29 de novembro de 2001

29 Nov 2001: Serviço de urgência

Um cidadão vai com o filho de dois anos e meio à urgência geral do Hospital Sousa Martins, num sábado de manhã, depois de goradas outras tentativas: o pediatra habitual mora em Viseu mas nesse fim-de-semana está ausente daquela cidade, não se prevendo que venha à Guarda, como faz duas vezes por semana, atender no consultório particular onde tem uma extensa lista de utentes, formada durante e após a fugaz e traumatizante passagem pelo serviço de pediatria do hospital; e os conhecimentos do costume, possíveis num meio onde ainda prevalecem as relações de proximidade, estão incontactáveis. Mas como os sintomas surgidos durante a noite mal dormida apontam para uma provável inflamação dos ouvidos, padecimento banal nesta época e naquela idade, o risco de um diagnóstico ligeiro numa urgência não especializada acaba por afigurar-se menor. Mas é sábado – e desaguam ali todos os aflitos que nos dias de expediente tiram a senha nos centros de saúde. A criança espera mais de uma hora e desespera: chora porque quer ficar na rua; chora porque quer ir para casa; chora porque tem medo. O átrio exterior das urgências é uma sombria junção de correntes de ar (uma originalidade numa obra terminada há três anos), nada própria para quem é suposto vir curar-se de dores de ouvidos. As salas de espera estão cheias – e nas poucas cadeiras vagas amontoam-se sobretudos e cachecóis, despidos para enfrentar um calor artificial sufocante. Finalmente chamam-na. Mas ela resiste e faz uma birra colossal. A médica de serviço, mal a vê entrar, deita as mãos à cabeça e clama: «se isto vai ser o meu dia, eu dou em doida!». É declarada a impossibilidade tácita de auscultar as vias respiratórias ou tirar a febre. Apenas os ouvidos serão observados, e à força de quatro mãos, confirmando o diagnóstico: uma otite, nada de mais. O receituário é o trivial (mas eficaz) e a médica, ainda a recuperar dos pontapés, vira-se para o pequeno paciente e pergunta-lhe: «com o teu pediatra também és assim?». Ao pai apetece-lhe responder que «é tudo uma questão de talento, senhora doutora» mas contém-se e despede-se delicadamente. Afinal, ela é a menos culpada por estar à hora errada no lugar errado. E o grau de habilidade para lidar com crianças quando se está de banco às urgências gerais não é decisivo na avaliação das competências de um clínico.O que este episódio revela é a total ausência de sensibilidade daquele hospital para enfrentar uma das suas carências mais graves. Durante a semana, o problema é minorado pelo funcionamento do Serviço de Atendimento Permanente, precisamente no espaço destinado à extinta urgência pediátrica. O Centro de Saúde, responsável pelo serviço, além de nunca ter actualizado a sinalética, tomou ponderadamente como prioritária a assistência à saúde infantil, através de um atendimento metódico e, em certas horas, mais vocacionado para as crianças. Mas nem por ver este exemplo o «senhorio» trata de assegurar padrões semelhantes para os fins-de-semana. E também não se resolve a salvaguardar, junto dos hospitais da Covilhã e de Viseu, que qualquer utente da Guarda possa dirigir-se às urgências pediátricas sem lhe ser exigida a triagem prévia no Sousa Martins.A gente ouve falar os responsáveis do hospital e tudo corre, pela boca deles, no melhor dos mundos. Ao ponto de já ter sido proclamada a «pacificação» do serviço de pediatria, como se nunca mais houvesse legitimidade para falar do problema. Vê-se agora que tipo de paz lá reina: as duas especialistas que entraram este ano são transportadas de Viana do Castelo e da Póvoa do Varzim em carro com motorista; é-lhes supostamente permitido cumprir todo o horário semanal num período consecutivo de dois dias e meio, para voltarem cedo a casa; e ninguém lhes tira a áurea de «salvadoras da Pátria», mesmo sendo médicas em começo de carreira e à procura de um vínculo definitivo. E isto, como é óbvio, traz indignada a generalidade da restante classe médica, ao ponto de um já considerável número de clínicos se ter declarado «moralmente desobrigados do dever de solidariedade» [ver reportagem nas páginas 2 e 3] e ameaçado recorrer aos tribunais. É no que dão as soluções de gato escondido com o rabo de fora, decididas sob pressão da opinião pública e em confrangedora cedência ao pensamento politicamente correcto.E assim se explica, em boa parte, que uma médica de serviço às urgências num sábado de manhã veja entrar uma criança chorosa e entre em incomodativo descontrolo. Pois não a levam a casa em carro com motorista. Nem lhe permitem cumprir todo o horário em dois dias e meio de trabalho semanal. Nem a trazem nas palminhas das mãos. Mas é ela que leva os pontapés e aguenta as birras. E é ela que, no fim, se sujeita a que um pai menos complacente ainda a mande àquela parte.
«Terras da Beira»

