13 de dezembro de 2002

13 Dez 2002: Quem quer o lugar?

Há um vício antigo na vida política local que não pode deixar de ser assinalado: é o de avançar às arrecuas, ficando sempre no mesmo sítio. Um ano de gestão autárquica, desde as últimas eleições, confirma este paradigma. É claro que doze meses num mandato de quatro anos não permitem tomar o todo pela parte. Mas, no caso da Guarda, não existem indícios de grandes rasgos para o futuro, a menos que Maria do Carmo Borges nos surpreenda – e se surpreenda primeiro a si própria com outro ânimo que não aquele, esvaído, que exibe agora, em que evidencia uma postura de fim de ciclo. Ainda há dias afirmou, em público, que não voltará a recandidatar-se. É verdade que o desabafo não é original: já o tinha deixado escapar antes das eleições do ano passado. Mas há razões para crer que desta vez pode estar a ser menos fingida do que primeira. A ter saído em Dezembro, mesmo por opção, tê-lo-ia feito pela porta baixa: a obra realizada era escassa e resumia-se, no essencial, a mera bricolage desgarrada. Descer do comboio a meio da viagem, com a uma série de projectos importantes em marcha – Polis, Plataforma Logística, etc. – era o mesmo que entregar o ouro ao bandido. Agora, pelo contrário, há razões para crer que ela queira reformar-se dentro de três anos, logo que consiga resolver o maior dos embaraços, que é a sua própria substituição. Aquilo que nesta altura mais deve começar a atormentar Maria do Carmo Borges é chegar a 2005 e ver-se obrigada a recandidatar-se, por falta de interessados. Daí a insistência, nas entrevistas que deu nas últimas semanas, no anúncio da retirada e no carácter irreversível da decisão. É uma espécie de aviso à navegação, a tentar criar o facto político que leve outros a posicionarem-se com tempo e com espaço. Porque, de facto, ela já percebeu que ao ter ganho as eleições passadas conquistou tacitamente as próximas. E esse é o receio que a persegue, por paradoxal que esta relação pareça. Mas é simples de perceber. Nos próximos três anos a Plataforma Logística tomará forma, o Polis terá obra feita, a Sala de Espectáculos acabará de ser construída e a Biblioteca será inaugurada. Isto para mencionar apenas as obras que estão em curso. Cortar as fitas será uma festa, colher os louros será uma honra – com inegável legitimamente. Mas, em alguns casos, o pior poderá vir a seguir. O programa Polis chegará ao fim: alguém tem ideia de como se fará – e de quanto custará – a manutenção das infra-estruturas previstas para o parque urbano do Rio Diz? A Sala de Espectáculos será inaugurada: alguém pensou já no modelo de gestão e nos custos da dinamização de um empreendimento daquelas dimensões? Os elefantes brancos costumam nascer assim, por ausência de planeamento atempado. As culpas desta aparente navegação à vista repartem-se por vários agentes, políticos e técnicos. A própria oposição na Câmara da Guarda parece já ter desistido de sê-lo: anteontem apenas um de três vereadores compareceu à discussão do orçamento e do plano de actividades para 2003, se é que de discussão se tratou. Um ano depois, Maria do Carmo Borges anuncia que passa o lugar – mas quem o quer?
«O Interior»

29 de novembro de 2002

29 Nov 2002: Felizmente há quem sonhe

1. A intervenção urbanística na zona histórica da Guarda está a tornar-se num mito. Há quem creia ser possível orientar, em equilíbrio e com bom gosto, uma transformação útil na praça e nas vielas do miolo medieval da cidade. Nada autoriza, no entanto, a que se acredite em tal ideia. Quando, há uns anos, se colocou a hipótese de mudar de sítio a estátua de D. Sancho, no encadeamento de uma intervenção arrojada pensada para a Praça Velha, a Câmara não teve a coragem de avançar e pôs o assunto à discussão pública – que é, como se sabe, a forma clássica de fingir que se quer fazer alguma coisa na certeza de que nada terá que ser feito. Formou-se depois um gabinete para a intervenção no centro histórico, desfeito passados dois anos. O que sobrou foram “estudos técnicos” e uma intervenção lamentável em duas ruelas. Ainda ninguém percebeu que o que está em causa não é um mero acto de cosmética localizada mas uma intervenção de fundo em toda a cidade velha, dentro e fora da muralha, que crie novas centralidades, atraia pessoas e ordene para o futuro. Ninguém, salvo seja. De facto, os poderes instituídos já revelaram não ter ânimo nem imaginação para a tarefa. Mas, ao menos, existe massa crítica independente. A última edição de «O Interior» deu-nos a agradável surpresa de um conjunto de visões da “cidade sonhada” pelos arquitectos da Guarda. É um número para guardar. Além de tudo o que se possa imaginar para o centro histórico, a proposta para o jardim José de Lemos é simplesmente notável, tal como a remodelação sugerida para o largo da Misericórdia parece excelente. Agora pergunto: porque é que esta gente não aparece mais e os desenhos que faz são para a gaveta ou a pedido de um jornal? Porque é que se gasta dinheiro e energias em “estudos profundos” e outras tretas, se há pessoas com talento dispostas a pensar a cidade e a intervir? Porque é que nos mantemos tão retrógrados e tão sem audácia?

2. As descobertas sobre a prática de pedofilia na Casa Pia de Lisboa e tudo o que girava à volta não podem redundar na mórbida expectativa acerca dos próximos desenvolvimentos nem nos rumores picantes envolvendo as prováveis identidades das figuras públicas que terão estado metidas na imundice. Ninguém pode deixar de estar inquieto perante a génese dos factos, que assenta num lastimável silêncio e numa deplorável passividade, anos a fio. A ser verdade tudo quanto nos entra pela casa na avalanche de informação destes dias, é a própria integridade do Estado e das suas instituições que está em causa – e, em última análise, a sanidade da sociedade em que vivemos. Como é possível que redes organizadas tenham sido toleradas, que indícios de crime tenham sido negligenciados, que o abuso de inocentes tenha sido silenciado, que alertas sucessivos tenham sido ignorados? Como é possível que um país inteiro viva sob o princípio de que “o que não se noticia não existe” e só uma investigação jornalística origine demissões, detenções e reacções em catadupa? A opção sexual de cada um é um direito absolutamente legítimo e inquestionável. Nem os vícios privados devem, por apreço à liberdade individual, ser chamados a comprometer as virtudes públicas. Mas o respeito pela privacidade não pode justificar a indiferença, se o que estiver em causa for o indício da prática de crimes sórdidos – e a pedofilia é um dos piores. Mesmo que, num passado não muito longínquo, a moldura criminal vigente resumisse essa prática a mero “atentado ao pudor”, punindo-a menos do que ao dano material. Aliás, a lei só foi alterada no princípio dos anos 90, após o julgamento no Tribunal da Guarda de um caso de abusos sexuais sobre uma menina de dois anos, cujo desfecho – uma insignificante sentença de prisão – pôs a cidade em brasa. Hoje é suposto termos maior consciência acerca da violência física e moral infringida num acto dessa natureza e, pior, do horror que representam as redes de pedofilia. A quem abusa comprovadamente da inocência, desculpar-me-ão os activistas da Amnistia Internacional e as pessoas sensíveis, não pode ser concedida complacência: a justiça chinesa, com a sua prática diligente e chocante, dispõe da emenda apropriada, embora – é esse o defeito – irreversível. Ao escrever isto, sei que posso não estar a dar o melhor exemplo aos meus filhos – mas também é por eles que ponho esta excepção à regra da tolerância que procurarei sempre ensinar-lhes.
«O Interior»

23 de novembro de 2002

23 Nov 2002: O nome das coisas

É positivo que a coordenadora nacional do Plano para a Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil assuma pessoalmente o «caso» da Guarda e dirija, com o vigor que demonstrou na entrevista que concedeu anteontem à Rádio Altitude, o grupo de trabalho que acaba de ser formado.
Sabe-se agora que isso aconteceu por diligência do próprio Presidente da República (afinal a Presidência Aberta teve pelo menos este efeito prático) e que Sampaio até designou uma assessora, a ex-secretária de Estado da Educação Ana Maria Bettencourt, para o representar nos trabalhos.
Não é que as duas escolas envolvidas – a de São Miguel e a da Sequeira – não conheçam a realidade ou os organismos representados localmente não estejam em condições de agir no terreno. A direcção da Escola da Sequeira mostrou-se, aliás, incomodada com o que aqui escrevi há duas semanas e esclareceu [em carta no último «O Interior»] que não promove a separação de alunos em função da origem ou do contexto social e que não há turmas «rurais» nem turmas «urbanas» – nem, presumivelmente, a tradicional «turma dos repetentes». Ainda bem.
Mas a segregação não radica necessariamente no método de gestão: está enraizada no próprio sistema, que se espartilha numa tabela universal e não leva em conta as especificidades. Arrumar os «casos problemáticos» numa ou em várias turmas seria pedagogicamente uma brutalidade – para os alunos como para os professores. Gerir a inserção transforma-se, por outro lado, numa façanha: é ter de ensinar a mesma matéria a um grupo onde coexistem o adolescente que mora a dois passos da escola, em meio social médio ou alto e em ambiente familiar tranquilo, que tem hábitos de leitura e meios de acesso à informação; e o adulto precoce, que madruga para as tarefas do campo, convive num meio social difícil, adquiriu hábitos alimentares em que o consumo de álcool é tido como admissível, nunca leu um livro e dificilmente saberá para que serve um computador. Provavelmente este detesta a vida que leva. Mas também não é a escola que o realiza. Cedo desiste, por imperativo familiar ou em função do insucesso acumulado. O que é isto, senão segregação?
É claro que localmente pouco se poderá fazer para inverter esta realidade. O ideal seria educar por objectivos, facultar uma formação compatível com a aptidão, aligeirar as imposições, promover uma via profissionalizante de ensino. Mas as escolas não podem alterar os programas nem os métodos, mesmo que a realidade social o determine.
Por isso é que a criação do grupo de trabalho contra a exploração do trabalho infantil na Guarda é uma boa notícia. Catalina Pestana, a coordenadora nacional, não é mulher para se ofender com o nome próprio das coisas. Conhece a realidade, sabe onde residem as vulnerabilidades e garante que nos últimos quatro anos, desde que o programa existe, já foram resgatados centenas de adolescentes ao abandono escolar, noutras regiões do país.
Como? Concedendo às escolas os meios para promover programas especiais de aprendizagem, até um limite ponderável de escolaridade, encaminhando depois esses alunos para uma formação profissionalizante que lhes permita adquirir competências numa vocação. E, até lá, ir sensibilizando as famílias para um direito fundamental: o direito de ser criança, de ter sonhos, fantasia, ilusões. Um direito que deve estar acima de todos os outros, por muito que os costumes não se discutam.
«O Interior»

15 de novembro de 2002

15 Nov 2002: A raposa apresada

O processo do matadouro teve o fim esperado e a moral da história confirma aquela que é, aos olhos inocentes dos laicos, a razão de existir dos políticos: enganarem-se e enganarem-nos. Esta noção vulgar não deixa de ter algum fundamento empírico, diante de condenações como a acaba de ser sentenciada aos factos que remontam à época em que Abílio Curto era presidente da Câmara e da sociedade gestora da obra. Mas o ex-autarca é capaz de ter razões para repisar o desabafo que lhe ficou como distintivo quando o detiveram, no já longínquo ano de 1995: «Alguém me está a tramar!». Não que justiça não tenha sido feita, na presunção de que todos os factos apurados são verdadeiros e estão provados. Mas é verdade que a montanha pariu um rato e quem se tramou foi ele, condenado a cumprir um ano e meio de prisão efectiva (que só não é de três anos e meio porque entre os factos e a sentença ocorreram duas amnistias) e a devolver 91 mil contos ao Estado. Walter Gameiro também acabou condenado mas isso pouco o deve ralar – o antigo fiscal do projecto vive nas Américas, é um homem assumidamente ocupado para se absorver em tais minudências e, aliás, só à segunda tentativa (depois de ter declarado, por intermédio do advogado, que o «desconhecimento» o impedira de comparecer à primeira audiência, tendo com isso adiado o início do julgamento) é que se dignou vir à Guarda, por uma vez sem exemplo. Pelo contrário, Custódio Simões, tido como a peça-chave de todo o processo, surpreendeu ao sentar-se no banco dos réus à primeira chamada, aparentemente de livre vontade e sem medidas de coacção que prevenissem um regresso antecipado e possivelmente providencial a Cabo Verde, onde vive de negócios. Acabou – et pour cause? – absolvido. Os dinamarqueses também nunca chegaram a ser maçados. E houve os que, embora acusados, se libertaram pela lei da morte, tal foi o tempo de espera até ao julgamento. Abílio vê-se assim com as sobras do caso, sujeito a uma pena efectiva que só o expediente do recurso permitirá protelar – na mira de que a proverbial demora da Justiça permita que a decisão se arraste pelo tempo suficiente até vir mais uma amnistia ou uma prescrição. Claro que nada disto anula o essencial do acórdão do Tribunal: houve crime, de facto, e o projecto do matadouro foi um forró indecente, um autêntico fartar de vilanagem. O que é estranho é que Abílio Curto se tenha deixado apresar por tão evidentes indícios e acabe, sozinho, a penar as culpas. Não é o que espera de uma raposa com pergaminhos.

