22 de novembro de 2001

22 Nov 2001: Duplicação de intenções

A Plataforma Logística de Iniciativa Empresarial é talvez o primeiro projecto lançado na Guarda onde se pode pressentir um horizonte estratégico programado. Em vez de um mero loteamento industrial, aquilo que a Câmara pretende implantar na zona da Gata é um parque de serviços, indústria, logística e tecnologia, suficientemente afastado da cidade para não se ver constrangido, em poucos anos, pelo crescimento da malha urbana e, sobretudo, bem localizado à beira de auto-estradas e de linhas ferroviárias. Com estas condições únicas, não só os maiores grupos empresariais da Guarda se mostraram interessados em constituir-se parceiros como houve uma companhia ibérica de distribuição, por sinal das maiores, que disse já ter encontrado ali a infra-estrutura ideal para um entreposto regional e transfronteiriço. Cumpre-se, assim, uma vocação repetidamente proclamada mas nunca levada à prática: a da Guarda como placa giratória de excepção entre os chamados «eixos estruturantes» actuais ou projectados. Essa aptidão esteve sempre na génese da nossa existência como cidade de fronteira estrategicamente localizada mas foi sucessivamente descomposta a favor de outras – na saúde, no ensino e nos serviços, por exemplo. A maioria das vezes por culpa de uma incapacidade reinante para projectar, agregar, reivindicar.É neste contexto que a ideia da Plataforma Logística surge como uma luz ao fundo do túnel, devolvendo estatuto, importância e utilidade. E não é menos relevante que o projecto, tendo os parceiros que a autarquia diz já ter, confirme um papel de charneira na complementaridade de meios e serviços entre ambos os lados da linha de fronteira (assumida também no recente convénio entre os municípios da Guarda, de Ciudad Rodrigo e de Salamanca), própria de um espaço comunitário dinâmico e global e em clara oposição à paisagem de capelinhas que nos fomos habituando a percorrer. Mas – há sempre um mas – eis que surge o projecto do novo aeroporto da Covilhã, apresentado publicamente anteontem. A ampliação da pista em trezentos metros já traz de substancial a possibilidade do reinício dos voos regulares tanto para território nacional como para o estrangeiro. Mas o mais interessante é o plano que lhe surge associado: terminal de mercadorias, unidades hoteleiras, ligação à auto-estrada, parque empresarial, parceria com a universidade, fomento do comércio internacional e desenvolvimento turístico. Em duas palavras: plataforma logística. Com as associações industriais e comerciais envolvidas de raiz e já a reivindicar a uma só voz, com a autarquia, a rápida materialização da auto-estrada entre a Covilhã e Coimbra (o programado IC6) e a modernização da linha da Beira Baixa, como vias fundamentais (de par com o IP2) para a autonomização do novo complexo e a sua rápida ligação a toda a parte. E com o presidente da Câmara a assegurar que existe «disponibilidade da administração central para apoiar um plano grandioso». A mesma administração que investiu no hospital e na faculdade de medicina, só para citar os «planos grandiosos» mais recentes.Como é costume, a Guarda foi apanhada de surpresa. E os responsáveis pela plataforma logística, quando confrontados com isto, revelam saber tanto sobre o projecto deles como eles acerca do nosso. Ou seja: nada. Apesar da curta distância entre ambos, prestes a ficar reduzida a uns escassos trinta quilómetros de auto-estrada, está à vista que não houve um mínimo de diálogo nem de coordenação para jogar na complementaridade e evitar a duplicação de intenções. A experiência ensina-nos para que lado costuma pender a decisão, quando ambas as cidades mostram expectativas de tipo semelhante. O responsável da Câmara da Guarda pela plataforma logística mostra-se despreocupado e defende que a natureza e a localização da obra projectada a tornam estrategicamente prioritária, sem medo da competição. Oxalá. Mas se a intenção é ter o novo parque empresarial a operar em pleno dentro de dois anos (como foi anunciado em Junho último), também já vai sendo altura de ter algo mais concreto para mostrar (e, porque não, para exibir com o mesmo espavento usado anteontem na Covilhã). Antes que os parceiros troquem de par.
«Terras da Beira»

Sem comentários: