, em grande maioria, trancas à porta.E, apesar de tudo, eles vêm.
«Terras da Beira»

12 de julho de 2001

12 Jul 2001: Peixinhos da horta

O PS ainda há-de arrepender-se da imodéstia com que tratou o assunto da candidatura à Câmara da Guarda. Tão longe levaram os dirigentes locais do partido o suspense acerca da recandidatura da actual presidente, que agora acabam por dar um tiro no pé: não só se lhe rendem como ainda lhe declaram carta branca para fazer a lista que melhor entender. Pior que tudo, vão a reboque de um «facto político» que ela sozinha nunca teria conseguido fazer ir além de um moderado fait-divers: a exigência de compromisso escrito para a construção de um novo hospital. Requisito que, conforme imediatamente tornou público, mantém válido. E que agora, tendo já o partido a seus pés, poderá levar até onde quiser.Há não muito tempo imaginavam-se os pesadelos que Maria do Carmo teria por causa da lista. Adivinhava-se que Esmeraldo Carvalhinho, o número quatro do executivo e número um do partido, não estivesse para continuar numa posição subalterna. Ele que, em oito anos, galgou a condição de pacato funcionário camarário a quem parecia destinada uma carreira de poucos horizontes, torneou rasteiras, ganhou argúcia e afinou o sentido político – há até quem lhe encontre semelhanças de estilo com Abílio Curto.A saída de Joaquim Valente veio a revelar-se providencial para ambas as partes, permitindo as desejadas mexidas na lista. E logo correram rumores sobre um verdadeiro «assalto» aos lugares elegíveis por parte do PS puro e duro. Mas tanto tempo passou e tanta coisa foi dita que por fim não restou a Carvalhinho outra solução senão declarar o apoio à actual presidente da forma como o fez, na passada Sexta-feira.Houve aqui, de facto, uma irónica inversão de papéis: Maria do Carmo venceu sem esforço a primeira batalha; e o partido vê-se à nora para responder à exigência de um papel escrito. E ao invés de transformar a questão do hospital numa «razão de regime» que pusesse o PS a exigir a uma só voz aquilo que representa a maior debilidade da governação socialista na Guarda, o que a concelhia fez foi desvalorizar a condição da possível candidata, dando-lhe a importância que se dá a todos os excessos bairristas. A moção dos injustiçados, levada ao último congresso do partido, foi só um arranjo feito de propósito para aquela quermesse, como já se desconfiava. Conversa de entretém, portanto. Porque de resto ninguém está para se deixar de consensos e assumir claramente as rupturas necessárias para que se sinta que os interesses desta terra estão a ser defendidos. Passa pela cabeça a alguém que os dois deputados socialistas pelo distrito façam depender o voto a favor do próximo orçamento de idêntico compromisso sobre a construção de um hospital? Ou que qualquer dos nomeados com responsabilidades nesta área dê à tutela um prazo determinado para obter a mesma garantia, pondo o lugar à disposição se ela não vier? É claro que não. Por isso é que a exigência de Maria do Carmo Borges passou rapidamente de fait-divers a facto político. À custa do próprio PS, que ainda veio com este argumento tão extraordinário quanto cómico: se, por falta de cumprimento da condição que põe, Maria não for candidata, o que não falta é substitutos. Carvalhinho define mesmo o partido como um «alfobre de bons candidatos».Não me custa a reconhecer que nas fileiras do PS haja excelentes pessoas. Nem a crer que os piores legumes de um alfobre consigam inspirar as melhores receitas, como o comprova uma boa travessa de peixinhos da horta.A única questão que importa ver respondida é precisamente a seguinte: se o PS deixar cair esta candidata por não lhe poder garantir que será construído um hospital, para que havemos nós de querer que nos apresentem outro candidato?
«Terras da Beira»

7 de julho de 2001

7 Jul 2001: A chantagem

Alípio Severo Abranhos não percebia como é que os governos se gastavam. Parecia-lhe que administravam o tesouro com honestidade, que faziam o expediente das secretarias com suficiente regularidade, que mantinham no país uma ordem benéfica, que não oprimiam nem a imprensa nem as consciências, que eram comandados por cidadãos estimáveis. E no entanto gastavam-se – e caíam. Ora esse carácter imprevisto da permanência no poder causava sobressaltos a quem dele tanto dependia e não sabia fazer mais nada, como era o caso do Conde de Abranhos. Isto remonta ao final do século XIX e mesmo que não saibamos hoje se a personagem de Eça correspondia a um modelo ou se pretendia retratar uma figura real, a verdade é que a caracterização do Conde assenta num arquétipo que continua válido: todo o poder gera clientelas; e estas crêem que o bem do país, o bem do partido e o bem delas próprias são uma e a mesmíssima coisa.O retrato exuberante que Eça de Queiroz fazia do país oitocentista mantém uma intemporalidade inquietante. Tal como então, o Governo está gasto. Não é que o PS governe mal ou que Guterres seja um mau primeiro-ministro. Não é que os indicadores sociais do país sejam assim tão negativos ou que a conjuntura económica faça realmente antever uma crise profunda. Mesmo que fosse isso, não foi por aí que se gastou. Foi mais pela falta de firmeza, de orientação, de talento, de confiança e de esperança. Há uma comparação simples, repetidamente usada ao longo desta semana, que melhor traduz o actual estado de coisas: neste Governo, tal como no futebol, já não são os reforços que devolvem o ânimo à equipa nem a estima aos adeptos; ou o campeonato termina mais cedo ou o treinador é despedido.E agora? Agora é esperar que a queda se consume. É verdade que na política há, por vezes, mortes anunciadas que depois se transformam em assombrosas ressurreições. E que o tempo é de férias, propício ao esquecimento. E que uma boa maioria da nação deve ligar menos ao que vai dentro do Governo do que ao enredo dos Olhos de Água. Mas também é verdade que à pergunta «em quem votava?» a mesma maioria já responde que dava a vez a outro. Para o PSD, que se limitou a esperar sentado, chegou o momento – e não deve desperdiçá-lo. Estamos assim a uma passo de consolidar a alternância plena, o governas-tu-governo-eu entre os dois maiores, tal como na era queirosiana. Quem disse que a história não se repete?Mesmo a linhagem do Conde de Abranhos nunca deixou de estar no activo. A têmpera tem sido a mesma da de muitos dirigentes locais, «representantes» eleitos para o Parlamento e nomeados para os serviços. Ao longo de quase duas décadas somos capazes de ter assistido ao aparecimento de um punhado de figuras públicas a quem se reconhece competência técnica e envergadura política e a quem a Guarda e a região ficam a dever alguma coisa – são as excepções que confirmam a regra. No mais, estivemos em presença de grupos de mediocridades em busca de promoção pessoal e de migalhas de poder. Prontos a todos os fretes e presos numa teia de silêncios e de obediência.Penámos uma dúzia de anos com os boys do PSD. Como a Câmara era da oposição, vivemos permanentemente numa trincheira. No fim da guerra, não houve vencedores nem vencidos – perdemos todos, perdeu a Guarda. E nada parece pesar-lhes na consciência: gozam tranquilos nas tertúlias improvisadas nas ombreiras do largo da Misericórdia. Vieram depois os boys do PS, a Câmara manteve-se socialista e chegou-se a pensar que tanta convergência havia de fazer recuperar os projectos adiados. Foi o que se viu.Bem pode agora Maria do Carmo Borges vir dizer que só é candidata se o partido lhe assegurar a construção de um hospital novo. Por um lado, não há-de faltar no PS quem julgue que pode ganhar a Câmara sem ela. Por outro lado, a chantagem é um autêntico tiro no pé: se é o partido que decide as obras (já desconfiávamos...), o que é que isso valeu à Guarda nos últimos seis anos?
«Terras da Beira»

21 de junho de 2001

21 Jun 2001: O integracionista

Carlos Pinto, presidente da Câmara da Covilhã, acha que a figura das capitais de distrito está esgotada e que é preciso um novo modelo de divisão administrativa, no qual a sua cidade passará a reclamar a posição de capital regional. Porque a Covilhã vale mais do que Castelo Branco, a cujo distrito pertence. Porque os resultados preliminares dos Censos indicam que aquela é a única cidade do Interior a registar um aumento da população na última década. E porque, estando as coisas como estão, anda-se a premiar a concentração de pedras, calhaus e florestas, em vez de uma zona urbana densamente povoada e com ambições.Qualquer dos argumentos é bom para brandir numa noite de consagração e anúncio de recandidatura, como foi o caso. E é este o discurso que convém a uma terra que vive há décadas num cruel paradoxo: sendo o centro industrial, empresarial e universitário por excelência da região, tem que se submeter à hierarquia de uma outra cidade, cuja importância resulta tão só do papel administrativo que lhe foi, por razões históricas mas pelos vistos de forma desajustada, confiado.Para cima da «fronteira» de Belmonte, houve sempre a tendência de olhar esta guerra como uma coisa entre indígenas de outras tribos, que levavam o sentimento bairrista ao extremo caricato de discutir as origens da xerovia. Isto, claro, até ao dia em que a Covilhã começou a conquistar uma série de anseios que a Guarda também reclamava como seus: da Universidade ao hospital novo; do McDonald’s à urgência pediátrica. A contenda era, e é, com Castelo Branco. Mas a Guarda cedeu, por inanição, muitas munições para esta batalha.As palavras do presidente da Câmara da Covilhã valem o que valem, ditas no contexto de uma mensagem política em arranque de pré-campanha. Mas são a síntese do desígnio que assume para próximo mandato, se for eleito: o de tornar a Covilhã capital da região. Carlos Pinto saberá, aliás, por que razão escolheu esta bandeira e não outra: é que semanas antes o Governo tinha tornado pública a intenção de mexer no mapa administrativo do país, naquilo que chama de «desconcentração administrativa do Estado», e o Presidente da República tornou explícito, durante a Presidência Aberta no Minho, o seu altíssimo empurrão à vontade emergente de que essa intervenção resulte na criação definitiva das regiões administrativas. Se isso não foi possível através do processo de regionalização, chumbado por vontade referendária, ao menos que o seja à luz de um mecanismo alargado de descentralização. O que, no fim de contas, tornará mais simples e racionais as pretensões manifestadas pelo presidente da Câmara da Covilhã, que por elas foi ovacionado, segundo contaram os jornais, por mais de 2.300 pessoas de vários quadrantes políticos.A Guarda, tal como toda a chamada Beira Interior, fica assim ao alcance do anseio integracionista de Carlos Pinto. E, presos que estão a ressentimentos e nostalgias, os dirigentes políticos de cá permitiram que tudo quanto ele declarou tivesse permanecido no ar como a mais dura das verdades. Mesmo aquilo que o não é. Por isso já era tempo de alguém lhe explicar, por exemplo, que se houve cidade no Interior que aumentou a população nos últimos dez anos, essa foi precisamente a Guarda, com um crescimento efectivo de cinco mil habitantes que se traduz numa percentagem maior do que a registada na Covilhã. É pouco, mas é suficiente para levantar a voz. Mas ninguém o fez. E depois queixam-se da ausência de auto-estima que vai nesta terra.
«Terras da Beira»

21 Jun 2001: Má língua

A candidatura de Joaquim Valente à Câmara de Celorico da Beira é um bálsamo com várias aplicações. Para as dores de cabeça do PS distrital, que assim se livra de «engolir» Júlio Santos. Para as mágoas do próprio Valente, que desta forma vê cumprido o desígnio de ser candidato a uma presidência, mesmo que não seja aquela a que socráticos intentos o chegaram a lançar. Mas, sobretudo, é uma mezinha para o padecimento em que Maria do Carmo Borges vivia, por causa da constituição da próxima lista. Porque nenhum, do segundo ao quinto, parecia disposto a dar o passo em frente e dizer «faça o que quiser, que a minha missão termina aqui», antes pelo contrário. E, tendo já todos cumprido um mandato em sossego e na plenitude dos poderes, não era agora que ela iria apontar a algum deles justa causa para despedimento. Muito menos para dar o flanco à cruzada que o partido move contra os independentes. E era neste quebra-cabeças que corriam os dias de Maria, até que o partido congeminou a solução para Celorico, matando muita caça de um só tiro. Porque a possibilidade de ser derrotado na sucessão de Júlio Santos será, para Joaquim Valente, o menor dos males. Afinal, entre todos os actuais vereadores da Câmara da Guarda ele é o que mais está em condições de partir neste momento à aventura. Perdendo, o que não é líquido que aconteça, terá um alfobre de oportunidades profissionais nos vários campos em que meteu a enxada, das águas do Zêzere ao Polis. Onde encontrar resistências, meterá o velho condiscípulo ao barulho. É uma aventura de baixo risco, portanto. E Maria do Carmo, enquanto vai soltando uns lamentos politicamente correctos acerca da perda do mais técnico dos seus muchachos, está agora à vontade para invocar o princípio da renovação da sala de estar: não se compra um sofá novo sem mudar também as sanefas, os tapetes e, se necessário, a cor das paredes. O que quer dizer que Álvaro Guerreiro e Virgílio Bento também podem estar com um pé dentro e outro fora do rascunho. Muito mais quando o PS, perante um cenário de descalabro em possíveis eleições legislativas antecipadas, tem que começar a pensar na vidinha, já que nem toda a nomenklatura tem, sequer, uma profissão consistente na vida real. Por isso, não são de espantar certas notícias que começam a vir a público, acerca da nova constituição da lista: o presidente da Distrital em segundo; o presidente da Concelhia em terceiro; e outro emblemático membro do inner circle em quarto. Tudo no mais fiel princípio do respeito pela hierarquia partidária, garantindo uma autêntica continuidade na linha da dinastia socialista dominante. Porque o mais certo, em caso de nova vitória do PS com uma equipa deste calibre, é que passado um ano ou dois Maria do Carmo abandone a presidência, seja porque não estará para os aturar, seja porque já terá um neto para cuidar – livrando-se de passar outro mandato inteiro na penosa condição de candidata a sucessora de si mesma, em incómodas circunstâncias de mera exclusão de partes. Cabral e Carvalhinho que cumpram o resto. E o que fazer com os independentes? Nada mais simples: a Virgílio Bento até se agradecerá que aceite uma consultadoria temporária para o acompanhamento das obras da Biblioteca, da Sala de Espectáculos e dessas coisas complicadas da cultura; e Álvaro Guerreiro vai, por exemplo, a governador civil, numa nomeação que até estará longe de ser considerada um erro de casting. Se o Governo cair, cairá com ele. Mas isso já escapará ao controlo do PS em geral e de Maria do Carmo em particular, que lhe ficarão gratos. E como, a haver um próximo Governo do PSD, ele será seguramente tão mau ou pior que o actual do PS, o mais certo é que em meia-dúzia de anos volte a fazer-se a troca, no fatal princípio da alternância no seio do bloco central. E um quadro mais amplo de jobs voltará a estar em disputa, aliviando a caça aos lugares na vereação. Estão a ver como nesta cidade se faz, afinal, planeamento de longo prazo?