8 de novembro de 2002

8 Nov 2002: O puto Leonel

Não discuto os costumes, que são ancestrais e têm raízes no meio. Mas choca-me o quotidiano do Leonel – e o destino de todos os Leonéis. Aquele miúdo que se levanta às quatro da manhã para mungir ovelhas e acarretar lenha antes de apanhar o autocarro escolar não pode ter tempo para ser menino. Aquele garoto que regressa a casa depois do sol-posto e ainda vai ajudar no amanho do gado não pode ter disposição para rever a matéria. Aquele puto que passa a correr pelo sono antes de despertar para os dias iguais não pode ter sonhos nem quimeras, vontade nem ilusão. Provavelmente está numa turma entre pares, entregue à condição de «caso problemático» e sujeito ao absentismo dos professores – a escola, frequentada sobretudo por estes alunos das periferias, tratou de pôr os «urbanos» a bom recato. Esta é a realidade que as televisões ampliaram, numa espécie de «expedição à selva» em que Sampaio se prestou a abrir a porta do Mercedes ao Leonel por troca de um banco no autocarro. Foi o folclore costumeiro da Presidência Aberta, que serviu, ao menos, de alerta para uma realidade social emoldurada pelo trabalho infantil, pelas dificuldades familiares e pelo insucesso escolar. E agora? Alguém voltará a preocupar-se com o futuro do Leonel? Alguém irá sensibilizar os pais do Leonel para o papel da escola e importância do que lá aprende? Alguém irá verificar se a turma do Leonel é objecto de segregação? Ou o puto só deu jeito para ir na procissão?
«O Interior»

1 de novembro de 2002

1 Nov 2002: A mão que embala o berço

1. Nem sempre a mão que embala o berço é a mais forte. Às vezes parece desajeitada e rude. Terminado o folhetim da nomeação do director clínico do hospital da Guarda, percebe-se agora melhor que houve mão remota a empatar o processo. A mesma mão que José Cunha nunca quis ir beijar – porque, sendo sobretudo boa pessoa, não se achou sujeito a fazer o papel de lorpa. A mão que, movida por tal afronta, fez o que pôde para protelar e inviabilizar a nomeação do médico. A mão que terá ordenado à direcção do hospital a indicação para Lisboa de outros nomes para o lugar, à revelia da cadeia hierárquica de Coimbra. A mão que, por ter feito isso, arranjou no presidente da Administração Regional de Saúde do Centro um parceiro abespinhado no jogo do braço-de-ferro – e acabou vencida. A mão hospitaleira, que concede aposento ao principal elemento do Conselho de Administração do hospital. A mão influente, que nomeou os restantes de modo a satisfazer promessas de emprego e saldar favores antigos. A mão que prometia pôr o hospital na ordem – com o resultado que se vê.

2. A grande maioria das pessoas está-se literalmente nas tintas para as discussões anuais do orçamento de Estado, das grandes opções do plano, do PIDDAC e dessas coisas. Não é que o deve e haver do Estado tenha deixado de constituir uma questão política e social essencial – dela depende uma grande parte do ciclo económico anual e, em última análise, da condição financeira de todos nós, contribuintes. No entanto, desinteressamo-nos notavelmente do assunto, o que só pode ter uma explicação: nisto de receitas públicas e impostos cada um de nós tem a mesma preocupação basilar, que consiste em assegurar a gama possível de subterfúgios, para que, quando estiver completa cada etapa fiscal e formos chamados a declarar ganhos e perdas, tenhamos forma de não pagar impostos a sério. Sim, nós – uma boa parte dos contribuintes individuais e o grosso das empresas. Sinta-se ofendido quem estiver imaculado. Esta será, também, a razão pela qual os sucessivos governos se permitem apresentar, ano após ano, presumíveis tratamentos de choque, levando em troca o desinteresse e a descrença geral. Os que vão pagar a conta são tão poucos que a placidez comum nunca se sente por aí além ameaçada. Se assim não fosse, o orçamento agora apresentado pelo Governo seria suficiente para causar um levantamento popular.

3. Mas há pessoas cujas responsabilidades transformam a indiferença em corpo de delito. Mais tratando-se de um debate que determina toda uma linha de acção e investimento público, condicionando o desenvolvimento das regiões. E pior perante uma realidade que só se tornará contornável pelo empenho e pela discussão: é que o distrito da Guarda surge, de novo, entre os últimos contemplados pelo PIDDAC, com uma redução significativa do volume de investimentos em relação ao ano passado. Há projectos que não chegam a figurar e há outros que desaparecem, simplesmente. O que fazem os quatro deputados pelo distrito? Quase nada. O que farão quando o orçamento for votado? Os do PSD votarão a favor; os do PS votarão contra. Como fizeram o ano passado, em papéis invertidos. A troca de um voto por um queijo Limiano, há dois anos, foi a representação burlesca do sistema político. Mas, seja dita a verdade, ainda ninguém inventou melhor.

11 de outubro de 2002

11 Out 2002: Para quê?

Oportuna ou não, a permanência do Presidente da República durante uma semana no distrito da Guarda – confirmada que está a «Presidência Aberta» para o período de 26 de Outubro a 3 de Novembro – obriga-nos pelo menos a sair do estado de letargia em que nos mantém este estatuto, por vezes cómodo, de «vítimas da interioridade».
É claro que o conceito já se presta ao folclore do costume, alimentado autarcas, deputados, representantes do poder central e demais «forças vivas». Ouvi-los-emos nas boas vindas, nos jantares e nas sessões solenes, nos passeios com o povo e nas visitas guiadas. Ouvi-los-emos, pelos dias fora, em Marialva ou em Foz Côa, em Pinhel ou no Cântaro Magro, em Castelo Mendo ou em Gouveia. Ouvi-los-emos, soberbos e bem postos, nos salões nobres ou nos recintos polidesportivos, nas praças ou nos santuários.
É fácil antecipar fielmente o que iremos ouvir: que a estada presidencial nos enche de orgulho; que rejubilamos com o estatuto de capital da nação por uma semana; que continuamos atirados ao esquecimento; que sofremos como ninguém o centralismo.
É tudo muito verdade. Mas, tal como Soares em 1988, o que Sampaio virá encontrar serão ruas engalanadas, estradas com asfalto novo, edifícios pintados de fresco, mobiliário a estrear, jardins recompostos e obras feitas à pressa e a qualquer preço.
Realmente, é boa educação de quem recebe apresentar a casa arrumada e expor a melhor baixela. Mas é também dever do visitante, se vier por bem e estiver minimamente a par dos constrangimentos do anfitrião, pô-lo à vontade, pedindo-lhe, com cordialidade e franqueza, que não se acanhe nem faça cerimónia, porque ser pobre não envergonha. E a verdade é que para apreciar as paisagens, conhecer o património e provar os comeres não é necessário fazer uma «Presidência Aberta» – basta vir, de qualquer maneira, que será bem recebido e nunca esquecerá.
Mas Jorge Sampaio deve vir preparado, isso sim, para exercer sem floreados e como lhe compete uma verdadeira magistratura de influência e, em certo sentido, determinado a partir a loiça. Porque não lhe faltarão motivos para intervir: das carências que qualquer um enumera às insuficiências que os sucessivos poderes tiveram a obrigação de acautelar mas não acautelaram; da inércia dos dirigentes à penúria da classe política; da falta de estratégica à fuga dos investimentos; da escassez de oportunidades à evasão da massa crítica.
O Presidente da República tem o compromisso e a responsabilidade de alertar para tudo isso, exigindo que a solidariedade nacional se torne num desígnio consequente.
Que mais não seja pelo respeito que é devido à auto-estima de quantos vão ficando – e que acreditam, apostam, investem e resistem.
Se não for para chamar as coisas pelos nomes, esta «Presidência Aberta» não passará de uma versão opulenta das Festas da Cidade.
E o tempo, como se vê, já não está para grandes romarias.

4 de outubro de 2002

4 Out 2002: Mais do mesmo

1. O novo director clínico do Hospital da Guarda nem um mês cumpriu. Chegado ao dia de pagamento, Alberto Duarte conferiu que as promessas do ministro não lhe valeram de muito e renunciou ao lugar. Não foi pelo burburinho gerado em torno da nomeação e dos alegados privilégios que lhe iam ser concedidos que o médico se arrependeu, foi por um motivo bastante mais raso: na folha de vencimento não constava – e nem podia constar, pelos vistos – o pagamento de horas extraordinárias, um dos vários expedientes que reivindicara para aceitar o cargo sem se sujeitar a «perdas e danos». O que neste caso significava manter o rendimento mensal na ordem dos mil e quinhentos contos, que auferia nas diversas empreitadas que mantinha enquanto médico especialista. Como, afinal, não lhe foi garantido ganhar o mesmo, bateu prosaicamente com a porta. Embora se possa dizer que teve uma atitude coerente e lógica, Alberto Duarte não saiu pela porta grande. Ninguém porá em causa a legitimidade do vencimento que está habituado a receber todos os meses, contando com o salário de especialista, com todos os complementos e mais com o livre exercício de clínica privada. Mas já é discutível a forma como pôs as coisas quando o convidaram a assumir a direcção clínica do hospital. Se já tinha plena consciência de que podia perder dinheiro e liberdade de movimentos, alguém o obrigava a aceitar? Se o regime de excepção causou o alarido que se sabe entre o corpo clínico, havia necessidade de se expor? Só pode haver uma explicação: Alberto Duarte deixou-se consumir pelo perfume agridoce do poder. O lugar não é grande coisa – e depois deste episódio sê-lo-á cada vez menos – mas a tentação de pôr e dispor, de nomear e demitir, de premiar e punir terá sido mais forte do que todas as hesitações mal resolvidas. É a única justificação possível. Claro que ele sempre poderá fazer-se passar por penitente e jurar que nada mais o moveu do que o altruísmo e o desejo de trabalhar para um hospital melhor. Mas isso nem o PSD lho permitirá. Como consta que foi Pedro Albuquerque quem sugeriu o nome (provavelmente para se livrar, ele próprio, de uma indigitação que parecia assentar-lhe como uma luva), Ana Manso não tardará a pôr a correr que só as nomeações propostas pelo PP lhe causam problemas – e sacode, pensará ela, a água do capote. Claro que os danos vão muito para além disso. Agora é preciso saber se o nome que se segue tem estofo para esmoer a condição de quarta ou quinta escolha – e por muito menos dinheiro. E atendendo à existência do voluntarioso grupo de contestatários na equipa clínica, que foi parte activa neste processo, não restam ao Ministério da Saúde muitos caminhos: ou nomeia o novo director sem os consultar e terá, dentro de dias, mais do mesmo; ou chama-os delicadamente à responsabilidade de sugerir um nome (ou, pelo menos, um perfil), reduzindo-lhes a margem de objecção – embora diminuindo também o campo de manobra do futuro titular, além da própria autoridade da directora do hospital. Mas nesta altura do campeonato, o que importa é conseguir sentar toda a gente à mesa e alcançar o assentimento. Quem o conseguir merecerá a designação ao Nobel da Paz.

2. O novo director da Segurança Social da Guarda rescindiu o contrato com vários técnicos que ali prestavam serviço mas, menos de 24 horas depois, foi obrigado a voltar com a palavra atrás – não tinha competências atribuídas para admitir ou despedir quem quer que fosse. Os partidos que alternam no poder deviam distribuir obrigatoriamente um manual de procedimentos aos boys que nomeiam para lugares públicos. Para perceberem, eles próprios, o que vão para lá fazer ao certo.

13 de setembro de 2002

13 Set 2002: Os melões

Os conselhos de administração dos hospitais são um pouco como os melões: só depois de abertos se sabe se são bons. Mas ninguém compra um melão sem lhe deitar primeiro um olhar desconfiado, lhe dar uma apalpões vigorosos e o cheirar cuidadosamente. Depois, no mais das vezes, conclui-se com um duvidoso «parece bom»...
Da nova directora do hospital da Guarda pode dizer-se a mesma coisa: à primeira olhadela, não parece má. Por fora, aquela postura belígera inspira a rijeza necessária para pôr ordem na casa. Por dentro, dizem que tem currículo, experiência, traquejo, carácter – e que praticamente só vive para o trabalho.
Agora é esperar um tempo razoável (que por tudo quanto este hospital já deu que falar tem que ser breve, mesmo muito breve) para ver como resolve todos os berbicachos vindos de trás e mais aqueles que as promessas de quem a pôs no lugar originaram: hospital novo, manutenção da pediatria, solução rápida para a carência de especialistas em praticamente todas as valências, fim à promiscuidade com o sector privado de diagnóstico e terapêutica – e por aí diante.
Para começo, já tem duas provas a prestar que vão exigir algum talento. Uma é convencer toda a gente de que tanto o enfermeiro director como o administrador delegado valem as escolhas (se é que Isabel Garção os pôde escolher). A outra é desarmar o imbróglio da nomeação do director clínico. O nome parece pacífico mas os requisitos que impõe não. E agora, uma de três: ou Alberto Duarte aceita ganhar metade do que ganhava enquanto especialista e não se fala mais nisso; ou mantém a exigência de um expediente qualquer que lhe permita levar para casa o mesmo salário e estoira uma guerra no corpo clínico; ou declina, simplesmente, a nomeação – e quem quer que venha a seguir saberá que foi designado por exclusão de partes, estatuto que não abona o lugar.
Vamos ver no que dá a estreia. Os melões, independentemente do aspecto, também só depois de abertos e servidos se sabe se são bons. E às vezes enganam.
«O Interior»

27 de agosto de 2002

27 Ago 2002: Mergulhar no passado em Goa

Ir a Goa é mergulhar no profundo da memória de Portugal. É conviver com um povo tão afável que comove. É ser invadido pela inquietante sensação de estar nas latitudes tórridas do Índico e, no entanto, tudo na paisagem sugerir um lugar nos antípodas – como se apenas as palmeiras e os castanheiros de caju tivessem resistido, em imponente persistência, a todos os traços denunciadores da presença portuguesa. Porque, passados 40 anos, ela permanece em toda a parte: na arquitectura; nos nomes das ruas; na forma de amanhar os campos; nos relevos da vegetação; nos recortes do horizonte. É natural que um velho goês, Diogo Menino de sua graça, antigo jornalista residente em Macau, a quem eu pedi coordenadas para a viagem que fiz há quatro anos, me tivesse resumido tudo num dito do seu tempo: «quem viu Goa escusa de ver Lisboa».
À chegada ao aeroporto de Dabolim, na cidade de Vasco da Gama, uma funcionária do posto de turismo dirige-se aos viajantes portugueses como se de familiares seus de tratassem. Ângela Jasmina Fernandes assume o mau domínio da língua – e quase pede desculpa por isso. Era criança quando se deu a invasão, ou libertação (conforme o lado), tendo então o ensino da língua de Camões deixado de ser obrigatório. O inglês é o idioma comum e o concani, dialecto goês, ascendeu há dez anos ao estatuto de língua oficial, além do marathi e do hindi, que se falam em toda a Índia.
Mas o importante é que Ângela se considera tão portuguesa como nós. E, qual romagem de saudade, detém-se connosco mais de uma hora, numa afectuosa familiaridade. Mostra-me mapas, dá-me contactos, referências… Em cada lugar que me proponho visitar hei-de encontrar um irmão, um cunhado, um primo ou um amigo de Ângela. Dá como assente que todos me vão receber, todos me querem receber. Mas porquê? «Porque querem ouvir falar português!»
Os lugares que percorro têm nomes como Alorna, Aguada, Dona Paula, Altinho, Prainha, Fontaínhas, Cabo da Rama, São Jacinto, Gaspar Dias, Reis Magos… Em quase todas as povoações hei-de encontrar um «Largo da Igreja». Com coreto e tudo.
As igrejas, aliás, salpicam constantemente a paisagem, numa brancura bem cuidada, mesmo onde não se avista mais do que um recôndito sertão. Existem em Goa 600 templos católicos, quatrocentos com mais de duzentos anos. Deve ser o lugar do mundo com maior densidade de igrejas, capelas e ermidas.
As mais imponentes erguem-se no monumental conjunto de Goa Velha, classificado património mundial. Quando Afonso de Albuquerque desembarcou nestas terras, em 1510 (já Vasco da Gama havia descoberto o caminho), a possessão portuguesa manteve-se circunscrita no local que daria nome a todo o estado. Em 1547 chegaram os missionários Jesuítas, entre os quais S. Francisco Xavier, cujo corpo repousa num esquife de prata no mosteiro anexo à magnífica Basílica do Bom Jesus, um soberbo templo construído em rocha vulcânica a que chamam pedra vermelha. Em Goa Velha também é obrigatória a visita à majestosa Sé Catedral, ao Convento de Santa Mónica, ao Mosteiro de S. João de Deus, ao Palácio dos Arcebispos ou à Torre de Santo Agostinho.
A capital do estado é, desde o Século XVIII, a cidade de Panjim, fundada na margem do rio Mondavi, que inspira um certo romantismo mediterrânico – e onde a memória de Portugal é também gritante. As barbearias Ideal e República competem na praceta do bar Ave-Maria, a curta distância da casa de petiscos Menezes. Em cada esquina há uma placa, um marco de correio, um sinal do passado. No Hotel Central uso o lavabo que tem escrito «cavalheiros» e reconcilio-me com o clima sufocante na varanda do Rio Rico, o restaurante do primeiro andar que conserva o esplendor colonial e serve cozinha portuguesa com influência goesa. Tanto a casquinha de caranguejo como a costeleta de borrego com molho masala estão que se recomendam. Mas o melhor é a sobremesa: bebinca de leite. E, no fim, um Porto de cortesia. Um Porto caseiro, esclarece o empregado. E eis que o «Santo André», vinho «tipo Porto» produzido nas destilarias Tonia, até escorrega.
Na cosmopolita marginal situa-se a Confeitaria Italiana, onde os goeses mais velhos se juntam no entardecer e, atiçados pelo proprietário Bento Miguel, cantam o Malhão, Tia Anica, Raspa, Alecrim aos Molhos, Ó que Linda Rama… A memória é avivada por velhas cassetes, também matéria-prima valiosa para um rancho folclórico e uns quantos conjuntos de baile que mantêm estas modinhas.
No mercado velho de Margão há tabernas, boticas, retrosarias, alfaiatarias, barbearias, comércio de retalho e comércio geral, tal qual se lê nas tabuletas que encimam as arcadas centenárias e indicam serem os estabelecimentos obra de um Menezes, de um Souza, de um Xavier, de um Bragança, de um Gama, de um Noronha ou de um Veloso.
Candeeiros de petróleo estão de plantão às falhas da electricidade, os balcões de madeira há muito que perderam as esquadrias e não há máquinas registadoras – somam-se as parcelas em tiras de papel almaço e tira-se a prova dos noves.
O comércio de antiguidades é uma atracção. Mas as pechinchas encontram-se no mercado das quartas-feiras em Anjuna, a praia tida como santuário hippie e famosa desde os anos 60 pelo convívio pouco ortodoxo que povoa o areal. Vão gentes de toda a Índia, do Nepal e do Tibete, que dividem o chão com ingleses, alemães e holandeses. Fazem a feira da ladra das pratas, das pedras raras, das sedas, das especiarias e do artesanato.
Mas todas as praias de Goa, realmente belas e exóticas, merecem uma visita. As melhores cadeias internacionais de hotéis sabem-no e invadiram a costa com estâncias de luxo que estão próximas do imaginário do paraíso terreno. O Cidade de Goa, na praia de Dona Paula, foi pioneiro neste segmento. Não tem mais de vinte anos mas não tem rooms – tem quartos. E os restaurantes chamam-se Lagoa Azul, Miramar e Alfama.
No pátio da entrada está presente sempre a mesma tertúlia. São três e parecem estar ali há que tempos em animada cavaqueira. Um chama-se Gama, outro Albuquerque e o terceiro Xavier, que dizem santo.
Infelizmente são estátuas – não dá para entrar na conversa.

20 de agosto de 2002

20 Ago 2002: Os portugueses do papiá cristâng

Bem dizia Fernando Pessoa que «o mar sem fim é português». Mas nem isso explica o mistério de haver em Malaca, quatro séculos depois, quem chore quando fala sobre Portugal. Lá longe, nos antípodas do nosso mar, sobrevive um povo agarrado à saudade de um país que nunca conheceu.
São pouco mais de dois mil e vivem no que chamam «jardim à beira-mar plantado», tal como a terra que lhes inspira a mítica identidade. No lugar onde fingem ver o Atlântico longínquo têm apenas um curto braço do Mar da China, conhecido como Estreito de Malaca.
A vida corre mansa e nostálgica naquele kampung portugis (bairro português, em malaio). Talvez mansa demais para o ritmo frenético da Malásia, um «tigre» económico em potência. Tal é o contraste, que na primeira vez que visitei Malaca, vai para cinco anos, o guia turístico que apanhei em Kuala Lumpur (a capital da Malásia) ficou de má catadura quando soube que havia portugueses na jornada. Confessou-me, no fim, que o programa costumava incluir graçolas sobre a calma que se vive naquele exótico bairro. Qualquer coisa semelhante à estafada anedota do alentejano que tem uma cadeira à cabeceira, para descansar quando se levanta...
Este ferrete provém dos hábitos da comunidade luso-descendente de Malaca. Até há quase duas décadas, o mar era o sustento de grande parte desta gente. Como povo piscatório, os homens cumpriam a faina pela madrugada. No resto do dia, entregavam-se ao arbítrio dos elementos naturais e das fomes do corpo e da alma, livres de horários. Num país fortemente industrializado, seria no mínimo excêntrico este vagar de horas a fio à sombra dos embondeiros da marginal, nas esplanadas da Praça Portuguesa ou nos umbrais das casas feitas de madeira e chunambo.
Agora, os portugueses de Malaca empregam-se na administração pública ou nas numerosas fábricas. E a comunidade orgulha-se de contar entre os seus ilustres com um juiz, um embaixador, vários advogados e professores. Mas esta integração não os inibe do orgulho da origem e do crioulo a que dão voz, o papiá cristâng. É isto que perturba quem chega, tantas são as gerações passadas e tantas as voltas que a cidade deu em 350 anos, entre domínios de holandeses, franceses e ingleses.
Há quem defenda que o papiá é o Português arcaico, ali deixado e mantido na forma pura. Seja o que for, a verdade é que um estranho desembarca e logo encontra o velho Manuel Bosco Lazaroo, respeitado líder do bairro, técnico de obras públicas reformado, tocador de «biola» e contador de histórias. Chega e pergunta «qui bos nome?» (como se chama?) e «de onde bos ja bem?» (de onde vem?). Depois convida o visitante para casa, oferece-lhe uma bebida – «bos qui quer beber? Tem secura?» – e logo se lhe juntam os Teiserah que foram Teixeira, os Fernandis, os Sequieras e os Aranjos. E ainda há os Costa, Rosário, Melo, Santa Maria, Colares ou Lopes. De todos os que conheci naquele encontro, só um tinha vindo a Portugal, havia mais de vinte anos. Mas a saudade era partilhada por todos.
Levaram-me à Rua de Eredia, afluente da Rua de Sequeira e esta da Rua de Albuquerque, a principal, que vai dar à Praça Portuguesa, aliás Portuguese Square, aliás Medan Portugis (em malaio). Foi um aprazível largo fronteiro ao Estreito de Malaca até que uma urbanização em aterros novos cortou o acesso ao mar. Os moradores do bairro protestaram e chegaram a pedir ajuda a Portugal, através da embaixada mais próxima, na Tailândia, sem resposta. Abandonados à sorte, trataram de pedir algum para eles, em troca do acordo sobre a construção do empreendimento. Assim se fez. A compensação deu para construir uma igreja e um centro social. E toda a recuperação da praça foi paga pelo governo da Malásia, em nome da integração cultural e do respeito pelas minorias. E é assim, com uma parte assinalável de apoio público, que a comunidade organiza as festas dos santos populares e mantém dois ranchos folclóricos, o «Tropa de Malaca» e o «Tiroliro», que animam as noites na praça e são presença frequente em festivais etnográficos em Singapura, a cidade-estado que fica de Malaca à mesma distância que a Guarda de Cuidad Rodrigo.
E Portugal, que apoio dá? «Nicles!», diz, não sei se em português se em cristâng, o amigo Bosco Lazaroo. «Nem um livro, nem um jornal, nem um filme, nem um disco, nem um mapa, nem nada!», acrescenta Jorge Alcântara, dono do restaurante «Faial», o ex libris da praça.
O estabelecimento português em Malaca durou escassos 130 anos, entre 1511 e 1641, até à tomada pelos holandeses. Mas a velha cidade está impecavelmente recuperada e mantém outras marcas da presença lusa. O Museu Marítimo, por exemplo, está instalado numa espantosa réplica de uma nau portuguesa. E o postal ilustrado por excelência é a antiga porta da fortaleza, conhecida como «A Famosa», junto das ruínas da Igreja de S. Paulo. E imponente é a Igreja de S. Francisco Xavier, onde ainda se vêem pedras tumulares com dizeres como estes, datados duzentos anos após a saída de Portugal: «Aqui jaz o mui reverendo Francisco Gomes que houve relevantes serviços para com esta Igreja de Malaca desde 1826 e 1840 (...) Regeu a Diocese com zelo até à morte, que teve lugar a 17 de Janeiro de 1858, tendo de idade 64 anos, dois meses e seis dias. À sua gloriosa memória. Dedicação esta dos seus reconhecidos amigos e fregueses, fazendo votos pelo remanso da sua alma».
É nestas alturas que se regressa, inevitavelmente, a Pessoa: «Outros haverão de ter/O que houvermos de perder./Outros poderão achar/O que, no nosso encontrar,/Foi achado, ou não achado,/Segundo o destino dado».

