22 de fevereiro de 2001

22 Fev 2001: Má língua

É aqui a feira do queijo?
A visita de Jorge Coelho à Guarda foi tratada pelas forças vivas com a pompa e o respeitinho de que é merecedor um super-ministro, peso-pesado, etc. Eleitos e nomeados tiveram tolerância de ponto na manhã de terça-feira, com três autocarros para as obras do IP2, estrado de discursata e, claro, mesa de petiscos. Tanto aparato para uma deslocação anunciada de véspera levou a especular sobre a grandeza de possíveis obras que Coelho viria a anunciar, em complemento às futuras auto-estradas, do género um aeroporto em Vila Fernando com interface rodo-ferroviário, túneis em estrela na Serra da dita, um metropolitano de superfície entre a Guarda e a Covilhã ou um TGV no separador central do novo IP5. Mas não. O ministro do Equipamento nem sequer foi à bola com as perguntas dos jornalistas. Limitou-se a dizer que veio "para ver", como qualquer mirone. Quanto ao mais, que colocassem os problemas "a quem tem obrigação" porque "não sou técnico, sou ministro". Pairou no ar estranheza: afinal, o que veio ele fazer? A Má-língua, que faz escutas, está em condições de revelar que não passou tudo de um mal-entendido, em resultado desta chamada feita na segunda-feira para a Guarda:
- Está? Fernando? É Coelho. Estás porreiro?
- Ora viva! Então, o que mandas?
- Na realidade até mando mais do que tu. Aquilo em Viseu não esteve nada bem. O Esmeraldo...
- ... Ò pá!, tu não nem me fales desse gajo! Sabes que agora...
- ... Está bem, está bem, depois falamos disso! Ouve lá: as feiras do queijo são agora, não são?
- Pois são. Queres cá vir?
- Ora assim é que é falar, sim senhor! Amanhã vou para aí.
- Mas amanhã...
- Mas amanhã, o quê? Convoca mas é a rapaziada. Isso é costume ser de manhã, não é?
- ...
Mostrar o quê?
O aparato da visita foi inversamente proporcional à informação fornecida sobre as duas obras, IP2 e IP5. Como foi tudo preparado em cima da hora, ninguém entregou qualquer documentação, ficando sem se saber qual vai ser o traçado da futura auto-estrada entre Aveiro e Vilar Formoso e, visto que se trata de uma via de raiz, onde vão ficar os acessos à Guarda. De tudo sobraram promessas para um dia destes, até porque a visita era ao dois e não ao cinco. Mesmo assim, Jorge Coelho só por unha negra percebeu onde estava: já os autocarros chegavam à Benespera quando alguém se lembrou de ao menos pendurar mapas que dessem a noção mínima das coisas. Foi tudo quanto se arranjou à pressa - uma planta de obra e um fugaz "estamos aqui, ali é a Guarda e etc"
No terreno
Toda o nomenklatura foi atrás do ministro, como compete. Fernando Girão não faltou à chamada, mas o lugar que ocupou na lista de precedências foi aparentemente esquecido pelos organizadores da caravana: no regresso à Guarda, o director da sub-região de saúde ia ficando a pé. Quem o viu ainda aventou a possibilidade de Girão estar propositadamente no terreno em missão técnica - a medir a qualidade do traçado que ligará a Guarda ao hospital da Covilhã ou a debruçar-se sobre os níveis de radiação da zona da Fonte Boa, onde também há jazidas de urânio. Afinal, tinha perdido mesmo a carreira. Valeu-lhe a última camioneta, a dos jornalistas.
«Terras da Beira»

22 Fev 2001: Um governo em cada terra

Vinte e tal anos passados, os partidos descobrem que a lei eleitoral para as câmaras está gasta e defeituosa. Tocam então a reunir, na mira de uma solução que devolva rapidamente a dignidade à função autárquica. E fazem-no com uma pressa invulgar, quando o que está em causa é uma mudança de fundo que vai mexer com quase tudo, pondo à prova, inclusivamente, a própria maturidade do sistema. Ninguém discordará de que o actual modo de formar executivos deve ser revista. Quando chegam ao sufrágio, as listas são o resultado de uma longa e conturbada negociação de nomes e posições que habitualmente tem mais em conta a gestão de compromissos dentro dos partidos do que o equilíbrio de sensibilidades ou a procura de nomes com qualificação específica para cada área, como em teoria devia acontecer. Vai-se a votos e o método de contagem atribui um número de lugares proporcional na vereação, sendo certo que designar por executivo o conjunto dos eleitos é mera figura de estilo. O poder concentra-se no presidente e num núcleo próximo de vereadores provenientes na mesma lista. É desse núcleo que emergem, normalmente, tanto os delfins como os separatistas. Por isso o presidente tem, nos quatro anos de mandato, a preocupação acrescida de regular estas correntes, pois é entre os seus que costuma surgir a verdadeira oposição. A oposição eleita, por essa altura, ou está convertida (como acontecia nos mandatos de Abílio Curto) ou já se esboroou nas substituições (veja-se exemplo do dream team de Carlos Andrade, do qual já desistiram quatro). Existe depois a Assembleia Municipal, que em rigor devia existir antes porque é o órgão autárquico por excelência. A verdade é que esta tácita inversão de factores tem fundamento nos costumes: a Assembleia é vista instintivamente pela Câmara como órgão menor, ao qual se recorre por imperativo de lei mas onde o jogo está ganho à partida, uma vez que a composição dos dois órgãos reflecte a mesma proporcionalidade sobre sentidos de voto raramente divergentes. O resultado está à vista numa sessão ordinária: absentismo; períodos antes da ordem do dia enormes e onde raramente se chega a conclusão alguma; ausência de debate profundo. Pela nova lei, um presidente de câmara será uma espécie de chefe de governo eleito com base naquilo a que vulgarmente se chama uma plataforma eleitoral. Deixará de ser necessário apresentar os candidatos a vereadores pela ordem exacta, cabendo ao primeiro da lista mais votada para a assembleia municipal a missão de formar o executivo para a câmara. Surge aqui um ponto que será do agrado das duas possíveis candidatas à Câmara da Guarda, pela possibilidade que lhes dá de resolverem um problema que ambas têm: Ana Manso em formar lista; e Maria do Carmo Borges em mexer na que tem. À parte isso, PS e PSD apressam-se a negociar à volta de divergências superficiais que persistem nas respectivas propostas: um quer executivos inspirados o mais possível na figura de um governo, onde o mais votado indicará todos os membros; o outro defende um sistema que atribuirá ao primeiro da lista vencedora a possibilidade de escolher pelo menos metade dos vereadores. Em substância, ambos convergem. Até no papel menor que continua a ser atribuído à Assembleia Municipal, em contraste com o aparente princípio de democracia de base parlamentar que querem impor à gestão dos municípios. A Assembleia continuará a funcionar em part-time e à cadência sazonal como até agora, e para destituir o presidente da Câmara precisará de dois terços dos votos (e não da maioria absoluta), sendo que, ao fazê-lo, provocará eleições - não será possível designar um executivo intercalar. Ao pretenderem corrigir alguns defeitos evidentes do sistema, os dois partidos deixam outros como estão. É por isso que a mudança pretendida (para mais com toda a pressa manifestada, ao ponto de nem ser claro se a reforma é já para valer para as próximas eleições) tem suscitado profunda estranheza em quase todos os meios, pelo perigo de potenciar e perpetuar o caciquismo ou, pior, de ver a vida política local definitivamente monopolizada. E, para isso, já basta o que basta.
«Terras da Beira»

1 de fevereiro de 2001

1 Fev 2001: Tudo na mesma

Com uma autoridade que lhe será apenas reconhecida quando aos actos políticos for aplicada a mesma norma que faz prescrever os crimes cometidos há mais de cinco anos, o PSD da Guarda pediu a demissão do conselho de administração do hospital, invocando o problema da pediatria. Em missão estritamente partidária e não de Estado - por muito que uma e outra coisa tendam a confundir-se -, Fernando Cabral veio responder publicamente pela honra e competência da dita administração. Há coisas na vida política local que são grotescamente ingénuas; e há outras que são francamente irritantes. A história da pediatria tem dado para ambas. A chegada do helicóptero de emergência médica enquadrou-se bem na primeira, quando dirigentes distritais tanto do PS como do PSD saltaram primeiro para a pista em busca dos louros (os socialistas, aliás, fizeram-no no sentido literal, tendo chegado a improvisar uma conferência de imprensa junto do aparelho) mas logo a seguir, quando se descobriu que tudo não passava de uma manha, assobiaram para o ar como se nada tivesse sido com eles. Irritante é esta ânsia que ambos têm por marcar posição no exausto diz-tu-direi-eu trazido à cena por tudo e por nada, e que faz da Guarda o lugar onde provavelmente se banalizou mais a figura da conferência de imprensa. Para depois, tudo espremido, dar coisa nenhuma. E, pior do que isso, ficar no ar a ideia de que estiveram a fazer-nos passar por tolos. Porque, no fundo, nesta história como noutras, ninguém está para se maçar muito para além do limite caseiro. Os deputados do PSD produzem em Lisboa requerimentos politicamente correctos, longe do tom aparatoso que usam na Guarda; e os do PS cumprem o patriótico papel de alicerce da maioria, reagindo aos problemas do distrito ao compasso da mediatização - como fez Vítor Moura, que confessou ter sabido pela televisão que chovia dentro do hospital de Seia, cidade onde passa fins-de-semana. Fernando Cabral também não veio defender a administração do hospital da Guarda na qualidade de governador civil nem em nome dos poderes de representação que o cargo lhe confere. Fê-lo como líder distrital do PS, na sede do partido, num cenário despido de quaisquer compromissos formais. O que, evidentemente, não foi inocente. Porque é claro que o Partido Socialista tem que se solidarizar com José Guilherme e com todos os administradores que já nomeou e jamais irá assumir culpas no estado a que chegaram as coisas, remetendo para pecados velhos a estagnação deste hospital. Cabral não se comprometeu como governador civil porque assim lho recomendaram ou porque, sabendo ele já muito e sendo tudo menos incauto, pretende abrir caminho para que a ministra da Saúde, que tem prometida viagem ao distrito, venha tratar das coisas à maneira dela, sobrepondo-se à compreensão que forças vivas locais têm para com os responsáveis do hospital em geral e da pediatria em particular. Que, diga-se, estão a pôr-se mesmo a jeito.
«Terras da Beira»

1 Fev 2001: Má Língua

Larguem o queijo!
A certificação do Queijo da Serra foi até há pouco tempo da competência de uma associação de produtores da região onde o dito é feito. Era esta entidade que colocava no cimo do produto o precioso selo de garantia, indispensável para que os consumidores de Lisboa o pudessem levar dos hipermercados por cinco e seis contos o quilo à confiança - sabendo, como sensibiliza o anúncio, que o leite jamais terá sido transportado no caldeiro do pastor e que a coalhada jamais terá sido amassada por mãos descomplexadas em cozinha de fumeiro. Por via de um regulamento comunitário (o mesmo que obriga a substituir o tisnado por ladrilhos e o caldeiro por leiteiras assépticas), as partes interessadas não podem continuar a garantir a genuinidade daquilo que produzem. A Faprossera acabou. Quem vai, agora, ter essa altíssima responsabilidade? É tudo muito simples: um agrupamento de produtores assegura a boa origem do leite e do cardo; e uma empresa privada de Castelo Branco colocará o holograma na crosta. A solução parece assentar num utilíssimo princípio de equidistância em relação aos interesses instalados. Se resultar, o queijo de Niza irá a seguir ser certificado no Vale do Côa. E o queijo chulé da Beira Baixa passará a ser atestado algures na recta da Lajeosa. Ficarão para uma segunda fase a xerovia da Covilhã, a cereja do Fundão, os biscoitos de Caria e o chouriço mouro de Penamacor.
Fora de garantia
O castelo de Marialva deu de si; o do Sabugal ameaça ruína; a muralha da Guarda também não está famosa. Terão os engenheiros dos tempos da fundação e do povoamento feito isto de propósito, concedendo às obras um prazo de garantia propositadamente coincidente com o fim do milénio? Não terão os principiadores da portugalidade confiado em que a gente iria dar conta do recado até depois do ano 2000? O que nos vale é o Guê. O tal - para oitocentos anos e mais.
O trovador de Ana Manso
Tanto demorou o PS - quase uma semana - a reagir à conferência de imprensa do PSD onde foi pedida a demissão da administração do hospital da Guarda que no dia em que o fez apanhou a oposição completamente desprevenida. Ao contrário do que é costume, não veio a seguir nenhuma convocatória para novo encontro com os jornalistas (e a gente só tem que agradecer, de resto). Na pressa, Ana Manso parece ter apenas logrado recorrer a uma arma que pelos vistos mantinha reservada para estas aflições: algumas horas depois da conferência de imprensa de Fernando Cabral chegava às redacções um comunicado sobre "A doença do Partido Socialista" e os "sete pecados cometidos pela gestão socialista" na saúde. É um poema - e veio sem timbre nem assinatura, obrigando, por via de dúvidas, a confirmar a sua veracidade junto da presidente da distrital dos social-democratas. De duas uma: ou Ana Manso foi à gaveta e repescou nos originais dos discursos dos antecessores (indo, digamos, aos arquivos de há dez anos) ou tem um trovador já a trabalhar para as frases-chave com que vai tentar deitar abaixo a maioria socialista da Câmara. Isto promete.
«Terras da Beira»