25 de janeiro de 2001

25 Jan 2001: Brincar aos médicos

O hospital da Guarda estreou um tão original quanto deplorável método de gestão de crise, deitando quase na rua da amargura o nome de uma pediatra que ali prestou serviço durante anos. Tudo porque Arminda Jorge decidiu dar por findo o benefício da dúvida e, passado meio ano desde o primeiro aviso, considerou esgotadas as condições para continuar a trabalhar aqui. Presta serviço desde ontem no hospital da Covilhã.
Ainda na semana passada admitia reconsiderar a decisão, caso a direcção do Sousa Martins lhe indicasse medidas concretas para resolver os problemas da pediatria. Só que em vez de lhe dar garantias o director do hospital veio a público pressioná-la e tentou, de modo inqualificável, fazer recair sobre ela o peso da culpa.
Os mesmos argumentos passaram, ainda que de forma menos brusca, para um abaixo-assinado, não da iniciativa de utentes - como seria normal nestes casos - mas do próprio conselho de administração, que assim descarregou mais uma munição contra a médica. É claro que toda a gente assinou, como é lógico que aquilo que vem lá escrito remete para a mais pura das verdades: a unidade fica, desde esta semana, reduzida à directora do serviço e a outro médico, o que equivale a dizer que num dia destes fechará de vez.
Porém, o hospital tem uma administração que, em princípio, existe para isso mesmo - para administrar, dirigir, resolver, motivar. Logo, o problema não está, seguramente, na atitude de Arminda Jorge. Nem na de outros três pediatras que também deixaram o hospital nos últimos dois anos. Refira-se que dois deles, marido e mulher, nada tinham que os ligasse a esta terra e chegaram aqui em 1997, vindos de Macau, com um projecto de vida que os afastou, por opção, dos grandes centros. Escolheram a Guarda, radicaram-se e investiram na cidade. Um ano depois bateram com a porta e mudaram-se para Viseu.
Por que razão saíram Nuno Andrade e Isabel Andrade? E o que levou Elisa Cardoso a fazer o mesmo? E que "condições" não viu Arminda Jorge agora satisfeitas?
Há sussurros de mau ambiente no serviço de pediatria. Alega-se que alguém com responsabilidades na unidade estará no centro de conflitos, tendo originado o afastamento dos clínicos. Mas será verosímil que alguém actue assim deliberadamente, sabendo que poderá acabar orgulhosamente só? Terá tal responsável em mente o afastamento de toda a "concorrência"? Se o tem, está o resultado à vista: dois dos pediatras mantêm consultas privadas na Guarda, sendo natural que Arminda Jorge o faça igualmente. Quem quer que tenha tentado espantá-los para defender uma carteira de clientes deu um tiro no pé.
Ou seja: Esta história já foi longe de mais. E o mau feitio de um chefe de serviços, seja verdadeiro ou não, representa já muito pouco, comparado, agora, com a falta de coragem de uma série de gente.
Dos responsáveis do hospital, desde logo - como se pôde ver pela forma como lidaram com a saída de Arminda Jorge.
Dos responsáveis políticos, naturalmente - porque jamais vão reconhecer aquilo que é óbvio: a Guarda perderá a pediatria, a seguir perderá a maternidade e isso que dizem de um "novo hospital" não passa de uma miragem, e eles sabem-no bem. Tanto dá que a culpa seja de Guterres ou de Cavaco, como que venha já do tempo de Salazar ou de D. Maria. A verdade é que dentro de um ano ou dois chegaremos em pouco mais de dez minutos a um hospital que está feito de raiz e tem uma dimensão que não se esgota nas necessidades da Covilhã e dos concelhos à volta. Será, evidentemente, o hospital da região. Não o reconhecendo, correremos o risco de perder até as valências onde o hospital da Guarda poderá afirmar-se como unidade de charneira - na pneumologia e na assistência primária aos sinistrados das redes viárias que aqui vão convergir, por exemplo.
E quanto à pediatria, sejamos pragmáticos: eu, como pai, só quero que me digam - e quanto mais rápido melhor - se em caso de urgência deverei fazer o caminho para a Covilhã ou para Viseu. E, claro, que em chegando a um ou a outro seja tratado como utente de direito e não como estrangeiro. Aí é que reside a solução do problema. Tudo o resto (sobretudo depois da falácia do helicóptero) é brincar aos médicos.
«Terras da Beira»