14 de junho de 2001

14 Jun 2001: Má língua

Abílio vai à fruta
Para quem se questiona acerca do que o antigo presidente da Câmara anda a fazer, aqui fica uma dica: é ele quem escolhe a fruta. Nada de novo, comentarão os leitores. Pois sim, mas neste caso estamos mesmo a falar em frutos e hortaliças. Abílio Curto é visita assídua num estabelecimento da zona da Estação, onde se entretém amiúde a dar dois dedos de conversa com o resto da freguesia. Numa tarde destas, a Má-língua, que nisto da frescura dos produtos da horta também é exigente, deu de caras com uma cena de fazer inveja a qualquer das candidatas à Câmara. Muito tu-cá-tu-lá, estava Abílio em amena cavaqueira com um interessado ajuntamento de interlocutoras e interlocutores. Como nos velhos tempos, ele lá ia tratando cada um pelo nome, perguntando-lhes pelos filhos, enviando-lhes cumprimentos, recomendando-lhes as melhoras. E como é o ano que é, e a clientela tomou o hábito de só ser alvo destas atenções quando há precisão, houve logo quem especulasse. Mal virou costas, uma assegurou ter ouvido que ele ia ser candidato por um partido qualquer. E outra: pois é cá bem preciso! Moral da história, ou mais ou menos: há sempre um Dom Sebastião à esquina da frutaria.
Convidas, convido
Consta que o PS concelhio já decidiu: Maria do Carmo é quem reúne melhor perfil para ser candidata pelo partido à Câmara da Guarda. Houve uma reunião, o assunto foi amplamente debatido, e alguém, supostamente o próprio presidente da concelhia, terá recebido um mandato explícito para convidar Maria a encabeçar a lista. Pelos vistos o encontro ainda não terá ocorrido. Porque é complicado fazer um convite a alguém que antes de o ser já o era. E porque também não é fácil, mesmo que seja só por estrito cumprimento do protocolo partidário, um emissário ter de fazer o papel de dirigente junto de quem, naquelas circunstâncias, o dirige a ele. E porque, lá no fundo, há um lado de cavalheiro que se sobrepõe. Dá para imaginar o tom da conversa: Ele – Gostava de falar consigo; Ela – Eu também, mas diz lá; Ele – Não, diga a senhora primeiro; Ela – É simples. Estive a pensar, quero ser candidata e quero-te para meu número dois. E tu, do que querias falar-me?; Ele – Também é simples. Estive a pensar, quero ser candidato e quero a senhora para minha número um.
Não se invoca o Seu nome em vão!
Se depender de divinas bênçãos, o candidato do PSD à Câmara de Seia está bem lançado. A apresentação decorreu num salão paroquial, na apropriada Rua do Purgatório, cujas paredes se encontravam desprovidas de ícones partidários ou de referências à figura do candidato. A única imagem era a de um Cristo a carvão, que dominava toda a assistência. Até podiam tê-lo tirado, ao menos enquanto decorresse a profana celebração, mas deixaram-no continuar exposto. Lá pensado que para a circunstância não seria tão eficaz quanto um Cavaco, mas sempre seria melhor que um Luís Filipe Menezes. Mas note, senhor candidato, que não é bonito invocá-lo em vão!
O mictório, obra estratégica
Há um no muro por detrás do jardim do largo Frei Pedro, bem integrado e recatado quanto baste. Dizem que fica à boca de um dos misteriosos túneis que noutros tempos atravessavam a urbe. Podia ir para obras, ser objecto de estudo, receber uma sala de exposições e passar a integrar uns urinóis assinados. E música ambiente. Findos os trabalhos, seria devolvido à cidade como intervenção bem realizada em local emblemático, a pensar no bem-estar diurético dos guardenses. Há outro perto da Praça Velha, e está fechado. E há imensos locais públicos – e múltiplas soluções técnicas – onde este tipo de alívios fazia jeito. Pois não senhor. O Jardim José de Lemos, como já é um espaço verde de proporções visivelmente exageradas, vai ainda perder um canteiro ou dois, para dar lugar a um mictório público – obra estratégica, já devidamente assinalada por uma placa, daquelas que se colocam para tornar indelével a autoria dos grandes empreendimentos. Mas que raio de soltura terá dado a esta gente, para tornar complicado tudo quanto aos outros parece simples?!
A doença do burro
Numa quinta ali para os lados da Senhora dos Remédios estava um burro com a doença. Velhice, dizem. O encarregado do pasto, vendo o animal a dar as últimas, não quis ter responsabilidades com a futura carcaça. Consta que telefonou para os serviços municipais da Protecção Civil, pedindo ajuda para fazer face ao iminente fanico do asno. Ter-lhe-ão prometido o envio de uma equipa, logo que fosse possível. E o homem esperou. E esperou. E como o burro era o outro e não ele, pegou o dito pela rédea e tratou de lhe oferecer uma última morada condigna: nem mais nem menos que o jardim público do Bairro da Senhora dos Remédios, diante da casa de quem manda. Lá ficou o jerico em bonançosa pastagem, até que deram o alarme. Foi recolhido para observação. E agora amanhem-se com ele! Hi-Hó!!!
«Terras da Beira»

