13 de novembro de 2001

13 Set 2001: Se houver dia seguinte

Nenhuma ficção, nenhuma super-produção, nenhuma saga arrebatadora com bombistas ou com extraterrestres conseguiu jamais, na infinita série de fitas do género, chegar tão longe como o filme real que nos surpreendeu à hora do almoço de anteontem. Escrevo precisamente neste dia, com um vago sentimento de que poderá ter sido o primeiro do resto dos dias. Alguém, minuciosamente, acaba de atingir letalmente um conjunto de órgãos vitais do país que se diz polícia do Mundo e que reclama as virtualidades do Big Brother em nome da segurança planetária. Mais do que o maior assassínio em massa alguma vez cometido fora de um cenário de guerra, os atentados contra alvos alegóricos dos poderes político, económico e militar dos EUA ferem principalmente a honra de um país que, pelos vistos, de tão entretido que andava com a «Guerra das Estrelas», descurou as batalhas em terra firme. E só por respeito às vítimas se deve evitar dizer o óbvio: que esta tragédia cobriu de ridículo algo que se tinha por infalível sistema de segurança e espionagem. Ou pelo menos aquilo que os filmes da especialidade nos andaram a impingir. O pior é que o sequestro de uns quantos aviões, o ataque cirúrgico às torres gémeas de Nova Iorque (fazendo-as desaparecer para sempre da paisagem), a brecha aberta no «impenetrável» pentágono, a brincadeira de crianças que se revelou ser um ataque com carro armadilhado a um edifício de alta segurança e tudo o mais que se teme que esteja para vir [cinjo-me àquilo que é actualidade ao fim da tarde de Terça-feira, quando escrevo esta crónica] não fazem parte de nenhum quarto episódio do Die Hard. É, infelizmente, uma série da vida real. A que também se vai assistir, durante dias e dias, num sofá diante da televisão. Mas nunca, qualquer que seja o lugar do mundo de onde se observe, com uma postura de desprendimento ou com legítimo sentimento de segurança. Porque o pior de tudo, nesta história, não é a falta de heróis – é a ausência do vilão. Os suspeitos do costume foram, um a um, céleres na condenação do acto. Resta [restava, escassas horas depois dos atentados] Bin Laden, que já havia prometido uma «acção em grande escala» contra os EUA. Será, do mal, o menos: se houver uma reacção «dente por dente», antes seja sumariamente contra um inimigo com rosto e contra quem o apoia do que contra um país ou, simplesmente, contra um povo sem terra – sobretudo sabendo-se qual é a predisposição do actual poder norte-americano para com a questão palestiniana – ou contra um culpado externo designado à pressa. Não é difícil odiar visceralmente quem fez aquilo e desejar uma vingança implacável já no dia seguinte. Difícil é determinar o curso dos «jogos de guerra» que se adivinha já terem começado. E saber por quanto tempo isso não comprometerá o dia seguinte.
«Terras da Beira»

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