16 de agosto de 2001

16 Ago 2001: Um novo hospital em vez de um hospital novo

O “tabu” de Maria do Carmo Borges não alcançou um resultado muito além do previsível e, em termos práticos, não trouxe nada de novo para a Guarda. Mas o desfecho deixou mais nítido o contorno deste drama, sendo provável que tenha servido mais para assustar o PS do que para exigir uma obra que a lógica tornava irrealizável. E mesmo que tenha havido um princípio de genuína vontade para levar as coisas até às últimas consequências, o nervosismo infligido ao partido foi bastante para dar o caso por terminado, baixando a fasquia com um subtil jogo de palavras. Como a própria autarca faz questão de lembrar [ver entrevista na página 4], a primeira das condições que colocou para ser candidata foi obter o apoio incondicional do PS local. Ora esse apoio só foi tornado público quando já corriam rumores sobre os apetites de todo o inner circle socialista em relação aos lugares elegíveis, cenário que punha Maria do Carmo na condição de cabeça de lista por exclusão de partes, porventura para cumprir calendário até que o promissor «alfobre» brotasse. Isso significaria, portanto, que a sua margem de manobra estaria sempre diminuída.Ao colocar o PS perante uma exigência deste calibre a pouco tempo das eleições, ela não só o responsabilizou por tudo quanto viesse a acontecer como esvaziou qualquer possível candidatura alternativa: para quê votar num partido que, sendo governo, não tinha sido capaz de assegurar a construção de um hospital?Com muito nervosismo e alguma circunspecção, os dirigentes socialistas lá foram tratando o caso o melhor que puderam. E terem trazido à Guarda um ministro com o perfil de Correia de Campos, dando-lhe pretexto para anunciar com espavento um plano director que já estava em curso, não foi propriamente mal conseguido. Politicamente, pelo menos, arrumou-se o assunto. Mas em termos práticos fica a pairar uma suspeita de fingimento.Desde 1994 que se fala de um plano director para o Hospital da Guarda mas só em 1998 é que a segunda comissão nomeada para o efeito teve pronto um documento que serviria de guião aos projectos lançados a concurso. As ideias de base seguem a mesma lógica desde esse tempo: a construção de um «novo hospital» na Guarda passaria sempre pela remodelação do actual edifício e pela recuperação dos antigos pavilhões do ex-Sanatório, e nunca pela concentração de todos os serviços numa só construção de raiz, fosse naquele ou noutro local da cidade. A actual administração, nomeada em Junho de 1999, agarrou a ideia como sua e aperfeiçoou-a, dando-lhe a forma que é conhecida desde meados do ano passado e que, com mais uns acertos, foi tida como finalizada em Dezembro último. O modelo final é a «menina dos olhos» do director, José Guilherme, que em mais do que uma ocasião fez questão de publicitar os projectos do novo hospital – da demolição do miolo do actual pavilhão principal ao aproveitamento dos dois velhos edifícios mais próximos, passando pela construção de quatro novos blocos, contíguos ao corpo principal. Isto apesar das dúvidas que chegaram a ser levantadas acerca da sensatez destas opções: fosse porque o edifício principal não tem um valor patrimonial por aí além que justifique manter a estrutura de base como um espartilho; fosse porque os dois pavilhões que realmente têm importância histórica já se encontram num estado tão avançado de degradação que se torna difícil imaginar que ainda possuam uma ponta por onde se lhes pegue (especialmente o Dona Amélia, com a intrincada estrutura de ferro e aço); fosse, em última análise, porque enquanto se insistiu ao longo de sete anos neste protótipo para a Guarda, tanto Viseu como a Covilhã viram nascer hospitais novos, no único sentido verdadeiro do termo.Não é de crer que Maria do Carmo Borges desconhecesse um plano que há muito era do domínio público. Nem é provável que se referisse a outra coisa quando, em ocasiões anteriores, criticava os remendos legados pelo PSD e lamentava que o PS estivesse a seguir pelo mesmo caminho, reclamando para a Guarda o mesmo que fora concedido às outras cidades.O problema terá estado, afinal, numa interpretação errada das palavras da autarca. Ela nunca exigiu um hospital novo – bastar-lhe-ia um novo hospital.

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