22 de novembro de 2001

22 Nov 2001: Duplicação de intenções

A Plataforma Logística de Iniciativa Empresarial é talvez o primeiro projecto lançado na Guarda onde se pode pressentir um horizonte estratégico programado. Em vez de um mero loteamento industrial, aquilo que a Câmara pretende implantar na zona da Gata é um parque de serviços, indústria, logística e tecnologia, suficientemente afastado da cidade para não se ver constrangido, em poucos anos, pelo crescimento da malha urbana e, sobretudo, bem localizado à beira de auto-estradas e de linhas ferroviárias. Com estas condições únicas, não só os maiores grupos empresariais da Guarda se mostraram interessados em constituir-se parceiros como houve uma companhia ibérica de distribuição, por sinal das maiores, que disse já ter encontrado ali a infra-estrutura ideal para um entreposto regional e transfronteiriço. Cumpre-se, assim, uma vocação repetidamente proclamada mas nunca levada à prática: a da Guarda como placa giratória de excepção entre os chamados «eixos estruturantes» actuais ou projectados. Essa aptidão esteve sempre na génese da nossa existência como cidade de fronteira estrategicamente localizada mas foi sucessivamente descomposta a favor de outras – na saúde, no ensino e nos serviços, por exemplo. A maioria das vezes por culpa de uma incapacidade reinante para projectar, agregar, reivindicar.É neste contexto que a ideia da Plataforma Logística surge como uma luz ao fundo do túnel, devolvendo estatuto, importância e utilidade. E não é menos relevante que o projecto, tendo os parceiros que a autarquia diz já ter, confirme um papel de charneira na complementaridade de meios e serviços entre ambos os lados da linha de fronteira (assumida também no recente convénio entre os municípios da Guarda, de Ciudad Rodrigo e de Salamanca), própria de um espaço comunitário dinâmico e global e em clara oposição à paisagem de capelinhas que nos fomos habituando a percorrer. Mas – há sempre um mas – eis que surge o projecto do novo aeroporto da Covilhã, apresentado publicamente anteontem. A ampliação da pista em trezentos metros já traz de substancial a possibilidade do reinício dos voos regulares tanto para território nacional como para o estrangeiro. Mas o mais interessante é o plano que lhe surge associado: terminal de mercadorias, unidades hoteleiras, ligação à auto-estrada, parque empresarial, parceria com a universidade, fomento do comércio internacional e desenvolvimento turístico. Em duas palavras: plataforma logística. Com as associações industriais e comerciais envolvidas de raiz e já a reivindicar a uma só voz, com a autarquia, a rápida materialização da auto-estrada entre a Covilhã e Coimbra (o programado IC6) e a modernização da linha da Beira Baixa, como vias fundamentais (de par com o IP2) para a autonomização do novo complexo e a sua rápida ligação a toda a parte. E com o presidente da Câmara a assegurar que existe «disponibilidade da administração central para apoiar um plano grandioso». A mesma administração que investiu no hospital e na faculdade de medicina, só para citar os «planos grandiosos» mais recentes.Como é costume, a Guarda foi apanhada de surpresa. E os responsáveis pela plataforma logística, quando confrontados com isto, revelam saber tanto sobre o projecto deles como eles acerca do nosso. Ou seja: nada. Apesar da curta distância entre ambos, prestes a ficar reduzida a uns escassos trinta quilómetros de auto-estrada, está à vista que não houve um mínimo de diálogo nem de coordenação para jogar na complementaridade e evitar a duplicação de intenções. A experiência ensina-nos para que lado costuma pender a decisão, quando ambas as cidades mostram expectativas de tipo semelhante. O responsável da Câmara da Guarda pela plataforma logística mostra-se despreocupado e defende que a natureza e a localização da obra projectada a tornam estrategicamente prioritária, sem medo da competição. Oxalá. Mas se a intenção é ter o novo parque empresarial a operar em pleno dentro de dois anos (como foi anunciado em Junho último), também já vai sendo altura de ter algo mais concreto para mostrar (e, porque não, para exibir com o mesmo espavento usado anteontem na Covilhã). Antes que os parceiros troquem de par.
«Terras da Beira»

