31 de maio de 2001

31 Mai 2001: Mas isso agora não interessa nada

Por ter vivido sete anos nos antípodas a Oriente, tive o azar – ou a sorte – de não ter assistido à metamorfose de costumes e mentalidades provocada pela abertura dos canais privados de televisão. A caixa que mudou o mundo também alterou profundamente este país na última década – para o bem, nuns casos; e a raiar o estrago, noutros. Vivendo longe, só me apercebi de estar a perder o melhor da festa quando assisti, na inominável RTP Internacional, às rábulas do Herman José sobre os programas da «nova vaga», do Big Show Sic ao Perdoa-me!, de All You Need Is Love às Cenas de um Casamento. Confesso que achei as caricaturas exageradas e, por tira-teimas, pedi a um amigo que me gravasse algumas «versões originais». Ao vê-las, tive que duvidar do talento do consagrado jogral dos hábitos da nação: nem ele conseguira, diante de tais protótipos, arrancar mais do que sonsas imitações.O termo tele-lixo acabava de entrar no vocabulário corrente e, então como agora, muito se disse e escreveu sobre o estar a televisão «a bater no fundo» e o ser urgente impor formas de «auto-regulação». Mas tal como a água que corre nos rios deposita resíduos que, uma vez assentes, se transformam em componentes geológicos sólidos e acabam por modificar a paisagem, também os novos modelos que as enxurradas da televisão trazem acabam por ser sujeitos a um idêntico processo de sedimentação, só que milhares de anos mais rápido. Daí que o pavoroso de ontem seja tolerável hoje e que agora é aterrador passe a aceitável na próxima reentrée. É uma espécie de Princípio de Peter adaptado, segundo o qual nada é impossível e o pior estará sempre para vir.E se é possível encontrar algo que distinga a atitude das duas estações que se meteram nesta refrega, aponte-se, ao menos, a ausência de misturas nos produtos informativos da SIC, que se vão mantendo arredados, com inócuas excepções, do lixo que se acumula nos cantos da estação. Nisso, a TVI tem uma conduta que é um mau exemplo de promiscuidade entre informação e promoção – mas onde nenhuma das entidades ditas «reguladoras», nem da actividade televisiva em geral, nem da classe jornalística em particular, alguma vez achou motivo para protesto ou sanção. E quando, aparentemente, nem um Miguel Sousa Tavares nem um Marcelo Rebelo de Sousa sentem pruridos por voltarem a ocupar, em cada semana, a mesma cadeira onde já todos os Zés Marias se roçaram, está tudo dito. Ou antes: está muita coisa por explicar mas ninguém se maça a perguntar.É um exagero dizer que o Big Brother e a TVI chegaram ao «limiar da decência» e que o Bar da TV e a SIC atingiram a «abjecção absoluta», como já se escreveu. Nesta guerra nada é absoluto, nada é definitivo. Infelizmente, amanhã vamos recordar estes programas do mesmo modo que hoje olhamos para o All You Ned In Love: tudo não passou de um começo. E o mais grave não é que tudo se baseie no discutível teorema de dar às audiências aquilo que elas anseiam – porque isso, mesmo estando amplamente comprovado, não justifica tudo. O mais preocupante, mesmo, é que essa lógica seja recebida com um encolher de ombros, como se não estivessem em causa padrões básicos, que não se podem ignorar com o simples premir de botão para mudar de canal. Mas não será por acaso: quem, noutros tempos, elevou o fado, o futebol e Fátima à condição de sagrada trindade da alegria nacional acabou por criar uma receita para todos os tempos e para todos os regimes. Nos nossos dias, tanto Fátima como o futebol são excelentes produtos televisivos. Quanto ao fado, só houve que modernizá-lo – possibilitando o voyeurismo sobre o dos outros, oferece-se a semelhança com o de cada um de nós, e a fantasia que comande o resto. Enquanto andarmos assim, estaremos entretidos. O que prova que há um Big Bother português. Zeloso e atento.Enquanto isso, até passa despercebido o relatório de um estudo da Organização para a Cooperação Económica e Desenvolvimento (OCDE), agora publicado (está disponível na Internet), sobre «Literacia na Era da Informação». Incidiu sobre vinte países, entre os quais Portugal, e refere-se a 1998. O nosso país surge em penúltimo lugar – apenas antes do Chile. Conclui o relatório que em Portugal apenas 16 por cento dos adultos alfabetizados podem considerar-se dentro de padrões mínimos de literacia. Ou seja: apenas essa ínfima parte da população – num universo que vai dos 16 aos 65 anos de idade – consegue interpretar aquilo que lê. O que nos coloca no limiar do desenvolvimento, no plano educativo e cívico: inaptos para perceber, analisar, comentar, argumentar, aceitar ou rejeitar.Mas, como diria a apresentadora do Big Brother, isso agora não interessa nada.
«Terras da Beira»

24 de maio de 2001

24 Mai 2001: Quando a esmola é grande...

Ouvi, há não muito tempo, um responsável político local explicar que uma das razões para se não estar a fazer uma maior promoção turística da Guarda reside na fragilidade da oferta hoteleira. Ou seja: se os organismos que possuem essa competência começassem a exercê-la de forma sistemática e planeada, corriam o risco de atrair visitantes sem lhes garantir um tecto. Assim se compreende o minimalismo da divulgação – patente, por exemplo, na forma como as páginas institucionais na Internet fazem o retrato turístico da Guarda. Basta dar uma olhadela à da Câmara, que neste capítulo ainda mantém dados de 1997, quase todos redundantes ou desactualizados. Ou passar pela da Região de Turismo da Serra da Estrela, onde nos informam que a oferta existente na cidade está reduzida a um hotel, a duas pensões e a dezassete restaurantes.Seguindo esta linha de pensamento, pode dizer-se que está para breve o dia em que deixaremos de existir escondidos. Porque a confirmarem-se os novos projectos de que fazemos balanço nas páginas 2 e 3 desta edição, a Guarda passará a ser das cidades com maior concentração e hotéis por aglomerado – nada menos que sete, entre os já existentes e os anunciados.Se é verdade que não há fome que não dê em fartura, também não é menos legítima a desconfiança de um pedinte perante esmola grande. Isto não tanto pelo aparecimento de duas ou três unidades de média dimensão, por iniciativa de empresários locais ou associação com grupos que estão a começar a instalar-se no interior – há mais de dez anos que esse investimento é classificado de urgente. O que causa estranheza é que um grupo da Covilhã, que domina uma incontável lista de actividades económicas, decida lançar uma verdadeira OPA sobre a Guarda, adquirindo terrenos e pedindo o licenciamento de projectos tão diversificados que vão de um hotel a salas de cinema, de um campo de golfe a um condomínio fechado, de várias torres para habitação a um centro comercial com quinze mil metros quadrados de área coberta, de um supermercado a uma dúzia de restaurantes e outras tantas lojas de marca. Tudo isto podia resumir-se num caso de fartura inconsistente, não tivessem os terrenos sido já comprados e não fosse o tal grupo aquilo que é – praticamente o dono de toda a actividade turística na Serra da Estrela.Pode pensar-se que numa cidade onde o sector de serviços tem vindo a ser consecutivamente esvaziado não fará sentido existir um grande centro comercial. Pode afigurar-se disparatado o investimento num campo de golfe, numa região que pouco ou nada tem de cosmopolita. Pode supor-se que a Guarda não comporta restaurantes às dúzias, diante da quebra evidente do poder de compra de que as casas no activo são as melhores testemunhas. Pode parecer que não há mercado para um condomínio de luxo numa terra onde a maior parte do poder económico está nas mãos de construtores civis.Mas também se pode pensar que uma moradia junto a campo de golfe com ares de serra e boa paisagem (e servida por auto-estradas) pode ser um investimento de férias melhor e mais barato do que o já estafado monte alentejano. E que tudo o resto acabará por alimentar-se do movimento excursionista que gravita em torno da Serra, e para o qual toda a oferta hoteleira que exista num raio de dezenas de quilómetros nunca chegará para cobrir a procura.A ser certo, isto colocar-nos-ia, porém, na indesejada posição de local de passagem ou lugar exótico para descanso. Ou de mero parque de diversões, em vez de destino final com identidade própria.E antes que a Sé da Guarda apareça num desses prospectos que promovem os tais “condomínios de sonho”, o melhor é que quem assume essa competência se apresse a lançar um plano estratégico profundo para o sector do turismo, que não fique apenas pela limpeza do insuflável e pela reimpressão de uns desdobráveis.Enquanto se constroem os hotéis, os centros comerciais e os campos de golfe, é importante que se esteja já a revitalizar o centro histórico – e que alguém tenha a coragem de mandar fechar aquelas ruas! –, a criar postos de atendimento a visitantes, a reformular os horários do comércio e a incentivar a diversificação da vida nocturna.Coisas bem mais simples – e mais importantes – do que uma paragem do TGV.
«Terras da Beira»

