3 de maio de 2002

3 de Maio de 2002: Ver passar os comboios

Reunidos havia horas no majestoso mas climatizado salão nobre do palácio setecentista que o Estado restaurou para terem gabinetes de trabalho dignos das elevadas funções, os membros do Conselho de Administração da REFER mantinham-se presos ao ponto primeiro da ordem de trabalhos: o quinto aniversário da empresa. Concordavam em passar o dia festivo fora daquelas vetustas paredes e já tinham ordenado o preparo da carruagem de luxo que lhes foi atribuída pela CP. Se encontrassem um destino à maneira, mandá-la-iam atrelar ao comboio. O presidente insurgiu-se contra a lógica excursionista do intento – a irem, fossem celebrar alguma obra feita. Passou em revista os relatórios de actividades dos últimos cinco anos. Carris, catenárias, pontes e viadutos não enchiam a vista. Perguntou se a Unidade de Gestão do Património Desactivado (que ele próprio criara tendo em vista «uma política consistente para o aproveitamento e não degradação» das velhas estações) já tinha trabalho para mostrar – mas toda a sala desaguou numa gargalhada de gozo, vá lá saber-se porquê. Picado, deu um murro na mesa de pau-preto das Índias: «arranjem-me qualquer coisa para inaugurar!». Silêncio. Nisto levanta-se, radiante, o homem da Zona Operacional de Conservação do Centro: «Temos a estação da Guarda, senhor Presidente!». Burburinho. «Na Guarda? Mas isso fica a quantas horas daqui?». Consultaram um horário da CP e concluíram que a viagem levaria mais de quatro horas, com saída de Lisboa por volta de umas impróprias oito da manhã e regresso ao fim do dia. A maioria dos administradores tentou desmarcar-se mas o presidente neutralizou as resistências a contento de todos, a começar por si próprio: «mandamos os Mercedes de véspera, inauguramos aquilo e vamos lanchar à Bairrada!». Aplausos. «Agora telefonem à presidente da Câmara, a ver se lá pode estar nesse dia. E tratem de arranjar uns músicos para animar aquilo. Uma vez falaram-me num tal Américo Rodrigues, que trata dessas coisas...». Só que, ao que consta, o tal Américo Rodrigues mandou-os dar uma grande volta. Mas não se deu pela falta, porque da palhaçada encarregou-se a própria REFER. Vieram uns cinquenta figurões inaugurar uma obra que ainda leva um mês, no mínimo, a terminar. Não convidaram ninguém – nem os próprios ferroviários. E como se o ridículo não sobejasse, fizeram convictas declarações acerca de um painel de azulejos que teriam retirado da velha estação e guardado primorosamente para «devolver à cidade» – e repetiram-no até que alguém lhes sussurrou que o edifício demolido nunca teve painel algum digno desse nome. Mas nem tudo foi em vão: ao menos, o presidente da REFER deixou claro que não haverá obras na Linha da Beira Baixa, entre a Guarda e a Covilhã. O custo previsto ascende a 35 milhões de euros e a empresa tem outras prioridades – assim o afirmou, em resposta ao pedido expresso pela presidente da Câmara. Agora que estamos esclarecidos, o que falta para que as próprias câmaras e outros parceiros se associem e peguem no caso? Será difícil encontrar viabilidade para a exploração da linha? Alguém duvida das potencialidades de um circuito turístico bem explorado, que dê uso também às velhas estações ou da rentabilidade de uma rede ferroviária suburbana, que assegure ligações contínuas no eixo Guarda-Covilhã-Fundão-Castelo Branco? A estação foi inaugurada – e um dia, não se sabe quando, há-de abrir ao público. Mas não servirá de muito, se for só para ver passar os comboios.
«O Interior»

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