7 de junho de 2001

7 Jun 2001: Já dá ares de ser a sério

Ana Manso estará a preparar-se para anunciar a candidatura à Câmara da Guarda no dia 23 de Junho, tudo indicando que traga Durão Barroso como patrono. Terá as suas razões para a escolha de uma noite de santos populares. Mas, para já, não se vislumbra um motivo ponderável. Se é para fazer um comício, terá que concorrer – para perder, provavelmente – contra os bailes de São João. Se é para falar ao coração da população telespectadora e radiouvinte, terá que contentar-se com o ser notícia num domingo, dia de más audiências. Se é para apelar ao pensamento profundo, arrisca-se a ter de repetir todo o discurso no final do Verão. Não são questões menores ou meramente formais. São conceitos básicos de marketing político. Se a disputa autárquica entre duas senhoras já inspira a ideia primária e grosseira de que haverá peixeirada, o mínimo a que qualquer delas podia abster-se era a lançar-se à corrida numa noite de sardinhadas. É que, para lá de tudo o resto, uma pré-campanha iniciada nas rodas de um bailarico pode significar que o PSD não tirou as devidas lições do longo espectáculo de variedades que organizou há quatro anos: o que é demais torna-se num massacre; e traz maus resultados, como se viu.Independentemente disso, a maior curiosidade reside agora em saber que lista irá Ana Manso apresentar dentro de três semanas – porque se o não fizer por completo a formalização da sua candidatura acabará por se diluir ainda mais. É verdade que o cargo é tipicamente pessoal, indelevelmente associado ao primeiro nome, às suas qualidades, aos seus defeitos e, sobretudo, aos seus compromissos. Mas o conjunto das escolhas, pelo menos da segunda à quinta, é que constitui, por igual, o verdadeiro calcanhar de Aquiles de ambas as candidatas.Ana Manso vai ter que traduzir o eventual descontentamento contra a actual gestão autárquica em escolhas originais e com o perfil certo para uma equipa a que possa chamar de mudança. Vai ter que propor nomes para além dos que se vão buscar, no ritual próprio da estação, às prateleiras do costume. Vai ter que provar que certos movimentos cívicos e outras organizações não eram viveiros de circunstância.Maria do Carmo Borges, por seu lado, também não terá uma tarefa simples. Primeiro, terá que mostrar que manda e que decide. Depois, explicar convenientemente as decisões que tomar. Manter tudo como está – e porquê. Passar o quarto a segundo – e porquê. Trocar o segundo pelo terceiro – e porquê. Afastar o quinto – e porquê. Dispensar todos – e porquê. Ou, no limite, nem sequer ver condições para se recandidatar – e por culpa de quem. É um autêntico xadrez, onde ainda está em jogo a capacidade de agregar quadros técnicos e massa crítica de fora do circuito partidário, como se esperava de quem arrebatou, há quatro anos, a maior vitória de sempre.Estas eleições têm tudo para ser originais. Mas agora começam finalmente a ter um certo aspecto de disputa a sério. Ao confirmar a candidatura, Ana Manso revela-se até uma mulher corajosa, já que nunca nenhum líder distrital do seu partido tinha ousado concorrer à Câmara da Guarda. Podia igualmente ter-se escudado no carácter supra-concelhio do cargo, lançando um nome para a fogueira, e não o fez (ou não teve outra alternativa, logo se verá). Assim, mesmo que se queime ela – e é cedo para fazer vaticínios –, já terá pelo menos contribuído para elevar a fasquia, evitando que as próximas eleições sejam um simples exercício de rotina imposto pelo calendário ou um mero acto de plebiscito à continuidade de Maria do Carmo Borges.Pelo caminho que a participação dos cidadãos em actos eleitorais tem estado a levar, ficará a dever-se-lhe esse favor. A própria presidente da Câmara deve ser a primeira a estar-lhe grata por isso.
«Terras da Beira»

