15 de fevereiro de 2002

15 Fev 2002: Piada de mau gosto

1. Algures na planície, o ganhão perguntou ao compadre: «quantos pães comeu vossemecê hoje em jejum?». O outro disse-lhe três e o homem mangou que se fartou: «Vossemecê só comeu um, porque quando passou ao segundo já não estava em jejum!». O lorpa, lixado, foi adiante e procurou vingar-se noutro incauto. «Ouve lá, Joaquim: quantos pães comeste em jejum?». «Comi quatro». «Então já não dá. Se tivesses comido três tinha uma anedota para te contar».
José Manuel Trigoso, secretário-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa, ostenta o mesmo senso sobre os problemas do IP5, como o fez há dias na Guarda, algo como isto: a sinistralidade naquela via é uma ideia formada pela «excessiva mediatização», visto que o número de acidentes, mesmo com vítimas mortais, não chega a ser tão elevado como o de outras estradas do país. Se o assunto não fosse tão sério, pensaríamos que Trigoso estava a embocar. Tal como na chalaça dos pães em jejum, o raciocínio parece assentar numa básica proposição: se morre gente todos os dias nas estradas, porque é que ainda fazemos notícia disso? Como se houvesse padrões aceitáveis de chapa batida, sangue e morte. Como se o princípio do mal menor pudesse aplicar-se à tragédia rodoviária. Como se à «excessiva mediatização» não devêssemos as intervenções pontuais no traçado e na sinalização, que terão evitado engrossar a nefasta contabilidade.
A irrelevância da Prevenção Rodoviária Portuguesa tem sido muitas vezes posta em evidência. Ainda esta semana um ex-comandante da Brigada de Trânsito declarou que toda a política de prevenção e segurança nas estradas não passa de um grandessíssimo bluff. Mas o princípio do inimputável não pode, por si só, justificar as coisas que José Manuel Trigoso veio dizer.
Tivesse a Prevenção Rodoviária a utilidade que era suposto ter e este secretário-geral encontraria, à chegada a Lisboa, as malas à porta – ao menos por respeito à memória dos tais relativamente poucos que perderam a vida no IP5. Mas também é verdade que isso não iria resolver os problemas na estrada. Mais vale fingir que tudo não passou de uma piada de mau gosto.
2. Durante décadas, a Santa Casa da Misericórdia da Guarda foi senhoria do Estado, na metade do hospital que compreendia as urgências e algumas valências primárias. O mesmo Estado, que chegou a pagar rendas na ordem dos cem mil contos anuais, deixou obras feitas e equipamentos em condições de uso. Agora, a Santa Casa confirma o que se esperava: vai abrir ali um hospital particular. Há mercado para uma unidade deste tipo? É claro que há. Nem pomos em dúvida que a Misericórdia será mais célere a estabelecer acordos de prestação de serviços com a generalidade dos sistemas de assistência do que o hospital Sousa Martins a encontrar a luz para o seu próprio caminho. Depois, já existe uma tradição de harmoniosa coexistência entre o público e o privado, que redunda na razoável oferta de centros de diagnóstico e terapêutica, aos quais as unidades públicas, incessantemente parcas em meios, solicitam exames e remetem tratamentos. É verdade que há casos, e não é um nem são dois, em que os próprios dirigentes dos serviços hospitalares participam nessas prósperas estruturas privadas – mas tudo não passará de coincidência. E se o novo hospital da Santa Casa vier a prestar serviços de charneira nas áreas onde os públicos não desemperram, tanto melhor. Deus queira é que nenhuma duvidosa relação de causa-efeito ainda venha a ser estabelecida. Até é pecado pensar nisso.
«O Interior»

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