17 de maio de 2001

17 Mai 2001: Paisagem de capelinhas

Mesmo que não passem de dissertações sobre o tema da «valorização económica dos eixos viários em zonas interiores de baixa densidade», os estudos apresentados no início desta semana na Guarda, num seminário com este título organizado pela CCRC, prova que existe, na máquina administrativa, uma reserva de pensamento estratégico que não se consubstancia nas iniciativas inócuas com que um sem número de “núcleos”, “institutos” ou “observatórios” se ocupa na busca desse desígnio polivalente a que chamam «desenvolvimento regional». O tema é sério, pois alerta-nos para uma realidade sobre a qual é raro alguém vir falar em voz alta: a existência, num futuro próximo, de novas auto-estradas a rasgar o interior poderá ser uma medalha com reverso. Tanto poderão ser meio de chegada como de partida. E os núcleos urbanos servidos ao longo do percurso tanto poderão ser lugares de paragem como de passagem. Ou seja: estar no cruzamento de duas das chamadas “vias estratégicas” não assegura por si só que a “estratégia” seja inteiramente favorável à região. A não existirem motivos para aqui vir, parar e ficar, tanto a auto-estrada da Beira Interior como a agora lançada auto-estrada da Beira Litoral e Alta não serão mais do que acessos rápidos e tendencialmente unidireccionais daqui para qualquer lado, contribuindo mais para o esvaziamento e para a desertificação do que para o apregoado progresso. Nada disto é novo. Quem é do tempo da construção do IP5 lembra-se do enfático protesto da maior parte das câmaras contra a lógica do traçado e a filosofia da sinalização. Durante anos, o “trânsito local” manteve-se como única indicação visível em cruzamentos de novas vias-rápidas e auto-estradas, fosse qual fosse o destino próximo. O que há de original naquilo que trouxe técnicos portugueses, espanhóis e franceses à Guarda é o princípio de actuação por antecipação que parece ter presidido à iniciativa da CCRC. Pelos vistos, ao mesmo tempo que se fazia o projecto de reformulação do IP5 estavam a ser desenvolvidos estudos para impedir que a auto-estrada arrase de vez com Vilar Formoso, esvaziada que está da função fronteiriça. A cinco anos de distância, pensa-se no reordenamento da vila em função da nova passagem e na sua transformação num centro de apoio, de comércio e de serviços. No caso do IP2, o estudo divulgado assenta na valorização do troço entre a Guarda e Castelo Branco, passando pela Covilhã e pelo Fundão, que em menos de três anos deverá estar pronto. É tempo suficiente, na opinião dos técnicos, para consolidar a ideia de um verdadeiro “eixo regional” que terá por base as quatro cidades e toda a riqueza natural e patrimonial que ao longo do percurso. Pensa-se na Beira Interior como uma grande área metropolitana complementar e interdependente, servida por uma centena de quilómetros de auto-estrada, em cujos extremos ficará o acesso ao resto do país e à Europa. A ideia é feliz, vista na lógica da valorização, da afirmação e da fixação. Mas se a gente pensar naquilo em que tem dado tudo o que representa complementaridade regional, fica logo de pé atrás. E muito mais, num exemplo entre vários, quando vemos ser colocado diante do novo Centro Hospitalar da Cova da Beira – que foi pioneiro na ideia de criar um grande “hospital central” ao longo do IP2, partilhando os recursos dos hospitais das quatro cidades – um cartaz de dimensões despropositadas, anunciado que o que ali funciona é o “Hospital Pêro da Covilhã”. Não, não é um grafitti anónimo, como os que corrigem a insuficiência de informação nas placas de “trânsito local”. É uma deliberação assinada da Câmara da Covilhã. Com estas e com outras, o que irá haver à beira das auto-estradas senão uma esquiva paisagem de capelinhas?
«Terras da Beira»

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