31 de maio de 2001

31 Mai 2001: Mas isso agora não interessa nada

Por ter vivido sete anos nos antípodas a Oriente, tive o azar – ou a sorte – de não ter assistido à metamorfose de costumes e mentalidades provocada pela abertura dos canais privados de televisão. A caixa que mudou o mundo também alterou profundamente este país na última década – para o bem, nuns casos; e a raiar o estrago, noutros. Vivendo longe, só me apercebi de estar a perder o melhor da festa quando assisti, na inominável RTP Internacional, às rábulas do Herman José sobre os programas da «nova vaga», do Big Show Sic ao Perdoa-me!, de All You Need Is Love às Cenas de um Casamento. Confesso que achei as caricaturas exageradas e, por tira-teimas, pedi a um amigo que me gravasse algumas «versões originais». Ao vê-las, tive que duvidar do talento do consagrado jogral dos hábitos da nação: nem ele conseguira, diante de tais protótipos, arrancar mais do que sonsas imitações.O termo tele-lixo acabava de entrar no vocabulário corrente e, então como agora, muito se disse e escreveu sobre o estar a televisão «a bater no fundo» e o ser urgente impor formas de «auto-regulação». Mas tal como a água que corre nos rios deposita resíduos que, uma vez assentes, se transformam em componentes geológicos sólidos e acabam por modificar a paisagem, também os novos modelos que as enxurradas da televisão trazem acabam por ser sujeitos a um idêntico processo de sedimentação, só que milhares de anos mais rápido. Daí que o pavoroso de ontem seja tolerável hoje e que agora é aterrador passe a aceitável na próxima reentrée. É uma espécie de Princípio de Peter adaptado, segundo o qual nada é impossível e o pior estará sempre para vir.E se é possível encontrar algo que distinga a atitude das duas estações que se meteram nesta refrega, aponte-se, ao menos, a ausência de misturas nos produtos informativos da SIC, que se vão mantendo arredados, com inócuas excepções, do lixo que se acumula nos cantos da estação. Nisso, a TVI tem uma conduta que é um mau exemplo de promiscuidade entre informação e promoção – mas onde nenhuma das entidades ditas «reguladoras», nem da actividade televisiva em geral, nem da classe jornalística em particular, alguma vez achou motivo para protesto ou sanção. E quando, aparentemente, nem um Miguel Sousa Tavares nem um Marcelo Rebelo de Sousa sentem pruridos por voltarem a ocupar, em cada semana, a mesma cadeira onde já todos os Zés Marias se roçaram, está tudo dito. Ou antes: está muita coisa por explicar mas ninguém se maça a perguntar.É um exagero dizer que o Big Brother e a TVI chegaram ao «limiar da decência» e que o Bar da TV e a SIC atingiram a «abjecção absoluta», como já se escreveu. Nesta guerra nada é absoluto, nada é definitivo. Infelizmente, amanhã vamos recordar estes programas do mesmo modo que hoje olhamos para o All You Ned In Love: tudo não passou de um começo. E o mais grave não é que tudo se baseie no discutível teorema de dar às audiências aquilo que elas anseiam – porque isso, mesmo estando amplamente comprovado, não justifica tudo. O mais preocupante, mesmo, é que essa lógica seja recebida com um encolher de ombros, como se não estivessem em causa padrões básicos, que não se podem ignorar com o simples premir de botão para mudar de canal. Mas não será por acaso: quem, noutros tempos, elevou o fado, o futebol e Fátima à condição de sagrada trindade da alegria nacional acabou por criar uma receita para todos os tempos e para todos os regimes. Nos nossos dias, tanto Fátima como o futebol são excelentes produtos televisivos. Quanto ao fado, só houve que modernizá-lo – possibilitando o voyeurismo sobre o dos outros, oferece-se a semelhança com o de cada um de nós, e a fantasia que comande o resto. Enquanto andarmos assim, estaremos entretidos. O que prova que há um Big Bother português. Zeloso e atento.Enquanto isso, até passa despercebido o relatório de um estudo da Organização para a Cooperação Económica e Desenvolvimento (OCDE), agora publicado (está disponível na Internet), sobre «Literacia na Era da Informação». Incidiu sobre vinte países, entre os quais Portugal, e refere-se a 1998. O nosso país surge em penúltimo lugar – apenas antes do Chile. Conclui o relatório que em Portugal apenas 16 por cento dos adultos alfabetizados podem considerar-se dentro de padrões mínimos de literacia. Ou seja: apenas essa ínfima parte da população – num universo que vai dos 16 aos 65 anos de idade – consegue interpretar aquilo que lê. O que nos coloca no limiar do desenvolvimento, no plano educativo e cívico: inaptos para perceber, analisar, comentar, argumentar, aceitar ou rejeitar.Mas, como diria a apresentadora do Big Brother, isso agora não interessa nada.
«Terras da Beira»

