18 de outubro de 2001

18 Out 2001: As confissões da ex-ministra

As confissões da ex-ministra Manuela Arcanjo não deixou o lugar de ministra da Saúde assim há tanto tempo que não se lembre do que deixou por tratar. Então no que respeita ao hospital da Guarda, é improvável que tenha esquecido as arrelias que o problema da pediatria lhe causou, uma vez que foi ela quem apanhou, no curto mandato de menos de dois anos, o auge da contestação à falta de especialistas. Chegou mesmo a esperar-se que viesse em pessoa mandar resolver o mal pela raiz, com aquela têmpera que lhe serviu de marca. Mas a entrevista que deu ao «Público», no domingo passado, acabou por revelar muita coisa: não só o mau feitio era um máscara afivelada contra as mais íntimas fragilidades de quem, confessa-o agora, chegava a chorar com pena dos dirigentes sindicais a quem impunha, no tempo em que era secretária de Estado do Orçamento, tectos salariais irrisórios, como, pelos vistos, o conhecimento que tinha dos problemas que se viviam no Hospital Sousa Martins não era tão completo quanto se presumia. Há uma passagem da entrevista que é esclarecedora: «(...) pediatria na Guarda: tem três médicos e foi um esforço para os manter, enquanto Santa Maria dispõe de cem!». Dito desta forma, é a verdade pura e dura. O problema é que o pressuposto em que Manuela Arcanjo baseia uma tal constatação está errado. É altamente improvável que alguma vez tenha sido necessário fazer grande esforço para manter no hospital da Guarda os actuais pediatras. Por duas razões: dois deles jamais terão manifestado vontade de sair; e a terceira, admitida em Março deste ano (tal como a quarta, incorporada na semana passada), veio num contingente de início de carreira, sem outra alternativa. Houve, de facto, especialistas que bateram com a porta – nada menos que quatro, no espaço de dois anos – e os responsáveis do hospital não souberam segurá-los. Mas isso não ficou a dever-se à «desertificação», nem à «falta de incentivos para trabalhar das regiões do interior», nem a outras desculpas do mesmo género que a ex-ministra utiliza (e que já se revelaram recorrentes no discurso do sucessor) para justificar, de modo sumário, as críticas à política de incremento desregrado de novas unidades hospitalares. A prová-lo está o facto de todos os pediatras que saíram terem permanecido por aqui mesmo – em Viseu ou na Covilhã –, mantendo concorridíssimos consultórios privados na Guarda, onde atendem até de madrugada. Portanto, o motivo há-de ter sido algo menos prosaico. Terá tudo a ver com procedimentos dentro do hospital – ontem na pediatria como hoje noutras valências [ver notícia na página 4 desta edição]. Nunca ninguém teve foi a coragem de o denunciar em voz alta. Nem mesmo o esquecido Movimento P’la Criança, que chegou a dar nas vistas mas depois, à primeira oportunidade para interpelar um ministro de carne e osso no próprio «local do crime», optou por ficar a banhos, legitimando suspeitas sobre o carácter ad-hoc da organização e a sua subsequente inutilidade. E Arcanjo, de quem se pensava que de tudo sabia e que iria chegar um dia aqui, de espada justiceira em punho, para decepar os poderzinhos instalados neste hospital, afinal não sabia de nada. Mas será que alguém quer saber?
«Terras da Beira»

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