1 de novembro de 2001

1 Nov 2001: Lirismo e realidade

Fernando Pessoa voltou aos discursos. Desde a época áurea do nascimento do Instituto Politécnico que a «Mensagem» não era lida em público. Havia nesse tempo um insigne orador que a citava muito, nas prédicas que reservava para as ocasiões mais solenes, embora também recorresse a Camões, a Torga, a Gedeão, a Agostinho. Cada dissertação era um cântico ao saber, um hino à erudição, uma ode ao arrojo.Vá lá entender-se a coincidência, Maria do Carmo Borges abriu o discurso da apresentação da sua candidatura declamando igualmente «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce». É um belo excerto. Mas dito daquela forma soa mais a invocação do santo nome em vão do que a outra coisa. Pelos vistos, a presidente da Câmara também já entrou na fase de classificar a sua própria obra como o advento de um traço divino que só ela terá logrado decifrar e aplicar no terreno. É um clássico, talvez inspirado pelo enorme estaleiro em que a cidade se transformou. Mas oxalá Deus nos tenha em melhor conta do que isso.É claro que a política é, acima de tudo, a arte do possível. Começa-se por se exigir tudo e acaba-se por aceitar (considerando-o, se necessário, uma vitória) o que estiver ao alcance. Neste cenário, ninguém retirará a Maria do Carmo Borges a legitimidade para fazer o discurso que fez, independentemente das tiradas líricas. Enumerando a obra feita, a obra em curso e obra projectada, o mais fácil foi concluir que tudo corre no melhor dos mundos. Já Roma e Pavia não se fizeram num dia – também a Guarda não se fez em quatro anos.Daí que o vencedor destas eleições, quem quer que seja, vá também a conquistar antecipadamente a vitória nas seguintes, tal é o volume de empreendimentos (IP2, IP5, Polis, Viceg, nova estação ferroviária, Plataforma Logística, Sala de Espectáculos, Biblioteca, etc, etc) já lançados e que terão consumação plena nos anos que se seguem. E dos quais, naturalmente, tirará devido proveito quem estiver à frente da autarquia nos próximos mandato, mesmo que, no caso de a presidência mudar de rosto em Dezembro, se trate de uma herança.Estaria tudo muito bem, não fosse a sensação que isto nos provoca: a de não estarmos senão a recuperar do atraso de décadas no que diz respeito às infra-estruturas, às acessibilidades e ao ordenamento, atingindo finalmente um ponto de normalidade em relação a pólos urbanos semelhantes. Mesmo que tenha sido mera consequência da conjuntura, a verdade que ocorreu principalmente sob o mandato de Maria do Carmo. Mas o enigma essencial continua por resolver: qual é, afinal, a utilidade que nos atribuem no mapa? Ser-se pobre e excepcional pode ter as suas vantagens. Mas pobre e normal é mais difícil. Não basta fazer alarido em torno do «reforço da posição estratégica da Guarda» e outros slogans de circunstância, venham eles inscritos nas Grandes Opções do Plano ou não. É preciso perceber (se é que alguém o sabe explicar) que significado prático poderá isso ter numa cidade que tem permitido, nos últimos quinze anos, a saída de quase tudo – instituições, serviços, importância.Porque há uma pergunta que ninguém viu respondida no Sábado: que adiantou ter vindo António José Seguro proclamar Maria do Carmo Borges como «autarca de referência» para os socialistas, se o PS está há mais tempo no Governo do que ela na presidência da Câmara e não foi, sequer, capaz de lhe garantir que a Guarda terá um hospital novo? Ou a omissão desta obra nos discursos de um e de outra – depois de tanto tabu – foi mero esquecimento?
«Terras da Beira»

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