24 de maio de 2001

24 Mai 2001: Quando a esmola é grande...

Ouvi, há não muito tempo, um responsável político local explicar que uma das razões para se não estar a fazer uma maior promoção turística da Guarda reside na fragilidade da oferta hoteleira. Ou seja: se os organismos que possuem essa competência começassem a exercê-la de forma sistemática e planeada, corriam o risco de atrair visitantes sem lhes garantir um tecto. Assim se compreende o minimalismo da divulgação – patente, por exemplo, na forma como as páginas institucionais na Internet fazem o retrato turístico da Guarda. Basta dar uma olhadela à da Câmara, que neste capítulo ainda mantém dados de 1997, quase todos redundantes ou desactualizados. Ou passar pela da Região de Turismo da Serra da Estrela, onde nos informam que a oferta existente na cidade está reduzida a um hotel, a duas pensões e a dezassete restaurantes.Seguindo esta linha de pensamento, pode dizer-se que está para breve o dia em que deixaremos de existir escondidos. Porque a confirmarem-se os novos projectos de que fazemos balanço nas páginas 2 e 3 desta edição, a Guarda passará a ser das cidades com maior concentração e hotéis por aglomerado – nada menos que sete, entre os já existentes e os anunciados.Se é verdade que não há fome que não dê em fartura, também não é menos legítima a desconfiança de um pedinte perante esmola grande. Isto não tanto pelo aparecimento de duas ou três unidades de média dimensão, por iniciativa de empresários locais ou associação com grupos que estão a começar a instalar-se no interior – há mais de dez anos que esse investimento é classificado de urgente. O que causa estranheza é que um grupo da Covilhã, que domina uma incontável lista de actividades económicas, decida lançar uma verdadeira OPA sobre a Guarda, adquirindo terrenos e pedindo o licenciamento de projectos tão diversificados que vão de um hotel a salas de cinema, de um campo de golfe a um condomínio fechado, de várias torres para habitação a um centro comercial com quinze mil metros quadrados de área coberta, de um supermercado a uma dúzia de restaurantes e outras tantas lojas de marca. Tudo isto podia resumir-se num caso de fartura inconsistente, não tivessem os terrenos sido já comprados e não fosse o tal grupo aquilo que é – praticamente o dono de toda a actividade turística na Serra da Estrela.Pode pensar-se que numa cidade onde o sector de serviços tem vindo a ser consecutivamente esvaziado não fará sentido existir um grande centro comercial. Pode afigurar-se disparatado o investimento num campo de golfe, numa região que pouco ou nada tem de cosmopolita. Pode supor-se que a Guarda não comporta restaurantes às dúzias, diante da quebra evidente do poder de compra de que as casas no activo são as melhores testemunhas. Pode parecer que não há mercado para um condomínio de luxo numa terra onde a maior parte do poder económico está nas mãos de construtores civis.Mas também se pode pensar que uma moradia junto a campo de golfe com ares de serra e boa paisagem (e servida por auto-estradas) pode ser um investimento de férias melhor e mais barato do que o já estafado monte alentejano. E que tudo o resto acabará por alimentar-se do movimento excursionista que gravita em torno da Serra, e para o qual toda a oferta hoteleira que exista num raio de dezenas de quilómetros nunca chegará para cobrir a procura.A ser certo, isto colocar-nos-ia, porém, na indesejada posição de local de passagem ou lugar exótico para descanso. Ou de mero parque de diversões, em vez de destino final com identidade própria.E antes que a Sé da Guarda apareça num desses prospectos que promovem os tais “condomínios de sonho”, o melhor é que quem assume essa competência se apresse a lançar um plano estratégico profundo para o sector do turismo, que não fique apenas pela limpeza do insuflável e pela reimpressão de uns desdobráveis.Enquanto se constroem os hotéis, os centros comerciais e os campos de golfe, é importante que se esteja já a revitalizar o centro histórico – e que alguém tenha a coragem de mandar fechar aquelas ruas! –, a criar postos de atendimento a visitantes, a reformular os horários do comércio e a incentivar a diversificação da vida nocturna.Coisas bem mais simples – e mais importantes – do que uma paragem do TGV.
«Terras da Beira»

24 Mai 2001: Má língua

Sou novo nisto, não os distingo
Contra todas as expectativas, que apontavam mesmo para a escolha de figuras da nomenklatura distrital com vista a conquistar uma autarquia de referência, o PS de Foz-Côa acabou por ir buscar um independente que, mesmo sendo natural do concelho e deputado à Assembleia Municipal, tem a vida organizada em Cascais. Não está em causa os méritos que possui, antes pelo contrário. O parece é que tudo foi acertado à última da hora e ninguém o preparou, sequer, para as especificidades de uma conferência de imprensa – a primeira em que se viu metido, como confessou – onde estiveram também os líderes locais concelhio e distrital do partido. E como se viu sentado ao lado de Fernando Cabral, achou de boa educação cumprimentá-lo e «agradecer a presença do Senhor Governador Civil». Primeira lição para um debutante: em política, o que parece é; mas às vezes é inconveniente dizê-lo em voz alta.
Tem razão mas eu quero tirá-lo do lugar
E quem foi o putativo candidato à presidência de uma câmara fronteiriça que teceu públicos elogios a um dos vereadores da equipa contra a qual se supõe que vai correr em Dezembro? Estava-se numa almoçarada, debitavam-se os discursos, e pela ordem protocolar coube a ambos encerrar a discursata. Primeiro o vereador, que disse pouca coisa, e depois o dignitário, que não disse muito mais – e o que disse já foi bastante condicionado pela conjunção «de certa maneira» – mas ainda achou inspiração numa parte da prelecção do orador anterior. Algo do género «como muito bem disse o senhor Vereador, e faço minhas as palavras dele». Uma de três: ou o dito vereador vai ser “roubado” à lista adversária; ou o suposto candidato, cujo talento para as contas é conhecido, desistiu de sê-lo; ou estas eleições, definitivamente, não vão ter graça nenhuma.
Instalação artística
Faz este fim-de-semana meio ano que o Guê foi inaugurado e, escassos dias depois, assinala-se idêntica contagem sobre a sua aparatosa queda. Quem chega sem saber da história olha para aquilo e, obediente ao princípio segundo qual a arte não se discute, acredita tratar-se de uma arrojada instalação artística em homenagem ao cunho empreendedor da Guarda, bem patente nas obras que recebem o visitante naquela entrada da cidade – há mais de um ano que se trabalha na correcção de uma curva e, logo adiante, no alargamento de duzentos metros de rua até à rotunda do hospital. Coisas simples, mas que na Guarda têm tendência para levar o tempo de muitos rosários a Santa Engrácia. Daí que um monumento quebrado e rodeado de andaimes não deixe de parecer um conjunto artístico concebido de raiz e muito a propósito. E a qualquer das candidatas à Câmara só terá vantagens em que aquilo continue como está durante mais meses. Porque é um cenário excelente para a apresentação pública das candidaturas. Só terá que variar a frase de fundo: “Estamos a construir a Guarda”, dirá uma; “Vamos erguer a Guarda”, dirá a outra; “Vamos arrancar isto daqui e construir uma Guarda nova”, dirá alguma que ainda porventura apareça e a quem o gostinho artístico não mande saudades.
«Terras da Beira»

