12 de julho de 2002

12 Jul 2002: O hospital das portagens virtuais

De hoje a uma semana, o secretário de Estado da Saúde deverá deslocar-se à Guarda para «esclarecer questões relacionadas com o novo hospital». A informação ainda não é oficial: foi comunicada por Crespo de Carvalho na última sessão da Câmara e, pelos vistos, mais ninguém – nem o único colega de bancada presente – tinha conhecimento dela. Por isso, e levando em conta acontecimentos recentes, é melhor não dar a notícia como certa antes de findo um cauteloso prazo de «quarentena», isto é, antes de esgotadas todas as razoáveis possibilidades de o vereador do PSD vir dar o dito por não dito, a invocar má interpretação da imprensa, denunciar a falsificação das actas ou ver-se, tão só, desacreditado pelos correligionários na Assembleia Municipal e tratado quase como um farsante através de carta aberta – como ainda aconteceu na semana passada, sem que, pelo menos na aparência, ele se tenha importado muito com isso.
Em todo o caso, há uma grande probabilidade de a visita ser feita. E uma forte possibilidade de se tornar num facto político de primeira água, mais do que o périplo de um secretário de Estado ao país real poderia em princípio merecer. É para vir «esclarecer questões» que o anúncio do novo hospital suscita? Então que venha, rápido.
Por muito que isso escandalize as hostes locais do PSD, a verdade é que o assunto não conseguiu inspirar mais do que a indiferença generalizada, porque todos conhecemos, de pequeninos, a história de Pedro e do lobo. Pode ser que as explicações in loco dissipem esta descrença. Porque não se trata apenas de confiar, ou não, na promessa feita por um governo em contraciclo de popularidade. Mais do que saber o quê da notícia, é preciso apurar o como e o porquê.
Vamos admitir que a Guarda terá mesmo um hospital novo, construído de raiz, e que o governo encontrará um parceiro privado para o gerir durante trinta anos, ao qual pagará pelos serviços de natureza pública que estará obrigado a prestar gratuitamente aos utentes. Será uma espécie de HCUT – hospital sem custos para o utilizador, como as auto-estradas. A existir, coexistirá com o hospital da Cova da Beira (a curta distância da Guarda, novíssimo, bem equipado e, até ver, de gestão pública) e com o anunciado hospital da Misericórdia, inteiramente privado mas a piscar o olho ao Estado para a prestação de serviços a utentes do regime público (a única forma, aliás, de uma unidade de saúde particular poder conquistar mercado numa região com fraco poder de compra) e, mais do que isso, a «pescar» já no corpo clínico local – como comprova a indigitação do médico Pedro Albuquerque (de quem se falava para dirigir o Sousa Martins) para director.
É como se o Estado planeasse autorizar três auto-estradas para um mesmo percurso: uma, em regime SCUT, em que a concessionária cobra portagens virtuais ao governo; outra, construída por iniciativa privada, em que os utentes pagam portagem ou exibem nota de crédito emitida pelo Estado; e uma terceira, construída e administrada pelo Estado, em que qualquer um é livre de viajar à borla. Sem contar, claro, com o «itinerário complementar» que sempre existiu e que, com remendo atrás de remendo, cá nos vai remediando – por ruim que seja.
Não será fruta a mais?
«O Interior»

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