25 de abril de 2002

25 Abr 2002: Cinquenta tachos

Parece que a contagem que já foi feita pelo PSD deu qualquer coisa como cinquenta lugares que podem ficar à mercê de nomeações partidárias. O partido do novo Governo, que tanto clamou enquanto foi oposição contra a saída de serviços do distrito da Guarda, mostra que é possível fazer gestão eficiente do pouco que sobrou. Cinquenta tachos nos chamados “serviços deslocalizados” da Administração Central são uma soma surpreendente, mesmo cobrindo os catorze concelhos. O que leva a crer que a «razia» não se ficará pelos directores, delegados ou coordenadores. Irá aos vices, passará pelos departamentos e pelas divisões e só terminará nas secções. Exceptuando aqueles serviços em que os dirigentes já foram escolhidos por concurso (e isso só aconteceu na Direcção de Viação, no Instituto da Juventude e na Direcção de Estradas), todos os restantes podem preparar-se para um Verão quente. Porque é de esperar que seja no pico de Agosto, quando meio mundo estiver de férias e outro meio não estiver para prestar atenção a essas coisas, que se vá proceder, pela calada da III série do “Diário da República”, passo a passo, tacho a tacho, a essa revolução tranquila que consiste em limpar o aparelho do Estado dos boys socialistas para lá instalar os «laranjinhas», que há seis anos se viram subitamente privados dos lugares, e os populares, que há muito mais tempo anseiam por um nico de poder. Aliás, os dirigentes do CDS-PP que falaram após o encontro distrital do passado domingo deixaram bem claro que pretender fazer uso do dote. E na comissão política do PSD apressam-se as eleições, numa ardilosa manobra de Ana Manso que deve ter em vista alguma de duas coisas: uma, menos provável, é dar-se como não candidata, pôr alguém de confiança à frente da distrital e, livre dessa incompatibilidade, ser nomeada governadora civil; a outra será passar por sufrágio interno enquanto vive em estado de graça, ser proclamada em uníssono por barões, senadores e cristãos-novos e depois decidir, sozinha e sem aborrecimentos, quem vai para os lugares públicos. É evidente que, tendo a democracia vinte e oito anos feitos esta semana e tendo a alternância no poder entrado no quarto período, o que se esperava era que houvesse a maturidade suficiente para, independentemente dos ciclos da governação, ser promovido quem é competente e ser despedido quem não o é, sem olhar a critérios de cor política, favores ou parentesco. Mas isso seria no país ideal que nos discursos deste 25 de Abril ainda ouviremos citar como uma quimera longínqua. O que se passa no país real é bem diferente: há os militantes do PSD, há os militantes do CDS-PP e há os oportunistas classificados, para o efeito, de «independentes que mudaram o sentido de voto» – que em 17 de Março deram vivas ao PSD com antes já o fizeram ao PS. Uns e outros têm expectativas. São expectativas ilegítimas de quem acha que o abuso e o arbítrio só existem quando praticados pelos outros. E, claro, dão o retrato de um Portugal vulgar, em que a lealdade ao poder na hora é condição de carreira e razão de privilégios.
«O Interior»

19 de abril de 2002

19 Abr 2002: Jardins proibidos

Hoje falo de jardins. Decerto que há assuntos mais importantes de que me ocupar e coisas mais úteis sobre que escrever. Mas também não é para dissertar sobre o bucólico dos canteiros – é para lamentar, agora que o tempo está de feição, o desmazelo que criou raízes nos espaços de lazer ao ar livre na Guarda. É visível no Parque Municipal, expoente simbólico do abandono, como no mais recente jardim da cidade, o dos Castelos Velhos, que em menos de meio ano viu o repuxo reduzido a cacos. Isto sem falar no confrangedor estado a que deixaram chegar o Jardim dos Delírios.
É verdade que nem toda a responsabilidade pode ser atribuída à Câmara. Muito do que ali se vê é o resultado da incúria colectiva, da deficiente educação cívica, da falta de respeito pelo que é de todos. Mas precisamente por isso é que vale a pena falar de jardins – para questionar uma opção estratégica que está em contagem decrescente e promete um modelo de «requalificação urbana» assente na transformação de um enorme lameiro num parque de grandes dimensões ao longo do Rio Diz.
Ninguém põe em causa a importância de um Jardim da Ciência, a utilidade de uma Quinta Pedagógica ou a vantagem do Centro de Interpretação da Natureza, tal como ninguém duvidará de que ao minuto zero o último arbusto estará plantado. O problema surge daí por diante: quem nos garante que passado meio ano tudo isto não se apresentará no estado em que se encontram hoje a fonte do Jardim dos Castelos Velhos, os bancos do Jardim dos Delírios ou os candeeiros do Parque Municipal? Sabemos quanto custa a «menina dos olhos» do Programa Polis para a Guarda – alguém fez contas a quanto custará, finda a contagem do relógio, o funcionamento e a manutenção?
Mais acima insiste-se nos «estudos técnicos» que viabilizem a construção de um túnel por debaixo do Praça Velha. Agarrados à primeira versão do plano, os mentores da ideia não parecem inclinados a reconhecer que um buraco entre a Rua 31 de Janeiro e o largo da Misericórdia seria um disparate inútil. E o pior é que fazem depender deste projecto faraónico o ordenamento à superfície e o fim da circulação automóvel. Como se não houvesse alternativas e a proibição não pudesse ter sido decretada há muito tempo. É claro que está em causa algo mais do que a simples colocação de placas de circulação interdita: é preciso mexer na paisagem, transformar as velhas ruas em atractivas zonas pedonais, criar recantos, revitalizar espaços, instalar serviços. No caso da Guarda, esta ideia podia até alargar-se a zonas fora da muralha medieval, como a Misericórdia e o Largo Frei Pedro. Não custa imaginar uma soberba praça pública desde o Jardim José de Lemos até à Sé. E nem parece que dois grandes parques de estacionamento convenientemente situados e com bons acessos – um na Avenida dos Bombeiros e outro nos terrenos do antigo quartel, por exemplo – não anulassem o único obstáculo racional à concretização de uma solução deste tipo.
Ganhava-se uma nova centralidade urbana. Devolvia-se a cidade às pessoas. E, bem vistas as coisas, seria mais barato e teria maior proveito do que o túnel e o parque juntos. Sobretudo porque não se sabe se, depois do Polis, estará alguém para dar corda ao relógio.
«O Interior»

4 de abril de 2002

4 Abr 2002: Amanhã ver-se-á

1. Amanhã toma posse o Executivo de Durão e Portas. De tudo quanto se tem especulado acerca do futuro político imediato de Ana Manso, uma hipótese que perece ganhar consistência é a da nomeação para secretária de Estado do Turismo. A entrada no Governo parece lógica, dado tratar-se de uma figura em franca ascensão no partido. O que pode parecer um paradoxo é que uma administradora hospitalar seja indigitada para tal pasta. Mas isso é possível num partido que, enquanto poder, cultivou e pelos vistos continua a cultivar – veja-se a escolha de Pedro Roseta para ministro da Cultura – a tecnocracia em detrimento do perfil. E Ana Manso é economista, tudo indicando que o Turismo permaneça sob a tutela da Economia. Pareceria mais lógica a designação da dirigente distrital do PSD para uma secretaria de Estado na área da Saúde, que mais não fosse pelo facto de o novo ministro cultivar, ao que consta, boa relação com a deputada eleita – pertencem ambos ao lobby da privatização dos serviços hospitalares. Ou para governadora civil, assumindo-se dona e senhora dos destinos do distrito. Mas há aqui um factor em jogo: Ana Manso não desistirá de ser presidente da Câmara da Guarda, de tão próxima que esteve de o ser em Dezembro passado. Só que ficou exposta de tal modo à promessa da construção de um novo hospital, em duas campanhas consecutivas, que qualquer dos lugares se tornaria num tormento – tendo em especial Maria do Carmo Borges boas razões para lhe cobrar a factura. Enquanto provável secretária de Estado do Turismo, ela sempre poderá demarcar-se do pior sem deixar de colher os louros do melhor, de tudo quanto for decidido sobre o assunto do hospital. Mais fácil será, porventura, desviar para a Guarda as migalhas que permitam, daqui a quatro anos, dar a aparência de obra realizada numa área que constitui a genuína vocação do concelho mas onde está tudo rigorosamente por fazer. E, com essa coroa de promotora turística, alcandorar-se a reinar na cidade. Não será mal visto. E, de facto, uma política de turismo consistente e consequente terá mais utilidade no nosso futuro colectivo do que um hospital novo. Todos sabemos isso, a começar seguramente por ela.

2. Num longínquo dia de Outubro de 1995, acordámos para um país onde uma série de gente já não tinha mando. Para além de qualquer crença no poder que punha fim a dez anos de cavaquismo, o que ficou foi uma sensação de alívio – o poder não é eterno, a insolência não triunfa sempre e a chantagem não resulta para toda a vida. O que não se esperava era que o sistema clientelar e imoral a que chamavam «Estado laranja» desse lugar, tão velozmente, ao triste espectáculo dos boys do PS a exigirem os jobs a que se achavam no direito. Colocado no papel de «padrinho» de um arraial de candidatos a protegidos, Guterres ainda tentou pôr ordem nas tropas. Mas as cúpulas nacionais e distritais tomaram o caso por conta e trataram de fazer a varredela, sem que outros critérios que não os da cor política ponderassem nas substituições. Agora põe-se a mesma questão: se é comum concordar em que os governadores civis e os directores-gerais devem ter a confiança política do Governo, sendo natural que mudem quando este muda, e se é comum aceitar que o mesmo se passe em relação a certos dirigentes e a algumas administrações que primaram pela ostensiva incompetência (já que o próprio partido que os nomeou não teve o decoro de reconhecer o erro), já ninguém de boa-fé achará essencial à política de saúde que se mudem os directores dos centros de saúde ou determinante para a política de formação que se substitua o director do Centro de Emprego por alguém escolhido na reunião do partido – desde que profissionalmente tenham dado provas de saberem o que fazem. Para mais, sendo Durão um confesso adepto dos «valores seguros». Nas próximas semanas veremos como se apresenta o PSD, depois destes seis anos de «cura de oposição»

«O Interior»