20 de novembro de 2001

20 Set 2001: Sete rotundas à cintura

Regresso ao cabo de três semanas de férias e encontro a cidade remexida, em torno de uma mão-cheia de novas rotundas, naquilo que vai ser, finalmente, a via de cintura à Guarda. Já nem vale a pena repetir que esta foi uma obra iniciada pelo avesso: a segunda fase, que agora se conclui, devia ter sido a primeira. Uma ligação de quatro faixas entre o acesso ao IP5 e a estrada para Castelo Branco – desviando todo o tráfego que não tem alternativa a atravessar a cidade – há anos que era urgente, mesmo que mais nenhuma tivesse sido construída. Mas decidiram começar o edifício pelo telhado, terminando primeiro o troço entre a Dorna e o Bairro dos Remédios, cuja conveniência se viu bem qual foi: pouca ou nenhuma. E continuará a sê-lo durante mais uns anos, até que a nova ligação ao IP5 pelo Zambito e pelo Alvendre fique pronta, completando a verdadeira estrada de circunvalação à Guarda.Mas mais do que este aparente desacerto na ordem das prioridades, o que espanta na obra agora meio desvendada é que todo o tempo de espera entre a primeira fase e a segunda não tenha sido aproveitado para corrigir erros de concepção que, se não eram perceptíveis há dez anos, já hoje o são de forma flagrante. As sete (sim: sete!) rotundas entre o Torrão e o Rio Diz poderão fornecer um campo vastíssimo de expressão artística, permitindo até escrever o nome da Guarda com todas as letras. Mas dentro de poucas semanas veremos tratar-se de um erro grosseiro de planeamento – qualquer uma delas podia ter sido substituída, de raiz, por passagens desniveladas, como seria recomendável numa via que, dentro de poucos anos, dará acesso a duas auto-estradas. E o pior é que nestas novas rotundas contam-se dois cruzamentos de má memória: o da Escola de São Miguel e o do Rio Diz. Não houve engenho para fazer túneis nem viadutos – vai tudo circular à roda do canteiro, sem estar, sequer, garantida a abertura em simultâneo de pontes para peões nem de sinalização luminosa.Chamam a isto Via de Cintura Externa mas uma prova de bom senso e agilidade mental seria rebaptizarem-na, já na inauguração, de Via de Cintura Interna ou VICIG. E anunciar, com rasgo estratégico, que a verdadeira VICEG está a ser aberta, a bom ritmo, quilómetros adiante. Porque dentro de poucos anos o melhor caminho entre o centro da cidade e a Estação será pela rotunda dos Galegos até ao nó do IP2 e daí por auto-estrada até ao nó de Pinhel, seguindo depois pela avenida de São Miguel. Apostamos já hoje a que será mais rápido?
«Terras da Beira»

