25 de outubro de 2001

25 Out 2001: O poder local e os cidadãos

É uma das essências da vida política ou, pelo menos, do seu discurso. Prometer. Pressagiar. Traçar. Assegurar que a vontade move montanhas, transforma cidades, faz felizes as pessoas. Entregues as listas, as propostas voluntaristas vão começar a multiplicar-se. Em momento de recessão económica, as ilusões da vontade vão ter um excepcional mercado. Numa altura em que as dúvidas mundiais são de dimensão absolutamente desconhecida, as maiores certezas vão esgrimir-se em torno do nosso bairro, da nossa rua, da nossa ombreira. É isto que faz das autárquicas, apesar de tudo, uma clareira aprazível no clima de descrença generalizada em relação à política. Ouviremos, como é óbvio, juras quiméricas, promessas impossíveis, argumentos nulos, louvores duvidosos, manha infindável. Mas há algumas diferenças, apesar de tudo: estas são as eleições em que as escolhas dos cidadãos se afiguram mais razoáveis. Porque podem penalizar autoridades com nome próprio; seleccionar partidos, pessoas, gente que se vê; votar diversamente para uma assembleia ou para um órgão executivo; e recompensar ou castigar os seus representantes, sem estarem a renegar nada. As autárquicas são as eleições que nos oferecem a única pragmática possibilidade deste legítimo exercício: escolher. As que agora se aproximam, em concreto, trazem ainda outro registo positivo. Em mais de vinte e cinco anos de regime, nunca a umas eleições se tinha apresentado um tão elevado número de independentes. Não só surge uma nova geração em campo como há uma massa crítica que gradualmente tem vindo a dar o corpo ao manifesto. Isto abre, desde logo, possibilidades interessantes para o futuro do poder local. Mas, claro, não sejamos excessivamente fantasistas: nada garante que o fenómeno leve o municipalismo a depender cada vez menos da estética partidária e mais do perfil técnico dos intervenientes; nem que o clássico instrumento do caciquismo se transforme, do pé para a mão, no palco da plenitude democrática; e muito menos que a hostilidade urbanística, verdadeira imagem de marca do sector, ditada umas vezes pela incultura tácita e outras vezes sabe-se lá por que interesses obscuros, dê lugar, como que se de magia se tratasse, à sensibilidade paisagística e à harmonia planeada. A questão, obviamente, não se põe na simples troca de militantes partidários por independentes, como se isso resolvesse todos os problemas (ou como se uns fossem mais permeáveis à tentação do que os outros). Põe-se, tão só, na necessidade de abrir os destinos dos municípios a um espectro de participação cada vez mais amplo, correspondendo a uma tendência de vontades que tem vindo a emergir.Porque, tirando isso, o que é estas autárquicas nos podem trazer de verdadeiramente novo?
«Terras da Beira»

