26 de abril de 2001

A homenagem

Foi feito um homenageado chamado Albino Bárbara. O homem encontra-se na meia-idade, não lida com padecimentos aziagos, ainda não passou à reforma e não se lhe conhece, dos tempos mais recentes, acção profissional ou intelectual proeminente. Ainda assim, organizaram-lhe, e ele aceitou, tal veneração. Tudo, ao que parece, em nome da solidariedade que pretensamente lhe era devida, por uma razão que meia centena de presentes entendeu ser tão admissível como qualquer das normalmente invocadas neste género de mesuras: tratava-se, afinal, do seu abandono do Partido Socialista, ao fim de mais de duas décadas de militância, ditado pela frustração de nada lhe ter tocado na partilha de jobs pelos boys.

Mas quem é Albino Bárbara? É um quadro superior? É um técnico habilitado? É um investigador reputado? É um especialista em progressão? Para o caso, ele foi apenas um militante partidário com certas aptidões, condição que calculou suficiente para o terem nomeado dirigente distrital de um entre quatro ou cinco possíveis organismos do Estado. Como o não fizeram, declarou-se injustiçado e abandonou o partido.Fosse esta uma história com moral e em vez da homenagem estaria ele a ser alvo de uma solene reprimenda, para que nunca esquecesse que há dois valores básicos que distinguem as democracias adultas: a política não é um meio de chegar ao tacho; os dirigentes públicos devem ser pessoas descomprometidas, escolhidas pelo perfil técnico adequado.O pior é que a noção do exercício de lugares públicos tem vindo a ser nivelada muito por baixo desses princípios. A democracia abriu a política aos talentos mas, à medida que nos afastamos dos centros ancestrais do poder, vemos que acabou por fechá-la a toda a gente excepto às pessoas mais dependentes e menos livres – os tais carreiristas. Se em Lisboa há sempre lugares de consolação para as levas de suplentes (comissões, fundações, institutos ou empresas públicas), no interior os lugares por nomeação são racionados – já que os mais influentes são eleitos e precisam ter nome, rosto, programa, discurso, campanha e sufrágio.Vistas assim as coisas, nem chega a ser uma ironia – é mais um infortúnio – reconhecer que Albino Bárbara está carregado de razão: afinal, ele não seria pior nem melhor do que muitos dos que lograram, uns hoje à custa do cartão do PS como outros no passado a pagar quotas ao PSD, sentar-se na cadeira de um gabinete do Estado.Observe-se algumas das personagens que ocupam a cena: pode contar-se com elas para defenderem em situações difíceis o que acham justo e necessário? Com a esmagadora maioria não pode, porque é invariavelmente unânime na admiração pelo poder estabelecido. Não falam nem se mexem, com medo que o “milagre” acabe. E muitas estariam a fazer o quê, se não fossem políticos?O que é mais estranho nesta extraordinária lógica sedimentada nem é tanto a incrível perenidade do clientelismo e, nalguns casos, da inaptidão – dos quais Albino Bárbara, tendo sido afastado de todos os lugares por que teve ânsias, ficou pelo menos livre de se ver, com ou sem razão, acusado. É uma coisa bem mais perturbadora: se ele (e outros como ele) pensa aquilo sobre si próprio, o que será que pensa, de verdade, acerca dos outros – de nós todos, vulgares cidadãos que estivemos para tê-lo como dirigente público?
«Terras da Beira»

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