27 de setembro de 2001

27 Set 2001: Que falta fizeram os carros?

Afinal, a lição que se tira das comemorações do Dia Europeu sem Carros na Guarda é mesmo só uma: a de que a cidade pode passar bem sem eles. É verdade que o tempo não esteve de feição para um tal tipo de festejos, que a informação pecou por escassez, que muito boa gente desviou as barreiras como bem lhe apeteceu e que houve «regimes excepcionais» impróprios e veículos estacionados nos lugares do costume e à hora de sempre. Tudo isto estará inteiramente certo. Mas também não será propriamente um raciocínio pelo absurdo dizer-se que o trânsito automóvel não fez falta absolutamente nenhuma nas ruas e praças onde esteve interdito. Em primeiro lugar, porque a área restrita salvaguardou circuitos alternativos aparentemente aceitáveis. Em segundo, porque não há prazer comparável ao de ter uma cidade assim: limpa, tranquila, devolvida aos cidadãos.Isto leva-nos à questão de sempre: por que razão não fecham definitivamente a zona histórica aos automóveis? Tão velha é a pergunta que há trinta anos, pelo menos, havia quem a pusesse. E segundo a investigação do TB [ver reportagem nas páginas 2 e 3 desta edição], ousava-se planear, já naquele tempo, não só o calcetamento definitivo de toda a área como a construção de uma cobertura envidraçada sobre as ruas Direita e do Comércio, com aquecimento integrado. Megalomania? É possível, tanto que a ideia nunca atravessou um círculo restrito de «notáveis». Mas houve outras soluções, ao longo destas décadas, que chegaram à fase de ante-projecto ou de discussão pública. Para esbarrarem invariavelmente numa enorme falta de coragem.Todas as cidades onde já se optou por fechar o trânsito nas zonas mais emblemáticas tiveram em comum dois registos opostos: uma forte polémica, antes de concretizada a intervenção; e uma aceitação generalizada, depois de concluída a obra. Porque, evidentemente, está em causa algo mais do que a colocação de placas de circulação interdita: é preciso mexer na paisagem, transformar as velhas ruas em atractivas zonas pedonais, criar recantos, revitalizar espaços, instalar serviços.O que a iniciativa do passado fim-de-semana também provou foi que esta discussão pode facilmente alargar-se a zonas fora do traçado da muralha medieval, como a Misericórdia e o Largo Frei Pedro. Não custa imaginar uma soberba praça pública desde o Jardim José de Lemos até à Sé. Nem parece que dois grandes parques de estacionamento convenientemente situados e com bons acessos – um na Avenida dos Bombeiros e outro nos terrenos do antigo quartel, por exemplo – não anulassem o único obstáculo racional à concretização de uma solução deste tipo.E, bem vistas as coisas, seria mais barato e teria maior proveito do que um túnel entre a Rua 31 de Janeiro o largo da Misericórdia. Como se o trânsito que circula de um lado para o outro não tivesse outras alternativas, quando fechassem a Praça Velha, a Rua do Comércio e as outras vielas. Como se, por existir um túnel, os comerciantes e os moradores do centro histórico deixassem de querer estacionar à porta. Como se isto tudo não fosse um problema de mentalidades – mais do que visível à superfície.
«Terras da Beira»