28 de março de 2002

28 Mar 2002: Não nos lixem, está bem?

1. Durante décadas, a Guarda fez lembrar uma cidade do velho Oeste americano. Tudo acontecia essencialmente ao longo de uma rua, entre a Praça Velha e o Largo Frei Pedro. Em cada extremo viviam, como nos filmes de cowboys, as figuras mais importantes. E ambos comandavam dali as respectivas legiões. Junto à Sé funcionava a sede do poder local, personificado desde os alvores do conceito por Abílio Curto, eleito pelo PS, que mandava na cidade e no concelho. Por cima da Polícia encontrava-se o representante do poder central, nomeado pelo PSD, que mandava no país. Aparentemente, alimentavam um ódio recíproco, visceral mesmo, que se tornou declarado quando Marília Raimundo ascendeu a governadora civil. A ambição dos social-democratas era conquistar este bastião socialista. Logo em 1985, meses depois da chegada de Cavaco ao poder, o PSD apostou em força na primeira investida de Carlos Andrade (em coligação com o CDS) e em todas as localidades do concelho distribuiu panfletos com a mesma mensagem: «com o PSD no Governo, na Câmara e na Junta de Freguesia» vamos fazer, construir, desenvolver e coisa tal. Mas o PS manteve-se na Câmara até hoje e o PSD continuou no Governo mais duas décadas. Foram dez anos de obstinações, birras, teimosias, caprichos, golpes e contra-golpes. Quando partiram, deixaram-nos uma cidade desclassificada e com fama de povoado do Far West. E um investimento público reduzido ao mínimo: o Instituto Politécnico, o IP5 e pouco mais. Anos depois vemo-los, vindos dos despojos da tranqueira de outrora, manifestarem recíproca confiança e lançarem-se juntos num desígnio que é a criação de uma escola profissional. Ou seja: eles acabaram por se entender; quem se lixou fomos nós.
2. Veio o PS e com ele a esperança de um tempo novo, já que Governo e Câmara da Guarda eram do mesmo partido e esta tinha à frente uma mulher a quem se atribuíam virtudes de diálogo, ponderação e sensatez – precisamente o que se dizia que Abílio Curto não tinha. Seis anos passados e damos connosco quase na mesma: ganhámos vias de comunicação e um ante plano de Plataforma Logística. É verdade que o investimento foi incomparavelmente maior do que nas décadas anteriores. Mas nada de absolutamente estratégico veio para ficar. Acabámos utentes dos hospitais e das escolas superiores que outras cidades construíram. E perdemos influência, autoridade e posição. Pior: com todos os poderes a afinarem pelo mesmo diapasão, é espantoso que o distrito não tenha conseguido, sequer, formar um lobby, encontrar um líder ou designar uma voz que fizesse valer os interesses. Aos anos perdidos seguiram-se os anos adiados – e estes caracterizaram-se pelo modelo inconsequente da «política do possível», em que muitas ilusões definharam. O episódio do «tabu» de Maria do Carmo Borges sobre o novo hospital, no Verão passado, foi o pior exemplo disso. E quem se lixou, uma vez mais, fomos nós.
3. E eis, de novo, o tempo da coabitação. Com uma mulher a mandar na Câmara e outra a mandar no partido que mandará (ou co-mandará) no país. O que se passará a seguir é uma incógnita. O novo Governo poderá devolver à Guarda tudo aquilo que Ana Manso reclamou nas campanhas eleitorais, fazendo valer os louros e retirando protagonismo à adversária. Ou, pelo contrário, poderá fomentar a política da «terra queimada», reduzindo um dos últimos bastiões socialistas a menos que nada, para se candidatar depois a «salvá-lo» – o remake de um filme já visto. Claro que há sempre a terceira via, aquela em que todas as partes actuam com sentido de Estado e na convergência pelo interesse público. Mas basta ter presentes os incidentes das últimas reuniões da Câmara para concluir que tal cenário não passa de outra doce ilusão. Podem ser questões menores ou só formais – mas são suficientes para dar a pior ideia dos tempos que se avizinham. Há coisas que não se dizem a duas Senhoras. Mas esta terão que a ler: não nos lixem, está bem?