6 de agosto de 2002

6 Ago 2002: Zhao Weng, aliás, João Manuel

Agostinho da Silva dizia de Portugal que a plenitude do Espírito Santo concorria com a bênção de se ter construído, à beira do Atlântico, o cais que nos sagrou para todo o futuro do mundo. O meu amigo João Manuel pensa algo semelhante, embora a matriz cultural lhe coloque os ensinamentos de Confúcio e Lao Tse no lugar das graças do Espírito Santo, que lhe parecem um tanto exóticas.
João Manuel chama-se, na realidade, Zhao Weng. Nasceu em Xangai no mesmo ano e no mesmo mês em que eu nasci na Guarda, em Dezembro de 68. E, quais almas destinadas, acabámos por travar conhecimento num Outono em Pequim, vai para quatro anos. Eu vivia em Macau e visitava a cidade dos imperadores pela primeira vez. Ele, ex-estudante de Português, era o contacto de um amigo comum e um anfitrião desejoso do convívio com nativos da língua de Camões.
João Manuel é o nome adoptado – um «aliás», como se diz naquelas. Eu próprio possuía, naquele tempo, o meu «aliás» chinês (Loi Si Do), o que originou, no imprescindível ritual de troca de cartões de visita, o caricato de eu o tratar pelo nome português e ele a mim pelo chinês.
Reposta a verdade dos factos, fiquei em desvantagem: chame-se Zhao ou João, ele fala a minha língua de forma impecável, muito ao invés de mim em relação à dele. O rigor gramatical e a eloquência do vocabulário são notáveis. Era preciso ir a Pequim, não digo para ouvir falar bom português mas pelo menos para lembrar expressões muito nossas, caídas em desuso ou abafadas por estrangeirismos. Disse-me, por exemplo, que me levaria aos famosos estanqueiros da Rua Liu Li Chang e de Xiu Shui. E levou-me. Só que eu chamar-lhes-ia num caso antiquários e noutro armazenistas.
De facto, a Universidade de Línguas e Literaturas Estrangeiras de Pequim, muito prestigiada nos meios diplomáticos, não brinca em serviço. Lecciona todas as línguas oficiais do mundo – mesmo todas! – e mais uns quantos dialectos expressivos. O curso de português tem a duração de quatro anos intensivo e é acompanhado pela mesma equipa docente do primeiro ao último dia. Só ao quarto ano é que volta a admitir caloiros. E cada curso não aceita mais de quinze alunos, pelo menos nas línguas consideradas difíceis. O português é uma delas, devido à complexidade da gramática. Os professores habilitados (chineses na quase totalidade) são poucos – mas bons, a avaliar pelo resultado que João Manuel exibe.
Este contacto com a língua e com a cultura lusas aconteceu por acaso. Ao ingressar na universidade, Zhao, que ainda não imaginava vir a chamar-se João, indicou o inglês como primeira opção, porque julgava ter no já familiar uso desta língua alguma vantagem. Puro engano. Não foi admitido porque os vícios que levava da aprendizagem autodidacta contrariavam a filosofia da formação que ali é ministrada. Os mestres criam a obra a partir da pedra em bruto, com paciência e perseverança, nunca pegam em trabalho começado. Tal é o sentido do ensino do Português, em Pequim.
Há males que vêm por bem, diz o aforismo muito nosso. Quando o conheci, Zhao admitia que o diploma de Língua e Cultura Portuguesas seria uma carta de alforria. Dadas as relações privilegiadas entre Portugal e China no quadro da transição de Macau, as próprias instituições da República Popular estavam a absorver uma grande parte dos diplomados.
Zhao iniciara os estudos em 1988 mas um ano depois a universidade encerrava, na crise provocada pelo movimento estudantil pró democracia, que culminou nos acontecimentos de Tian An Men a 4 de Junho de 1989. Perguntei-lhe se esteve lá, se assistiu ao massacre. Respondeu-me com uma evasiva: «Em Maio fui visitar os meus familiares em Xangai». A conversa torna-se num jogo de sombras.
Na tristemente célebre praça, os heróis daquela Primavera só já existem no imaginário do visitante. O local parece apropriar-se do nome, que significa à letra Praça da Paz Celestial. Há velhos que praticam Tai Ke, a «ginástica do espírito», crianças que lançam papagaios de papel, turistas ruidosos e soldados que ao nascer e ao pôr-do-sol hasteiam e arriam a bandeira nacional, num ritual empolgante.
Qualquer pessoa se sente ali minúscula. Obra de Mao, tal como a avenida de mais de trinta quilómetros que a atravessa, a praça é gigantesca e está ladeada pelos edifícios sobranceiros do Museu da Revolução, do Grande Palácio do Povo, do antigo Palácio Imperial e do mausoléu do «grande líder». Mas o maoísmo não passa já de um relicário, que resiste como pode no país que inventou o paradoxo da economia socialista de mercado e regista uma das mais elevadas taxas de crescimento económico do planeta.
Voltemos a Zhao. Na pele de João Manuel, já tinha lido Camões, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Mário de Sá Carneiro e Sofia de Mello Breyner, pelo menos. Em português e em chinês. A universidade dispõe de um acervo assinalável de literatura portuguesa traduzida, nuns casos por acção dos próprios investigadores, noutros por iniciativa editorial tomada a partir de Macau.
Desde que foi criado, há mais de trinta anos, o curso de português formou um total de cerca de três centenas de pessoas. Uma grande parte ingressou na carreira diplomática, arte na qual a China dá cartas. É impensável que uma embaixada em qualquer parte do mundo não tenha quadros que falem fluentemente a língua do país.
Aos trinta anos, João Manuel era já um alto quadro numa empresa estatal ligada ao Ministério do Comércio Externo e da Cooperação. Por falar português tinha estado destacado três anos em Cabo Verde e dois em São Tomé. Agora costuma escrever-me maravilhas de Moçambique, onde exerce há dois anos o cargo de adido comercial. Em Portugal chegou a viver oito meses, a trabalhar na área da cooperação económica. E foi aqui que deu de caras com um mistério que nem toda a sabedoria oriental consegue desvendar: como pode a pátria dos Descobrimentos ser tão fechada sobre si mesma e tão estreita de vistas? Perguntava-me disto a propósito do relacionamento comercial unilateral, do mercado português inundado de made in China, em contraste com a falta de iniciativa no sentido inverso. E indignava-se: «Vocês não vêm que este é o maior mercado do mundo? Que a compra de um produto vosso por um por cento da nossa população é um negócio para valer milhões?!» O quê, por exemplo?: «O vosso vinho e o vosso azeite». Não, nós não vemos sequer um negócio da China.
Ficamos assim. E à noite, numa animada ceia no afamado «Rei das Sopas» de Pequim (sopas de cobra, que as boas maneiras obrigam a sorver ser esgares), Zhao recorda outras características dos portugueses, umas boas, outras nem tanto. Que temos um estranho fascínio em dizer tudo o pensamos. Que somos conversadores e bem dispostos. Que discutimos muito. Que nos queixamos de tudo. Que contamos anedotas.
E as mulheres portuguesas, o que as distingue? João Manuel medita por instantes. E sai-se com esta, que nenhum de nós terá, sequer em poemas, alguma vez pensado: «Têm a simpatia, a doçura e os gestos de ternura breve»...

26 de julho de 2002

26 Jul 2002: É difícil contar a verdade?

E vão dois: depois do movimento Pela Criança, eis que surge o Pró Pediatria. Um atirava-se ao PS, o outro zurze no PSD. Um insinuava que no génio irascível da chefe do serviço de pediatria estava a raiz de todos os males, o outro defende-a e diz tratar-se de «uma das melhores pediatras do país». Um mantinha uma indisfarçável deferência com Ana Manso, o outro vem disposto a cobrar-lhe as promessas. Um já deu a missão por cumprida, o outro apela aos pais para que se juntem e não deixem fugir a médica Luísa Pedro, que assim vai alimentado o tabu sobre a sua própria continuidade no hospital Sousa Martins. Não se sabe o resultado que alcançará o chamamento – mas depois do logro que se revelou o movimento Pela Criança é difícil cair segunda vez. Até porque ambos assumem uma característica comum: a capacidade de multiplicar os argumentos inúteis, esbatendo alguns que podiam ter utilidade para a discussão.
Nesta altura do campeonato, clamar contra a saída de um especialista é tempo perdido. Em menos de quatro anos já desertaram seis. Ficar com dois ou contar apenas com um dá exactamente o mesmo: o encerramento da pediatria e, logo a seguir, o da maternidade. Até porque daqui a duas semanas entra ao serviço um troço de auto-estrada que, entre outras virtudes, anula a pior parte do caminho para a Covilhã e para um hospital de raiz, bem equipado e à espera de ser rentabilizado – cuja dimensão nunca se esgotará nas necessidades dos cinco ou seis concelhos situados entre a Gardunha e a Estrela, que representam, juntos, menos de 100 mil habitantes.
Percebe-se há muito que o Centro Hospitalar Cova da Beira está para se tornar numa unidade central da região (ambição reforçada pela criação da Escola Superior de Saúde), em complementaridade com os outros hospitais situados ao longo da auto-estrada – Guarda, Fundão e Castelo Branco – e numa lógica que evite o desdobramento de meios: cada qual apostará naquilo para que estiver vocacionado e de acordo com as próprias condições. Desta forma teremos a pediatria e a obstetrícia concentradas no hospital da Covilhã, como poderemos ter a pneumologia ou a ortopedia no hospital da Guarda. Cada um tratará daquilo que sabe e pode. Além de ser óbvio que a criação de uma unidade de raiz na Guarda, fruto da tal parceria entre o sector público e o privado, menor margem deixará, pela própria natureza da gestão, para o desperdício de recursos.
Como pai, não me chocará fazer quinze minutos de estrada, sabendo que terei um bom serviço à minha espera. Aquilo que verdadeiramente me assusta é a proverbial tendência para as capelinhas – que, indo eu da Guarda com um filho meu à urgência pediátrica da Covilhã, seja tratado como estrangeiro e relegado para o último lugar da fila.
Isso poderá acontecer por muitas razões. Por má gestão, desde logo. Por exagero bairrista, com certeza. Mas também por falta de autoridade para impor algumas regras em tempo útil.
A solução para a rede de hospitais da Beira Interior está traçada e, vista com a necessária equidistância, parece racional. Os partidos, os poderes, os movimentos e as «forças vivas» da Guarda devem agora gastar as energias na definição de pormenor sobre o estatuto que nos ficará reservado no mapa da saúde, em vez de insistirem no estafado registo do sempre – panfletário e trauliteiro. Porque, para lá das paredes, o futuro do hospital assenta em duas premissas muito simples: utilidade e especialização.
Será tão difícil contar a verdade às pessoas?