17 de maio de 2001

17 Mai 2001: Paisagem de capelinhas

Mesmo que não passem de dissertações sobre o tema da «valorização económica dos eixos viários em zonas interiores de baixa densidade», os estudos apresentados no início desta semana na Guarda, num seminário com este título organizado pela CCRC, prova que existe, na máquina administrativa, uma reserva de pensamento estratégico que não se consubstancia nas iniciativas inócuas com que um sem número de “núcleos”, “institutos” ou “observatórios” se ocupa na busca desse desígnio polivalente a que chamam «desenvolvimento regional». O tema é sério, pois alerta-nos para uma realidade sobre a qual é raro alguém vir falar em voz alta: a existência, num futuro próximo, de novas auto-estradas a rasgar o interior poderá ser uma medalha com reverso. Tanto poderão ser meio de chegada como de partida. E os núcleos urbanos servidos ao longo do percurso tanto poderão ser lugares de paragem como de passagem. Ou seja: estar no cruzamento de duas das chamadas “vias estratégicas” não assegura por si só que a “estratégia” seja inteiramente favorável à região. A não existirem motivos para aqui vir, parar e ficar, tanto a auto-estrada da Beira Interior como a agora lançada auto-estrada da Beira Litoral e Alta não serão mais do que acessos rápidos e tendencialmente unidireccionais daqui para qualquer lado, contribuindo mais para o esvaziamento e para a desertificação do que para o apregoado progresso. Nada disto é novo. Quem é do tempo da construção do IP5 lembra-se do enfático protesto da maior parte das câmaras contra a lógica do traçado e a filosofia da sinalização. Durante anos, o “trânsito local” manteve-se como única indicação visível em cruzamentos de novas vias-rápidas e auto-estradas, fosse qual fosse o destino próximo. O que há de original naquilo que trouxe técnicos portugueses, espanhóis e franceses à Guarda é o princípio de actuação por antecipação que parece ter presidido à iniciativa da CCRC. Pelos vistos, ao mesmo tempo que se fazia o projecto de reformulação do IP5 estavam a ser desenvolvidos estudos para impedir que a auto-estrada arrase de vez com Vilar Formoso, esvaziada que está da função fronteiriça. A cinco anos de distância, pensa-se no reordenamento da vila em função da nova passagem e na sua transformação num centro de apoio, de comércio e de serviços. No caso do IP2, o estudo divulgado assenta na valorização do troço entre a Guarda e Castelo Branco, passando pela Covilhã e pelo Fundão, que em menos de três anos deverá estar pronto. É tempo suficiente, na opinião dos técnicos, para consolidar a ideia de um verdadeiro “eixo regional” que terá por base as quatro cidades e toda a riqueza natural e patrimonial que ao longo do percurso. Pensa-se na Beira Interior como uma grande área metropolitana complementar e interdependente, servida por uma centena de quilómetros de auto-estrada, em cujos extremos ficará o acesso ao resto do país e à Europa. A ideia é feliz, vista na lógica da valorização, da afirmação e da fixação. Mas se a gente pensar naquilo em que tem dado tudo o que representa complementaridade regional, fica logo de pé atrás. E muito mais, num exemplo entre vários, quando vemos ser colocado diante do novo Centro Hospitalar da Cova da Beira – que foi pioneiro na ideia de criar um grande “hospital central” ao longo do IP2, partilhando os recursos dos hospitais das quatro cidades – um cartaz de dimensões despropositadas, anunciado que o que ali funciona é o “Hospital Pêro da Covilhã”. Não, não é um grafitti anónimo, como os que corrigem a insuficiência de informação nas placas de “trânsito local”. É uma deliberação assinada da Câmara da Covilhã. Com estas e com outras, o que irá haver à beira das auto-estradas senão uma esquiva paisagem de capelinhas?
«Terras da Beira»