27 de agosto de 2002

27 Ago 2002: Mergulhar no passado em Goa

Ir a Goa é mergulhar no profundo da memória de Portugal. É conviver com um povo tão afável que comove. É ser invadido pela inquietante sensação de estar nas latitudes tórridas do Índico e, no entanto, tudo na paisagem sugerir um lugar nos antípodas – como se apenas as palmeiras e os castanheiros de caju tivessem resistido, em imponente persistência, a todos os traços denunciadores da presença portuguesa. Porque, passados 40 anos, ela permanece em toda a parte: na arquitectura; nos nomes das ruas; na forma de amanhar os campos; nos relevos da vegetação; nos recortes do horizonte. É natural que um velho goês, Diogo Menino de sua graça, antigo jornalista residente em Macau, a quem eu pedi coordenadas para a viagem que fiz há quatro anos, me tivesse resumido tudo num dito do seu tempo: «quem viu Goa escusa de ver Lisboa».
À chegada ao aeroporto de Dabolim, na cidade de Vasco da Gama, uma funcionária do posto de turismo dirige-se aos viajantes portugueses como se de familiares seus de tratassem. Ângela Jasmina Fernandes assume o mau domínio da língua – e quase pede desculpa por isso. Era criança quando se deu a invasão, ou libertação (conforme o lado), tendo então o ensino da língua de Camões deixado de ser obrigatório. O inglês é o idioma comum e o concani, dialecto goês, ascendeu há dez anos ao estatuto de língua oficial, além do marathi e do hindi, que se falam em toda a Índia.
Mas o importante é que Ângela se considera tão portuguesa como nós. E, qual romagem de saudade, detém-se connosco mais de uma hora, numa afectuosa familiaridade. Mostra-me mapas, dá-me contactos, referências… Em cada lugar que me proponho visitar hei-de encontrar um irmão, um cunhado, um primo ou um amigo de Ângela. Dá como assente que todos me vão receber, todos me querem receber. Mas porquê? «Porque querem ouvir falar português!»
Os lugares que percorro têm nomes como Alorna, Aguada, Dona Paula, Altinho, Prainha, Fontaínhas, Cabo da Rama, São Jacinto, Gaspar Dias, Reis Magos… Em quase todas as povoações hei-de encontrar um «Largo da Igreja». Com coreto e tudo.
As igrejas, aliás, salpicam constantemente a paisagem, numa brancura bem cuidada, mesmo onde não se avista mais do que um recôndito sertão. Existem em Goa 600 templos católicos, quatrocentos com mais de duzentos anos. Deve ser o lugar do mundo com maior densidade de igrejas, capelas e ermidas.
As mais imponentes erguem-se no monumental conjunto de Goa Velha, classificado património mundial. Quando Afonso de Albuquerque desembarcou nestas terras, em 1510 (já Vasco da Gama havia descoberto o caminho), a possessão portuguesa manteve-se circunscrita no local que daria nome a todo o estado. Em 1547 chegaram os missionários Jesuítas, entre os quais S. Francisco Xavier, cujo corpo repousa num esquife de prata no mosteiro anexo à magnífica Basílica do Bom Jesus, um soberbo templo construído em rocha vulcânica a que chamam pedra vermelha. Em Goa Velha também é obrigatória a visita à majestosa Sé Catedral, ao Convento de Santa Mónica, ao Mosteiro de S. João de Deus, ao Palácio dos Arcebispos ou à Torre de Santo Agostinho.
A capital do estado é, desde o Século XVIII, a cidade de Panjim, fundada na margem do rio Mondavi, que inspira um certo romantismo mediterrânico – e onde a memória de Portugal é também gritante. As barbearias Ideal e República competem na praceta do bar Ave-Maria, a curta distância da casa de petiscos Menezes. Em cada esquina há uma placa, um marco de correio, um sinal do passado. No Hotel Central uso o lavabo que tem escrito «cavalheiros» e reconcilio-me com o clima sufocante na varanda do Rio Rico, o restaurante do primeiro andar que conserva o esplendor colonial e serve cozinha portuguesa com influência goesa. Tanto a casquinha de caranguejo como a costeleta de borrego com molho masala estão que se recomendam. Mas o melhor é a sobremesa: bebinca de leite. E, no fim, um Porto de cortesia. Um Porto caseiro, esclarece o empregado. E eis que o «Santo André», vinho «tipo Porto» produzido nas destilarias Tonia, até escorrega.
Na cosmopolita marginal situa-se a Confeitaria Italiana, onde os goeses mais velhos se juntam no entardecer e, atiçados pelo proprietário Bento Miguel, cantam o Malhão, Tia Anica, Raspa, Alecrim aos Molhos, Ó que Linda Rama… A memória é avivada por velhas cassetes, também matéria-prima valiosa para um rancho folclórico e uns quantos conjuntos de baile que mantêm estas modinhas.
No mercado velho de Margão há tabernas, boticas, retrosarias, alfaiatarias, barbearias, comércio de retalho e comércio geral, tal qual se lê nas tabuletas que encimam as arcadas centenárias e indicam serem os estabelecimentos obra de um Menezes, de um Souza, de um Xavier, de um Bragança, de um Gama, de um Noronha ou de um Veloso.
Candeeiros de petróleo estão de plantão às falhas da electricidade, os balcões de madeira há muito que perderam as esquadrias e não há máquinas registadoras – somam-se as parcelas em tiras de papel almaço e tira-se a prova dos noves.
O comércio de antiguidades é uma atracção. Mas as pechinchas encontram-se no mercado das quartas-feiras em Anjuna, a praia tida como santuário hippie e famosa desde os anos 60 pelo convívio pouco ortodoxo que povoa o areal. Vão gentes de toda a Índia, do Nepal e do Tibete, que dividem o chão com ingleses, alemães e holandeses. Fazem a feira da ladra das pratas, das pedras raras, das sedas, das especiarias e do artesanato.
Mas todas as praias de Goa, realmente belas e exóticas, merecem uma visita. As melhores cadeias internacionais de hotéis sabem-no e invadiram a costa com estâncias de luxo que estão próximas do imaginário do paraíso terreno. O Cidade de Goa, na praia de Dona Paula, foi pioneiro neste segmento. Não tem mais de vinte anos mas não tem rooms – tem quartos. E os restaurantes chamam-se Lagoa Azul, Miramar e Alfama.
No pátio da entrada está presente sempre a mesma tertúlia. São três e parecem estar ali há que tempos em animada cavaqueira. Um chama-se Gama, outro Albuquerque e o terceiro Xavier, que dizem santo.
Infelizmente são estátuas – não dá para entrar na conversa.