15 de novembro de 2001

15 Nov 2001: Desportiva a troco de quê?

A hipótese de a Desportiva da Guarda dar lugar a uma sociedade anónima entusiasmou muito as hostes, ao ponto quase ninguém se ter questionado acerca do essencial: como é que se transforma um clube daqueles numa «empresa de sucesso»? Este caminho já tinha sido avançado, internamente, mais do que uma vez, desde que a fórmula empresarial das sociedades anónimas desportivas começou a fazer moda na generalidade das agremiações futebolísticas. Mas sempre que tal possibilidade veio a lume causou sorrisos: afinal, como podia alguém pensar fazer um negócio rentável a partir de uma colectividade desacreditada, sem património, endividada e dependente de subsídios?O empresário da Covilhã que se propõe «levar a carta a Garcia» diz ser possível negociar o passivo, equilibrar as contas, devolver o prestígio ao clube e catapultar a equipa de futebol para os campeonatos nacionais. Isto se obtiver o acordo e a parceria das «forças vivas» da cidade. E essas, a avaliar pelas reacções imediatas, assinam de cruz. Só a actual comissão administrativa manifestou reservas, mais pela forma – não gostou de saber da proposta pela imprensa, sem antes ter sido contactada pelo latente investidor – do que pela substância. Na essência, velhos e novos dirigentes estão de acordo: é preciso um D. Sebastião que venha salvar isto.E na ânsia de uma solução airosa que não fizesse perder a face a nenhuma das partes, ninguém se interrogou acerca do essencial: o que quererá este mecenas em troca? É fácil imaginar que à Desportiva ainda sobrem franjas residuais de proveito, desde a nebulosa titularidade de uma concessão de abastecimento de combustíveis à nunca revogada condição de fiel depositária do Estádio Municipal na sua globalidade, passando por orlas de terreno negociável no perímetro do próprio estádio ou nas imediações (como o cobiçado espaço das antigas piscinas, por exemplo). Difícil será admitir que um grupo económico com uma tal dimensão e tantos interesses cruzados se disponha a jogar a feijões, sem nada em vista.Esta atitude é diferente daquela que a generalidade das «forças vivas» locais já teve em relação à Desportiva? Não o é, infelizmente. Aquilo que se tenta a todo o custo fazer perdurar como património de afectos serviu também para tirocinar candidatos à Câmara, reabilitar imagens e encobrir negócios de duvidosa natureza, entre muitas outras situações. Todos se serviram dela, em uniões de conveniência, e largaram-na quando deixou de interessar.Agora abre-se ao capital «estrangeiro», na linha do interesse que o mesmo grupo tem manifestado em investir na Guarda. Fala-se em hotéis, centros comerciais, salas de cinema, campos de golfe e condomínios fechados. Isto tanto pode ser visto na lógica de uma OPA desavergonhada, cedendo a interesses estranhos à terra, como na do perspicaz aproveitamento pelos de fora de potencialidades que a Guarda tem mas não sabe explorar por si própria. É à escolha.Seja como for, também não pode ser afastada a hipótese de tudo ficar em águas de bacalhau – seja porque o preço a pagar é demasiado caro na óptica dos interesses da cidade (sobretudo se partir do pressuposto do comércio imobiliário como «moeda de troca») face àquilo que a Desportiva realmente vale; seja pela incapacidade de decisão que começa a tornar-se proverbial. Ainda não há muito tempo, os planos do mesmo empresário para a Quinta da Maúnça eram publicamente louvados por concretizarem a aposta de um grande grupo no futuro da Guarda. Assim o proclamava a Câmara, para justificar o negócio de privilégio que consistia na entrega de quase todo o espaço ao grupo da Covilhã, por módicos 120 mil contos, para desenvolver o tal projecto turístico e comercial. Viu-se no que deu. Aquilo que parecia uma decisão politicamente assumida para o bem e para o mal tornou-se num processo de «estudos profundos» e «discussão alargada». Ou seja: empatar para não resolver. E permitir que qualquer D. Sebastião de trazer por casa nos vá deixando de levar a sério.
«Terras da Beira»

13 de novembro de 2001

13 Set 2001: Se houver dia seguinte

Nenhuma ficção, nenhuma super-produção, nenhuma saga arrebatadora com bombistas ou com extraterrestres conseguiu jamais, na infinita série de fitas do género, chegar tão longe como o filme real que nos surpreendeu à hora do almoço de anteontem. Escrevo precisamente neste dia, com um vago sentimento de que poderá ter sido o primeiro do resto dos dias. Alguém, minuciosamente, acaba de atingir letalmente um conjunto de órgãos vitais do país que se diz polícia do Mundo e que reclama as virtualidades do Big Brother em nome da segurança planetária. Mais do que o maior assassínio em massa alguma vez cometido fora de um cenário de guerra, os atentados contra alvos alegóricos dos poderes político, económico e militar dos EUA ferem principalmente a honra de um país que, pelos vistos, de tão entretido que andava com a «Guerra das Estrelas», descurou as batalhas em terra firme. E só por respeito às vítimas se deve evitar dizer o óbvio: que esta tragédia cobriu de ridículo algo que se tinha por infalível sistema de segurança e espionagem. Ou pelo menos aquilo que os filmes da especialidade nos andaram a impingir. O pior é que o sequestro de uns quantos aviões, o ataque cirúrgico às torres gémeas de Nova Iorque (fazendo-as desaparecer para sempre da paisagem), a brecha aberta no «impenetrável» pentágono, a brincadeira de crianças que se revelou ser um ataque com carro armadilhado a um edifício de alta segurança e tudo o mais que se teme que esteja para vir [cinjo-me àquilo que é actualidade ao fim da tarde de Terça-feira, quando escrevo esta crónica] não fazem parte de nenhum quarto episódio do Die Hard. É, infelizmente, uma série da vida real. A que também se vai assistir, durante dias e dias, num sofá diante da televisão. Mas nunca, qualquer que seja o lugar do mundo de onde se observe, com uma postura de desprendimento ou com legítimo sentimento de segurança. Porque o pior de tudo, nesta história, não é a falta de heróis – é a ausência do vilão. Os suspeitos do costume foram, um a um, céleres na condenação do acto. Resta [restava, escassas horas depois dos atentados] Bin Laden, que já havia prometido uma «acção em grande escala» contra os EUA. Será, do mal, o menos: se houver uma reacção «dente por dente», antes seja sumariamente contra um inimigo com rosto e contra quem o apoia do que contra um país ou, simplesmente, contra um povo sem terra – sobretudo sabendo-se qual é a predisposição do actual poder norte-americano para com a questão palestiniana – ou contra um culpado externo designado à pressa. Não é difícil odiar visceralmente quem fez aquilo e desejar uma vingança implacável já no dia seguinte. Difícil é determinar o curso dos «jogos de guerra» que se adivinha já terem começado. E saber por quanto tempo isso não comprometerá o dia seguinte.
«Terras da Beira»

