29 de março de 2001

29 Mar 2001: Seja bem-vindo, Senhor Bispo

Num feito invulgar, o bispo da Guarda iniciou - e oxalá o não tenha decidido por uma vez sem exemplo - uma espécie de Prelatura Aberta, menos centrada no carácter evangélico da função e mais atenta aos problemas concretos da sociedade. Tudo foi incomum na deslocação de D. António dos Santos a Vale de Estrela na passada Sexta-feira: desde a antecipada difusão do programa, passando pela menção expressa de um encontro com a imprensa, para perguntas e respostas, e acabando no aprazível detalhe de uma ida à fábrica de enchidos da aldeia, isto em pleno sexto dia de semana quaresmal (não há, porém, relatos de que D. António tenha cometido transgressão, nem isso interessa agora). A um tal milagre não terá sido alheia a persuasão do pároco de Vale de Estrela, um jovem comunicador, de espírito desempoeirado e acção de mérito na imprensa diocesana. Até por isso, este acontecimento ganha uma dimensão de novidade que transcende a simples iniciativa de uma visita, tendo em conta que a política episcopal, ao longo dos anos, nunca foi propriamente condescendente perante a originalidade.
Um bispo, lá por sê-lo, não deixa de ser um cidadão no uso pleno dos seus direitos, devendo intervir nas questões da sociedade para a qual também trabalha. É claro que, justamente por ser dirigente de uma confissão religiosa, toda a gente compreende e aceita sem reservas que deva limitar as suas intervenções públicas ao contexto de uma certa magistratura de amparo, distanciando-se em relação à desordem mundana ou aos enredos da pequena política. Já custa, porém, a aceitar que um prelado cruze uma missão de mais de vinte anos, numa região periférica e prejudicada, sem quase lhe ter sido ouvida uma intervenção crítica sobre uma decisão política ou a ausência dela, uma lei injusta ou a falta de justiça no global. Para mais, com a responsabilidade acrescida que decorre do seu papel na Igreja e na sociedade.
Desta vez, porém, D. António dos Santos falou. E prometeu manter um contacto mais estreito com a vida real e o sofrimento as pessoas. Foi muito claro nas críticas à situação da saúde no distrito da Guarda, lembrando que a existência de um médico para cada mil habitantes é três vezes inferior à média nacional. E disse sem rodeios que isso se repercute no bem-estar das pessoas e que estas devem ser olhadas de melhor maneira. Sendo quem é, está pelo menos a salvo de ser processado por uma administração hospitalar ou de ver exigida a sua demissão por um qualquer desses cromos que costumam falar em nome das comissões políticas.
É claro que, sendo grande a esmola, logo o pobre desconfia. E é preciso não esquecer que o bispo da Guarda intervém numa altura em que outros bispos criticam duramente a actuação do Governo no caso de Entre-os-Rios. Isto quando vai rubra a polémica sobre as relações entre o Estado e a Igreja - de que a alteração à lei da liberdade religiosa é apenas um exemplo, a par das mudanças no papel atribuído à instituição no ensino e da revisão protocolar da sua presença nas cerimónias oficiais. E depois de a Universidade Católica ter sofrido um corte de meio milhão de contos no subsídio público.
Sejamos, porém, positivos. É possível que D. António dos Santos não esteja a ler por um catecismo de circunstância e que a postura mediática que agora fundou seja um sinal dos tempos. Afinal, esta é a era da informação, onde até o Papa considera imprescindível a difusão do Evangelho pela Internet e o Vaticano informa que tem já em vista um patrono - Santo Isidoro de Sevilha - para todos os internautas e utilizadores de computador.
Se for por tão puras razões, o mínimo que crentes e não crentes podem dizer é: seja bem-vindo, Senhor Bispo. Porque consciências com carisma, já esta cidade as tem. Só não tem, e bem falta nos fazem, figuras carismáticas.
«Terras da Beira»

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