19 de julho de 2002

19 Jul 2002: Um Polis, dois Polis – ou nenhum?

1. Um diz que o plano já leva oito meses de atraso. Outro garante que não há atraso nem derrapagem. Um reconhece que os processos deviam ter sido agilizados e que, a meio da contagem, já se afiguram óbvias «repercussões na implementação dos trabalhos», podendo o prazo de conclusão estar comprometido. Outro, porém, mostra-se convicto de que em 30 de Junho de 2004 estará tudo pronto. Um mostra-se cauteloso em relação ao calendário de lançamento dos projectos. Outro adianta que dentro de um mês ou dois já teremos obra – e obra feita, no caso da avenida da Estação. Um lamenta que a comissão técnica de acompanhamento seja restrita e atrofiada pela burocracia. Outro nem refere a existência de tal órgão. Um trata de esclarecer que os trabalhos a realizar «não vão resolver todos os problemas» em relação às áreas intervencionadas e que o plano apenas tentará servir de modelo e «aferir intervenções futuras» nessas zonas. Outro é peremptório: quando tudo estiver no lugar, vamos ter uma cidade com maior qualidade de vida e um pólo de atracção – nacional e internacional. Um é engenheiro, foi vereador da tutela, esteve para ser coordenador geral do programa mas ficou-se pelo cargo difuso de membro do Conselho de Administração. O outro é arquitecto e director executivo do projecto. Aquilo que em teoria os une é o Polis na Guarda. Aquilo que na prática os separa é o discurso e, provavelmente, a visão das coisas. Na mesma semana, em dois jornais (um deles foi «O Interior»), Joaquim Valente e António Saraiva deram entrevistas acerca dos projectos, das obras, dos prazos. A leitura cruzada dos dois textos é inquietante: estariam a falar do mesmo?

2. Vale a pena, ainda assim, pegar em duas omissões que são comuns às declarações de ambos. Uma constitui um alívio. Outra inspira preocupação. Uma é referente ao túnel sob a Praça Velha: felizmente já nem Valente nem Saraiva mencionam esse disparate, até há pouco tempo dado como um dos «trabalhos estratégicos» da requalificação da cidade. A outra é grave: ficamos, de novo, sem saber que uso irá ser dado ao parque urbano que querem criar ao longo do rio Diz. A ideia é simpática e bem apetrechada, sem dúvida – mas há questões essenciais que permanecem sem resposta. Quem tomará conta de todos os equipamentos, depois de cortada a fita e desmontado o relógio? Quanto custará a manutenção e quem irá suportá-la? Porque é que uma obra destas não foi lançada em regime de concessão de longo prazo, para acautelar desde já a gestão e o funcionamento no futuro? Olhando para o estado em que estão os espaços verdes de iniciativa pública (do parque municipal às insignificantes courelas relvadas) desta cidade, não é fácil dar bom crédito às intenções.

3. É como a história do centro histórico da Guarda: ano após ano, a intervenção de fundo é adiada para o seguinte. E eis mais um Verão em que os carros circulam na Praça Velha, na Rua do Comércio, nas vielas antigas – em toda a parte. A Câmara já nem tenta: os velhos do Restelo do comércio local batem-lhe o pé e ela cede. Por falta de coragem, de autoridade e de visão estratégica temos, porventura, o último núcleo medieval do país à espera de ser devolvido às pessoas. Mas há, pelo menos, inteira coerência entre esta realidade e as restantes: um posto de turismo desactivado e outro que funciona em horário de expediente; os monumentos fechados; os locais de chegada, os pontos de encontro a as ruas principais onde não se vê um mapa da cidade no qual o visitante saiba que «você está aqui»; o comércio zeloso no cumprimento das horas de descanso; o parque de campismo decadente; o aproveitamento do Caldeirão metido definitivamente na gaveta; um ramo hoteleiro que aos domingos e dias santos mete tranca à porta. Afinal, bate tudo certo – não temos por que nos queixar.

17 de julho de 2002

17 Jul 2003: Sair do sério

1. Infelizmente não se descortina qualquer final feliz para o enredo da Escola Superior de Saúde da Guarda. Quando se diz que uma decisão deve ser sujeita a estudos profundos antes de ser tomada é porque já está tomada – e é não. Tudo o mais serve para empatar. As promessas são como as chocas lançadas à cernelha – despistam e aquietam. E a realidade que se vai percebendo é que nenhum governo – nem este nem o anterior – teve alguma vez a intenção de criar a escola na Guarda. Foi como tudo: os outros conseguiram, nós agora também queremos. Mas nunca houve, nem há, força para impor uma decisão na primeira linha dos acontecimentos. Só nos resta o caminho da indignação e do murmúrio – por um hospital, por uma escola, por um serviço, por uma posição no mapa. Mas até a assobiadela é desconcertada e desconcertante. Uns acusam os outros e estes desculpam-se com aqueles. A passagem do PS pelo governo deixou à Guarda um saldo zero na influência e no proveito. O PSD só prosseguiu a ineficácia. Os poderes calam-se, porque querem perpetuar-se. As oposições calam-se, porque são coniventes na decadência. Tem sido esse o sentido da alternância – e a razão de todas as perdas lançadas ou por lançar. Provavelmente nunca chegaremos a ter a Escola Superior de Saúde, tal como não tivemos uma série de coisas. O risco, para quem decide, é ponderado: mesmo que aqui se faça barulho, dificilmente se ouvirá no fim da rua e o silêncio torna passados dias. Só a indigente e apagada classe política que nos representa é incapaz de perceber que apenas existe na periferia de si mesma. E que mais ninguém a leva a sério, para mal comum.

2. Em tempos alguém com responsabilidades tirou da cartola este teorema: não valia a pena aprofundar a promoção turística da Guarda porque a oferta hoteleira era frágil. Se o trabalho fosse sistemático e planeado, corria-se o risco de se atraírem visitantes sem se lhes poder garantir um tecto. Assim se explica o minimalismo da acção, desde que há memória. Mas se esse era o critério, está para breve o dia em que deixaremos de viver escondidos. Vai abrir um hotel e estão dois em construção. E o que existe não fecha para obras, ao contrário do que esteve anunciado. Por junto, a cidade ganha três centenas de camas. Para ser um lugar de passagem bem servido de dormidas? Não. A fazer fé nas promessas, agora é que vai ser. De um fôlego, a Guarda passará a dar nas vistas nos melhores roteiros turísticos, com oferta apelativa e variada. Mas enquanto sim e não: é possível mandar abrir as igrejas (a começar pela Sé) fora dos horários das missas e obrigar os restaurantes e as esplanadas a servirem aos domingos? Até os de cá agradeciam.
«O Interior»

12 de julho de 2002

12 Jul 2002: O hospital das portagens virtuais

De hoje a uma semana, o secretário de Estado da Saúde deverá deslocar-se à Guarda para «esclarecer questões relacionadas com o novo hospital». A informação ainda não é oficial: foi comunicada por Crespo de Carvalho na última sessão da Câmara e, pelos vistos, mais ninguém – nem o único colega de bancada presente – tinha conhecimento dela. Por isso, e levando em conta acontecimentos recentes, é melhor não dar a notícia como certa antes de findo um cauteloso prazo de «quarentena», isto é, antes de esgotadas todas as razoáveis possibilidades de o vereador do PSD vir dar o dito por não dito, a invocar má interpretação da imprensa, denunciar a falsificação das actas ou ver-se, tão só, desacreditado pelos correligionários na Assembleia Municipal e tratado quase como um farsante através de carta aberta – como ainda aconteceu na semana passada, sem que, pelo menos na aparência, ele se tenha importado muito com isso.
Em todo o caso, há uma grande probabilidade de a visita ser feita. E uma forte possibilidade de se tornar num facto político de primeira água, mais do que o périplo de um secretário de Estado ao país real poderia em princípio merecer. É para vir «esclarecer questões» que o anúncio do novo hospital suscita? Então que venha, rápido.
Por muito que isso escandalize as hostes locais do PSD, a verdade é que o assunto não conseguiu inspirar mais do que a indiferença generalizada, porque todos conhecemos, de pequeninos, a história de Pedro e do lobo. Pode ser que as explicações in loco dissipem esta descrença. Porque não se trata apenas de confiar, ou não, na promessa feita por um governo em contraciclo de popularidade. Mais do que saber o quê da notícia, é preciso apurar o como e o porquê.
Vamos admitir que a Guarda terá mesmo um hospital novo, construído de raiz, e que o governo encontrará um parceiro privado para o gerir durante trinta anos, ao qual pagará pelos serviços de natureza pública que estará obrigado a prestar gratuitamente aos utentes. Será uma espécie de HCUT – hospital sem custos para o utilizador, como as auto-estradas. A existir, coexistirá com o hospital da Cova da Beira (a curta distância da Guarda, novíssimo, bem equipado e, até ver, de gestão pública) e com o anunciado hospital da Misericórdia, inteiramente privado mas a piscar o olho ao Estado para a prestação de serviços a utentes do regime público (a única forma, aliás, de uma unidade de saúde particular poder conquistar mercado numa região com fraco poder de compra) e, mais do que isso, a «pescar» já no corpo clínico local – como comprova a indigitação do médico Pedro Albuquerque (de quem se falava para dirigir o Sousa Martins) para director.
É como se o Estado planeasse autorizar três auto-estradas para um mesmo percurso: uma, em regime SCUT, em que a concessionária cobra portagens virtuais ao governo; outra, construída por iniciativa privada, em que os utentes pagam portagem ou exibem nota de crédito emitida pelo Estado; e uma terceira, construída e administrada pelo Estado, em que qualquer um é livre de viajar à borla. Sem contar, claro, com o «itinerário complementar» que sempre existiu e que, com remendo atrás de remendo, cá nos vai remediando – por ruim que seja.
Não será fruta a mais?
«O Interior»

21 de junho de 2002

21 Jun 2002: Brandos costumes

1. Na margem do Mondego, perto de Celorico da Beira, uma fábrica de lacticínios terá decidido livrar-se dos resíduos tóxicos, despejando-os, presumivelmente, no rio. Como consequência imediata, morreu uma quantidade indeterminável de peixe, visível à tona desde o princípio desta semana. Isto quer dizer que o caudal está envenenado e segue o curso de destruição, que tanto pode queimar as culturas hortícolas na orla do rio como pôr em perigo a saúde de quem, por estes dias, se aventurar ao mergulho nas praias fluviais. Há crime, há suspeitos, há união de causa e efeito, há danos aferidos. O que se passou a seguir? Que se saiba, nada. Toda a gente andou demasiado entretida com o murro do João Pinto para admitir que o que se passou no Mondego tivesse alguma importância. É possível que, daqui a alguns dias, muito a custo e por pressão da notoriedade que o caso já alcançou, alguém da autarquia ou dos serviços regionais do Ministério do Ambiente visite a fábrica, levante um auto e condene o prevaricador a pagar uma multa. E depois? «Não pago!», dirá, seguramente, o empresário. Poderá escudar-se num rol de circunstâncias abonatórias, desde o facto de nunca ninguém lhe ter exigido o tratamento prévio das matérias residuais até à evidência de a mortandade dos cardumes pela poluição ser coisa banal nos melhores rios. O resto é relativamente fácil de antever. O processo segue para tribunal mas nessa altura já o proprietário, os trabalhadores, os sindicatos e as “forças vivas” se terão unido para denunciar a «ameaça aos postos de trabalho» e o «atentado à economia do concelho». A Câmara fará saber que um novo sistema emissário de resíduos industriais se encontra «em fase muito adiantada de projecto» e que a vigilância do leito do rio passou a ser «muito rigorosa», obrigando a análises permanentes à qualidade da água. E as conversas voltarão a centrar-se naquilo que é importante: o castigo ao João Pinto; o futuro do Oliveira. Que interesse tem, no fim de contas, que umas trutas em baixo de forma tivessem sucumbido à vaga de calor do Santo António? O cheiro das águas do Mondego não chega a ser tão mau como o dos brandos costumes deste país.

2. A polémica sobre a compra de um carro para a presidência da Câmara da Guarda não passou de um test-drive, com o piloto enjoado e a desistir a meio. Tanto banzé para nada – até o facto de um filho de Maria dos Carmo Borges ser empregado do grupo que fez a venda da viatura, como já se sussurrava, foi confirmando em público e com ar cândido pela própria mãe, antecipando-se ao arremesso dos vereadores do PSD. Há ligações perigosas? Se as há, pesaram na escolha da marca, em prejuízo das normas legais? Em matéria de carros de luxo, onde acaba o investimento em conta e começa a investida despesista? Ninguém sabe, ninguém explicou. É, pois, improvável que esta história dê sumo. Embora, claro, seja de admitir que a contenda ocupe também a sessão de câmara da próxima semana – mesmo que o povo encolha os ombros e dê cada menos credibilidade aos políticos. Mas, de facto, uma discussão sobre automóveis é acessível a toda a gente e evita conversas mais incómodas. Como por exemplo, se alguma vez teremos um hospital, seja ele novo ou remendado; se um serviço de pediatria reduzido a um médico não é óbvio que feche de vez, arrastando com ele a neonatologia e a maternidade; se o movimento pela criança não passou de uma fantochada, que meteu o rabinho entre as pernas quando deixou de servir e defraudou quantos nele participaram desinteressadamente; se uns e outros, líderes do PSD e do PS, não deviam dispor-se a percorrer as ruas (a pé, nunca de carro), num auto-de-fé de súplica – para pedirem, juntos, perdão pelo estado a que deixaram chegar isto.