22 de março de 2002

22 Mar 2002: E agora?

1. Ana Manso foi, indiscutivelmente, a vencedora das eleições no distrito da Guarda – e agora? De tanto exaltar, a propósito de tudo e de nada, a «arrogância», a «prepotência», o «abuso de poder» e o «desgoverno» socialista, fica-se na expectativa de um novo ciclo, completamente distinto daquele. Dando de barato que o clientelismo é uma fatalidade da nossa democracia, comum ao PS e ao PSD, resta saber se ao «exército de boys» vai seguir-se um novo «Estado laranja» simplesmente porque é regra – ou se, assimiladas as lições do passado, veremos inaugurada uma nova cultura de poder, em que as nomeações levem em conta o perfil e a competência, em vez do seguidismo e dos laços de família. Mas há outro aspecto em que a nova Senhora estará à prova. Depois de ter reiterado, na noite eleitoral, a promessa de um hospital novo, estaremos para ver se Ana Manso responde à letra à oferta do terreno por Maria do Carmo Borges – ou se eventuais «avaliações posteriores do estado catastrófico das contas públicas» e outras desculpas deitarão tudo a perder.

2. O mais certo é que Pina Moura, independentemente dos «contratos de legislatura» e de outras boas intenções, não deixe passar muitos meses até ser administrador de um grupo financeiro. Fernando Cabral está eleito. E Carlos Santos, neste cenário, poderá retomar a contagem do tempo, visto que lhe faltam só dois anos para a reforma por relevantes serviços à Nação. Um resolveu o problema e o outro está em vias de o resolver, poupando-se ambos ao sobressalto do regresso aos antigos empregos. Que outros desígnios poderá ter a próxima representação do distrito na bancada da oposição? Talvez ainda ninguém no PS se tenha dado ao trabalho de reflectir sobre isso, mas o «Princípio de Peter» também ajudou à derrocada.

3. Pode ser que os factos venham a provar o contrário, mas a ideia que paira é que o novo Governo não durará muito tempo. Com maioria casual e a precisar de braço direito, o que o PSD alcançou foi uma vitória desguarnecida de proveito. Manuela Ferreira Leite resumiu, aliás, a descrença que se instalou nas hostes: «Não se pode dizer que o PSD tenha perdido estas eleições». É que o problema está, precisamente, na forma como as ganhou. Quando Durão Barroso chegou à liderança, em 1999, anunciou que havia de ser primeiro-ministro. «Só não sei quando», acautelou, cheio de razões para tanta prudência. O estado de espírito da maioria das pessoas comuns, no último ano do primeiro mandato de Guterres, era o de que o Governo estava a ser melhor do que o último, ainda fresco na memória, Governo de Cavaco Silva. Tinha feito pouco, era certo, mas fê-lo melhor e mais pacificamente, sem a sobranceria e a insolência do final do cavaquismo. Tinham sido quatro anos de governação tranquila, com um Presidente cooperante, meios financeiros em abundância e paz social. Tudo isto – aliado, na véspera das eleições, à manipulação indecorosa dos sentimentos em relação a Timor e à exploração da morte de Amália – deu o resultado que deu, com o PS a um deputado da maioria absoluta. Como se derrota um Governo assim? Com paciência, selectividade e alguma imaginação. Durão, ex-maoista, lembrou-se do provérbio chinês: «senta-te na margem do rio e espera o tempo que for preciso: um dia o cadáver do teu inimigo passará por ti a flutuar». E assim foi. Sem luta e sem história, o PSD recebeu o poder de bandeja, tendo-se limitado a assistir sentado aos desaires, à má governação e ao desnorte de uma tribo em fim de ciclo – e a esvair-se, abandonada, no pântano que formou.