8 de novembro de 2001

8 Nov 2001: A promessa que nunca o foi

O distrito da Guarda subiu da décima sétima para a décima sexta posição no ranking dos investimentos da Administração Central, ou seja, passou de penúltimo a antepenúltimo contemplado na relação dos dinheiros que o Orçamento de Estado destina a obras concretas a realizar durante o próximo ano. Tanto bastou para que as vozes da situação viessem proclamar a magnanimidade da proposta do Governo, cumprindo o papel que lhes compete. Mesmo quando este acaba por ser, no eixo «clássico» da interioridade, um dos distritos mais penalizados: em números redondos Bragança recebe mais seis milhões de contos que a Guarda; Castelo Branco mais dez milhões; Portalegre menos um milhão; Évora mais oito milhões; e Beja mais 17 milhões. E note-se que, com a excepção de Castelo Branco, qualquer dos outros distritos tem menos população residente que o nosso, sendo esse à partida o critério em que assenta a repartição do «bolo».Ainda assim, os 19 milhões e oitocentos mil que nos estão destinados representam um valor de investimento per capita na ordem dos 110 contos. Sempre há distritos onde o preço foi calculado mais por baixo: Aveiro, Braga, Coimbra, Leiria, Santarém, Vila Real e Viseu ficaram-se por valores entre 60 e 90 contos, por exemplo. Cada uma das nossas cabeças tem, portanto, uma importância maior para o Governo, o que repõe algum equilíbrio perante a constante desproporção entre regiões ricas e regiões pobres. E como há investimentos a correr fora do PIDDAC que totalizam quase outro tanto (no que se incluem as duas auto-estradas), sempre é possível reconhecer que não estamos a ser completamente açoitados. Os dirigentes locais do PS vieram esta semana vangloriar-se disso, fazendo contas de 50 milhões a tudo quanto o Estado investirá ou dará às autarquias para investir no próximo ano. É deixá-los, visto que não estão inteiramente fora da razão.O problema é que falta lá qualquer coisa. Falta, concretamente, um hospital novo para a Guarda. Não é que alguém acreditasse que algum dia esta obra pudesse aparecer feita. Sejamos razoáveis de uma vez por todas: parece óbvio que quem já inaugurou as unidades que estão à vista na Covilhã e em Viseu – ambas abertas pelos governos do PS – considere, muito friamente, que criar algo semelhante a meio do caminho seria estar a desbaratar recursos.Mas quem foi que criou a ilusão do contrário? Foi o mesmíssimo PS, que deixou a presidente da Câmara da Guarda alimentar (de boa fé, não duvido) um tabu, fazendo depender da promessa de um hospital novo a sua própria recandidatura. O mesmíssimo partido que lhe mandou o ministro da Saúde, no limite do «prazo», a anunciar para o próximo ano o arranque da remodelação dos pavilhões existentes e a construção de alguns novos (tudo quanto estava no papel desde 1998 com mais uns acertos), entendidos no conjunto como um novo hospital, capaz de corresponder às exigências como qualquer hospital novo. O mesmíssimo Governo que afinal dá o dito por não dito, reservando para o Hospital da Guarda, na proposta do próximo Orçamento de Estado, 300 mil contos para projectos e outros 300 mil para a continuação dos remendos que por lá têm vindo a ser feitos.Pode o deputado Carlos Santos ter-se apressado a requerer explicações ao ministro, mal o partido percebeu que a coisa iria tornar-se patente. Podem agora vir tentar explicar que as contas estão certas e que os 600 mil contos são a prestação destinada ao arranque da grande obra. Podem até dizer que a absoluta ausência de alusão à «conquista» de um hospital para a Guarda, no discurso de apresentação da candidatura do PS à Câmara, foi modéstia e não constrangimento (ou peso na consciência). A verdade é nua e crua: não há hospital para ninguém. Como já quase toda a gente tinha percebido.A conclusão a tirar é a de que a promessa nunca o foi e toda esta história nunca passou de um logro. Esperava-se era que fosse disfarçado com mais classe. E espera-se que quem se meteu nela saiba agora tirar as devidas consequências.
«Terras da Beira»

6 de novembro de 2001

6 Set 2001: Portugal do coração

Confesso: esta semana desfiz uma curiosidade antiga e comprei pelo menos quatro revistas dessas que presumivelmente se enquadram num género editorial emergente mas plenamente consolidado, o da «sociedade». Quando se está de ventre para o ar, na quietação de uma praia, cria-se de facto uma apetência específica para este tipo de leituras. Além disso, também é esta a época do ano em que a relação entre o preço de capa e o número de páginas das ditas publicações se apresenta mais favorável na óptica do consumidor. Enquanto os jornais e as revistas de informação geral se debatem com uma silly season que se prolonga Setembro adentro, tendo que reduzir nas páginas ou disfarçando o espaço remanescente com anúncios de si próprios, qualquer Caras, Nova Gente, Lux ou Vip enche a barriguinha durante o Verão, vivendo nestes meses a temporada áurea das «reportagens» sobre o diário dos famosos.Mas quem são, afinal, os nossos famosos? A primeira impressão que sobressai a um novo utilizador é que houve uma espécie de «erro de casting». Uma pessoa imagina este género de imprensa à luz das congéneres de Espanha ou da Grã-Bretanha, onde existe uma forte tradição no ramo mas também uma matéria-prima natural, assente nas realezas. Em Portugal, quando tudo começou, também eram os duques e os condes – embora sem ducados nem condados – os únicos que tinham acesso à selecta galeria de retratos da pioneira Olá!. Os plebeus só muito mais tarde conquistariam o mesmo direito, na base de pelo menos uma de duas premissas: nome ou fortuna. Os Mello, os Espírito Santo, os Ribeiro da Cunha e outros da mesma linhagem foram povoando este imaginário, ainda que precedidos de Pituxa, Xaxão ou Kiki. E ficávamo-nos por aqui.Hoje não. A gente folheia qualquer uma das quatro revistas que mencionei (as únicas que recolhi de um extenso escaparate de títulos, na presunção de que seriam uma boa amostra e na resistência a desbaratar mais do que um conto de réis no devaneio) e a primeira surpresa que tem é que a chamada «alta sociedade» está literalmente arredada das publicações que lhe são dedicadas. Será por pudor? Por recusar misturas? Por viver um quotidiano desinteressante? Eis aqui um enigma. Tão grande como a razão que leva a que Margarida Marante seja uma das capas, acompanhada pelas filhas e a conceder revelações tão importantes como aquela de que o marido é um líder carismático.Que Paulo Portas se deixe fotografar numa noite de copos com a namorada de Santana Lopes, a tal Cinha, ainda vá – resulta numa subtileza bem disposta. Que aquele tipo a quem Bárbara Guimarães teria enfiado o chapéu verde (expressão chinesa para marido enganado) venha reconstituir as primeiras vinte e quatro horas após o casamento em Punta Cana, também se admite – o Expresso, que é o Expresso, já se tinha dedicado de coração e alma ao assunto. Agora o que me choca é ver um Carlos do Carmo ou um Luís Represas naqueles propósitos: a expor as famílias e a debitar futilidades. E se uma publicação, destas ou das outras, vasculhasse a vida de tais personagens e lhes pusesse à vista as aflições e os fracassos, no pressuposto do mesmo direito à informação? Aí, provavelmente, agiriam como virgens arrependidas, bramindo contra a invasão da privacidade. No entanto, ei-las nas revistas do coração, na versão «autorizada» da história das suas vidas. Ao lado, por exemplo, da reportagem sobre o novo amor de Cristina Caras Lindas, a tal que agora é escritora e já toma balanço para um segundo romance, visto o sucesso do primeiro. Vai competir, nos tops, com a literatura de umas tais Maria João Lopo de Carvalho, Margarida Rebelo Pinto, Luísa Castelo Branco e Mafalda Belmonte. Dá vontade de rir – mas o assunto é sério. Tal como as revistas do coração lideram as vendas da imprensa, estes livros com histórias do género «quando o amante é o marido da melhor amiga» também estão no topo da procura. É como se este país tivesse adormecido ao som das ondas, no remanso do areal, numa tarde de Verão. Agora tenta acordar mas não consegue.
«Terras da Beira»

1 de novembro de 2001

1 Nov 2001: Lirismo e realidade

Fernando Pessoa voltou aos discursos. Desde a época áurea do nascimento do Instituto Politécnico que a «Mensagem» não era lida em público. Havia nesse tempo um insigne orador que a citava muito, nas prédicas que reservava para as ocasiões mais solenes, embora também recorresse a Camões, a Torga, a Gedeão, a Agostinho. Cada dissertação era um cântico ao saber, um hino à erudição, uma ode ao arrojo.Vá lá entender-se a coincidência, Maria do Carmo Borges abriu o discurso da apresentação da sua candidatura declamando igualmente «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce». É um belo excerto. Mas dito daquela forma soa mais a invocação do santo nome em vão do que a outra coisa. Pelos vistos, a presidente da Câmara também já entrou na fase de classificar a sua própria obra como o advento de um traço divino que só ela terá logrado decifrar e aplicar no terreno. É um clássico, talvez inspirado pelo enorme estaleiro em que a cidade se transformou. Mas oxalá Deus nos tenha em melhor conta do que isso.É claro que a política é, acima de tudo, a arte do possível. Começa-se por se exigir tudo e acaba-se por aceitar (considerando-o, se necessário, uma vitória) o que estiver ao alcance. Neste cenário, ninguém retirará a Maria do Carmo Borges a legitimidade para fazer o discurso que fez, independentemente das tiradas líricas. Enumerando a obra feita, a obra em curso e obra projectada, o mais fácil foi concluir que tudo corre no melhor dos mundos. Já Roma e Pavia não se fizeram num dia – também a Guarda não se fez em quatro anos.Daí que o vencedor destas eleições, quem quer que seja, vá também a conquistar antecipadamente a vitória nas seguintes, tal é o volume de empreendimentos (IP2, IP5, Polis, Viceg, nova estação ferroviária, Plataforma Logística, Sala de Espectáculos, Biblioteca, etc, etc) já lançados e que terão consumação plena nos anos que se seguem. E dos quais, naturalmente, tirará devido proveito quem estiver à frente da autarquia nos próximos mandato, mesmo que, no caso de a presidência mudar de rosto em Dezembro, se trate de uma herança.Estaria tudo muito bem, não fosse a sensação que isto nos provoca: a de não estarmos senão a recuperar do atraso de décadas no que diz respeito às infra-estruturas, às acessibilidades e ao ordenamento, atingindo finalmente um ponto de normalidade em relação a pólos urbanos semelhantes. Mesmo que tenha sido mera consequência da conjuntura, a verdade que ocorreu principalmente sob o mandato de Maria do Carmo. Mas o enigma essencial continua por resolver: qual é, afinal, a utilidade que nos atribuem no mapa? Ser-se pobre e excepcional pode ter as suas vantagens. Mas pobre e normal é mais difícil. Não basta fazer alarido em torno do «reforço da posição estratégica da Guarda» e outros slogans de circunstância, venham eles inscritos nas Grandes Opções do Plano ou não. É preciso perceber (se é que alguém o sabe explicar) que significado prático poderá isso ter numa cidade que tem permitido, nos últimos quinze anos, a saída de quase tudo – instituições, serviços, importância.Porque há uma pergunta que ninguém viu respondida no Sábado: que adiantou ter vindo António José Seguro proclamar Maria do Carmo Borges como «autarca de referência» para os socialistas, se o PS está há mais tempo no Governo do que ela na presidência da Câmara e não foi, sequer, capaz de lhe garantir que a Guarda terá um hospital novo? Ou a omissão desta obra nos discursos de um e de outra – depois de tanto tabu – foi mero esquecimento?
«Terras da Beira»