24 Mai 2001: Má língua

Sou novo nisto, não os distingo
Contra todas as expectativas, que apontavam mesmo para a escolha de figuras da nomenklatura distrital com vista a conquistar uma autarquia de referência, o PS de Foz-Côa acabou por ir buscar um independente que, mesmo sendo natural do concelho e deputado à Assembleia Municipal, tem a vida organizada em Cascais. Não está em causa os méritos que possui, antes pelo contrário. O parece é que tudo foi acertado à última da hora e ninguém o preparou, sequer, para as especificidades de uma conferência de imprensa – a primeira em que se viu metido, como confessou – onde estiveram também os líderes locais concelhio e distrital do partido. E como se viu sentado ao lado de Fernando Cabral, achou de boa educação cumprimentá-lo e «agradecer a presença do Senhor Governador Civil». Primeira lição para um debutante: em política, o que parece é; mas às vezes é inconveniente dizê-lo em voz alta.
Tem razão mas eu quero tirá-lo do lugar
E quem foi o putativo candidato à presidência de uma câmara fronteiriça que teceu públicos elogios a um dos vereadores da equipa contra a qual se supõe que vai correr em Dezembro? Estava-se numa almoçarada, debitavam-se os discursos, e pela ordem protocolar coube a ambos encerrar a discursata. Primeiro o vereador, que disse pouca coisa, e depois o dignitário, que não disse muito mais – e o que disse já foi bastante condicionado pela conjunção «de certa maneira» – mas ainda achou inspiração numa parte da prelecção do orador anterior. Algo do género «como muito bem disse o senhor Vereador, e faço minhas as palavras dele». Uma de três: ou o dito vereador vai ser “roubado” à lista adversária; ou o suposto candidato, cujo talento para as contas é conhecido, desistiu de sê-lo; ou estas eleições, definitivamente, não vão ter graça nenhuma.
Instalação artística
Faz este fim-de-semana meio ano que o Guê foi inaugurado e, escassos dias depois, assinala-se idêntica contagem sobre a sua aparatosa queda. Quem chega sem saber da história olha para aquilo e, obediente ao princípio segundo qual a arte não se discute, acredita tratar-se de uma arrojada instalação artística em homenagem ao cunho empreendedor da Guarda, bem patente nas obras que recebem o visitante naquela entrada da cidade – há mais de um ano que se trabalha na correcção de uma curva e, logo adiante, no alargamento de duzentos metros de rua até à rotunda do hospital. Coisas simples, mas que na Guarda têm tendência para levar o tempo de muitos rosários a Santa Engrácia. Daí que um monumento quebrado e rodeado de andaimes não deixe de parecer um conjunto artístico concebido de raiz e muito a propósito. E a qualquer das candidatas à Câmara só terá vantagens em que aquilo continue como está durante mais meses. Porque é um cenário excelente para a apresentação pública das candidaturas. Só terá que variar a frase de fundo: “Estamos a construir a Guarda”, dirá uma; “Vamos erguer a Guarda”, dirá a outra; “Vamos arrancar isto daqui e construir uma Guarda nova”, dirá alguma que ainda porventura apareça e a quem o gostinho artístico não mande saudades.
«Terras da Beira»