4. Tudo indica que vamos ter uma AD pós-eleitoral no Governo. E que Paulo Portas irá a ministro. Já se conjectura, inclusivamente, que a pasta da Administração Interna lhe estará destinada. Convém ter presente que este é o ministério que tutela, entre outras coisas, a polícia e as fronteiras. E também o Euro 2004, se o Ministério do Desporto (criado à pressa, sobre os destroços da saída de Fernando Gomes), for extinto. Ora, convém lembrar que jamais algum ministro (nos governos do PS como nos do PSD) aguentou muito tempo no lugar. A ser verdade que Portas será indigitado ministro das polícias, isto revela uma opção ao mesmo tempo inteligente e perigosa, por parte do PSD. Inteligente porque é uma tentativa de meter na linha o irrequieto líder do PP, pondo-o à prova numa área complexa, à qual ele dedicou boa parte do discurso populista. Perigosa por isso mesmo: porque uma coisa é dizer aquilo que o povo gosta de ouvir e outra coisa é querer assumir responsabilidades de modo consequente. Ao adivinhar o «presente envenenado» que está dentro do embrulho, Portas poderá, simplesmente, recusá-lo. Isso fragilizará a sua posição. Mas colocá-lo-á num ressaibo de exasperação, capaz de o fazer usar o braço direito naquilo que é mais característico nele: espetar facas nas costas.
«O Interior»

15 de março de 2002

15 Mar 2002: Os donos da bola

1. As eleições de Domingo sugerem reflexões que há poucas semanas eram difíceis de explorar. De tanto ouvirmos falar em futebol e em estádios, ficamos com a sensação de estar diante de um derby de segunda categoria. Onde se joga com desapego, por mera exigência de calendário. Mas eis que, subitamente, a meio da segunda parte, a equipa favorita começa a dar parte de fraca, por falta de jeito. E a adversária, embora jogue tão mal ou pior, dá conta e atira-se de polegar hirto e garra afiada, capitalizando a debilidade da outra. O cómodo 2-0 alcançado nos primeiros quinze minutos chega ao intervalo contido em 2-1. E agora, próximo do fim da partida, eis que se alcança o empate. O que quer dizer que os últimos minutos são decisivos. Porque, dê para onde der, uma das equipas tem obrigatoriamente que ganhar, nem que haja prolongamento. Afinal, o jogo não é a feijões e o favorito pode já não ascender à divisão seguinte, como previa e pelo qual já tinha começado a deitar foguetes. Digamos que o relato é este. E o comentário: o jogo é pobre, a táctica é difusa, ninguém leva a sério os capitães, os jogadores correm desgarrados e o árbitro, que ferve com o acessório, faz vista grossa ao essencial. Eis um daqueles jogos em que ninguém trocaria o remanso do sofá, diante da TV, pelo melhor lugar na bancada. Admirem-se, depois, que o estádio fique às moscas.

2. A Assembleia Municipal da Guarda prestou um péssimo serviço à sua própria razão de existir. Imagine-se que alguém convida para um jantar ou para uma festa e, quando já estão todos, é o próprio anfitrião quem falta. Foi isto, na essência, que sucedeu no debate sobre «O Distrito da Guarda: capacidades endógenas e sua avaliação no âmbito regional e nacional». O tema não apelava por aí além, de facto. Mas quem se mete nelas deve assumir todas as consequências. Os cabeças de lista dos partidos concorrentes às eleições mereciam, pelo menos, essa consideração. Mas não só os deputados não apareceram – nem sequer os que votaram a favor da iniciativa – nem aquilo passou de uma interminável enfiada de monólogos, revelando a displicente falta de preparação. Um frete de três horas e muito, que nada de relevante acrescentou. E com uma assistência praticamente reduzida às claques. Resta saber se a Assembleia retirou daqui alguma lição – e se irá, finalmente, procurar o seu próprio recurso endógeno.
«O Interior»