21 de junho de 2001

21 Jun 2001: Má língua

A candidatura de Joaquim Valente à Câmara de Celorico da Beira é um bálsamo com várias aplicações. Para as dores de cabeça do PS distrital, que assim se livra de «engolir» Júlio Santos. Para as mágoas do próprio Valente, que desta forma vê cumprido o desígnio de ser candidato a uma presidência, mesmo que não seja aquela a que socráticos intentos o chegaram a lançar. Mas, sobretudo, é uma mezinha para o padecimento em que Maria do Carmo Borges vivia, por causa da constituição da próxima lista. Porque nenhum, do segundo ao quinto, parecia disposto a dar o passo em frente e dizer «faça o que quiser, que a minha missão termina aqui», antes pelo contrário. E, tendo já todos cumprido um mandato em sossego e na plenitude dos poderes, não era agora que ela iria apontar a algum deles justa causa para despedimento. Muito menos para dar o flanco à cruzada que o partido move contra os independentes. E era neste quebra-cabeças que corriam os dias de Maria, até que o partido congeminou a solução para Celorico, matando muita caça de um só tiro. Porque a possibilidade de ser derrotado na sucessão de Júlio Santos será, para Joaquim Valente, o menor dos males. Afinal, entre todos os actuais vereadores da Câmara da Guarda ele é o que mais está em condições de partir neste momento à aventura. Perdendo, o que não é líquido que aconteça, terá um alfobre de oportunidades profissionais nos vários campos em que meteu a enxada, das águas do Zêzere ao Polis. Onde encontrar resistências, meterá o velho condiscípulo ao barulho. É uma aventura de baixo risco, portanto. E Maria do Carmo, enquanto vai soltando uns lamentos politicamente correctos acerca da perda do mais técnico dos seus muchachos, está agora à vontade para invocar o princípio da renovação da sala de estar: não se compra um sofá novo sem mudar também as sanefas, os tapetes e, se necessário, a cor das paredes. O que quer dizer que Álvaro Guerreiro e Virgílio Bento também podem estar com um pé dentro e outro fora do rascunho. Muito mais quando o PS, perante um cenário de descalabro em possíveis eleições legislativas antecipadas, tem que começar a pensar na vidinha, já que nem toda a nomenklatura tem, sequer, uma profissão consistente na vida real. Por isso, não são de espantar certas notícias que começam a vir a público, acerca da nova constituição da lista: o presidente da Distrital em segundo; o presidente da Concelhia em terceiro; e outro emblemático membro do inner circle em quarto. Tudo no mais fiel princípio do respeito pela hierarquia partidária, garantindo uma autêntica continuidade na linha da dinastia socialista dominante. Porque o mais certo, em caso de nova vitória do PS com uma equipa deste calibre, é que passado um ano ou dois Maria do Carmo abandone a presidência, seja porque não estará para os aturar, seja porque já terá um neto para cuidar – livrando-se de passar outro mandato inteiro na penosa condição de candidata a sucessora de si mesma, em incómodas circunstâncias de mera exclusão de partes. Cabral e Carvalhinho que cumpram o resto. E o que fazer com os independentes? Nada mais simples: a Virgílio Bento até se agradecerá que aceite uma consultadoria temporária para o acompanhamento das obras da Biblioteca, da Sala de Espectáculos e dessas coisas complicadas da cultura; e Álvaro Guerreiro vai, por exemplo, a governador civil, numa nomeação que até estará longe de ser considerada um erro de casting. Se o Governo cair, cairá com ele. Mas isso já escapará ao controlo do PS em geral e de Maria do Carmo em particular, que lhe ficarão gratos. E como, a haver um próximo Governo do PSD, ele será seguramente tão mau ou pior que o actual do PS, o mais certo é que em meia-dúzia de anos volte a fazer-se a troca, no fatal princípio da alternância no seio do bloco central. E um quadro mais amplo de jobs voltará a estar em disputa, aliviando a caça aos lugares na vereação. Estão a ver como nesta cidade se faz, afinal, planeamento de longo prazo?

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