7 de junho de 2001

7 Jun 2001: Já dá ares de ser a sério

Ana Manso estará a preparar-se para anunciar a candidatura à Câmara da Guarda no dia 23 de Junho, tudo indicando que traga Durão Barroso como patrono. Terá as suas razões para a escolha de uma noite de santos populares. Mas, para já, não se vislumbra um motivo ponderável. Se é para fazer um comício, terá que concorrer – para perder, provavelmente – contra os bailes de São João. Se é para falar ao coração da população telespectadora e radiouvinte, terá que contentar-se com o ser notícia num domingo, dia de más audiências. Se é para apelar ao pensamento profundo, arrisca-se a ter de repetir todo o discurso no final do Verão. Não são questões menores ou meramente formais. São conceitos básicos de marketing político. Se a disputa autárquica entre duas senhoras já inspira a ideia primária e grosseira de que haverá peixeirada, o mínimo a que qualquer delas podia abster-se era a lançar-se à corrida numa noite de sardinhadas. É que, para lá de tudo o resto, uma pré-campanha iniciada nas rodas de um bailarico pode significar que o PSD não tirou as devidas lições do longo espectáculo de variedades que organizou há quatro anos: o que é demais torna-se num massacre; e traz maus resultados, como se viu.Independentemente disso, a maior curiosidade reside agora em saber que lista irá Ana Manso apresentar dentro de três semanas – porque se o não fizer por completo a formalização da sua candidatura acabará por se diluir ainda mais. É verdade que o cargo é tipicamente pessoal, indelevelmente associado ao primeiro nome, às suas qualidades, aos seus defeitos e, sobretudo, aos seus compromissos. Mas o conjunto das escolhas, pelo menos da segunda à quinta, é que constitui, por igual, o verdadeiro calcanhar de Aquiles de ambas as candidatas.Ana Manso vai ter que traduzir o eventual descontentamento contra a actual gestão autárquica em escolhas originais e com o perfil certo para uma equipa a que possa chamar de mudança. Vai ter que propor nomes para além dos que se vão buscar, no ritual próprio da estação, às prateleiras do costume. Vai ter que provar que certos movimentos cívicos e outras organizações não eram viveiros de circunstância.Maria do Carmo Borges, por seu lado, também não terá uma tarefa simples. Primeiro, terá que mostrar que manda e que decide. Depois, explicar convenientemente as decisões que tomar. Manter tudo como está – e porquê. Passar o quarto a segundo – e porquê. Trocar o segundo pelo terceiro – e porquê. Afastar o quinto – e porquê. Dispensar todos – e porquê. Ou, no limite, nem sequer ver condições para se recandidatar – e por culpa de quem. É um autêntico xadrez, onde ainda está em jogo a capacidade de agregar quadros técnicos e massa crítica de fora do circuito partidário, como se esperava de quem arrebatou, há quatro anos, a maior vitória de sempre.Estas eleições têm tudo para ser originais. Mas agora começam finalmente a ter um certo aspecto de disputa a sério. Ao confirmar a candidatura, Ana Manso revela-se até uma mulher corajosa, já que nunca nenhum líder distrital do seu partido tinha ousado concorrer à Câmara da Guarda. Podia igualmente ter-se escudado no carácter supra-concelhio do cargo, lançando um nome para a fogueira, e não o fez (ou não teve outra alternativa, logo se verá). Assim, mesmo que se queime ela – e é cedo para fazer vaticínios –, já terá pelo menos contribuído para elevar a fasquia, evitando que as próximas eleições sejam um simples exercício de rotina imposto pelo calendário ou um mero acto de plebiscito à continuidade de Maria do Carmo Borges.Pelo caminho que a participação dos cidadãos em actos eleitorais tem estado a levar, ficará a dever-se-lhe esse favor. A própria presidente da Câmara deve ser a primeira a estar-lhe grata por isso.
«Terras da Beira»

Sem comentários: