24 de maio de 2001

24 Mai 2001: Má língua

Sou novo nisto, não os distingo
Contra todas as expectativas, que apontavam mesmo para a escolha de figuras da nomenklatura distrital com vista a conquistar uma autarquia de referência, o PS de Foz-Côa acabou por ir buscar um independente que, mesmo sendo natural do concelho e deputado à Assembleia Municipal, tem a vida organizada em Cascais. Não está em causa os méritos que possui, antes pelo contrário. O parece é que tudo foi acertado à última da hora e ninguém o preparou, sequer, para as especificidades de uma conferência de imprensa – a primeira em que se viu metido, como confessou – onde estiveram também os líderes locais concelhio e distrital do partido. E como se viu sentado ao lado de Fernando Cabral, achou de boa educação cumprimentá-lo e «agradecer a presença do Senhor Governador Civil». Primeira lição para um debutante: em política, o que parece é; mas às vezes é inconveniente dizê-lo em voz alta.
Tem razão mas eu quero tirá-lo do lugar
E quem foi o putativo candidato à presidência de uma câmara fronteiriça que teceu públicos elogios a um dos vereadores da equipa contra a qual se supõe que vai correr em Dezembro? Estava-se numa almoçarada, debitavam-se os discursos, e pela ordem protocolar coube a ambos encerrar a discursata. Primeiro o vereador, que disse pouca coisa, e depois o dignitário, que não disse muito mais – e o que disse já foi bastante condicionado pela conjunção «de certa maneira» – mas ainda achou inspiração numa parte da prelecção do orador anterior. Algo do género «como muito bem disse o senhor Vereador, e faço minhas as palavras dele». Uma de três: ou o dito vereador vai ser “roubado” à lista adversária; ou o suposto candidato, cujo talento para as contas é conhecido, desistiu de sê-lo; ou estas eleições, definitivamente, não vão ter graça nenhuma.
Instalação artística
Faz este fim-de-semana meio ano que o Guê foi inaugurado e, escassos dias depois, assinala-se idêntica contagem sobre a sua aparatosa queda. Quem chega sem saber da história olha para aquilo e, obediente ao princípio segundo qual a arte não se discute, acredita tratar-se de uma arrojada instalação artística em homenagem ao cunho empreendedor da Guarda, bem patente nas obras que recebem o visitante naquela entrada da cidade – há mais de um ano que se trabalha na correcção de uma curva e, logo adiante, no alargamento de duzentos metros de rua até à rotunda do hospital. Coisas simples, mas que na Guarda têm tendência para levar o tempo de muitos rosários a Santa Engrácia. Daí que um monumento quebrado e rodeado de andaimes não deixe de parecer um conjunto artístico concebido de raiz e muito a propósito. E a qualquer das candidatas à Câmara só terá vantagens em que aquilo continue como está durante mais meses. Porque é um cenário excelente para a apresentação pública das candidaturas. Só terá que variar a frase de fundo: “Estamos a construir a Guarda”, dirá uma; “Vamos erguer a Guarda”, dirá a outra; “Vamos arrancar isto daqui e construir uma Guarda nova”, dirá alguma que ainda porventura apareça e a quem o gostinho artístico não mande saudades.
«Terras da Beira»

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