15 de novembro de 2001

15 Nov 2001: Desportiva a troco de quê?

A hipótese de a Desportiva da Guarda dar lugar a uma sociedade anónima entusiasmou muito as hostes, ao ponto quase ninguém se ter questionado acerca do essencial: como é que se transforma um clube daqueles numa «empresa de sucesso»? Este caminho já tinha sido avançado, internamente, mais do que uma vez, desde que a fórmula empresarial das sociedades anónimas desportivas começou a fazer moda na generalidade das agremiações futebolísticas. Mas sempre que tal possibilidade veio a lume causou sorrisos: afinal, como podia alguém pensar fazer um negócio rentável a partir de uma colectividade desacreditada, sem património, endividada e dependente de subsídios?O empresário da Covilhã que se propõe «levar a carta a Garcia» diz ser possível negociar o passivo, equilibrar as contas, devolver o prestígio ao clube e catapultar a equipa de futebol para os campeonatos nacionais. Isto se obtiver o acordo e a parceria das «forças vivas» da cidade. E essas, a avaliar pelas reacções imediatas, assinam de cruz. Só a actual comissão administrativa manifestou reservas, mais pela forma – não gostou de saber da proposta pela imprensa, sem antes ter sido contactada pelo latente investidor – do que pela substância. Na essência, velhos e novos dirigentes estão de acordo: é preciso um D. Sebastião que venha salvar isto.E na ânsia de uma solução airosa que não fizesse perder a face a nenhuma das partes, ninguém se interrogou acerca do essencial: o que quererá este mecenas em troca? É fácil imaginar que à Desportiva ainda sobrem franjas residuais de proveito, desde a nebulosa titularidade de uma concessão de abastecimento de combustíveis à nunca revogada condição de fiel depositária do Estádio Municipal na sua globalidade, passando por orlas de terreno negociável no perímetro do próprio estádio ou nas imediações (como o cobiçado espaço das antigas piscinas, por exemplo). Difícil será admitir que um grupo económico com uma tal dimensão e tantos interesses cruzados se disponha a jogar a feijões, sem nada em vista.Esta atitude é diferente daquela que a generalidade das «forças vivas» locais já teve em relação à Desportiva? Não o é, infelizmente. Aquilo que se tenta a todo o custo fazer perdurar como património de afectos serviu também para tirocinar candidatos à Câmara, reabilitar imagens e encobrir negócios de duvidosa natureza, entre muitas outras situações. Todos se serviram dela, em uniões de conveniência, e largaram-na quando deixou de interessar.Agora abre-se ao capital «estrangeiro», na linha do interesse que o mesmo grupo tem manifestado em investir na Guarda. Fala-se em hotéis, centros comerciais, salas de cinema, campos de golfe e condomínios fechados. Isto tanto pode ser visto na lógica de uma OPA desavergonhada, cedendo a interesses estranhos à terra, como na do perspicaz aproveitamento pelos de fora de potencialidades que a Guarda tem mas não sabe explorar por si própria. É à escolha.Seja como for, também não pode ser afastada a hipótese de tudo ficar em águas de bacalhau – seja porque o preço a pagar é demasiado caro na óptica dos interesses da cidade (sobretudo se partir do pressuposto do comércio imobiliário como «moeda de troca») face àquilo que a Desportiva realmente vale; seja pela incapacidade de decisão que começa a tornar-se proverbial. Ainda não há muito tempo, os planos do mesmo empresário para a Quinta da Maúnça eram publicamente louvados por concretizarem a aposta de um grande grupo no futuro da Guarda. Assim o proclamava a Câmara, para justificar o negócio de privilégio que consistia na entrega de quase todo o espaço ao grupo da Covilhã, por módicos 120 mil contos, para desenvolver o tal projecto turístico e comercial. Viu-se no que deu. Aquilo que parecia uma decisão politicamente assumida para o bem e para o mal tornou-se num processo de «estudos profundos» e «discussão alargada». Ou seja: empatar para não resolver. E permitir que qualquer D. Sebastião de trazer por casa nos vá deixando de levar a sério.
«Terras da Beira»

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