18 de outubro de 2001

18 Out 2001: As confissões da ex-ministra

As confissões da ex-ministra Manuela Arcanjo não deixou o lugar de ministra da Saúde assim há tanto tempo que não se lembre do que deixou por tratar. Então no que respeita ao hospital da Guarda, é improvável que tenha esquecido as arrelias que o problema da pediatria lhe causou, uma vez que foi ela quem apanhou, no curto mandato de menos de dois anos, o auge da contestação à falta de especialistas. Chegou mesmo a esperar-se que viesse em pessoa mandar resolver o mal pela raiz, com aquela têmpera que lhe serviu de marca. Mas a entrevista que deu ao «Público», no domingo passado, acabou por revelar muita coisa: não só o mau feitio era um máscara afivelada contra as mais íntimas fragilidades de quem, confessa-o agora, chegava a chorar com pena dos dirigentes sindicais a quem impunha, no tempo em que era secretária de Estado do Orçamento, tectos salariais irrisórios, como, pelos vistos, o conhecimento que tinha dos problemas que se viviam no Hospital Sousa Martins não era tão completo quanto se presumia. Há uma passagem da entrevista que é esclarecedora: «(...) pediatria na Guarda: tem três médicos e foi um esforço para os manter, enquanto Santa Maria dispõe de cem!». Dito desta forma, é a verdade pura e dura. O problema é que o pressuposto em que Manuela Arcanjo baseia uma tal constatação está errado. É altamente improvável que alguma vez tenha sido necessário fazer grande esforço para manter no hospital da Guarda os actuais pediatras. Por duas razões: dois deles jamais terão manifestado vontade de sair; e a terceira, admitida em Março deste ano (tal como a quarta, incorporada na semana passada), veio num contingente de início de carreira, sem outra alternativa. Houve, de facto, especialistas que bateram com a porta – nada menos que quatro, no espaço de dois anos – e os responsáveis do hospital não souberam segurá-los. Mas isso não ficou a dever-se à «desertificação», nem à «falta de incentivos para trabalhar das regiões do interior», nem a outras desculpas do mesmo género que a ex-ministra utiliza (e que já se revelaram recorrentes no discurso do sucessor) para justificar, de modo sumário, as críticas à política de incremento desregrado de novas unidades hospitalares. A prová-lo está o facto de todos os pediatras que saíram terem permanecido por aqui mesmo – em Viseu ou na Covilhã –, mantendo concorridíssimos consultórios privados na Guarda, onde atendem até de madrugada. Portanto, o motivo há-de ter sido algo menos prosaico. Terá tudo a ver com procedimentos dentro do hospital – ontem na pediatria como hoje noutras valências [ver notícia na página 4 desta edição]. Nunca ninguém teve foi a coragem de o denunciar em voz alta. Nem mesmo o esquecido Movimento P’la Criança, que chegou a dar nas vistas mas depois, à primeira oportunidade para interpelar um ministro de carne e osso no próprio «local do crime», optou por ficar a banhos, legitimando suspeitas sobre o carácter ad-hoc da organização e a sua subsequente inutilidade. E Arcanjo, de quem se pensava que de tudo sabia e que iria chegar um dia aqui, de espada justiceira em punho, para decepar os poderzinhos instalados neste hospital, afinal não sabia de nada. Mas será que alguém quer saber?
«Terras da Beira»

18 Out 2001: Má língua

Outro alfobre
Para provarem que o microclima de Pinhel consegue fazer medrar alfobres tão bons ou melhores que os da Guarda, os socialistas da cidade-falcão conseguiram a proeza de ter três candidatos em três semanas. António Cavalheiro compareceu em primeiro lugar, mas um certo carácter dinástico da lista que quis apresentar inviabilizou a recandidatura – as autarquias são órgãos republicanos, não se cedem à família por dote. A verdade, porém, é que o «tabu» demorou tempo demais. E acabou por deixar o PS local à beira de um ataque de nervos. Posta de parte, num primeiro momento, a hipótese de ser Vítor Silva a avançar, foi-se à lista de precedências e tirou-se Armando Reis, dirigente distrital. Honra lhe seja: sabia que um dos cenários prováveis era a sua própria imolação política mas não virou o nome à luta, na falta de acordo entre os da terra. Fez ver a muito boa gente. E, como disse o porta-voz da concelhia socialista, Francisco Monteiro, «todas as notícias dadas ontem [terça-feira] foram correctíssimas», ou seja, o director do Centro de Emprego de Pinhel ia mesmo avançar. Mas a noite, essa boa conselheira, pôs de novo as peças todas em cima do tabuleiro. E Vítor Silva é o homem que se segue, com uma lista aparentemente livre, lá nos lugares do topo, da proverbial e arriscada «imprevisibilidade» dos independentes. E com estes avanços e recuos chega-se à véspera da data limite para a apresentação das listas a todos os órgãos autárquicos. Adivinha-se que o PS ainda vá ter mais umas noites sem descanso. E Pinhel transformou-se, assim, num dos «casos» a seguir com maior atenção. O que, a juntar ao caso de Celorico da Beira, não é propriamente bom para um partido que já teve mais de metade das câmaras do distrito e depois veio por aí abaixo, passando para o empate com o PSD há oito anos e acabando, há quatro, numa desvantagem de cinco contra nove. Resta saber a que alturas estão agora a colocar a fasquia.
As marcas não vendem
Na abertura da sede de campanha, Ana Manso confirmou a filosofia que está implícita ao marketing da candidatura: não há qualquer referência ao PSD, partido a que preside no distrito e pelo qual concorre à Câmara da Guarda. A imagem é ela e as mensagens são as promessas concretas de tudo quanto julga que a cidade e o concelho precisam. Nem uma setinha, sequer, indica a marca do capote partidário. É uma estratégia que não se pode considerar despropositada. E se Maria do Carmo Borges, dentro de dias, optar pela mesma filosofia e também esconder as rosas e os punhos dos seus próprios cartazes, poderemos concluir que num ponto já ganhámos todos: ambas as candidatas se mostrarão, finalmente, conscientes de que as marcas que representam já não vendem. Porque fizeram, em vinte e tal anos de alternância, mal que bastasse à Guarda. Renegá-las pode ser um bom começo...
«Terras da Beira»

11 de outubro de 2001

11 Out 2001: A guerra possível

Na Idade Média cercavam-se os povos pela fome; no século passado isolavam-se em sanções económicas e comerciais, outra forma de castigo através da necessidade. Mas a guerra do novo milénio ostenta a sarcástica contradição do arremesso de alimentos por entre disparos de mísseis. Há muito que os conflitos mundiais deixaram de se caracterizar pela conquista através da agressão corpo a corpo, tendo dado lugar à destruição maciça de alvos precisos. Sabe-se, ao menos pelo cinema – e note-se que a 11 de Setembro ficou provado que a ficção já não é capaz de acompanhar o passo da realidade – , que cada centímetro do planeta está a ser vigiado e que neste momento, ou noutro qualquer, é possível dirigir, a partir de um asséptico gabinete no Pentágono e como se de uma tarefa de expediente se tratasse, um ataque rápido e mortífero contra um objectivo isolado. Mas a dúvida é sempre a mesma: por apurada que seja a perícia militar e por sofisticada que seja a tecnologia, dificilmente conseguirá que as bombas atinjam apenas os maus e que o auxílio humanitário alimente só os bons.O que nos pode ajudar a aliviar a incerteza é o facto de esta não ser uma guerra qualquer: ao menos por agora, aceitamo-la como uma missão de polícia. Não é fácil encontrar o criminoso, porque na realidade não há senão um retrato-robot. Luta-se contra um inimigo disseminado, sem rosto mas com muitos caras, que não está em lugar algum mas pode surgir em toda a parte. Bin Laden é apenas o talismã, o objectivo supremo, a vitória supranumerária. Neutralizar a utilização de um país com base terrorista e inutilizar a capacidade militar de um regime macabro é tudo quanto está em causa neste momento. Mesmo que a campanha se revele um tiro no escuro, tê-la iniciado é a honra mínima devida à memória de todas as pessoas – e nunca chegaremos a saber ao certo quantas – que perderam a vida num acto sórdido. Essas foram as autênticas vítimas inocentes desta guerra.Porque, quer se queira quer não, nasceu há quatro mil anos, a partir da Grécia antiga, a mais justa e mais compassiva civilização que o mundo conseguiu conceber: a civilização democrática ocidental. Tenha os defeitos que tiver, é pelo menos fundada nos princípios do governo legítimo, dos direitos de cidadania e do progresso das artes e das ciências. E uma coisa, pelo menos, é certa: as sociedades democráticas não combatem em nome de Deus nem clamam pela guerra santa.Da batalha que acaba de começar, o que se espera é que resulte em algo mais do que no mero alívio da consciência colectiva perante os ataques de 11 de Setembro. Que abale as organizações terroristas mas principalmente ataque os fundamentos sociais e culturais do terrorismo. Porque já antes tinham o regime taliban dado exemplos incríveis da ignorância e do fanatismo em que assentam as suas raízes. E já antes tinham cometido autênticos crimes contra a humanidade.Sabe-se que Bush lê essencialmente a Bíblia. Mas Tony Blair é capaz de nestes dias ter passado os olhos por Kant e pelas antinomias da razão pura: há razões contraditórias que se alcançam sempre que se pretende determinar a natureza absoluta do mundo. Ou dito de modo mais simples: há alturas em que é conveniente uma das mãos fingir ignorar o que faz a outra.
«Terras da Beira»