18 de janeiro de 2001

18 Jan 2001: À espera da "nova colecção"

Jorge Sampaio regressa a Belém com a vitória menos expressiva alguma vez alcançada pelos candidatos eleitos em democracia. Mesmo que resumamos a leitura dos números ao universo objectivo dos votos validamente expressos, veremos que abaixo dos 55 por cento agora alcançados só ele próprio, Sampaio, obtivera cinco anos antes 53 por cento dos votos, enquanto Mário Soares, em 1986, conquistara 51 por cento. Há que lembrar, no entanto, que ambas as eleições foram disputadas contra candidatos de vulto que, em dois tempos, fizeram o pleno da direita: Soares, corredor de fundo, calou à segunda volta o estrilho da vitória antecipada de Freitas do Amaral; e Sampaio, derrotado em 1991 por Cavaco e pela segunda maioria absoluta do PSD, vingou-se a frio e arrumou o mito por algum tempo.
Chegar desta maneira a uma reeleição já de si previsível e contra uma concorrência desapaixonada não é vencer por muitos - sobretudo depois de Soares já ter elevado a fasquia aos 70 por cento.
E há ainda outro aspecto: é que pela primeira vez o número de abstencionistas ultrapassou os votos expressos no candidato vencedor, praticamente duplicando a maioria que elegeu Sampaio. Se pouco mais de metade dos eleitores foi às urnas e se neste universo um candidato ganhou com 55 por cento, este valor acaba por se tornar num resultado subjectivo de menos de 30 por cento das opções no quadro dos cidadãos recenseados.
Jorge Sampaio podia ter sido vencedor por um voto e a legitimidade seria a mesma, não está isso em causa. Até porque a abstenção é um direito, tal como o voto. E ao contrário do que dizem alguns dos seus adversários não é tão claro que o reeleito Presidente da República tenha saído fragilizado destas eleições. Para o lugar que é, chega. Para o modo como o desempenhou, basta. Sampaio foi um resultado de si mesmo.
A histórica abstenção, se bem que confirma este teorema perverso assente na menor utilidade do voto quando a vitória de um candidato é certa (ainda assim, na reeleição de Soares em 1991 ficou dez pontos abaixo), é também reflexo de tudo o que foi a campanha.
Pior: também espelha um ano político que deu mais ao burlesco nacional do que todo o mandato anterior do governo. E aqui é que surge o verdadeiro problema: as pessoas estão descrentes no teatro da política. E estão de tal modo saturadas que já nem se dão ao trabalho de se insurgir contra os protagonistas. Encaram-nos como um mal necessário. Ou ignoram-nos, simplesmente. Vinte e seis anos a discutir política abertamente - em casa, nos cafés, nas esquinas, nos empregos - e eis-nos plantados, como nunca, no grau zero da expressão cívica, achando que "são todos iguais", que "vão para lá todos ao mesmo" e que "prometem muito mas não fazem nada".
No discurso de vitória, Sampaio admitiu que a sociedade portuguesa mudou muito e que as pessoas querem hoje uma relação diferente com a política. E confessou: "Senti que temos de procurar novas respostas para as novas perguntas e expectativas". Ficou-lhe bem reconhecê-lo numa intervenção singularmente directa e clara. Pode ser um bom prenúncio, que mais não seja para confirmar a nossa peculiar tradição de ter melhores presidentes nos segundos mandatos e de ser também nessas alturas que se revelam as "novas colecções" de líderes, mitos, salvadores e outros que tais. Oxalá.
«Terras da Beira»

11 de janeiro de 2001

11 Jan 2001: Uma campanha virtual

Como é habitual nestas alturas, o emissário já tem a cabeça a prémio. Para aligeirar o desinteresse generalizado à volta das eleições do próximo domingo há quem trate de impor a tese de que o mal não está na mensagem mas na inaptidão de quem a transmite. Ou, numa variante original (à qual Eduardo Prado Coelho, por exemplo, deu letra no "Público" da última segunda-feira), na absoluta falta de destreza da comunicação social, que mais do que transmitir ideias tem o dever de puxar por elas e não sabe, ou não quer, fazê-lo.
Quer isto dizer que em cada candidato há, supõe-se, uma doutrina em bruto, um lote claríssimo de pensamentos, uma intervenção consistente sobre os problemas concretos - nós é que não soubemos chegar lá. E eles, evidentemente, não andam nisto para aquecer nem mostram os trunfos por dá cá aquela palha.
Convenhamos que há aqui um esboço de razão. Lembremos que um ignóbil programa de televisão transformou indigentes em heróis, que um coice ocultou o anúncio da recandidatura do Presidente e que as tretas destas estrelas de pacotilha à solta dobraram a audiência do primeiro debate entre candidatos. A letargia que rodeia estas eleições é um sinal dos tempos. Os marcos, as martas e os zés-maria tiveram, numa só noite (de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro) uma audiência superior ao número total de eleitores recenseados. Sampaio apela ao voto para um mandato "com clareza" num universo habitual de pouco mais de metade daquele.
Isto é um caso muito sério e a culpa não deve ser atribuída em exclusivo ao mensageiro. Porque a verdade é que chegamos ao fim da campanha e, benevolentemente, somos capazes de juntar um punhado de frases de circunstância que poderemos tomar como indícios de algumas futuras ideias (o que não é o mesmo que ideias de futuro, sublinhe-se).
E se a nível nacional já é o que é, no contacto com as realidades locais as notícias raiam o inconsequente. Ferreira do Amaral declarou que "o interior parece não ter solução" - gratos pela lembrança, nem era preciso ter cá vindo. Jorge Sampaio exortou o grau de escolaridade dos operários de uma fábrica. Em qualquer hipermercado da Guarda encontraria bacharéis ou licenciados na caixa - e isso não seria propriamente lisonjeiro para o sistema. A uma pergunta concreta sobre o problema da pediatria respondeu com a trivialidade própria de quem não entendeu o motivo da questão - evidentemente não sabia o que se passava.
No combate entre Sampaio e Cavaco, há cinco anos, qualquer das candidaturas cumpriu localmente um papel socialmente útil, provocando o debate e envolvendo a comunidade. Agora, queimam-se penosamente os dias, distribuindo panfletos e pouco mais. Tirando a equipa de Sampaio - que teve algumas acções no fim-de-semana e quer juntar "mais de duas dezenas de vozes quentes corações cheios de boa vontade" hoje à noite para cantar as Janeiras - a de Ferreira do Amaral calou-se e outras nem chegaram a levantar a voz.
Há um lado bom nisto tudo: como estas eleições não têm lugares para distribuir, os ordenanças do costume ficaram em casa e só surgirão se houver uma ginja para colocar no cimo do bolo. Ficará, então, como registo positivo a participação cívica activa e supostamente desinteressada - por qualquer das candidaturas - de gente válida, inteligente e crítica. E por isso normalmente arredada destas coisas. Antes que arrede de novo, haja alguém que a junte para discutir a essência das coisas. Porque nesta campanha virtual a culpa não é da comunicação social. A gente tentar tenta - mas assim não vai lá.
«Terras da Beira»