8 de março de 2001

8 Mar 2001: Pobres somos nós, afinal

O desaire de Cavaco começou numa ponte - negada entre um domingo e uma terça-feira de Carnaval - e terminou noutra, obstruída por um buzinão, sobre o Tejo. Agora é Guterres que começa a ver a própria desgraça vir ao de cima no leito onde jazem dezenas de vidas. Sejamos claros: imagens de tragédia em grande escala, horror de corpos perdidos em lugar incerto e impotência por tanta falta de meios eram, até à madrugada de segunda-feira, factos que retínhamos das notícias que nos chegavam de países distantes e pobres. Tão pobres que às vezes parecia que todo o mal do mundo lhes acontecia. De repente acordámos e percebemos que a catástrofe ocorreu dentro de fronteiras e deixou-nos entregues à nossa própria penúria - política, estrutural, técnica, cultural.
A demissão de Jorge Coelho foi um acto de lucidez política - e, não sendo já pouco, não foi mais do que isso. Dizer que foi prova de dignidade é cair na redundância. Todo o serviço público e todo o exercício de poder contêm premissas de responsabilidade. Estávamos era convencidos do contrário, depois dos burlescos episódios que este Governo nos deu a assistir. Dá uma certa tranquilidade verificar que o exemplo veio de cima, de um pilar mestre da ponte socialista, de um super ministro, de um criativo bonacheirão que encheu o país com o dito "aqui há obra", mesmo quando não havia. Foi um acto de lucidez porque anteviu e neutralizou uma inevitável discussão política sobre as culpas, que seria absolutamente insuportável num dia de luto. Já bastava, por lamentável, a insensibilidade demonstrada por um dos seus secretários de Estado, o tal Luís Parreirão, nas primeiras declarações que fez. E também era escusada - mas para tal era preciso que alguém tivesse mão no bando - a boçalidade que algumas federações do PS evidenciaram, quando se propuseram homenagear o ex-ministro, ainda os mortos jaziam nas profundezas do Douro. Por tudo isto, oxalá a atitude de Jorge Coelho perdure como padrão de conduta. Mesmo que daqui a tempos saibamos que não foi mais do que, afinal, a sorte grande para a sua ascensão política.
E agora, que haja mesmo obra. A única homenagem possível aos que perderam a vida em Entre-os-Rios é evitar que mais tragédias ocorram, em tantos lugares que por este país fora estão em igual ou maior risco - sejam pontes, margens ou estradas. Em grande parte pela genuína incultura política e técnica que leva a fechar os olhos a uma realidade: é que um desenvolvimento económico não sustentado na preservação do ambiente e dos recursos naturais pode, a prazo, conduzir à ruína. A desordem parece irreversível e, como escrevia António Barreto há dias no "Público", neste pobre país, quando chove, "as tuas terras desprendem-se, as tuas montanhas deslizam, as tuas cidades desmoronam, os teus vales inundam-se e a tua planície empapada fica estéril. É nesta altura que revelas a desigualdade e que mais massacras os pobres". Mais do que a chuva ou o sol, "é o meu pobre país que está desajustado", concluía. Diferente do país de fachada, do tal país das auto-estradas e do pelotão da frente, o pobre país é este - o país real.
«Terras da Beira»

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