4 de outubro de 2001

4 Out 2001: Má língua

O seguro paga o penso
A Assembleia Municipal da Guarda chegou, na Sexta-feira passada, ao enlevo máximo – capaz de fazer lembrar, com muita propriedade, os acalorados debates no parlamento de Taipei, onde sessão sim, sessão não, voam cadeiras sobre as cabeças. Aqui não chegaram a tanto, é certo, mas a discussão à volta do assunto da Quinta da Maúnça quase levou o deputado Pereira da Silva, do PP, e o vereador Carlos de Jesus, do PSD, a vias de facto. Só não se consumou a refrega porque todo o Executivo agarrou o colega edil, a tempo de evitar a esboçada troca de tabefes. A sessão esteve suspensa, os ânimos arrefeceram, houve pedido de desculpas – e tudo prosseguiu a bem, enlevando os digníssimos senadores nas importantes e frutuosas discussões a que é costume dedicarem-se no período de antes da ordem do dia. Só houve um aspecto que causou desconfiança: depois de reatada a sessão, toda a mesa reclamava mazelas, por causa do desaguisado ocorrido minutos antes. A um doía-lhe o pulso, a outro a canela, um terceiro protestava o arranhão uns quantos sacos de gelo faziam périplo junto de ilustres tornozelos. Será o seguro de saúde dos autarcas assim tão bom?
Balsemão traz a trouxa
Está explicada a designação que Ana Manso concedeu a Francisco Pinto Balsemão: mandatário político. O mesmo é dizer padrinho, protector, patrono e por aí diante. Um cargo que não existe mas que, dado o calibre da personagem, é o mais apropriado. Porque mandatário, mesmo, há-de a candidata ter de arranjar outro. Ou seja: alguém que trate das continhas, que a represente nos assuntos formais, que organize as listas e as entregue no dia aprazado. Ora, ninguém está a imaginar o patrão da SIC a dar-se a tais estorvos, com as chatices que já tem lá para as bandas de Carnaxide. Daí que o militante número um do PSD não tenha vindo fazer mais do que fazem todos os “veteranos” nesta altura, pelo país fora. Só que Ana Manso, manhosa, deu-lhe um título: mandatário... mas apenas político. A menos que até meados deste mês, data limite para fazer transferências, o magnata da comunicação mude o recenseamento para o concelho da Guarda, o que lhe permitirá exercer aqui a plenitude dos direitos políticos. Tudo é possível... até porque Balsemão também está a precisar de sangue novo. Balsemão, nome de aldeia ali próximo do Barracão – entenda-se.
Jet Set de cartaz
Uns espanhóis ligados a qualquer coisa transfronteiriça, que não vinham à Guarda há uns meses, ficaram espantados com os cartazes de Ana Manso. E parece que a apreciação que fizeram foi muito positiva. Com toda a autoridade e o olho clínico que nuestros hermanos já provaram ter nestas coisas, houve quem comentasse que parecida saída da capa da Hola!. E ainda eles nem tinham topado o resto da lista.
Como é que está o jogo?
Concorridíssimo, também em termos do Jet Set local, esteve o concerto do Dia Mundial da Música, na Catedral (na outra, não naquela em que estão a pensar). Na primeira fila aprumavam-se os notáveis do regime, assistindo, com apropriados modos, ao War Requiem. Mas nalguns casos a bota batia tão mal com a perdigota, que houve logo quem jurasse que os que eles tinham era um rádio com auricular – e estavam, com aquele arzinho, a seguir mas era o jogo do Sporting. Má língua do piorio, foi o que foi.
«Terras da Beira»