8 de novembro de 2001

8 Nov 2001: A promessa que nunca o foi

O distrito da Guarda subiu da décima sétima para a décima sexta posição no ranking dos investimentos da Administração Central, ou seja, passou de penúltimo a antepenúltimo contemplado na relação dos dinheiros que o Orçamento de Estado destina a obras concretas a realizar durante o próximo ano. Tanto bastou para que as vozes da situação viessem proclamar a magnanimidade da proposta do Governo, cumprindo o papel que lhes compete. Mesmo quando este acaba por ser, no eixo «clássico» da interioridade, um dos distritos mais penalizados: em números redondos Bragança recebe mais seis milhões de contos que a Guarda; Castelo Branco mais dez milhões; Portalegre menos um milhão; Évora mais oito milhões; e Beja mais 17 milhões. E note-se que, com a excepção de Castelo Branco, qualquer dos outros distritos tem menos população residente que o nosso, sendo esse à partida o critério em que assenta a repartição do «bolo».Ainda assim, os 19 milhões e oitocentos mil que nos estão destinados representam um valor de investimento per capita na ordem dos 110 contos. Sempre há distritos onde o preço foi calculado mais por baixo: Aveiro, Braga, Coimbra, Leiria, Santarém, Vila Real e Viseu ficaram-se por valores entre 60 e 90 contos, por exemplo. Cada uma das nossas cabeças tem, portanto, uma importância maior para o Governo, o que repõe algum equilíbrio perante a constante desproporção entre regiões ricas e regiões pobres. E como há investimentos a correr fora do PIDDAC que totalizam quase outro tanto (no que se incluem as duas auto-estradas), sempre é possível reconhecer que não estamos a ser completamente açoitados. Os dirigentes locais do PS vieram esta semana vangloriar-se disso, fazendo contas de 50 milhões a tudo quanto o Estado investirá ou dará às autarquias para investir no próximo ano. É deixá-los, visto que não estão inteiramente fora da razão.O problema é que falta lá qualquer coisa. Falta, concretamente, um hospital novo para a Guarda. Não é que alguém acreditasse que algum dia esta obra pudesse aparecer feita. Sejamos razoáveis de uma vez por todas: parece óbvio que quem já inaugurou as unidades que estão à vista na Covilhã e em Viseu – ambas abertas pelos governos do PS – considere, muito friamente, que criar algo semelhante a meio do caminho seria estar a desbaratar recursos.Mas quem foi que criou a ilusão do contrário? Foi o mesmíssimo PS, que deixou a presidente da Câmara da Guarda alimentar (de boa fé, não duvido) um tabu, fazendo depender da promessa de um hospital novo a sua própria recandidatura. O mesmíssimo partido que lhe mandou o ministro da Saúde, no limite do «prazo», a anunciar para o próximo ano o arranque da remodelação dos pavilhões existentes e a construção de alguns novos (tudo quanto estava no papel desde 1998 com mais uns acertos), entendidos no conjunto como um novo hospital, capaz de corresponder às exigências como qualquer hospital novo. O mesmíssimo Governo que afinal dá o dito por não dito, reservando para o Hospital da Guarda, na proposta do próximo Orçamento de Estado, 300 mil contos para projectos e outros 300 mil para a continuação dos remendos que por lá têm vindo a ser feitos.Pode o deputado Carlos Santos ter-se apressado a requerer explicações ao ministro, mal o partido percebeu que a coisa iria tornar-se patente. Podem agora vir tentar explicar que as contas estão certas e que os 600 mil contos são a prestação destinada ao arranque da grande obra. Podem até dizer que a absoluta ausência de alusão à «conquista» de um hospital para a Guarda, no discurso de apresentação da candidatura do PS à Câmara, foi modéstia e não constrangimento (ou peso na consciência). A verdade é nua e crua: não há hospital para ninguém. Como já quase toda a gente tinha percebido.A conclusão a tirar é a de que a promessa nunca o foi e toda esta história nunca passou de um logro. Esperava-se era que fosse disfarçado com mais classe. E espera-se que quem se meteu nela saiba agora tirar as devidas consequências.
«Terras da Beira»

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