15 de março de 2001

15 Mar 2001: O crepúsculo da paixão

Foz Côa é como aquelas paixões que de começo se vivem arrebatadamente e depois, com o tempo e os contratempos, vão esmorecendo até ao ponto em que nenhum dos amantes consegue sequer olhar o outro. É verdade que começou por ser uma história comovente e corajosa, como o são quase todos os romances que resistem ao preconceito. Mas passados nem sete anos está à beira de terminar numa separação litigiosa. Ia já um arranjo por conveniência em vias de facto quando veio a nova maioria resgatar a noiva, fazendo-lhe juras de amor eterno e prometendo-lhe acautelar o dote recém-descoberto. Acautelou-o, de facto - e nunca mais lhe ligou. E hoje somos levados a esta triste conclusão: tivessem as gravuras do Vale do Côa sido encontradas noutra época que não aquela - o cavaquismo estava em agonia e o PS guindava-se ao poder num clima de paixão e diálogo - e jamais a promessa da suspensão da construção da barragem teria sido feita. Ou, mesmo que o fosse, acabaria por ceder à veneração da obra deslumbrante que ia quase a meio.
A verdade é que vão passados todos estes anos e o Côa resume-se a nada: o vale arqueológico é citado como sétima maravilha mas pode ser visitado apenas numa ínfima parte; o reordenamento paisagístico à volta da barragem ainda nem começou; os espaços museológicos não saíram do papel; o investimento em infra-estruturas de apoio ao turismo foi praticamente nulo; e as quantias anunciadas para o conjunto dos projectos têm vindo a minguar consideravelmente, de ano para ano, à cadência do abandono dos planos. A intervenção organizada dos poderes resumiu-se a dois modelos, qual deles o mais controverso: um programa operacional de financiamento conduzido a partir de Lisboa, que caiu de maduro e sem deixar obra relevante; e uma empresa de investimento local, gerida pela Câmara, sobre a qual o Tribunal de Contas acaba de fazer recair graves acusações de "quase total paralisia", recomendando até a sua "dissolução". Uns e outros, poder central e poder local, já deram o seu contributo para o lamentável que esta história é.
As paixões terminam assim - por desinteresse, por descuido, por engano. Infelizmente, tem-se a sensação de no caso do Vale do Côa não haverá muito mais para fazer, tal o estado a que deixaram chegar as coisas. Na melhor das hipóteses, tudo seguirá o movimento próprio das águas em repouso: irá naturalmente.
«Terras da Beira»

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