11 de janeiro de 2001

11 Jan 2001: Uma campanha virtual

Como é habitual nestas alturas, o emissário já tem a cabeça a prémio. Para aligeirar o desinteresse generalizado à volta das eleições do próximo domingo há quem trate de impor a tese de que o mal não está na mensagem mas na inaptidão de quem a transmite. Ou, numa variante original (à qual Eduardo Prado Coelho, por exemplo, deu letra no "Público" da última segunda-feira), na absoluta falta de destreza da comunicação social, que mais do que transmitir ideias tem o dever de puxar por elas e não sabe, ou não quer, fazê-lo.
Quer isto dizer que em cada candidato há, supõe-se, uma doutrina em bruto, um lote claríssimo de pensamentos, uma intervenção consistente sobre os problemas concretos - nós é que não soubemos chegar lá. E eles, evidentemente, não andam nisto para aquecer nem mostram os trunfos por dá cá aquela palha.
Convenhamos que há aqui um esboço de razão. Lembremos que um ignóbil programa de televisão transformou indigentes em heróis, que um coice ocultou o anúncio da recandidatura do Presidente e que as tretas destas estrelas de pacotilha à solta dobraram a audiência do primeiro debate entre candidatos. A letargia que rodeia estas eleições é um sinal dos tempos. Os marcos, as martas e os zés-maria tiveram, numa só noite (de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro) uma audiência superior ao número total de eleitores recenseados. Sampaio apela ao voto para um mandato "com clareza" num universo habitual de pouco mais de metade daquele.
Isto é um caso muito sério e a culpa não deve ser atribuída em exclusivo ao mensageiro. Porque a verdade é que chegamos ao fim da campanha e, benevolentemente, somos capazes de juntar um punhado de frases de circunstância que poderemos tomar como indícios de algumas futuras ideias (o que não é o mesmo que ideias de futuro, sublinhe-se).
E se a nível nacional já é o que é, no contacto com as realidades locais as notícias raiam o inconsequente. Ferreira do Amaral declarou que "o interior parece não ter solução" - gratos pela lembrança, nem era preciso ter cá vindo. Jorge Sampaio exortou o grau de escolaridade dos operários de uma fábrica. Em qualquer hipermercado da Guarda encontraria bacharéis ou licenciados na caixa - e isso não seria propriamente lisonjeiro para o sistema. A uma pergunta concreta sobre o problema da pediatria respondeu com a trivialidade própria de quem não entendeu o motivo da questão - evidentemente não sabia o que se passava.
No combate entre Sampaio e Cavaco, há cinco anos, qualquer das candidaturas cumpriu localmente um papel socialmente útil, provocando o debate e envolvendo a comunidade. Agora, queimam-se penosamente os dias, distribuindo panfletos e pouco mais. Tirando a equipa de Sampaio - que teve algumas acções no fim-de-semana e quer juntar "mais de duas dezenas de vozes quentes corações cheios de boa vontade" hoje à noite para cantar as Janeiras - a de Ferreira do Amaral calou-se e outras nem chegaram a levantar a voz.
Há um lado bom nisto tudo: como estas eleições não têm lugares para distribuir, os ordenanças do costume ficaram em casa e só surgirão se houver uma ginja para colocar no cimo do bolo. Ficará, então, como registo positivo a participação cívica activa e supostamente desinteressada - por qualquer das candidaturas - de gente válida, inteligente e crítica. E por isso normalmente arredada destas coisas. Antes que arrede de novo, haja alguém que a junte para discutir a essência das coisas. Porque nesta campanha virtual a culpa não é da comunicação social. A gente tentar tenta - mas assim não vai lá.
«Terras da Beira»

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