7 de julho de 2001

7 Jul 2001: A chantagem

Alípio Severo Abranhos não percebia como é que os governos se gastavam. Parecia-lhe que administravam o tesouro com honestidade, que faziam o expediente das secretarias com suficiente regularidade, que mantinham no país uma ordem benéfica, que não oprimiam nem a imprensa nem as consciências, que eram comandados por cidadãos estimáveis. E no entanto gastavam-se – e caíam. Ora esse carácter imprevisto da permanência no poder causava sobressaltos a quem dele tanto dependia e não sabia fazer mais nada, como era o caso do Conde de Abranhos. Isto remonta ao final do século XIX e mesmo que não saibamos hoje se a personagem de Eça correspondia a um modelo ou se pretendia retratar uma figura real, a verdade é que a caracterização do Conde assenta num arquétipo que continua válido: todo o poder gera clientelas; e estas crêem que o bem do país, o bem do partido e o bem delas próprias são uma e a mesmíssima coisa.O retrato exuberante que Eça de Queiroz fazia do país oitocentista mantém uma intemporalidade inquietante. Tal como então, o Governo está gasto. Não é que o PS governe mal ou que Guterres seja um mau primeiro-ministro. Não é que os indicadores sociais do país sejam assim tão negativos ou que a conjuntura económica faça realmente antever uma crise profunda. Mesmo que fosse isso, não foi por aí que se gastou. Foi mais pela falta de firmeza, de orientação, de talento, de confiança e de esperança. Há uma comparação simples, repetidamente usada ao longo desta semana, que melhor traduz o actual estado de coisas: neste Governo, tal como no futebol, já não são os reforços que devolvem o ânimo à equipa nem a estima aos adeptos; ou o campeonato termina mais cedo ou o treinador é despedido.E agora? Agora é esperar que a queda se consume. É verdade que na política há, por vezes, mortes anunciadas que depois se transformam em assombrosas ressurreições. E que o tempo é de férias, propício ao esquecimento. E que uma boa maioria da nação deve ligar menos ao que vai dentro do Governo do que ao enredo dos Olhos de Água. Mas também é verdade que à pergunta «em quem votava?» a mesma maioria já responde que dava a vez a outro. Para o PSD, que se limitou a esperar sentado, chegou o momento – e não deve desperdiçá-lo. Estamos assim a uma passo de consolidar a alternância plena, o governas-tu-governo-eu entre os dois maiores, tal como na era queirosiana. Quem disse que a história não se repete?Mesmo a linhagem do Conde de Abranhos nunca deixou de estar no activo. A têmpera tem sido a mesma da de muitos dirigentes locais, «representantes» eleitos para o Parlamento e nomeados para os serviços. Ao longo de quase duas décadas somos capazes de ter assistido ao aparecimento de um punhado de figuras públicas a quem se reconhece competência técnica e envergadura política e a quem a Guarda e a região ficam a dever alguma coisa – são as excepções que confirmam a regra. No mais, estivemos em presença de grupos de mediocridades em busca de promoção pessoal e de migalhas de poder. Prontos a todos os fretes e presos numa teia de silêncios e de obediência.Penámos uma dúzia de anos com os boys do PSD. Como a Câmara era da oposição, vivemos permanentemente numa trincheira. No fim da guerra, não houve vencedores nem vencidos – perdemos todos, perdeu a Guarda. E nada parece pesar-lhes na consciência: gozam tranquilos nas tertúlias improvisadas nas ombreiras do largo da Misericórdia. Vieram depois os boys do PS, a Câmara manteve-se socialista e chegou-se a pensar que tanta convergência havia de fazer recuperar os projectos adiados. Foi o que se viu.Bem pode agora Maria do Carmo Borges vir dizer que só é candidata se o partido lhe assegurar a construção de um hospital novo. Por um lado, não há-de faltar no PS quem julgue que pode ganhar a Câmara sem ela. Por outro lado, a chantagem é um autêntico tiro no pé: se é o partido que decide as obras (já desconfiávamos...), o que é que isso valeu à Guarda nos últimos seis anos?
«Terras da Beira»

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