26 de julho de 2002

26 Jul 2002: É difícil contar a verdade?

E vão dois: depois do movimento Pela Criança, eis que surge o Pró Pediatria. Um atirava-se ao PS, o outro zurze no PSD. Um insinuava que no génio irascível da chefe do serviço de pediatria estava a raiz de todos os males, o outro defende-a e diz tratar-se de «uma das melhores pediatras do país». Um mantinha uma indisfarçável deferência com Ana Manso, o outro vem disposto a cobrar-lhe as promessas. Um já deu a missão por cumprida, o outro apela aos pais para que se juntem e não deixem fugir a médica Luísa Pedro, que assim vai alimentado o tabu sobre a sua própria continuidade no hospital Sousa Martins. Não se sabe o resultado que alcançará o chamamento – mas depois do logro que se revelou o movimento Pela Criança é difícil cair segunda vez. Até porque ambos assumem uma característica comum: a capacidade de multiplicar os argumentos inúteis, esbatendo alguns que podiam ter utilidade para a discussão.
Nesta altura do campeonato, clamar contra a saída de um especialista é tempo perdido. Em menos de quatro anos já desertaram seis. Ficar com dois ou contar apenas com um dá exactamente o mesmo: o encerramento da pediatria e, logo a seguir, o da maternidade. Até porque daqui a duas semanas entra ao serviço um troço de auto-estrada que, entre outras virtudes, anula a pior parte do caminho para a Covilhã e para um hospital de raiz, bem equipado e à espera de ser rentabilizado – cuja dimensão nunca se esgotará nas necessidades dos cinco ou seis concelhos situados entre a Gardunha e a Estrela, que representam, juntos, menos de 100 mil habitantes.
Percebe-se há muito que o Centro Hospitalar Cova da Beira está para se tornar numa unidade central da região (ambição reforçada pela criação da Escola Superior de Saúde), em complementaridade com os outros hospitais situados ao longo da auto-estrada – Guarda, Fundão e Castelo Branco – e numa lógica que evite o desdobramento de meios: cada qual apostará naquilo para que estiver vocacionado e de acordo com as próprias condições. Desta forma teremos a pediatria e a obstetrícia concentradas no hospital da Covilhã, como poderemos ter a pneumologia ou a ortopedia no hospital da Guarda. Cada um tratará daquilo que sabe e pode. Além de ser óbvio que a criação de uma unidade de raiz na Guarda, fruto da tal parceria entre o sector público e o privado, menor margem deixará, pela própria natureza da gestão, para o desperdício de recursos.
Como pai, não me chocará fazer quinze minutos de estrada, sabendo que terei um bom serviço à minha espera. Aquilo que verdadeiramente me assusta é a proverbial tendência para as capelinhas – que, indo eu da Guarda com um filho meu à urgência pediátrica da Covilhã, seja tratado como estrangeiro e relegado para o último lugar da fila.
Isso poderá acontecer por muitas razões. Por má gestão, desde logo. Por exagero bairrista, com certeza. Mas também por falta de autoridade para impor algumas regras em tempo útil.
A solução para a rede de hospitais da Beira Interior está traçada e, vista com a necessária equidistância, parece racional. Os partidos, os poderes, os movimentos e as «forças vivas» da Guarda devem agora gastar as energias na definição de pormenor sobre o estatuto que nos ficará reservado no mapa da saúde, em vez de insistirem no estafado registo do sempre – panfletário e trauliteiro. Porque, para lá das paredes, o futuro do hospital assenta em duas premissas muito simples: utilidade e especialização.
Será tão difícil contar a verdade às pessoas?

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