1 de março de 2001

1 Mar 2001: Um problema de imagem

Contrariando as piores conjecturas, o espectáculo "Guarda Milénio" fez a travessia da cidade com êxito e confirmou a velha teoria dos males que vêm por bem. Pode ter-se perdido a festa da passagem do ano mas ganhou-se uma celebração alegórica que acabou por assentar perfeitamente à época e levou milhares de pessoas para as ruas - as de cá (ainda espavoridas pelo estridente grito "vem para rua, Guarda!" lançado, sem se saber que ia ser em falso, há dois meses) e as de fora. Porque um dos melhores registos deste cortejo foi o terem-se-lhe associado também largas centenas de visitantes, de entre aqueles que durante o fim-de-semana grande esgotaram a oferta hoteleira da cidade - e praticamente a de toda a região - para ver a neve. Acabaram por constatar, para surpresa deles, que um desfile de Entrudo não precisa de saracotear cus e mamas de importação nem de empoleirar zé-marias e outros indigentes. Basta agarrar em algumas das nossas mais genuínas tradições e mascará-las para a folia (e ter uma apurada amplificação de som, que foi o que faltou). A surpresa, sublinho o termo, resultou da fraca, quase nula, promoção que este evento teve. Não digo localmente, onde a audiência estava certa, mas a nível nacional. Com muita gente no caminho para a Serra e outra tanta no itinerário das feiras do queijo, dos enchidos e do azeite, mais valia que um cartaz inédito e de grande qualidade não tivesse sido descoberto apenas - e por acaso - por alguns. A Câmara da Guarda tem, no que toca à divulgação daquilo que faz, ideias muito próprias, minimalistas, que seguem uma doutrina de origem imprecisa, e quase intocável, à luz da qual os fracassos de imagem acontecem regra geral por culpa do mensageiro e nunca por ignorância ou por inaptidão (por mais evidentes que às vezes se tornem) dos autores da mensagem. É claro que tornar a cidade num destino central, em vez de periférico, para um fim-de-semana como o do Carnaval não passa exclusivamente pelo marketing, nem é responsabilidade única da autarquia. Os mesmos turistas da neve que conseguiram registar todo o cortejo do "Guarda Milénio" nas suas reluzentes câmaras de vídeo não terão, em contrapartida, levado imagens da Sé, nem das igrejas, nem do Museu - a não ser as do lado de fora. Nem terão conseguido entrar numa loja no sábado à tarde. E ter-se-ão visto e desejado para encontrar um restaurante que figure nos roteiros aberto no domingo (ou mesmo no feriado de Carnaval). Um forasteiro que aqui chegue em "escapadinha" arrisca-se a andar de um lado para o outro, sem rumo. Ou mete-se à Serra e regressa apenas para dormir. Por isso o mínimo que exigirá é que o calendário das matanças de galo seja afixado a tempo e horas - e em mais locais do que os do costume.
«Terras da Beira»

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