6 de agosto de 2001

6 Ago 2001: E, apesar de tudo, eles vêm

Onde em tempos foi inaugurado com toda a pompa um posto de turismo já não existe coisa alguma. Ainda lá estão os dizeres em metal mas esse é o elemento que se distingue do ar decrépito que a antiga loja de atendimento a visitantes, no piso térreo do edifício da Câmara, há muito exibe. Tão decrépito que o único recado para quem ainda ali vai ao engano é uma simples folha colada na porta poeirenta, onde se informa que o posto agora funciona noutro local, junto à Sé. Sem uma única linha escrita noutra língua e sem, sequer, um mapa da cidade a indicar o sítio. Quem não tiver conhecimentos de português nem souber como chegar à Praça Velha, fica à deriva. E o mais certo é que tome o mesmo caminho de onde veio, maldizendo tal desvio.Talvez essa experiência esteja presente nas notas de viagem de Julia Wilkinson e John King, a dupla de australianos que assina no «Guia de Portugal» da Lonely Planet, e essa seja, afinal, a explicação para o que o mais famoso «manual de sobrevivência» para viajantes diz acerca da Guarda. Que é, literalmente, isto: «A descrição tradicional da Guarda – fria, farta, forte e feia – dificilmente será atractiva. E para sermos francos a cidade não parece ter problemas em conviver com tal reputação, de tão severa e distante que surge. Dificilmente causará uma primeira impressão ideal aos visitantes que chegam de Espanha ou de França através de Vilar Formoso. Apesar de a cidade ter uma história de oitocentos anos (foi fundada em 1199 para guardar a fronteira) há pouco para ver ou para fazer aqui. Então para quê vir? Porque a cidade é uma boa base para explorar a área montanhosa circundante, a menos conhecida zona do nordeste da Serra da Estrela. Há um posto de turismo junto à Catedral. Mas tem um horário incerto e é de pouca ajuda».Que a digam feia em vez de fiel e formosa é falta de informação. Que não encontrem nada para ver ou fazer é falta de atenção. Mas quando por cá passaram ocorreu-lhes, provavelmente, o mesmo que aos turistas acidentais interpelados esta semana pelo TB [ver reportagem nas páginas 6 e 7], que vagueavam por aí, depois de terem subido em vão as escadas da Sé ou da Igreja da Misericórdia – dois dos raros pontos de referência nos guias internacionais mas que permanecem, incompreensivelmente, fechados a maior parte do tempo.Ainda assim, eles vêm: seja porque o contorno da cidade atrai quem de longe entra por Vilar Formoso; seja porque é, simplesmente, um local obrigatório de passagem. Não há números precisos mas estima-se que largas centenas de visitantes parem todos os dias na Guarda. Basta andar nas ruas para perceber isso. Não é uma realidade de hoje – é de há muitos anos. E se no Verão a cidade recebe mais estrangeiros, no Inverno vira-se para a procura interna, cumprindo a tal vocação de destino periférico da Serra.E como respondemos a esta realidade? Com um papel afixado no vidro surrado de um posto de turismo desactivado, mandando os curiosos procurar informação noutro lugar, que funciona sobretudo nos dias úteis e dentro das horas de expediente. Com monumentos inacessíveis e sem qualquer indicação acerca de um conjecturável horário de abertura. Com locais de chegada, pontos de encontro, e ruas principais onde não há sequer um mapa da cidade, um banal «você está aqui». Com sinalética na língua materna e a fornecer principalmente indicações tão úteis como «Direcção de Finanças», «Governo Civil» e «Tribunal». Com uma total ausência de imaginação, que não dá sequer para copiar as experiências de outras cidades históricas, promovendo, por exemplo, percursos diários guiados (para visitantes e para residentes), na linha, aliás, da feliz iniciativa que o INATEL tem estado a organizar em todo o distrito. Com um dos raros centros históricos onde ainda circulam carros. Com um comércio absolutamente zeloso no cumprimento das horas de descanso.Com um parque de campismo decadente, geminado com um parque urbano alugado para casamentos. Com uma série de projectos na gaveta, o mais emblemático dos quais aproveitaria turisticamente o Caldeirão. Com um ramo hoteleiro que aos domingos e feriados mete, em grande maioria, trancas à porta.E, apesar de tudo, eles vêm.
«Terras da Beira»

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