17 de maio de 2001

17 Mai 2001: Paisagem de capelinhas

Mesmo que não passem de dissertações sobre o tema da «valorização económica dos eixos viários em zonas interiores de baixa densidade», os estudos apresentados no início desta semana na Guarda, num seminário com este título organizado pela CCRC, prova que existe, na máquina administrativa, uma reserva de pensamento estratégico que não se consubstancia nas iniciativas inócuas com que um sem número de “núcleos”, “institutos” ou “observatórios” se ocupa na busca desse desígnio polivalente a que chamam «desenvolvimento regional». O tema é sério, pois alerta-nos para uma realidade sobre a qual é raro alguém vir falar em voz alta: a existência, num futuro próximo, de novas auto-estradas a rasgar o interior poderá ser uma medalha com reverso. Tanto poderão ser meio de chegada como de partida. E os núcleos urbanos servidos ao longo do percurso tanto poderão ser lugares de paragem como de passagem. Ou seja: estar no cruzamento de duas das chamadas “vias estratégicas” não assegura por si só que a “estratégia” seja inteiramente favorável à região. A não existirem motivos para aqui vir, parar e ficar, tanto a auto-estrada da Beira Interior como a agora lançada auto-estrada da Beira Litoral e Alta não serão mais do que acessos rápidos e tendencialmente unidireccionais daqui para qualquer lado, contribuindo mais para o esvaziamento e para a desertificação do que para o apregoado progresso. Nada disto é novo. Quem é do tempo da construção do IP5 lembra-se do enfático protesto da maior parte das câmaras contra a lógica do traçado e a filosofia da sinalização. Durante anos, o “trânsito local” manteve-se como única indicação visível em cruzamentos de novas vias-rápidas e auto-estradas, fosse qual fosse o destino próximo. O que há de original naquilo que trouxe técnicos portugueses, espanhóis e franceses à Guarda é o princípio de actuação por antecipação que parece ter presidido à iniciativa da CCRC. Pelos vistos, ao mesmo tempo que se fazia o projecto de reformulação do IP5 estavam a ser desenvolvidos estudos para impedir que a auto-estrada arrase de vez com Vilar Formoso, esvaziada que está da função fronteiriça. A cinco anos de distância, pensa-se no reordenamento da vila em função da nova passagem e na sua transformação num centro de apoio, de comércio e de serviços. No caso do IP2, o estudo divulgado assenta na valorização do troço entre a Guarda e Castelo Branco, passando pela Covilhã e pelo Fundão, que em menos de três anos deverá estar pronto. É tempo suficiente, na opinião dos técnicos, para consolidar a ideia de um verdadeiro “eixo regional” que terá por base as quatro cidades e toda a riqueza natural e patrimonial que ao longo do percurso. Pensa-se na Beira Interior como uma grande área metropolitana complementar e interdependente, servida por uma centena de quilómetros de auto-estrada, em cujos extremos ficará o acesso ao resto do país e à Europa. A ideia é feliz, vista na lógica da valorização, da afirmação e da fixação. Mas se a gente pensar naquilo em que tem dado tudo o que representa complementaridade regional, fica logo de pé atrás. E muito mais, num exemplo entre vários, quando vemos ser colocado diante do novo Centro Hospitalar da Cova da Beira – que foi pioneiro na ideia de criar um grande “hospital central” ao longo do IP2, partilhando os recursos dos hospitais das quatro cidades – um cartaz de dimensões despropositadas, anunciado que o que ali funciona é o “Hospital Pêro da Covilhã”. Não, não é um grafitti anónimo, como os que corrigem a insuficiência de informação nas placas de “trânsito local”. É uma deliberação assinada da Câmara da Covilhã. Com estas e com outras, o que irá haver à beira das auto-estradas senão uma esquiva paisagem de capelinhas?
«Terras da Beira»

10 de maio de 2001

10 Mai 2001: Serviu para quê?

Vieram os dirigentes locais do PS satisfeitos de Lisboa, a proclamar que o distrito conquistou «maior representatividade» nos órgãos nacionais do partido e que a moção apresentada ao congresso, a tal que clamava por «justiça» para a Guarda e por um hospital novo, foi aprovada. Agora que a excursão regressou, apetece perguntar: em que é que isso contribuiu, afinal, para a nossa felicidade? Tudo seria plausível num cenário em que a reunião magna tivesse sido convocada pelo mesmo desígnio que o PS, ainda quando era oposição, usou com originalidade e eficácia para chamar os Estados Gerais. É claro que uma coisa é organizar um grande debate entre sectores multidisciplinares da chamada “sociedade civil” e outra, bem diferente, é fazer um congresso partidário, onde só têm lugar os militantes designados por método estatutário. Mas num partido que está nos poder o órgão máximo deve funcionar como uma espécie de Senado – e os seus membros como uma consciência plural, crítica, fundamentada, em nome do país, no seu todo, que são chamados a representar. Hoje, longínquos que vão os tempos da agonia do cavaquismo, dos Estados Gerais e do porto de abrigo ideológico para todos os rebeldes da esquerda e do centro, isto soa a pura extravagância. Para haver a tal consciência era preciso que os representantes designados ao congresso o fossem não só por inerência mas porque representassem também a vital plêiade pluridisciplinar, que existe mas anda normalmente arredada destes meandros. Então, afinal, quem foi a Lisboa? Além da quota da JS e de um ou outro militante de base com actividade profissional destacada e alheia à política, foi o governador civil, foram os deputados eleitos pelo distrito, foram os autarcas e foram alguns dos tais «dirigentes locais de organismos descentralizados da Administração Pública» (um eufemismo para designar os célebres boys), obviamente não nessas qualidades mas nas dos cargos que exercem nas comissões políticas. Ou seja: gente maioritariamente eleita ou nomeada, em certos casos despudoradamente oportunista e ideologicamente infundada, mas que tem precisamente por incumbência administrar, governar, representar, agir, fazer. Com a rara excepção dos autarcas – seria, aliás, injusto metê-los no mesmo saco – , nunca reclamam, nem exigem, nem protestam, nem criticam, quando se mostram em missão de Estado. Por eles tudo vai habitualmente no melhor dos mundos. E esconjuram esse ressentimento de que são prisioneiros fazendo crer que a subida ao estrado é um mecanismo de «representatividade» a favor do distrito e que a aprovação de uma moção sectorial é uma vitória para os anseios da Guarda... Isto num congresso onde até Guterres votou, num acto mecânico e visivelmente enfastiado, a favor de um documentos desses, que recomendava a imediata remodelação do seu próprio Governo. O que no dia seguinte veio a negar, naturalmente. Era, afinal, uma entre cinquenta e tal moções sectoriais votadas de uma assentada, num momento de presumível distracção. Entre elas estava também a que os delegados pela Guarda propuseram, e cujo destino final bem se pode já aferir por este episódio. Mas convenhamos: como exercício de defesa dos interesses das populações que representam, até nem esteve mal. Agora o ideal é que lhe dêem sequência – no dia a dia, naquilo para que foram nomeados e são pagos. Ou isso iria pôr alguma coisa em risco?
«Terras da Beira»

