6 de novembro de 2001

6 Set 2001: Portugal do coração

Confesso: esta semana desfiz uma curiosidade antiga e comprei pelo menos quatro revistas dessas que presumivelmente se enquadram num género editorial emergente mas plenamente consolidado, o da «sociedade». Quando se está de ventre para o ar, na quietação de uma praia, cria-se de facto uma apetência específica para este tipo de leituras. Além disso, também é esta a época do ano em que a relação entre o preço de capa e o número de páginas das ditas publicações se apresenta mais favorável na óptica do consumidor. Enquanto os jornais e as revistas de informação geral se debatem com uma silly season que se prolonga Setembro adentro, tendo que reduzir nas páginas ou disfarçando o espaço remanescente com anúncios de si próprios, qualquer Caras, Nova Gente, Lux ou Vip enche a barriguinha durante o Verão, vivendo nestes meses a temporada áurea das «reportagens» sobre o diário dos famosos.Mas quem são, afinal, os nossos famosos? A primeira impressão que sobressai a um novo utilizador é que houve uma espécie de «erro de casting». Uma pessoa imagina este género de imprensa à luz das congéneres de Espanha ou da Grã-Bretanha, onde existe uma forte tradição no ramo mas também uma matéria-prima natural, assente nas realezas. Em Portugal, quando tudo começou, também eram os duques e os condes – embora sem ducados nem condados – os únicos que tinham acesso à selecta galeria de retratos da pioneira Olá!. Os plebeus só muito mais tarde conquistariam o mesmo direito, na base de pelo menos uma de duas premissas: nome ou fortuna. Os Mello, os Espírito Santo, os Ribeiro da Cunha e outros da mesma linhagem foram povoando este imaginário, ainda que precedidos de Pituxa, Xaxão ou Kiki. E ficávamo-nos por aqui.Hoje não. A gente folheia qualquer uma das quatro revistas que mencionei (as únicas que recolhi de um extenso escaparate de títulos, na presunção de que seriam uma boa amostra e na resistência a desbaratar mais do que um conto de réis no devaneio) e a primeira surpresa que tem é que a chamada «alta sociedade» está literalmente arredada das publicações que lhe são dedicadas. Será por pudor? Por recusar misturas? Por viver um quotidiano desinteressante? Eis aqui um enigma. Tão grande como a razão que leva a que Margarida Marante seja uma das capas, acompanhada pelas filhas e a conceder revelações tão importantes como aquela de que o marido é um líder carismático.Que Paulo Portas se deixe fotografar numa noite de copos com a namorada de Santana Lopes, a tal Cinha, ainda vá – resulta numa subtileza bem disposta. Que aquele tipo a quem Bárbara Guimarães teria enfiado o chapéu verde (expressão chinesa para marido enganado) venha reconstituir as primeiras vinte e quatro horas após o casamento em Punta Cana, também se admite – o Expresso, que é o Expresso, já se tinha dedicado de coração e alma ao assunto. Agora o que me choca é ver um Carlos do Carmo ou um Luís Represas naqueles propósitos: a expor as famílias e a debitar futilidades. E se uma publicação, destas ou das outras, vasculhasse a vida de tais personagens e lhes pusesse à vista as aflições e os fracassos, no pressuposto do mesmo direito à informação? Aí, provavelmente, agiriam como virgens arrependidas, bramindo contra a invasão da privacidade. No entanto, ei-las nas revistas do coração, na versão «autorizada» da história das suas vidas. Ao lado, por exemplo, da reportagem sobre o novo amor de Cristina Caras Lindas, a tal que agora é escritora e já toma balanço para um segundo romance, visto o sucesso do primeiro. Vai competir, nos tops, com a literatura de umas tais Maria João Lopo de Carvalho, Margarida Rebelo Pinto, Luísa Castelo Branco e Mafalda Belmonte. Dá vontade de rir – mas o assunto é sério. Tal como as revistas do coração lideram as vendas da imprensa, estes livros com histórias do género «quando o amante é o marido da melhor amiga» também estão no topo da procura. É como se este país tivesse adormecido ao som das ondas, no remanso do areal, numa tarde de Verão. Agora tenta acordar mas não consegue.
«Terras da Beira»

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