24 de maio de 2001

24 Mai 2001: Quando a esmola é grande...

Ouvi, há não muito tempo, um responsável político local explicar que uma das razões para se não estar a fazer uma maior promoção turística da Guarda reside na fragilidade da oferta hoteleira. Ou seja: se os organismos que possuem essa competência começassem a exercê-la de forma sistemática e planeada, corriam o risco de atrair visitantes sem lhes garantir um tecto. Assim se compreende o minimalismo da divulgação – patente, por exemplo, na forma como as páginas institucionais na Internet fazem o retrato turístico da Guarda. Basta dar uma olhadela à da Câmara, que neste capítulo ainda mantém dados de 1997, quase todos redundantes ou desactualizados. Ou passar pela da Região de Turismo da Serra da Estrela, onde nos informam que a oferta existente na cidade está reduzida a um hotel, a duas pensões e a dezassete restaurantes.Seguindo esta linha de pensamento, pode dizer-se que está para breve o dia em que deixaremos de existir escondidos. Porque a confirmarem-se os novos projectos de que fazemos balanço nas páginas 2 e 3 desta edição, a Guarda passará a ser das cidades com maior concentração e hotéis por aglomerado – nada menos que sete, entre os já existentes e os anunciados.Se é verdade que não há fome que não dê em fartura, também não é menos legítima a desconfiança de um pedinte perante esmola grande. Isto não tanto pelo aparecimento de duas ou três unidades de média dimensão, por iniciativa de empresários locais ou associação com grupos que estão a começar a instalar-se no interior – há mais de dez anos que esse investimento é classificado de urgente. O que causa estranheza é que um grupo da Covilhã, que domina uma incontável lista de actividades económicas, decida lançar uma verdadeira OPA sobre a Guarda, adquirindo terrenos e pedindo o licenciamento de projectos tão diversificados que vão de um hotel a salas de cinema, de um campo de golfe a um condomínio fechado, de várias torres para habitação a um centro comercial com quinze mil metros quadrados de área coberta, de um supermercado a uma dúzia de restaurantes e outras tantas lojas de marca. Tudo isto podia resumir-se num caso de fartura inconsistente, não tivessem os terrenos sido já comprados e não fosse o tal grupo aquilo que é – praticamente o dono de toda a actividade turística na Serra da Estrela.Pode pensar-se que numa cidade onde o sector de serviços tem vindo a ser consecutivamente esvaziado não fará sentido existir um grande centro comercial. Pode afigurar-se disparatado o investimento num campo de golfe, numa região que pouco ou nada tem de cosmopolita. Pode supor-se que a Guarda não comporta restaurantes às dúzias, diante da quebra evidente do poder de compra de que as casas no activo são as melhores testemunhas. Pode parecer que não há mercado para um condomínio de luxo numa terra onde a maior parte do poder económico está nas mãos de construtores civis.Mas também se pode pensar que uma moradia junto a campo de golfe com ares de serra e boa paisagem (e servida por auto-estradas) pode ser um investimento de férias melhor e mais barato do que o já estafado monte alentejano. E que tudo o resto acabará por alimentar-se do movimento excursionista que gravita em torno da Serra, e para o qual toda a oferta hoteleira que exista num raio de dezenas de quilómetros nunca chegará para cobrir a procura.A ser certo, isto colocar-nos-ia, porém, na indesejada posição de local de passagem ou lugar exótico para descanso. Ou de mero parque de diversões, em vez de destino final com identidade própria.E antes que a Sé da Guarda apareça num desses prospectos que promovem os tais “condomínios de sonho”, o melhor é que quem assume essa competência se apresse a lançar um plano estratégico profundo para o sector do turismo, que não fique apenas pela limpeza do insuflável e pela reimpressão de uns desdobráveis.Enquanto se constroem os hotéis, os centros comerciais e os campos de golfe, é importante que se esteja já a revitalizar o centro histórico – e que alguém tenha a coragem de mandar fechar aquelas ruas! –, a criar postos de atendimento a visitantes, a reformular os horários do comércio e a incentivar a diversificação da vida nocturna.Coisas bem mais simples – e mais importantes – do que uma paragem do TGV.
«Terras da Beira»

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