3 de maio de 2001

3 Mai 2001: A lua-de-mel de Guterres

Guterres veio à Guarda presidir à concessão da nova auto-estrada Aveiro-Vilar Formoso mas, infelizmente, ainda não podemos dizer que o martírio acabou: temos por diante cinco anos de obras e só ao cabo desse tempo (admitindo que os prazos se cumprem) é que iremos presenciar, sem desgosto nem vénia, o enterro daquela que ficará para a história com uma das mais trágicas estradas do mapa português. A aberração ainda não completou vinte anos de uso, o que leva a presumir que aqueles que a desenharam – e principalmente aqueles que a aprovaram – ainda estão vivos e já podiam ter respondido por culpa moral na estúpida perda de vidas, centenas delas, a que se assistiu no IP5. Mesmo porque é o próprio primeiro-ministro a reconhecer, como o disse no Sábado, que a via-rápida foi construída «sem se atender a requisitos mínimos de segurança e de racionalidade», o que confirma que foi cometido, logo à nascença, um crime público. Mas que reparação se pode esperar de um Estado que ainda esta semana acusou, como único imputável pela morte por electrocussão de uma criança junto de um semáforo em Lisboa, um desgraçado ajudante de pedreiro, ilibando a cadeia hierárquica que o encarregou de fazer uma manutenção para a qual não estava habilitado?O único ressarcimento possível é ter como certo que a substituição da “estrada da morte” por uma auto-estrada de quatro faixas, com traçado corrigido e a passar longe dos “pontos negros”, já não é tanto uma miragem. E é caso para dizer, por via de dúvidas, que esta já cá canta, ou seja, que está entregue e adjudicada, dando garantias de ser executada.Porque no mesmo dia em que Guterres esteve na Guarda surgiram notícias que não auguram nada de bom: o novo ministro do Equipamento terá anulado o projecto da rede ferroviária de alta velocidade desenvolvido pelos seus dois antecessores, João Cravinho e Jorge Coelho, preparando-se para propor uma autêntica teia de TGV, do Minho ao Algarve, de Lisboa a Madrid, do Porto a Salamanca. Este último traçado passará pela Guarda, sendo provável que faça aqui uma paragem, visto que prevê estações nos tecidos urbanos grandes e médios. O que nos colocará, à velocidade média de 350 quilómetros por hora, a escassos minutos de toda a parte.É uma ideia simpática, embora soe àquela megalomania cíclica que tem caracterizado a chegada de cada ministro novo à pasta das Obras Públicas e à qual, pelos vistos, nem o tranquilo Ferro Rodrigues passou imune. Claro que todo o plano se deixa desarmar pelo mais óbvio: ninguém sabe como será pago. Bruxelas só prevê uma linha internacional para coesão interna da União; e em qualquer dos casos a “bica” dos dinheiros europeus prevê-se que seque em 2006, muito antes dos 14 anos que seriam necessários para rasgar os anunciados 1200 quilómetros de TGV, pelo preço de 1560 milhões de contos. E como o habitual, quando acaba por se cair na realidade, é arrumar tudo em gavetas e entrar nos “estudos profundos”, ao menos o novo IP5 já é certo. O IP2 também. E o resto logo se vê. Além do mais, Guterres também confessou ter vindo à Guarda em plena “lua-de-mel” com os portugueses. Ora, como todos os já sacramentados pelo matrimónio sabem e os futuros imaginam, o roteiro das viagens de núpcias raramente é para repetir. Os lugares visitados perduram como espaços míticos, sagrados, épicos. Revisitá-los antes de muito tempo é estar a profanar memórias. Ainda bem que ele deixou o contrato para a auto-estrada assinado.
«Terras da Beira»