3 de maio de 2001

3 Mai 2001: A lua-de-mel de Guterres

Guterres veio à Guarda presidir à concessão da nova auto-estrada Aveiro-Vilar Formoso mas, infelizmente, ainda não podemos dizer que o martírio acabou: temos por diante cinco anos de obras e só ao cabo desse tempo (admitindo que os prazos se cumprem) é que iremos presenciar, sem desgosto nem vénia, o enterro daquela que ficará para a história com uma das mais trágicas estradas do mapa português. A aberração ainda não completou vinte anos de uso, o que leva a presumir que aqueles que a desenharam – e principalmente aqueles que a aprovaram – ainda estão vivos e já podiam ter respondido por culpa moral na estúpida perda de vidas, centenas delas, a que se assistiu no IP5. Mesmo porque é o próprio primeiro-ministro a reconhecer, como o disse no Sábado, que a via-rápida foi construída «sem se atender a requisitos mínimos de segurança e de racionalidade», o que confirma que foi cometido, logo à nascença, um crime público. Mas que reparação se pode esperar de um Estado que ainda esta semana acusou, como único imputável pela morte por electrocussão de uma criança junto de um semáforo em Lisboa, um desgraçado ajudante de pedreiro, ilibando a cadeia hierárquica que o encarregou de fazer uma manutenção para a qual não estava habilitado?O único ressarcimento possível é ter como certo que a substituição da “estrada da morte” por uma auto-estrada de quatro faixas, com traçado corrigido e a passar longe dos “pontos negros”, já não é tanto uma miragem. E é caso para dizer, por via de dúvidas, que esta já cá canta, ou seja, que está entregue e adjudicada, dando garantias de ser executada.Porque no mesmo dia em que Guterres esteve na Guarda surgiram notícias que não auguram nada de bom: o novo ministro do Equipamento terá anulado o projecto da rede ferroviária de alta velocidade desenvolvido pelos seus dois antecessores, João Cravinho e Jorge Coelho, preparando-se para propor uma autêntica teia de TGV, do Minho ao Algarve, de Lisboa a Madrid, do Porto a Salamanca. Este último traçado passará pela Guarda, sendo provável que faça aqui uma paragem, visto que prevê estações nos tecidos urbanos grandes e médios. O que nos colocará, à velocidade média de 350 quilómetros por hora, a escassos minutos de toda a parte.É uma ideia simpática, embora soe àquela megalomania cíclica que tem caracterizado a chegada de cada ministro novo à pasta das Obras Públicas e à qual, pelos vistos, nem o tranquilo Ferro Rodrigues passou imune. Claro que todo o plano se deixa desarmar pelo mais óbvio: ninguém sabe como será pago. Bruxelas só prevê uma linha internacional para coesão interna da União; e em qualquer dos casos a “bica” dos dinheiros europeus prevê-se que seque em 2006, muito antes dos 14 anos que seriam necessários para rasgar os anunciados 1200 quilómetros de TGV, pelo preço de 1560 milhões de contos. E como o habitual, quando acaba por se cair na realidade, é arrumar tudo em gavetas e entrar nos “estudos profundos”, ao menos o novo IP5 já é certo. O IP2 também. E o resto logo se vê. Além do mais, Guterres também confessou ter vindo à Guarda em plena “lua-de-mel” com os portugueses. Ora, como todos os já sacramentados pelo matrimónio sabem e os futuros imaginam, o roteiro das viagens de núpcias raramente é para repetir. Os lugares visitados perduram como espaços míticos, sagrados, épicos. Revisitá-los antes de muito tempo é estar a profanar memórias. Ainda bem que ele deixou o contrato para a auto-estrada assinado.
«Terras da Beira»

Sem comentários: