1 de fevereiro de 2001

1 Fev 2001: Tudo na mesma

Com uma autoridade que lhe será apenas reconhecida quando aos actos políticos for aplicada a mesma norma que faz prescrever os crimes cometidos há mais de cinco anos, o PSD da Guarda pediu a demissão do conselho de administração do hospital, invocando o problema da pediatria. Em missão estritamente partidária e não de Estado - por muito que uma e outra coisa tendam a confundir-se -, Fernando Cabral veio responder publicamente pela honra e competência da dita administração. Há coisas na vida política local que são grotescamente ingénuas; e há outras que são francamente irritantes. A história da pediatria tem dado para ambas. A chegada do helicóptero de emergência médica enquadrou-se bem na primeira, quando dirigentes distritais tanto do PS como do PSD saltaram primeiro para a pista em busca dos louros (os socialistas, aliás, fizeram-no no sentido literal, tendo chegado a improvisar uma conferência de imprensa junto do aparelho) mas logo a seguir, quando se descobriu que tudo não passava de uma manha, assobiaram para o ar como se nada tivesse sido com eles. Irritante é esta ânsia que ambos têm por marcar posição no exausto diz-tu-direi-eu trazido à cena por tudo e por nada, e que faz da Guarda o lugar onde provavelmente se banalizou mais a figura da conferência de imprensa. Para depois, tudo espremido, dar coisa nenhuma. E, pior do que isso, ficar no ar a ideia de que estiveram a fazer-nos passar por tolos. Porque, no fundo, nesta história como noutras, ninguém está para se maçar muito para além do limite caseiro. Os deputados do PSD produzem em Lisboa requerimentos politicamente correctos, longe do tom aparatoso que usam na Guarda; e os do PS cumprem o patriótico papel de alicerce da maioria, reagindo aos problemas do distrito ao compasso da mediatização - como fez Vítor Moura, que confessou ter sabido pela televisão que chovia dentro do hospital de Seia, cidade onde passa fins-de-semana. Fernando Cabral também não veio defender a administração do hospital da Guarda na qualidade de governador civil nem em nome dos poderes de representação que o cargo lhe confere. Fê-lo como líder distrital do PS, na sede do partido, num cenário despido de quaisquer compromissos formais. O que, evidentemente, não foi inocente. Porque é claro que o Partido Socialista tem que se solidarizar com José Guilherme e com todos os administradores que já nomeou e jamais irá assumir culpas no estado a que chegaram as coisas, remetendo para pecados velhos a estagnação deste hospital. Cabral não se comprometeu como governador civil porque assim lho recomendaram ou porque, sabendo ele já muito e sendo tudo menos incauto, pretende abrir caminho para que a ministra da Saúde, que tem prometida viagem ao distrito, venha tratar das coisas à maneira dela, sobrepondo-se à compreensão que forças vivas locais têm para com os responsáveis do hospital em geral e da pediatria em particular. Que, diga-se, estão a pôr-se mesmo a jeito.
«Terras da Beira»

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