21 de junho de 2002

21 Jun 2002: Brandos costumes

1. Na margem do Mondego, perto de Celorico da Beira, uma fábrica de lacticínios terá decidido livrar-se dos resíduos tóxicos, despejando-os, presumivelmente, no rio. Como consequência imediata, morreu uma quantidade indeterminável de peixe, visível à tona desde o princípio desta semana. Isto quer dizer que o caudal está envenenado e segue o curso de destruição, que tanto pode queimar as culturas hortícolas na orla do rio como pôr em perigo a saúde de quem, por estes dias, se aventurar ao mergulho nas praias fluviais. Há crime, há suspeitos, há união de causa e efeito, há danos aferidos. O que se passou a seguir? Que se saiba, nada. Toda a gente andou demasiado entretida com o murro do João Pinto para admitir que o que se passou no Mondego tivesse alguma importância. É possível que, daqui a alguns dias, muito a custo e por pressão da notoriedade que o caso já alcançou, alguém da autarquia ou dos serviços regionais do Ministério do Ambiente visite a fábrica, levante um auto e condene o prevaricador a pagar uma multa. E depois? «Não pago!», dirá, seguramente, o empresário. Poderá escudar-se num rol de circunstâncias abonatórias, desde o facto de nunca ninguém lhe ter exigido o tratamento prévio das matérias residuais até à evidência de a mortandade dos cardumes pela poluição ser coisa banal nos melhores rios. O resto é relativamente fácil de antever. O processo segue para tribunal mas nessa altura já o proprietário, os trabalhadores, os sindicatos e as “forças vivas” se terão unido para denunciar a «ameaça aos postos de trabalho» e o «atentado à economia do concelho». A Câmara fará saber que um novo sistema emissário de resíduos industriais se encontra «em fase muito adiantada de projecto» e que a vigilância do leito do rio passou a ser «muito rigorosa», obrigando a análises permanentes à qualidade da água. E as conversas voltarão a centrar-se naquilo que é importante: o castigo ao João Pinto; o futuro do Oliveira. Que interesse tem, no fim de contas, que umas trutas em baixo de forma tivessem sucumbido à vaga de calor do Santo António? O cheiro das águas do Mondego não chega a ser tão mau como o dos brandos costumes deste país.

2. A polémica sobre a compra de um carro para a presidência da Câmara da Guarda não passou de um test-drive, com o piloto enjoado e a desistir a meio. Tanto banzé para nada – até o facto de um filho de Maria dos Carmo Borges ser empregado do grupo que fez a venda da viatura, como já se sussurrava, foi confirmando em público e com ar cândido pela própria mãe, antecipando-se ao arremesso dos vereadores do PSD. Há ligações perigosas? Se as há, pesaram na escolha da marca, em prejuízo das normas legais? Em matéria de carros de luxo, onde acaba o investimento em conta e começa a investida despesista? Ninguém sabe, ninguém explicou. É, pois, improvável que esta história dê sumo. Embora, claro, seja de admitir que a contenda ocupe também a sessão de câmara da próxima semana – mesmo que o povo encolha os ombros e dê cada menos credibilidade aos políticos. Mas, de facto, uma discussão sobre automóveis é acessível a toda a gente e evita conversas mais incómodas. Como por exemplo, se alguma vez teremos um hospital, seja ele novo ou remendado; se um serviço de pediatria reduzido a um médico não é óbvio que feche de vez, arrastando com ele a neonatologia e a maternidade; se o movimento pela criança não passou de uma fantochada, que meteu o rabinho entre as pernas quando deixou de servir e defraudou quantos nele participaram desinteressadamente; se uns e outros, líderes do PSD e do PS, não deviam dispor-se a percorrer as ruas (a pé, nunca de carro), num auto-de-fé de súplica – para pedirem, juntos, perdão pelo estado a que deixaram chegar isto.

Sem comentários: