23 de agosto de 2001

23 Ago 2001: festas, romarias e dedicatórias

Parece que a cidade política em peso assistiu ao show de umas tais Bruna e Liliana nas festas da Póvoa do Mileu. Tenho que confessar a minha insensibilidade: nunca ouvi falar delas e os vagos acordes que me entraram pela frincha da janela – vivo ali perto – não me deixaram boa impressão do estilo musical e do próprio talento das raparigas. Mas agora percebo que tive, sem o saber, o privilégio de adormecer ao som de uma girls-band que possui quase um clube de fãs na Guarda, ao ponto de ter sido a própria Câmara a pagar o espectáculo, contrariando a ideia de que apenas faz programação cultural para as elites. Pelos vistos, uns e outros, programadores e elites propriamente ditas, desforram-se em Agosto nos arraiais populares e nos espectáculos pimba. E não é só pelo ambiente autêntico que se vive nestas festas. Aparentemente, a letra das cantigas também não passa despercebida ao mais exigente dos públicos. Assim se explica o que aconteceu na festa do Mileu, naquela noite. Bruna e Liliana terão, segundo uns, dedicado uma canção à «velha amiga» Ana Manso. Segundo outros, ter-lhe-ão apenas dirigido «um beijinho». A candidata do PSD à Câmara da Guarda estava presente. E dois vereadores do PS também. Nenhum deles confirma mais do que isso mas o empresário das artistas acusa-os de terem ido apoquentá-lo, exigindo-lhe uma retractação. Muitas modas depois, alguém terá subido ao palco a desfiar a lista de agradecimentos, sem esquecer um «muito especial» à presidente da Câmara, equilibrando o repertório.Anda-se há meses à espera de uma pista, de uma intenção, de um desígnio. No final de tudo, o que resta de mais empolgante são cenas como esta. E a isto – e ao caricato acotovelamento entre a presidente candidata e a candidata a presidente noutras festas do género – se resume tudo quanto o a pré-campanha conseguiu produzir até agora.Digam o que disserem, o desenlace do “tabu” de Maria do Carmo Borges também não ajudou à melhoria deste estado de coisas. Há agora, nas hostes do Partido Socialista, quem tente resumir tudo às “más leituras” da imprensa sobre o caso, como era de prever. Mas lidos os jornais que relataram o acontecimento chega-se facilmente à conclusão de que sofremos todos do mesmo defeito: nenhum de nós teve clarividência suficiente para descobrir o tal «hospital novo» nos planos expostos durante a visita do ministro. Só que, de facto, o único compromisso expresso foi o de que um plano director à volta do qual se trabalha há mais de seis anos levará a partir de agora menos de seis meses para começar a ser concretizado. Que isso represente a melhor garantia realizável nesta altura, é uma coisa. Que corresponda por inteiro à exigência da presidente da Câmara, é outra. Foi a conquista possível, o que não quer dizer que tenha sido a conquista desejada. À política, como aos hospitais, aplica-se o velho aforismo: vale mais um pássaro na mão do que dois a voarem. Toda a gente percebeu isso. E Maria do Carmo Borges também, ainda que tardiamente. Espera-se é que tenha modéstia para o admitir e para o explicar aos pares.Caso contrário, a seriedade desta campanha nunca chegará sequer a alcançar o nível de um concerto de Bruna e Liliana. E depois, como lembra aquele outro provérbio, boa romaria faz quem em sua casa fica em paz.
«Terras da Beira»

16 de agosto de 2001

16 Ago 2001: Um novo hospital em vez de um hospital novo

O “tabu” de Maria do Carmo Borges não alcançou um resultado muito além do previsível e, em termos práticos, não trouxe nada de novo para a Guarda. Mas o desfecho deixou mais nítido o contorno deste drama, sendo provável que tenha servido mais para assustar o PS do que para exigir uma obra que a lógica tornava irrealizável. E mesmo que tenha havido um princípio de genuína vontade para levar as coisas até às últimas consequências, o nervosismo infligido ao partido foi bastante para dar o caso por terminado, baixando a fasquia com um subtil jogo de palavras. Como a própria autarca faz questão de lembrar [ver entrevista na página 4], a primeira das condições que colocou para ser candidata foi obter o apoio incondicional do PS local. Ora esse apoio só foi tornado público quando já corriam rumores sobre os apetites de todo o inner circle socialista em relação aos lugares elegíveis, cenário que punha Maria do Carmo na condição de cabeça de lista por exclusão de partes, porventura para cumprir calendário até que o promissor «alfobre» brotasse. Isso significaria, portanto, que a sua margem de manobra estaria sempre diminuída.Ao colocar o PS perante uma exigência deste calibre a pouco tempo das eleições, ela não só o responsabilizou por tudo quanto viesse a acontecer como esvaziou qualquer possível candidatura alternativa: para quê votar num partido que, sendo governo, não tinha sido capaz de assegurar a construção de um hospital?Com muito nervosismo e alguma circunspecção, os dirigentes socialistas lá foram tratando o caso o melhor que puderam. E terem trazido à Guarda um ministro com o perfil de Correia de Campos, dando-lhe pretexto para anunciar com espavento um plano director que já estava em curso, não foi propriamente mal conseguido. Politicamente, pelo menos, arrumou-se o assunto. Mas em termos práticos fica a pairar uma suspeita de fingimento.Desde 1994 que se fala de um plano director para o Hospital da Guarda mas só em 1998 é que a segunda comissão nomeada para o efeito teve pronto um documento que serviria de guião aos projectos lançados a concurso. As ideias de base seguem a mesma lógica desde esse tempo: a construção de um «novo hospital» na Guarda passaria sempre pela remodelação do actual edifício e pela recuperação dos antigos pavilhões do ex-Sanatório, e nunca pela concentração de todos os serviços numa só construção de raiz, fosse naquele ou noutro local da cidade. A actual administração, nomeada em Junho de 1999, agarrou a ideia como sua e aperfeiçoou-a, dando-lhe a forma que é conhecida desde meados do ano passado e que, com mais uns acertos, foi tida como finalizada em Dezembro último. O modelo final é a «menina dos olhos» do director, José Guilherme, que em mais do que uma ocasião fez questão de publicitar os projectos do novo hospital – da demolição do miolo do actual pavilhão principal ao aproveitamento dos dois velhos edifícios mais próximos, passando pela construção de quatro novos blocos, contíguos ao corpo principal. Isto apesar das dúvidas que chegaram a ser levantadas acerca da sensatez destas opções: fosse porque o edifício principal não tem um valor patrimonial por aí além que justifique manter a estrutura de base como um espartilho; fosse porque os dois pavilhões que realmente têm importância histórica já se encontram num estado tão avançado de degradação que se torna difícil imaginar que ainda possuam uma ponta por onde se lhes pegue (especialmente o Dona Amélia, com a intrincada estrutura de ferro e aço); fosse, em última análise, porque enquanto se insistiu ao longo de sete anos neste protótipo para a Guarda, tanto Viseu como a Covilhã viram nascer hospitais novos, no único sentido verdadeiro do termo.Não é de crer que Maria do Carmo Borges desconhecesse um plano que há muito era do domínio público. Nem é provável que se referisse a outra coisa quando, em ocasiões anteriores, criticava os remendos legados pelo PSD e lamentava que o PS estivesse a seguir pelo mesmo caminho, reclamando para a Guarda o mesmo que fora concedido às outras cidades.O problema terá estado, afinal, numa interpretação errada das palavras da autarca. Ela nunca exigiu um hospital novo – bastar-lhe-ia um novo hospital.

6 de agosto de 2001

6 Ago 2001: E, apesar de tudo, eles vêm

Onde em tempos foi inaugurado com toda a pompa um posto de turismo já não existe coisa alguma. Ainda lá estão os dizeres em metal mas esse é o elemento que se distingue do ar decrépito que a antiga loja de atendimento a visitantes, no piso térreo do edifício da Câmara, há muito exibe. Tão decrépito que o único recado para quem ainda ali vai ao engano é uma simples folha colada na porta poeirenta, onde se informa que o posto agora funciona noutro local, junto à Sé. Sem uma única linha escrita noutra língua e sem, sequer, um mapa da cidade a indicar o sítio. Quem não tiver conhecimentos de português nem souber como chegar à Praça Velha, fica à deriva. E o mais certo é que tome o mesmo caminho de onde veio, maldizendo tal desvio.Talvez essa experiência esteja presente nas notas de viagem de Julia Wilkinson e John King, a dupla de australianos que assina no «Guia de Portugal» da Lonely Planet, e essa seja, afinal, a explicação para o que o mais famoso «manual de sobrevivência» para viajantes diz acerca da Guarda. Que é, literalmente, isto: «A descrição tradicional da Guarda – fria, farta, forte e feia – dificilmente será atractiva. E para sermos francos a cidade não parece ter problemas em conviver com tal reputação, de tão severa e distante que surge. Dificilmente causará uma primeira impressão ideal aos visitantes que chegam de Espanha ou de França através de Vilar Formoso. Apesar de a cidade ter uma história de oitocentos anos (foi fundada em 1199 para guardar a fronteira) há pouco para ver ou para fazer aqui. Então para quê vir? Porque a cidade é uma boa base para explorar a área montanhosa circundante, a menos conhecida zona do nordeste da Serra da Estrela. Há um posto de turismo junto à Catedral. Mas tem um horário incerto e é de pouca ajuda».Que a digam feia em vez de fiel e formosa é falta de informação. Que não encontrem nada para ver ou fazer é falta de atenção. Mas quando por cá passaram ocorreu-lhes, provavelmente, o mesmo que aos turistas acidentais interpelados esta semana pelo TB [ver reportagem nas páginas 6 e 7], que vagueavam por aí, depois de terem subido em vão as escadas da Sé ou da Igreja da Misericórdia – dois dos raros pontos de referência nos guias internacionais mas que permanecem, incompreensivelmente, fechados a maior parte do tempo.Ainda assim, eles vêm: seja porque o contorno da cidade atrai quem de longe entra por Vilar Formoso; seja porque é, simplesmente, um local obrigatório de passagem. Não há números precisos mas estima-se que largas centenas de visitantes parem todos os dias na Guarda. Basta andar nas ruas para perceber isso. Não é uma realidade de hoje – é de há muitos anos. E se no Verão a cidade recebe mais estrangeiros, no Inverno vira-se para a procura interna, cumprindo a tal vocação de destino periférico da Serra.E como respondemos a esta realidade? Com um papel afixado no vidro surrado de um posto de turismo desactivado, mandando os curiosos procurar informação noutro lugar, que funciona sobretudo nos dias úteis e dentro das horas de expediente. Com monumentos inacessíveis e sem qualquer indicação acerca de um conjecturável horário de abertura. Com locais de chegada, pontos de encontro, e ruas principais onde não há sequer um mapa da cidade, um banal «você está aqui». Com sinalética na língua materna e a fornecer principalmente indicações tão úteis como «Direcção de Finanças», «Governo Civil» e «Tribunal». Com uma total ausência de imaginação, que não dá sequer para copiar as experiências de outras cidades históricas, promovendo, por exemplo, percursos diários guiados (para visitantes e para residentes), na linha, aliás, da feliz iniciativa que o INATEL tem estado a organizar em todo o distrito. Com um dos raros centros históricos onde ainda circulam carros. Com um comércio absolutamente zeloso no cumprimento das horas de descanso.Com um parque de campismo decadente, geminado com um parque urbano alugado para casamentos. Com uma série de projectos na gaveta, o mais emblemático dos quais aproveitaria turisticamente o Caldeirão. Com um ramo hoteleiro que aos domingos e feriados mete, em grande maioria, trancas à porta.E, apesar de tudo, eles vêm.
«Terras da Beira»