1 de fevereiro de 2001

1 Fev 2001: Má Língua

Larguem o queijo!
A certificação do Queijo da Serra foi até há pouco tempo da competência de uma associação de produtores da região onde o dito é feito. Era esta entidade que colocava no cimo do produto o precioso selo de garantia, indispensável para que os consumidores de Lisboa o pudessem levar dos hipermercados por cinco e seis contos o quilo à confiança - sabendo, como sensibiliza o anúncio, que o leite jamais terá sido transportado no caldeiro do pastor e que a coalhada jamais terá sido amassada por mãos descomplexadas em cozinha de fumeiro. Por via de um regulamento comunitário (o mesmo que obriga a substituir o tisnado por ladrilhos e o caldeiro por leiteiras assépticas), as partes interessadas não podem continuar a garantir a genuinidade daquilo que produzem. A Faprossera acabou. Quem vai, agora, ter essa altíssima responsabilidade? É tudo muito simples: um agrupamento de produtores assegura a boa origem do leite e do cardo; e uma empresa privada de Castelo Branco colocará o holograma na crosta. A solução parece assentar num utilíssimo princípio de equidistância em relação aos interesses instalados. Se resultar, o queijo de Niza irá a seguir ser certificado no Vale do Côa. E o queijo chulé da Beira Baixa passará a ser atestado algures na recta da Lajeosa. Ficarão para uma segunda fase a xerovia da Covilhã, a cereja do Fundão, os biscoitos de Caria e o chouriço mouro de Penamacor.
Fora de garantia
O castelo de Marialva deu de si; o do Sabugal ameaça ruína; a muralha da Guarda também não está famosa. Terão os engenheiros dos tempos da fundação e do povoamento feito isto de propósito, concedendo às obras um prazo de garantia propositadamente coincidente com o fim do milénio? Não terão os principiadores da portugalidade confiado em que a gente iria dar conta do recado até depois do ano 2000? O que nos vale é o Guê. O tal - para oitocentos anos e mais.
O trovador de Ana Manso
Tanto demorou o PS - quase uma semana - a reagir à conferência de imprensa do PSD onde foi pedida a demissão da administração do hospital da Guarda que no dia em que o fez apanhou a oposição completamente desprevenida. Ao contrário do que é costume, não veio a seguir nenhuma convocatória para novo encontro com os jornalistas (e a gente só tem que agradecer, de resto). Na pressa, Ana Manso parece ter apenas logrado recorrer a uma arma que pelos vistos mantinha reservada para estas aflições: algumas horas depois da conferência de imprensa de Fernando Cabral chegava às redacções um comunicado sobre "A doença do Partido Socialista" e os "sete pecados cometidos pela gestão socialista" na saúde. É um poema - e veio sem timbre nem assinatura, obrigando, por via de dúvidas, a confirmar a sua veracidade junto da presidente da distrital dos social-democratas. De duas uma: ou Ana Manso foi à gaveta e repescou nos originais dos discursos dos antecessores (indo, digamos, aos arquivos de há dez anos) ou tem um trovador já a trabalhar para as frases-chave com que vai tentar deitar abaixo a maioria socialista da Câmara. Isto promete.
«Terras da Beira»

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