21 de junho de 2001

21 Jun 2001: O integracionista

Carlos Pinto, presidente da Câmara da Covilhã, acha que a figura das capitais de distrito está esgotada e que é preciso um novo modelo de divisão administrativa, no qual a sua cidade passará a reclamar a posição de capital regional. Porque a Covilhã vale mais do que Castelo Branco, a cujo distrito pertence. Porque os resultados preliminares dos Censos indicam que aquela é a única cidade do Interior a registar um aumento da população na última década. E porque, estando as coisas como estão, anda-se a premiar a concentração de pedras, calhaus e florestas, em vez de uma zona urbana densamente povoada e com ambições.Qualquer dos argumentos é bom para brandir numa noite de consagração e anúncio de recandidatura, como foi o caso. E é este o discurso que convém a uma terra que vive há décadas num cruel paradoxo: sendo o centro industrial, empresarial e universitário por excelência da região, tem que se submeter à hierarquia de uma outra cidade, cuja importância resulta tão só do papel administrativo que lhe foi, por razões históricas mas pelos vistos de forma desajustada, confiado.Para cima da «fronteira» de Belmonte, houve sempre a tendência de olhar esta guerra como uma coisa entre indígenas de outras tribos, que levavam o sentimento bairrista ao extremo caricato de discutir as origens da xerovia. Isto, claro, até ao dia em que a Covilhã começou a conquistar uma série de anseios que a Guarda também reclamava como seus: da Universidade ao hospital novo; do McDonald’s à urgência pediátrica. A contenda era, e é, com Castelo Branco. Mas a Guarda cedeu, por inanição, muitas munições para esta batalha.As palavras do presidente da Câmara da Covilhã valem o que valem, ditas no contexto de uma mensagem política em arranque de pré-campanha. Mas são a síntese do desígnio que assume para próximo mandato, se for eleito: o de tornar a Covilhã capital da região. Carlos Pinto saberá, aliás, por que razão escolheu esta bandeira e não outra: é que semanas antes o Governo tinha tornado pública a intenção de mexer no mapa administrativo do país, naquilo que chama de «desconcentração administrativa do Estado», e o Presidente da República tornou explícito, durante a Presidência Aberta no Minho, o seu altíssimo empurrão à vontade emergente de que essa intervenção resulte na criação definitiva das regiões administrativas. Se isso não foi possível através do processo de regionalização, chumbado por vontade referendária, ao menos que o seja à luz de um mecanismo alargado de descentralização. O que, no fim de contas, tornará mais simples e racionais as pretensões manifestadas pelo presidente da Câmara da Covilhã, que por elas foi ovacionado, segundo contaram os jornais, por mais de 2.300 pessoas de vários quadrantes políticos.A Guarda, tal como toda a chamada Beira Interior, fica assim ao alcance do anseio integracionista de Carlos Pinto. E, presos que estão a ressentimentos e nostalgias, os dirigentes políticos de cá permitiram que tudo quanto ele declarou tivesse permanecido no ar como a mais dura das verdades. Mesmo aquilo que o não é. Por isso já era tempo de alguém lhe explicar, por exemplo, que se houve cidade no Interior que aumentou a população nos últimos dez anos, essa foi precisamente a Guarda, com um crescimento efectivo de cinco mil habitantes que se traduz numa percentagem maior do que a registada na Covilhã. É pouco, mas é suficiente para levantar a voz. Mas ninguém o fez. E depois queixam-se da ausência de auto-estima que vai nesta terra.
«Terras da Beira»

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