31 de maio de 2002

31 Mai 2002: CCUT – Com Crédito para o Utilizador

1. Em duas penadas o Governo desconsiderou, como facto pouco ou nada importante, a existência de auto-estradas com portagem virtual, para depois recuar e admitir que, afinal, poderá haver «alguns casos» em que não se pague, nomeadamente na Auto-estrada da Beira Interior. O ministro das Obras Públicas não foi completamente específico mas adiantou que continuará a haver troços sem custos para o utilizador, «para residentes e para actividades económicas no Interior». Ninguém sabe, ao certo, quantos se poderão incluir nestas categorias ou noutras que venham a ser contempladas. Mas é fácil imaginar o desenrascanço com que cada natural do eixo Abrantes-Guarda se assomará ao guiché da via verde a declarar residência na casa da mãe, na da sogra ou na da prima da aldeia, mesmo que na realidade viva em Fernão Ferro, em Massamá ou em Vialonga e só planeie chegar à terra em festas e romarias – desde que à borla. Este retrocesso no discurso leva a pensar que, em matéria de cancelamento das portagens virtuais (como, provavelmente, em muitas outras), acabámos de assistir a entradas de leão e resta-nos esperar por saídas de sendeiro. Porque «residentes» podem ser, afinal, todos: os que utilizam a auto-estrada porque querem têm depressa; os que lá vão fazer a rodagem das «máquinas»; os domingueiros no passeio dos tristes. Duvido que haja algum cidadão que seja não seja capaz de engendrar um expediente para ficar contemplado. Dito de outro modo: duvido que haja alguém que, no modelo esboçado por Valente de Oliveira, venha a pagar um cêntimo que seja. E depois? Haverá portagem em todos os nós de acesso ou só haverá em metade? Ficarão só abertos os acessos às cidades e às vilas, encerrando-se os cruzamentos da Benespera, das Donas, de Alpedrinha, da Soalheira e por aí adiante? Está-se mesmo a ver como é que tudo isto vai terminar – na mesma. É certo que a razão invocada para acabar com as SCUT colhe popularidade: de facto, os 132 milhões de contos que o modelo fará sair dos cofres do Estado no ano de 2008 dariam quase para construir um novo IP5. Mas resta saber se, pelo tipo clássico de concessão em que a única receita é o pagamento à vista pelos utilizadores, alguma vez a Auto-estrada da Beira Interior teria avançado até ao ponto em que está hoje – antes mesmo da ligação entre a A1 e a fronteira de Vilar Formoso e de outras vias com maior potencial económico. Porque é evidente que esta ligação da Guarda a Lisboa pela Beira Baixa, mais do que todas, obedece a uma política de investimento social a fundo perdido mas com retorno económico de longo prazo bem mais amplo do que a escassa receita da cobrança de portagens. A coesão e o desenvolvimento do País é matéria que diz respeito a todas as parcelas – porque representa um investimento no futuro colectivo. Nem que a auto-estrada passe longe do nosso bairro.

2. No caso do IP5 a questão nem devia pôr-se assim. Concordo em que se acabe com o conceito da auto-estrada sem custos para o utilizador – desde que seja para instituir um modelo novo, o da circulação com crédito para o utilizador. O historial daquela via é tão negro que nenhum de nós escapou a perder lá um familiar, um amigo ou um conhecido. Por mau uso, é certo. Mas sobretudo por má concepção e deficiente construção. Obrigarem-nos a pagar para a utilizar, seja em modo real, seja no virtual, é uma exigência de mau gosto. Com ou sem duplicação, o mínimo a que cada automobilista deve achar-se com direito é a um subsídio por danos e perdas. Liquidado antes de se acenderem os médios – e a fundo perdido, para o que der e vier.
«O Interior»

24 de maio de 2002

24 Mai 2002: Alguém os leva a sério?

1. Fernando Cabral já tinha dado voz ao descontentamento do Partido Socialista pela falta de menção expressa, no programa deste Governo, aos projectos que entendia serem vitais para o distrito da Guarda. A seguir revelou-se activíssimo nas interpelações acerca dos efeitos que a cruzada que está em curso pelo saneamento das contas públicas poderá ter na execução dessas obras e no lançamento de outras. Quem diz obras diz também a delineação de «medidas de discriminação positiva», como agora é fino designar. Depois veio com o companheiro de bancada Joaquim Pina Moura dar conta do andamento das coisas. E ambos prometeram continuar a intervir, propor, discutir, aprovar, reprovar, contestar, reclamar, protestar e informar sempre – que para isso foram eleitos deputados pelo povo desta parcela de país real. Deputados de oposição, é certo, mas nem assim menos atentos ou laboriosos. O que confunde as pessoas é que pelo menos um destes diligentes cavalheiros, Fernando Cabral, chegou aonde se sabe no tempo dos governos do PS e nunca se lhe tinha percebido, pelo menos assim em termos explícitos, uma tal fibra. A preocupação que agora demonstra assenta bem ao novel deputado, com certeza. Mas contrasta com a atitude passiva, concordante e reverente que, quer como governador civil, quer como dirigente distrital do partido no Governo, teve sobre os descuidos e as omissões acerca do que agora reclama. Muito do nosso atraso estrutural vem daí: de uma estratégia de aranha que, aos poucos, foi tecendo a sua teia de silêncios, de submissões, de vassalagens, de verdades absolutas em nome de interesses próprios e partidários. Essa teia asfixiou a capacidade crítica e o poder reivindicativo e tentou criar uma lógica de unanimismo mental, de culto da infalibilidade dos líderes, de resignação civil. Numa palavra: mediocridade. Graças a este património (que, infelizmente e como se tem visto, é comum nos partidos que têm disputado a alternância no poder), perdemos tanto e sobrou tão pouco. Por isso precisamos hoje de reclamar as medidas de «discriminação positiva» – porque o imobilismo, o seguidismo e a incompetência da classe política já nos proporcionaram a discriminação na forma pura durante anos a fio. Por isso apetece perguntar aos deputados do PS na sua mise-en-scène: acreditam mesmo, depois de tudo, que alguém os possa levar a sério?

2. Foi talvez uma questão menor. Ou só formal. Mas a verdade é que o invulgar excesso de zelo com que a Assembleia Municipal da Guarda cumpriu a agenda da sessão extraordinária da passada Terça-feira, marcada para votar os estatutos da Plataforma Logística, foi mais um episódio para o longo rol de prestações que faz com que este órgão autárquico se encontre, na essência como no método, a caminho do descrédito. O problema nem está no facto de a mesa não ter dado a abusiva tolerância de espera que por vezes concede, não esperando por boa parte das bancadas da oposição. Nem na celeridade com que o único assunto em discussão foi votado. Nem na validade da aprovação. Está, em primeiro lugar, no facto de umas vezes ser complacente com a balda e outra vezes não, aparentemente sem preceito à vista. E, em segundo, na deplorável peixeirada que não soube evitar. Claro que, chegados aqui, todas – mas todas – as perguntas são legítimas. A começar por esta: haverá coincidências?
«O Interior»

3 de maio de 2002

3 de Maio de 2002: Ver passar os comboios

Reunidos havia horas no majestoso mas climatizado salão nobre do palácio setecentista que o Estado restaurou para terem gabinetes de trabalho dignos das elevadas funções, os membros do Conselho de Administração da REFER mantinham-se presos ao ponto primeiro da ordem de trabalhos: o quinto aniversário da empresa. Concordavam em passar o dia festivo fora daquelas vetustas paredes e já tinham ordenado o preparo da carruagem de luxo que lhes foi atribuída pela CP. Se encontrassem um destino à maneira, mandá-la-iam atrelar ao comboio. O presidente insurgiu-se contra a lógica excursionista do intento – a irem, fossem celebrar alguma obra feita. Passou em revista os relatórios de actividades dos últimos cinco anos. Carris, catenárias, pontes e viadutos não enchiam a vista. Perguntou se a Unidade de Gestão do Património Desactivado (que ele próprio criara tendo em vista «uma política consistente para o aproveitamento e não degradação» das velhas estações) já tinha trabalho para mostrar – mas toda a sala desaguou numa gargalhada de gozo, vá lá saber-se porquê. Picado, deu um murro na mesa de pau-preto das Índias: «arranjem-me qualquer coisa para inaugurar!». Silêncio. Nisto levanta-se, radiante, o homem da Zona Operacional de Conservação do Centro: «Temos a estação da Guarda, senhor Presidente!». Burburinho. «Na Guarda? Mas isso fica a quantas horas daqui?». Consultaram um horário da CP e concluíram que a viagem levaria mais de quatro horas, com saída de Lisboa por volta de umas impróprias oito da manhã e regresso ao fim do dia. A maioria dos administradores tentou desmarcar-se mas o presidente neutralizou as resistências a contento de todos, a começar por si próprio: «mandamos os Mercedes de véspera, inauguramos aquilo e vamos lanchar à Bairrada!». Aplausos. «Agora telefonem à presidente da Câmara, a ver se lá pode estar nesse dia. E tratem de arranjar uns músicos para animar aquilo. Uma vez falaram-me num tal Américo Rodrigues, que trata dessas coisas...». Só que, ao que consta, o tal Américo Rodrigues mandou-os dar uma grande volta. Mas não se deu pela falta, porque da palhaçada encarregou-se a própria REFER. Vieram uns cinquenta figurões inaugurar uma obra que ainda leva um mês, no mínimo, a terminar. Não convidaram ninguém – nem os próprios ferroviários. E como se o ridículo não sobejasse, fizeram convictas declarações acerca de um painel de azulejos que teriam retirado da velha estação e guardado primorosamente para «devolver à cidade» – e repetiram-no até que alguém lhes sussurrou que o edifício demolido nunca teve painel algum digno desse nome. Mas nem tudo foi em vão: ao menos, o presidente da REFER deixou claro que não haverá obras na Linha da Beira Baixa, entre a Guarda e a Covilhã. O custo previsto ascende a 35 milhões de euros e a empresa tem outras prioridades – assim o afirmou, em resposta ao pedido expresso pela presidente da Câmara. Agora que estamos esclarecidos, o que falta para que as próprias câmaras e outros parceiros se associem e peguem no caso? Será difícil encontrar viabilidade para a exploração da linha? Alguém duvida das potencialidades de um circuito turístico bem explorado, que dê uso também às velhas estações ou da rentabilidade de uma rede ferroviária suburbana, que assegure ligações contínuas no eixo Guarda-Covilhã-Fundão-Castelo Branco? A estação foi inaugurada – e um dia, não se sabe quando, há-de abrir ao público. Mas não servirá de muito, se for só para ver passar os comboios.
«O Interior»

