29 de novembro de 2001

29 Nov 2001: Serviço de urgência

Um cidadão vai com o filho de dois anos e meio à urgência geral do Hospital Sousa Martins, num sábado de manhã, depois de goradas outras tentativas: o pediatra habitual mora em Viseu mas nesse fim-de-semana está ausente daquela cidade, não se prevendo que venha à Guarda, como faz duas vezes por semana, atender no consultório particular onde tem uma extensa lista de utentes, formada durante e após a fugaz e traumatizante passagem pelo serviço de pediatria do hospital; e os conhecimentos do costume, possíveis num meio onde ainda prevalecem as relações de proximidade, estão incontactáveis. Mas como os sintomas surgidos durante a noite mal dormida apontam para uma provável inflamação dos ouvidos, padecimento banal nesta época e naquela idade, o risco de um diagnóstico ligeiro numa urgência não especializada acaba por afigurar-se menor. Mas é sábado – e desaguam ali todos os aflitos que nos dias de expediente tiram a senha nos centros de saúde. A criança espera mais de uma hora e desespera: chora porque quer ficar na rua; chora porque quer ir para casa; chora porque tem medo. O átrio exterior das urgências é uma sombria junção de correntes de ar (uma originalidade numa obra terminada há três anos), nada própria para quem é suposto vir curar-se de dores de ouvidos. As salas de espera estão cheias – e nas poucas cadeiras vagas amontoam-se sobretudos e cachecóis, despidos para enfrentar um calor artificial sufocante. Finalmente chamam-na. Mas ela resiste e faz uma birra colossal. A médica de serviço, mal a vê entrar, deita as mãos à cabeça e clama: «se isto vai ser o meu dia, eu dou em doida!». É declarada a impossibilidade tácita de auscultar as vias respiratórias ou tirar a febre. Apenas os ouvidos serão observados, e à força de quatro mãos, confirmando o diagnóstico: uma otite, nada de mais. O receituário é o trivial (mas eficaz) e a médica, ainda a recuperar dos pontapés, vira-se para o pequeno paciente e pergunta-lhe: «com o teu pediatra também és assim?». Ao pai apetece-lhe responder que «é tudo uma questão de talento, senhora doutora» mas contém-se e despede-se delicadamente. Afinal, ela é a menos culpada por estar à hora errada no lugar errado. E o grau de habilidade para lidar com crianças quando se está de banco às urgências gerais não é decisivo na avaliação das competências de um clínico.O que este episódio revela é a total ausência de sensibilidade daquele hospital para enfrentar uma das suas carências mais graves. Durante a semana, o problema é minorado pelo funcionamento do Serviço de Atendimento Permanente, precisamente no espaço destinado à extinta urgência pediátrica. O Centro de Saúde, responsável pelo serviço, além de nunca ter actualizado a sinalética, tomou ponderadamente como prioritária a assistência à saúde infantil, através de um atendimento metódico e, em certas horas, mais vocacionado para as crianças. Mas nem por ver este exemplo o «senhorio» trata de assegurar padrões semelhantes para os fins-de-semana. E também não se resolve a salvaguardar, junto dos hospitais da Covilhã e de Viseu, que qualquer utente da Guarda possa dirigir-se às urgências pediátricas sem lhe ser exigida a triagem prévia no Sousa Martins.A gente ouve falar os responsáveis do hospital e tudo corre, pela boca deles, no melhor dos mundos. Ao ponto de já ter sido proclamada a «pacificação» do serviço de pediatria, como se nunca mais houvesse legitimidade para falar do problema. Vê-se agora que tipo de paz lá reina: as duas especialistas que entraram este ano são transportadas de Viana do Castelo e da Póvoa do Varzim em carro com motorista; é-lhes supostamente permitido cumprir todo o horário semanal num período consecutivo de dois dias e meio, para voltarem cedo a casa; e ninguém lhes tira a áurea de «salvadoras da Pátria», mesmo sendo médicas em começo de carreira e à procura de um vínculo definitivo. E isto, como é óbvio, traz indignada a generalidade da restante classe médica, ao ponto de um já considerável número de clínicos se ter declarado «moralmente desobrigados do dever de solidariedade» [ver reportagem nas páginas 2 e 3] e ameaçado recorrer aos tribunais. É no que dão as soluções de gato escondido com o rabo de fora, decididas sob pressão da opinião pública e em confrangedora cedência ao pensamento politicamente correcto.E assim se explica, em boa parte, que uma médica de serviço às urgências num sábado de manhã veja entrar uma criança chorosa e entre em incomodativo descontrolo. Pois não a levam a casa em carro com motorista. Nem lhe permitem cumprir todo o horário em dois dias e meio de trabalho semanal. Nem a trazem nas palminhas das mãos. Mas é ela que leva os pontapés e aguenta as birras. E é ela que, no fim, se sujeita a que um pai menos complacente ainda a mande àquela parte.
«Terras da Beira»

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