12 de julho de 2001

12 Jul 2001: Peixinhos da horta

O PS ainda há-de arrepender-se da imodéstia com que tratou o assunto da candidatura à Câmara da Guarda. Tão longe levaram os dirigentes locais do partido o suspense acerca da recandidatura da actual presidente, que agora acabam por dar um tiro no pé: não só se lhe rendem como ainda lhe declaram carta branca para fazer a lista que melhor entender. Pior que tudo, vão a reboque de um «facto político» que ela sozinha nunca teria conseguido fazer ir além de um moderado fait-divers: a exigência de compromisso escrito para a construção de um novo hospital. Requisito que, conforme imediatamente tornou público, mantém válido. E que agora, tendo já o partido a seus pés, poderá levar até onde quiser.Há não muito tempo imaginavam-se os pesadelos que Maria do Carmo teria por causa da lista. Adivinhava-se que Esmeraldo Carvalhinho, o número quatro do executivo e número um do partido, não estivesse para continuar numa posição subalterna. Ele que, em oito anos, galgou a condição de pacato funcionário camarário a quem parecia destinada uma carreira de poucos horizontes, torneou rasteiras, ganhou argúcia e afinou o sentido político – há até quem lhe encontre semelhanças de estilo com Abílio Curto.A saída de Joaquim Valente veio a revelar-se providencial para ambas as partes, permitindo as desejadas mexidas na lista. E logo correram rumores sobre um verdadeiro «assalto» aos lugares elegíveis por parte do PS puro e duro. Mas tanto tempo passou e tanta coisa foi dita que por fim não restou a Carvalhinho outra solução senão declarar o apoio à actual presidente da forma como o fez, na passada Sexta-feira.Houve aqui, de facto, uma irónica inversão de papéis: Maria do Carmo venceu sem esforço a primeira batalha; e o partido vê-se à nora para responder à exigência de um papel escrito. E ao invés de transformar a questão do hospital numa «razão de regime» que pusesse o PS a exigir a uma só voz aquilo que representa a maior debilidade da governação socialista na Guarda, o que a concelhia fez foi desvalorizar a condição da possível candidata, dando-lhe a importância que se dá a todos os excessos bairristas. A moção dos injustiçados, levada ao último congresso do partido, foi só um arranjo feito de propósito para aquela quermesse, como já se desconfiava. Conversa de entretém, portanto. Porque de resto ninguém está para se deixar de consensos e assumir claramente as rupturas necessárias para que se sinta que os interesses desta terra estão a ser defendidos. Passa pela cabeça a alguém que os dois deputados socialistas pelo distrito façam depender o voto a favor do próximo orçamento de idêntico compromisso sobre a construção de um hospital? Ou que qualquer dos nomeados com responsabilidades nesta área dê à tutela um prazo determinado para obter a mesma garantia, pondo o lugar à disposição se ela não vier? É claro que não. Por isso é que a exigência de Maria do Carmo Borges passou rapidamente de fait-divers a facto político. À custa do próprio PS, que ainda veio com este argumento tão extraordinário quanto cómico: se, por falta de cumprimento da condição que põe, Maria não for candidata, o que não falta é substitutos. Carvalhinho define mesmo o partido como um «alfobre de bons candidatos».Não me custa a reconhecer que nas fileiras do PS haja excelentes pessoas. Nem a crer que os piores legumes de um alfobre consigam inspirar as melhores receitas, como o comprova uma boa travessa de peixinhos da horta.A única questão que importa ver respondida é precisamente a seguinte: se o PS deixar cair esta candidata por não lhe poder garantir que será construído um hospital, para que havemos nós de querer que nos apresentem outro candidato?
«Terras da Beira»

7 de julho de 2001

7 Jul 2001: A chantagem

Alípio Severo Abranhos não percebia como é que os governos se gastavam. Parecia-lhe que administravam o tesouro com honestidade, que faziam o expediente das secretarias com suficiente regularidade, que mantinham no país uma ordem benéfica, que não oprimiam nem a imprensa nem as consciências, que eram comandados por cidadãos estimáveis. E no entanto gastavam-se – e caíam. Ora esse carácter imprevisto da permanência no poder causava sobressaltos a quem dele tanto dependia e não sabia fazer mais nada, como era o caso do Conde de Abranhos. Isto remonta ao final do século XIX e mesmo que não saibamos hoje se a personagem de Eça correspondia a um modelo ou se pretendia retratar uma figura real, a verdade é que a caracterização do Conde assenta num arquétipo que continua válido: todo o poder gera clientelas; e estas crêem que o bem do país, o bem do partido e o bem delas próprias são uma e a mesmíssima coisa.O retrato exuberante que Eça de Queiroz fazia do país oitocentista mantém uma intemporalidade inquietante. Tal como então, o Governo está gasto. Não é que o PS governe mal ou que Guterres seja um mau primeiro-ministro. Não é que os indicadores sociais do país sejam assim tão negativos ou que a conjuntura económica faça realmente antever uma crise profunda. Mesmo que fosse isso, não foi por aí que se gastou. Foi mais pela falta de firmeza, de orientação, de talento, de confiança e de esperança. Há uma comparação simples, repetidamente usada ao longo desta semana, que melhor traduz o actual estado de coisas: neste Governo, tal como no futebol, já não são os reforços que devolvem o ânimo à equipa nem a estima aos adeptos; ou o campeonato termina mais cedo ou o treinador é despedido.E agora? Agora é esperar que a queda se consume. É verdade que na política há, por vezes, mortes anunciadas que depois se transformam em assombrosas ressurreições. E que o tempo é de férias, propício ao esquecimento. E que uma boa maioria da nação deve ligar menos ao que vai dentro do Governo do que ao enredo dos Olhos de Água. Mas também é verdade que à pergunta «em quem votava?» a mesma maioria já responde que dava a vez a outro. Para o PSD, que se limitou a esperar sentado, chegou o momento – e não deve desperdiçá-lo. Estamos assim a uma passo de consolidar a alternância plena, o governas-tu-governo-eu entre os dois maiores, tal como na era queirosiana. Quem disse que a história não se repete?Mesmo a linhagem do Conde de Abranhos nunca deixou de estar no activo. A têmpera tem sido a mesma da de muitos dirigentes locais, «representantes» eleitos para o Parlamento e nomeados para os serviços. Ao longo de quase duas décadas somos capazes de ter assistido ao aparecimento de um punhado de figuras públicas a quem se reconhece competência técnica e envergadura política e a quem a Guarda e a região ficam a dever alguma coisa – são as excepções que confirmam a regra. No mais, estivemos em presença de grupos de mediocridades em busca de promoção pessoal e de migalhas de poder. Prontos a todos os fretes e presos numa teia de silêncios e de obediência.Penámos uma dúzia de anos com os boys do PSD. Como a Câmara era da oposição, vivemos permanentemente numa trincheira. No fim da guerra, não houve vencedores nem vencidos – perdemos todos, perdeu a Guarda. E nada parece pesar-lhes na consciência: gozam tranquilos nas tertúlias improvisadas nas ombreiras do largo da Misericórdia. Vieram depois os boys do PS, a Câmara manteve-se socialista e chegou-se a pensar que tanta convergência havia de fazer recuperar os projectos adiados. Foi o que se viu.Bem pode agora Maria do Carmo Borges vir dizer que só é candidata se o partido lhe assegurar a construção de um hospital novo. Por um lado, não há-de faltar no PS quem julgue que pode ganhar a Câmara sem ela. Por outro lado, a chantagem é um autêntico tiro no pé: se é o partido que decide as obras (já desconfiávamos...), o que é que isso valeu à Guarda nos últimos seis anos?
«Terras da Beira»