18 de janeiro de 2001

18 Jan 2001: À espera da "nova colecção"

Jorge Sampaio regressa a Belém com a vitória menos expressiva alguma vez alcançada pelos candidatos eleitos em democracia. Mesmo que resumamos a leitura dos números ao universo objectivo dos votos validamente expressos, veremos que abaixo dos 55 por cento agora alcançados só ele próprio, Sampaio, obtivera cinco anos antes 53 por cento dos votos, enquanto Mário Soares, em 1986, conquistara 51 por cento. Há que lembrar, no entanto, que ambas as eleições foram disputadas contra candidatos de vulto que, em dois tempos, fizeram o pleno da direita: Soares, corredor de fundo, calou à segunda volta o estrilho da vitória antecipada de Freitas do Amaral; e Sampaio, derrotado em 1991 por Cavaco e pela segunda maioria absoluta do PSD, vingou-se a frio e arrumou o mito por algum tempo.
Chegar desta maneira a uma reeleição já de si previsível e contra uma concorrência desapaixonada não é vencer por muitos - sobretudo depois de Soares já ter elevado a fasquia aos 70 por cento.
E há ainda outro aspecto: é que pela primeira vez o número de abstencionistas ultrapassou os votos expressos no candidato vencedor, praticamente duplicando a maioria que elegeu Sampaio. Se pouco mais de metade dos eleitores foi às urnas e se neste universo um candidato ganhou com 55 por cento, este valor acaba por se tornar num resultado subjectivo de menos de 30 por cento das opções no quadro dos cidadãos recenseados.
Jorge Sampaio podia ter sido vencedor por um voto e a legitimidade seria a mesma, não está isso em causa. Até porque a abstenção é um direito, tal como o voto. E ao contrário do que dizem alguns dos seus adversários não é tão claro que o reeleito Presidente da República tenha saído fragilizado destas eleições. Para o lugar que é, chega. Para o modo como o desempenhou, basta. Sampaio foi um resultado de si mesmo.
A histórica abstenção, se bem que confirma este teorema perverso assente na menor utilidade do voto quando a vitória de um candidato é certa (ainda assim, na reeleição de Soares em 1991 ficou dez pontos abaixo), é também reflexo de tudo o que foi a campanha.
Pior: também espelha um ano político que deu mais ao burlesco nacional do que todo o mandato anterior do governo. E aqui é que surge o verdadeiro problema: as pessoas estão descrentes no teatro da política. E estão de tal modo saturadas que já nem se dão ao trabalho de se insurgir contra os protagonistas. Encaram-nos como um mal necessário. Ou ignoram-nos, simplesmente. Vinte e seis anos a discutir política abertamente - em casa, nos cafés, nas esquinas, nos empregos - e eis-nos plantados, como nunca, no grau zero da expressão cívica, achando que "são todos iguais", que "vão para lá todos ao mesmo" e que "prometem muito mas não fazem nada".
No discurso de vitória, Sampaio admitiu que a sociedade portuguesa mudou muito e que as pessoas querem hoje uma relação diferente com a política. E confessou: "Senti que temos de procurar novas respostas para as novas perguntas e expectativas". Ficou-lhe bem reconhecê-lo numa intervenção singularmente directa e clara. Pode ser um bom prenúncio, que mais não seja para confirmar a nossa peculiar tradição de ter melhores presidentes nos segundos mandatos e de ser também nessas alturas que se revelam as "novas colecções" de líderes, mitos, salvadores e outros que tais. Oxalá.
«Terras da Beira»

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