19 de julho de 2002

19 Jul 2002: Um Polis, dois Polis – ou nenhum?

1. Um diz que o plano já leva oito meses de atraso. Outro garante que não há atraso nem derrapagem. Um reconhece que os processos deviam ter sido agilizados e que, a meio da contagem, já se afiguram óbvias «repercussões na implementação dos trabalhos», podendo o prazo de conclusão estar comprometido. Outro, porém, mostra-se convicto de que em 30 de Junho de 2004 estará tudo pronto. Um mostra-se cauteloso em relação ao calendário de lançamento dos projectos. Outro adianta que dentro de um mês ou dois já teremos obra – e obra feita, no caso da avenida da Estação. Um lamenta que a comissão técnica de acompanhamento seja restrita e atrofiada pela burocracia. Outro nem refere a existência de tal órgão. Um trata de esclarecer que os trabalhos a realizar «não vão resolver todos os problemas» em relação às áreas intervencionadas e que o plano apenas tentará servir de modelo e «aferir intervenções futuras» nessas zonas. Outro é peremptório: quando tudo estiver no lugar, vamos ter uma cidade com maior qualidade de vida e um pólo de atracção – nacional e internacional. Um é engenheiro, foi vereador da tutela, esteve para ser coordenador geral do programa mas ficou-se pelo cargo difuso de membro do Conselho de Administração. O outro é arquitecto e director executivo do projecto. Aquilo que em teoria os une é o Polis na Guarda. Aquilo que na prática os separa é o discurso e, provavelmente, a visão das coisas. Na mesma semana, em dois jornais (um deles foi «O Interior»), Joaquim Valente e António Saraiva deram entrevistas acerca dos projectos, das obras, dos prazos. A leitura cruzada dos dois textos é inquietante: estariam a falar do mesmo?

2. Vale a pena, ainda assim, pegar em duas omissões que são comuns às declarações de ambos. Uma constitui um alívio. Outra inspira preocupação. Uma é referente ao túnel sob a Praça Velha: felizmente já nem Valente nem Saraiva mencionam esse disparate, até há pouco tempo dado como um dos «trabalhos estratégicos» da requalificação da cidade. A outra é grave: ficamos, de novo, sem saber que uso irá ser dado ao parque urbano que querem criar ao longo do rio Diz. A ideia é simpática e bem apetrechada, sem dúvida – mas há questões essenciais que permanecem sem resposta. Quem tomará conta de todos os equipamentos, depois de cortada a fita e desmontado o relógio? Quanto custará a manutenção e quem irá suportá-la? Porque é que uma obra destas não foi lançada em regime de concessão de longo prazo, para acautelar desde já a gestão e o funcionamento no futuro? Olhando para o estado em que estão os espaços verdes de iniciativa pública (do parque municipal às insignificantes courelas relvadas) desta cidade, não é fácil dar bom crédito às intenções.

3. É como a história do centro histórico da Guarda: ano após ano, a intervenção de fundo é adiada para o seguinte. E eis mais um Verão em que os carros circulam na Praça Velha, na Rua do Comércio, nas vielas antigas – em toda a parte. A Câmara já nem tenta: os velhos do Restelo do comércio local batem-lhe o pé e ela cede. Por falta de coragem, de autoridade e de visão estratégica temos, porventura, o último núcleo medieval do país à espera de ser devolvido às pessoas. Mas há, pelo menos, inteira coerência entre esta realidade e as restantes: um posto de turismo desactivado e outro que funciona em horário de expediente; os monumentos fechados; os locais de chegada, os pontos de encontro a as ruas principais onde não se vê um mapa da cidade no qual o visitante saiba que «você está aqui»; o comércio zeloso no cumprimento das horas de descanso; o parque de campismo decadente; o aproveitamento do Caldeirão metido definitivamente na gaveta; um ramo hoteleiro que aos domingos e dias santos mete tranca à porta. Afinal, bate tudo certo – não temos por que nos queixar.

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