25 de abril de 2002

25 Abr 2002: Cinquenta tachos

Parece que a contagem que já foi feita pelo PSD deu qualquer coisa como cinquenta lugares que podem ficar à mercê de nomeações partidárias. O partido do novo Governo, que tanto clamou enquanto foi oposição contra a saída de serviços do distrito da Guarda, mostra que é possível fazer gestão eficiente do pouco que sobrou. Cinquenta tachos nos chamados “serviços deslocalizados” da Administração Central são uma soma surpreendente, mesmo cobrindo os catorze concelhos. O que leva a crer que a «razia» não se ficará pelos directores, delegados ou coordenadores. Irá aos vices, passará pelos departamentos e pelas divisões e só terminará nas secções. Exceptuando aqueles serviços em que os dirigentes já foram escolhidos por concurso (e isso só aconteceu na Direcção de Viação, no Instituto da Juventude e na Direcção de Estradas), todos os restantes podem preparar-se para um Verão quente. Porque é de esperar que seja no pico de Agosto, quando meio mundo estiver de férias e outro meio não estiver para prestar atenção a essas coisas, que se vá proceder, pela calada da III série do “Diário da República”, passo a passo, tacho a tacho, a essa revolução tranquila que consiste em limpar o aparelho do Estado dos boys socialistas para lá instalar os «laranjinhas», que há seis anos se viram subitamente privados dos lugares, e os populares, que há muito mais tempo anseiam por um nico de poder. Aliás, os dirigentes do CDS-PP que falaram após o encontro distrital do passado domingo deixaram bem claro que pretender fazer uso do dote. E na comissão política do PSD apressam-se as eleições, numa ardilosa manobra de Ana Manso que deve ter em vista alguma de duas coisas: uma, menos provável, é dar-se como não candidata, pôr alguém de confiança à frente da distrital e, livre dessa incompatibilidade, ser nomeada governadora civil; a outra será passar por sufrágio interno enquanto vive em estado de graça, ser proclamada em uníssono por barões, senadores e cristãos-novos e depois decidir, sozinha e sem aborrecimentos, quem vai para os lugares públicos. É evidente que, tendo a democracia vinte e oito anos feitos esta semana e tendo a alternância no poder entrado no quarto período, o que se esperava era que houvesse a maturidade suficiente para, independentemente dos ciclos da governação, ser promovido quem é competente e ser despedido quem não o é, sem olhar a critérios de cor política, favores ou parentesco. Mas isso seria no país ideal que nos discursos deste 25 de Abril ainda ouviremos citar como uma quimera longínqua. O que se passa no país real é bem diferente: há os militantes do PSD, há os militantes do CDS-PP e há os oportunistas classificados, para o efeito, de «independentes que mudaram o sentido de voto» – que em 17 de Março deram vivas ao PSD com antes já o fizeram ao PS. Uns e outros têm expectativas. São expectativas ilegítimas de quem acha que o abuso e o arbítrio só existem quando praticados pelos outros. E, claro, dão o retrato de um Portugal vulgar, em que a lealdade ao poder na hora é condição de carreira e razão de privilégios.
«O Interior»

19 de abril de 2002

19 Abr 2002: Jardins proibidos

Hoje falo de jardins. Decerto que há assuntos mais importantes de que me ocupar e coisas mais úteis sobre que escrever. Mas também não é para dissertar sobre o bucólico dos canteiros – é para lamentar, agora que o tempo está de feição, o desmazelo que criou raízes nos espaços de lazer ao ar livre na Guarda. É visível no Parque Municipal, expoente simbólico do abandono, como no mais recente jardim da cidade, o dos Castelos Velhos, que em menos de meio ano viu o repuxo reduzido a cacos. Isto sem falar no confrangedor estado a que deixaram chegar o Jardim dos Delírios.
É verdade que nem toda a responsabilidade pode ser atribuída à Câmara. Muito do que ali se vê é o resultado da incúria colectiva, da deficiente educação cívica, da falta de respeito pelo que é de todos. Mas precisamente por isso é que vale a pena falar de jardins – para questionar uma opção estratégica que está em contagem decrescente e promete um modelo de «requalificação urbana» assente na transformação de um enorme lameiro num parque de grandes dimensões ao longo do Rio Diz.
Ninguém põe em causa a importância de um Jardim da Ciência, a utilidade de uma Quinta Pedagógica ou a vantagem do Centro de Interpretação da Natureza, tal como ninguém duvidará de que ao minuto zero o último arbusto estará plantado. O problema surge daí por diante: quem nos garante que passado meio ano tudo isto não se apresentará no estado em que se encontram hoje a fonte do Jardim dos Castelos Velhos, os bancos do Jardim dos Delírios ou os candeeiros do Parque Municipal? Sabemos quanto custa a «menina dos olhos» do Programa Polis para a Guarda – alguém fez contas a quanto custará, finda a contagem do relógio, o funcionamento e a manutenção?
Mais acima insiste-se nos «estudos técnicos» que viabilizem a construção de um túnel por debaixo do Praça Velha. Agarrados à primeira versão do plano, os mentores da ideia não parecem inclinados a reconhecer que um buraco entre a Rua 31 de Janeiro e o largo da Misericórdia seria um disparate inútil. E o pior é que fazem depender deste projecto faraónico o ordenamento à superfície e o fim da circulação automóvel. Como se não houvesse alternativas e a proibição não pudesse ter sido decretada há muito tempo. É claro que está em causa algo mais do que a simples colocação de placas de circulação interdita: é preciso mexer na paisagem, transformar as velhas ruas em atractivas zonas pedonais, criar recantos, revitalizar espaços, instalar serviços. No caso da Guarda, esta ideia podia até alargar-se a zonas fora da muralha medieval, como a Misericórdia e o Largo Frei Pedro. Não custa imaginar uma soberba praça pública desde o Jardim José de Lemos até à Sé. E nem parece que dois grandes parques de estacionamento convenientemente situados e com bons acessos – um na Avenida dos Bombeiros e outro nos terrenos do antigo quartel, por exemplo – não anulassem o único obstáculo racional à concretização de uma solução deste tipo.
Ganhava-se uma nova centralidade urbana. Devolvia-se a cidade às pessoas. E, bem vistas as coisas, seria mais barato e teria maior proveito do que o túnel e o parque juntos. Sobretudo porque não se sabe se, depois do Polis, estará alguém para dar corda ao relógio.
«O Interior»

4 de abril de 2002

4 Abr 2002: Amanhã ver-se-á

1. Amanhã toma posse o Executivo de Durão e Portas. De tudo quanto se tem especulado acerca do futuro político imediato de Ana Manso, uma hipótese que perece ganhar consistência é a da nomeação para secretária de Estado do Turismo. A entrada no Governo parece lógica, dado tratar-se de uma figura em franca ascensão no partido. O que pode parecer um paradoxo é que uma administradora hospitalar seja indigitada para tal pasta. Mas isso é possível num partido que, enquanto poder, cultivou e pelos vistos continua a cultivar – veja-se a escolha de Pedro Roseta para ministro da Cultura – a tecnocracia em detrimento do perfil. E Ana Manso é economista, tudo indicando que o Turismo permaneça sob a tutela da Economia. Pareceria mais lógica a designação da dirigente distrital do PSD para uma secretaria de Estado na área da Saúde, que mais não fosse pelo facto de o novo ministro cultivar, ao que consta, boa relação com a deputada eleita – pertencem ambos ao lobby da privatização dos serviços hospitalares. Ou para governadora civil, assumindo-se dona e senhora dos destinos do distrito. Mas há aqui um factor em jogo: Ana Manso não desistirá de ser presidente da Câmara da Guarda, de tão próxima que esteve de o ser em Dezembro passado. Só que ficou exposta de tal modo à promessa da construção de um novo hospital, em duas campanhas consecutivas, que qualquer dos lugares se tornaria num tormento – tendo em especial Maria do Carmo Borges boas razões para lhe cobrar a factura. Enquanto provável secretária de Estado do Turismo, ela sempre poderá demarcar-se do pior sem deixar de colher os louros do melhor, de tudo quanto for decidido sobre o assunto do hospital. Mais fácil será, porventura, desviar para a Guarda as migalhas que permitam, daqui a quatro anos, dar a aparência de obra realizada numa área que constitui a genuína vocação do concelho mas onde está tudo rigorosamente por fazer. E, com essa coroa de promotora turística, alcandorar-se a reinar na cidade. Não será mal visto. E, de facto, uma política de turismo consistente e consequente terá mais utilidade no nosso futuro colectivo do que um hospital novo. Todos sabemos isso, a começar seguramente por ela.

2. Num longínquo dia de Outubro de 1995, acordámos para um país onde uma série de gente já não tinha mando. Para além de qualquer crença no poder que punha fim a dez anos de cavaquismo, o que ficou foi uma sensação de alívio – o poder não é eterno, a insolência não triunfa sempre e a chantagem não resulta para toda a vida. O que não se esperava era que o sistema clientelar e imoral a que chamavam «Estado laranja» desse lugar, tão velozmente, ao triste espectáculo dos boys do PS a exigirem os jobs a que se achavam no direito. Colocado no papel de «padrinho» de um arraial de candidatos a protegidos, Guterres ainda tentou pôr ordem nas tropas. Mas as cúpulas nacionais e distritais tomaram o caso por conta e trataram de fazer a varredela, sem que outros critérios que não os da cor política ponderassem nas substituições. Agora põe-se a mesma questão: se é comum concordar em que os governadores civis e os directores-gerais devem ter a confiança política do Governo, sendo natural que mudem quando este muda, e se é comum aceitar que o mesmo se passe em relação a certos dirigentes e a algumas administrações que primaram pela ostensiva incompetência (já que o próprio partido que os nomeou não teve o decoro de reconhecer o erro), já ninguém de boa-fé achará essencial à política de saúde que se mudem os directores dos centros de saúde ou determinante para a política de formação que se substitua o director do Centro de Emprego por alguém escolhido na reunião do partido – desde que profissionalmente tenham dado provas de saberem o que fazem. Para mais, sendo Durão um confesso adepto dos «valores seguros». Nas próximas semanas veremos como se apresenta o PSD, depois destes seis anos de «cura de oposição»

«O Interior»

28 de março de 2002

28 Mar 2002: Não nos lixem, está bem?

1. Durante décadas, a Guarda fez lembrar uma cidade do velho Oeste americano. Tudo acontecia essencialmente ao longo de uma rua, entre a Praça Velha e o Largo Frei Pedro. Em cada extremo viviam, como nos filmes de cowboys, as figuras mais importantes. E ambos comandavam dali as respectivas legiões. Junto à Sé funcionava a sede do poder local, personificado desde os alvores do conceito por Abílio Curto, eleito pelo PS, que mandava na cidade e no concelho. Por cima da Polícia encontrava-se o representante do poder central, nomeado pelo PSD, que mandava no país. Aparentemente, alimentavam um ódio recíproco, visceral mesmo, que se tornou declarado quando Marília Raimundo ascendeu a governadora civil. A ambição dos social-democratas era conquistar este bastião socialista. Logo em 1985, meses depois da chegada de Cavaco ao poder, o PSD apostou em força na primeira investida de Carlos Andrade (em coligação com o CDS) e em todas as localidades do concelho distribuiu panfletos com a mesma mensagem: «com o PSD no Governo, na Câmara e na Junta de Freguesia» vamos fazer, construir, desenvolver e coisa tal. Mas o PS manteve-se na Câmara até hoje e o PSD continuou no Governo mais duas décadas. Foram dez anos de obstinações, birras, teimosias, caprichos, golpes e contra-golpes. Quando partiram, deixaram-nos uma cidade desclassificada e com fama de povoado do Far West. E um investimento público reduzido ao mínimo: o Instituto Politécnico, o IP5 e pouco mais. Anos depois vemo-los, vindos dos despojos da tranqueira de outrora, manifestarem recíproca confiança e lançarem-se juntos num desígnio que é a criação de uma escola profissional. Ou seja: eles acabaram por se entender; quem se lixou fomos nós.
2. Veio o PS e com ele a esperança de um tempo novo, já que Governo e Câmara da Guarda eram do mesmo partido e esta tinha à frente uma mulher a quem se atribuíam virtudes de diálogo, ponderação e sensatez – precisamente o que se dizia que Abílio Curto não tinha. Seis anos passados e damos connosco quase na mesma: ganhámos vias de comunicação e um ante plano de Plataforma Logística. É verdade que o investimento foi incomparavelmente maior do que nas décadas anteriores. Mas nada de absolutamente estratégico veio para ficar. Acabámos utentes dos hospitais e das escolas superiores que outras cidades construíram. E perdemos influência, autoridade e posição. Pior: com todos os poderes a afinarem pelo mesmo diapasão, é espantoso que o distrito não tenha conseguido, sequer, formar um lobby, encontrar um líder ou designar uma voz que fizesse valer os interesses. Aos anos perdidos seguiram-se os anos adiados – e estes caracterizaram-se pelo modelo inconsequente da «política do possível», em que muitas ilusões definharam. O episódio do «tabu» de Maria do Carmo Borges sobre o novo hospital, no Verão passado, foi o pior exemplo disso. E quem se lixou, uma vez mais, fomos nós.
3. E eis, de novo, o tempo da coabitação. Com uma mulher a mandar na Câmara e outra a mandar no partido que mandará (ou co-mandará) no país. O que se passará a seguir é uma incógnita. O novo Governo poderá devolver à Guarda tudo aquilo que Ana Manso reclamou nas campanhas eleitorais, fazendo valer os louros e retirando protagonismo à adversária. Ou, pelo contrário, poderá fomentar a política da «terra queimada», reduzindo um dos últimos bastiões socialistas a menos que nada, para se candidatar depois a «salvá-lo» – o remake de um filme já visto. Claro que há sempre a terceira via, aquela em que todas as partes actuam com sentido de Estado e na convergência pelo interesse público. Mas basta ter presentes os incidentes das últimas reuniões da Câmara para concluir que tal cenário não passa de outra doce ilusão. Podem ser questões menores ou só formais – mas são suficientes para dar a pior ideia dos tempos que se avizinham. Há coisas que não se dizem a duas Senhoras. Mas esta terão que a ler: não nos lixem, está bem?

22 de março de 2002

22 Mar 2002: E agora?

1. Ana Manso foi, indiscutivelmente, a vencedora das eleições no distrito da Guarda – e agora? De tanto exaltar, a propósito de tudo e de nada, a «arrogância», a «prepotência», o «abuso de poder» e o «desgoverno» socialista, fica-se na expectativa de um novo ciclo, completamente distinto daquele. Dando de barato que o clientelismo é uma fatalidade da nossa democracia, comum ao PS e ao PSD, resta saber se ao «exército de boys» vai seguir-se um novo «Estado laranja» simplesmente porque é regra – ou se, assimiladas as lições do passado, veremos inaugurada uma nova cultura de poder, em que as nomeações levem em conta o perfil e a competência, em vez do seguidismo e dos laços de família. Mas há outro aspecto em que a nova Senhora estará à prova. Depois de ter reiterado, na noite eleitoral, a promessa de um hospital novo, estaremos para ver se Ana Manso responde à letra à oferta do terreno por Maria do Carmo Borges – ou se eventuais «avaliações posteriores do estado catastrófico das contas públicas» e outras desculpas deitarão tudo a perder.

2. O mais certo é que Pina Moura, independentemente dos «contratos de legislatura» e de outras boas intenções, não deixe passar muitos meses até ser administrador de um grupo financeiro. Fernando Cabral está eleito. E Carlos Santos, neste cenário, poderá retomar a contagem do tempo, visto que lhe faltam só dois anos para a reforma por relevantes serviços à Nação. Um resolveu o problema e o outro está em vias de o resolver, poupando-se ambos ao sobressalto do regresso aos antigos empregos. Que outros desígnios poderá ter a próxima representação do distrito na bancada da oposição? Talvez ainda ninguém no PS se tenha dado ao trabalho de reflectir sobre isso, mas o «Princípio de Peter» também ajudou à derrocada.

3. Pode ser que os factos venham a provar o contrário, mas a ideia que paira é que o novo Governo não durará muito tempo. Com maioria casual e a precisar de braço direito, o que o PSD alcançou foi uma vitória desguarnecida de proveito. Manuela Ferreira Leite resumiu, aliás, a descrença que se instalou nas hostes: «Não se pode dizer que o PSD tenha perdido estas eleições». É que o problema está, precisamente, na forma como as ganhou. Quando Durão Barroso chegou à liderança, em 1999, anunciou que havia de ser primeiro-ministro. «Só não sei quando», acautelou, cheio de razões para tanta prudência. O estado de espírito da maioria das pessoas comuns, no último ano do primeiro mandato de Guterres, era o de que o Governo estava a ser melhor do que o último, ainda fresco na memória, Governo de Cavaco Silva. Tinha feito pouco, era certo, mas fê-lo melhor e mais pacificamente, sem a sobranceria e a insolência do final do cavaquismo. Tinham sido quatro anos de governação tranquila, com um Presidente cooperante, meios financeiros em abundância e paz social. Tudo isto – aliado, na véspera das eleições, à manipulação indecorosa dos sentimentos em relação a Timor e à exploração da morte de Amália – deu o resultado que deu, com o PS a um deputado da maioria absoluta. Como se derrota um Governo assim? Com paciência, selectividade e alguma imaginação. Durão, ex-maoista, lembrou-se do provérbio chinês: «senta-te na margem do rio e espera o tempo que for preciso: um dia o cadáver do teu inimigo passará por ti a flutuar». E assim foi. Sem luta e sem história, o PSD recebeu o poder de bandeja, tendo-se limitado a assistir sentado aos desaires, à má governação e ao desnorte de uma tribo em fim de ciclo – e a esvair-se, abandonada, no pântano que formou.

4. Tudo indica que vamos ter uma AD pós-eleitoral no Governo. E que Paulo Portas irá a ministro. Já se conjectura, inclusivamente, que a pasta da Administração Interna lhe estará destinada. Convém ter presente que este é o ministério que tutela, entre outras coisas, a polícia e as fronteiras. E também o Euro 2004, se o Ministério do Desporto (criado à pressa, sobre os destroços da saída de Fernando Gomes), for extinto. Ora, convém lembrar que jamais algum ministro (nos governos do PS como nos do PSD) aguentou muito tempo no lugar. A ser verdade que Portas será indigitado ministro das polícias, isto revela uma opção ao mesmo tempo inteligente e perigosa, por parte do PSD. Inteligente porque é uma tentativa de meter na linha o irrequieto líder do PP, pondo-o à prova numa área complexa, à qual ele dedicou boa parte do discurso populista. Perigosa por isso mesmo: porque uma coisa é dizer aquilo que o povo gosta de ouvir e outra coisa é querer assumir responsabilidades de modo consequente. Ao adivinhar o «presente envenenado» que está dentro do embrulho, Portas poderá, simplesmente, recusá-lo. Isso fragilizará a sua posição. Mas colocá-lo-á num ressaibo de exasperação, capaz de o fazer usar o braço direito naquilo que é mais característico nele: espetar facas nas costas.
«O Interior»

15 de março de 2002

15 Mar 2002: Os donos da bola

1. As eleições de Domingo sugerem reflexões que há poucas semanas eram difíceis de explorar. De tanto ouvirmos falar em futebol e em estádios, ficamos com a sensação de estar diante de um derby de segunda categoria. Onde se joga com desapego, por mera exigência de calendário. Mas eis que, subitamente, a meio da segunda parte, a equipa favorita começa a dar parte de fraca, por falta de jeito. E a adversária, embora jogue tão mal ou pior, dá conta e atira-se de polegar hirto e garra afiada, capitalizando a debilidade da outra. O cómodo 2-0 alcançado nos primeiros quinze minutos chega ao intervalo contido em 2-1. E agora, próximo do fim da partida, eis que se alcança o empate. O que quer dizer que os últimos minutos são decisivos. Porque, dê para onde der, uma das equipas tem obrigatoriamente que ganhar, nem que haja prolongamento. Afinal, o jogo não é a feijões e o favorito pode já não ascender à divisão seguinte, como previa e pelo qual já tinha começado a deitar foguetes. Digamos que o relato é este. E o comentário: o jogo é pobre, a táctica é difusa, ninguém leva a sério os capitães, os jogadores correm desgarrados e o árbitro, que ferve com o acessório, faz vista grossa ao essencial. Eis um daqueles jogos em que ninguém trocaria o remanso do sofá, diante da TV, pelo melhor lugar na bancada. Admirem-se, depois, que o estádio fique às moscas.

2. A Assembleia Municipal da Guarda prestou um péssimo serviço à sua própria razão de existir. Imagine-se que alguém convida para um jantar ou para uma festa e, quando já estão todos, é o próprio anfitrião quem falta. Foi isto, na essência, que sucedeu no debate sobre «O Distrito da Guarda: capacidades endógenas e sua avaliação no âmbito regional e nacional». O tema não apelava por aí além, de facto. Mas quem se mete nelas deve assumir todas as consequências. Os cabeças de lista dos partidos concorrentes às eleições mereciam, pelo menos, essa consideração. Mas não só os deputados não apareceram – nem sequer os que votaram a favor da iniciativa – nem aquilo passou de uma interminável enfiada de monólogos, revelando a displicente falta de preparação. Um frete de três horas e muito, que nada de relevante acrescentou. E com uma assistência praticamente reduzida às claques. Resta saber se a Assembleia retirou daqui alguma lição – e se irá, finalmente, procurar o seu próprio recurso endógeno.
«O Interior»

28 de fevereiro de 2002

28 Fev 2002: Cansados do passeio

Nada há de mais confrangedor do que um partido em fim de ciclo. O PS vive nesse tempo. E tanto dá que as eleições não sejam obrigatoriamente favas contadas para o inimigo como que a desvantagem apontada pelas sondagens possa ainda sugerir uma recuperação em tempo de campanha. As hostes socialistas comportam-se já como um grupo de excursionistas às compras no último dia do passeio. Muitos já nem saem, sequer, do autocarro e aguardam ansiosos que a viagem termine, denotando cansaço e mau humor. É assim que o PS está. E as dúvidas, se as houvesse, dissiparam-se precisamente quando o partido tocou a reunir para «renovar a confiança na nova maioria». Este era o lema do encontro distrital, no passado Domingo, na Guarda. Mas redundou numa completa falta de fé. Pina Moura esforçou-se por explicar os oito trabalhos que tem para o distrito. E, aliás, justo que se diga que o antigo ministro das Finanças tem cumprido a tarefa de cabeça de lista com espírito de missão e singular preparação. Mas fê-lo para uma audiência adormecida e sem alma. E onde as ausências deram mais nas vistas do que as presenças. E onde o presidente da federação distrital, Fernando Cabral, teve tiradas esplêndidas, como aquela de perguntar se o PSD vai submergir as gravuras do Côa e retomar a construção da barragem. Além da oportuníssima preocupação, está aferido o grau de confiança que o até agora governador civil manifesta na renovação da nova maioria.
«O Interior»

15 de fevereiro de 2002

15 Fev 2002: Piada de mau gosto

1. Algures na planície, o ganhão perguntou ao compadre: «quantos pães comeu vossemecê hoje em jejum?». O outro disse-lhe três e o homem mangou que se fartou: «Vossemecê só comeu um, porque quando passou ao segundo já não estava em jejum!». O lorpa, lixado, foi adiante e procurou vingar-se noutro incauto. «Ouve lá, Joaquim: quantos pães comeste em jejum?». «Comi quatro». «Então já não dá. Se tivesses comido três tinha uma anedota para te contar».
José Manuel Trigoso, secretário-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa, ostenta o mesmo senso sobre os problemas do IP5, como o fez há dias na Guarda, algo como isto: a sinistralidade naquela via é uma ideia formada pela «excessiva mediatização», visto que o número de acidentes, mesmo com vítimas mortais, não chega a ser tão elevado como o de outras estradas do país. Se o assunto não fosse tão sério, pensaríamos que Trigoso estava a embocar. Tal como na chalaça dos pães em jejum, o raciocínio parece assentar numa básica proposição: se morre gente todos os dias nas estradas, porque é que ainda fazemos notícia disso? Como se houvesse padrões aceitáveis de chapa batida, sangue e morte. Como se o princípio do mal menor pudesse aplicar-se à tragédia rodoviária. Como se à «excessiva mediatização» não devêssemos as intervenções pontuais no traçado e na sinalização, que terão evitado engrossar a nefasta contabilidade.
A irrelevância da Prevenção Rodoviária Portuguesa tem sido muitas vezes posta em evidência. Ainda esta semana um ex-comandante da Brigada de Trânsito declarou que toda a política de prevenção e segurança nas estradas não passa de um grandessíssimo bluff. Mas o princípio do inimputável não pode, por si só, justificar as coisas que José Manuel Trigoso veio dizer.
Tivesse a Prevenção Rodoviária a utilidade que era suposto ter e este secretário-geral encontraria, à chegada a Lisboa, as malas à porta – ao menos por respeito à memória dos tais relativamente poucos que perderam a vida no IP5. Mas também é verdade que isso não iria resolver os problemas na estrada. Mais vale fingir que tudo não passou de uma piada de mau gosto.
2. Durante décadas, a Santa Casa da Misericórdia da Guarda foi senhoria do Estado, na metade do hospital que compreendia as urgências e algumas valências primárias. O mesmo Estado, que chegou a pagar rendas na ordem dos cem mil contos anuais, deixou obras feitas e equipamentos em condições de uso. Agora, a Santa Casa confirma o que se esperava: vai abrir ali um hospital particular. Há mercado para uma unidade deste tipo? É claro que há. Nem pomos em dúvida que a Misericórdia será mais célere a estabelecer acordos de prestação de serviços com a generalidade dos sistemas de assistência do que o hospital Sousa Martins a encontrar a luz para o seu próprio caminho. Depois, já existe uma tradição de harmoniosa coexistência entre o público e o privado, que redunda na razoável oferta de centros de diagnóstico e terapêutica, aos quais as unidades públicas, incessantemente parcas em meios, solicitam exames e remetem tratamentos. É verdade que há casos, e não é um nem são dois, em que os próprios dirigentes dos serviços hospitalares participam nessas prósperas estruturas privadas – mas tudo não passará de coincidência. E se o novo hospital da Santa Casa vier a prestar serviços de charneira nas áreas onde os públicos não desemperram, tanto melhor. Deus queira é que nenhuma duvidosa relação de causa-efeito ainda venha a ser estabelecida. Até é pecado pensar nisso.
«O Interior»