10 de maio de 2001

10 Mai 2001: Serviu para quê?

Vieram os dirigentes locais do PS satisfeitos de Lisboa, a proclamar que o distrito conquistou «maior representatividade» nos órgãos nacionais do partido e que a moção apresentada ao congresso, a tal que clamava por «justiça» para a Guarda e por um hospital novo, foi aprovada. Agora que a excursão regressou, apetece perguntar: em que é que isso contribuiu, afinal, para a nossa felicidade? Tudo seria plausível num cenário em que a reunião magna tivesse sido convocada pelo mesmo desígnio que o PS, ainda quando era oposição, usou com originalidade e eficácia para chamar os Estados Gerais. É claro que uma coisa é organizar um grande debate entre sectores multidisciplinares da chamada “sociedade civil” e outra, bem diferente, é fazer um congresso partidário, onde só têm lugar os militantes designados por método estatutário. Mas num partido que está nos poder o órgão máximo deve funcionar como uma espécie de Senado – e os seus membros como uma consciência plural, crítica, fundamentada, em nome do país, no seu todo, que são chamados a representar. Hoje, longínquos que vão os tempos da agonia do cavaquismo, dos Estados Gerais e do porto de abrigo ideológico para todos os rebeldes da esquerda e do centro, isto soa a pura extravagância. Para haver a tal consciência era preciso que os representantes designados ao congresso o fossem não só por inerência mas porque representassem também a vital plêiade pluridisciplinar, que existe mas anda normalmente arredada destes meandros. Então, afinal, quem foi a Lisboa? Além da quota da JS e de um ou outro militante de base com actividade profissional destacada e alheia à política, foi o governador civil, foram os deputados eleitos pelo distrito, foram os autarcas e foram alguns dos tais «dirigentes locais de organismos descentralizados da Administração Pública» (um eufemismo para designar os célebres boys), obviamente não nessas qualidades mas nas dos cargos que exercem nas comissões políticas. Ou seja: gente maioritariamente eleita ou nomeada, em certos casos despudoradamente oportunista e ideologicamente infundada, mas que tem precisamente por incumbência administrar, governar, representar, agir, fazer. Com a rara excepção dos autarcas – seria, aliás, injusto metê-los no mesmo saco – , nunca reclamam, nem exigem, nem protestam, nem criticam, quando se mostram em missão de Estado. Por eles tudo vai habitualmente no melhor dos mundos. E esconjuram esse ressentimento de que são prisioneiros fazendo crer que a subida ao estrado é um mecanismo de «representatividade» a favor do distrito e que a aprovação de uma moção sectorial é uma vitória para os anseios da Guarda... Isto num congresso onde até Guterres votou, num acto mecânico e visivelmente enfastiado, a favor de um documentos desses, que recomendava a imediata remodelação do seu próprio Governo. O que no dia seguinte veio a negar, naturalmente. Era, afinal, uma entre cinquenta e tal moções sectoriais votadas de uma assentada, num momento de presumível distracção. Entre elas estava também a que os delegados pela Guarda propuseram, e cujo destino final bem se pode já aferir por este episódio. Mas convenhamos: como exercício de defesa dos interesses das populações que representam, até nem esteve mal. Agora o ideal é que lhe dêem sequência – no dia a dia, naquilo para que foram nomeados e são pagos. Ou isso iria pôr alguma coisa em risco?
«Terras da Beira»

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