20 de agosto de 2002

20 Ago 2002: Os portugueses do papiá cristâng

Bem dizia Fernando Pessoa que «o mar sem fim é português». Mas nem isso explica o mistério de haver em Malaca, quatro séculos depois, quem chore quando fala sobre Portugal. Lá longe, nos antípodas do nosso mar, sobrevive um povo agarrado à saudade de um país que nunca conheceu.
São pouco mais de dois mil e vivem no que chamam «jardim à beira-mar plantado», tal como a terra que lhes inspira a mítica identidade. No lugar onde fingem ver o Atlântico longínquo têm apenas um curto braço do Mar da China, conhecido como Estreito de Malaca.
A vida corre mansa e nostálgica naquele kampung portugis (bairro português, em malaio). Talvez mansa demais para o ritmo frenético da Malásia, um «tigre» económico em potência. Tal é o contraste, que na primeira vez que visitei Malaca, vai para cinco anos, o guia turístico que apanhei em Kuala Lumpur (a capital da Malásia) ficou de má catadura quando soube que havia portugueses na jornada. Confessou-me, no fim, que o programa costumava incluir graçolas sobre a calma que se vive naquele exótico bairro. Qualquer coisa semelhante à estafada anedota do alentejano que tem uma cadeira à cabeceira, para descansar quando se levanta...
Este ferrete provém dos hábitos da comunidade luso-descendente de Malaca. Até há quase duas décadas, o mar era o sustento de grande parte desta gente. Como povo piscatório, os homens cumpriam a faina pela madrugada. No resto do dia, entregavam-se ao arbítrio dos elementos naturais e das fomes do corpo e da alma, livres de horários. Num país fortemente industrializado, seria no mínimo excêntrico este vagar de horas a fio à sombra dos embondeiros da marginal, nas esplanadas da Praça Portuguesa ou nos umbrais das casas feitas de madeira e chunambo.
Agora, os portugueses de Malaca empregam-se na administração pública ou nas numerosas fábricas. E a comunidade orgulha-se de contar entre os seus ilustres com um juiz, um embaixador, vários advogados e professores. Mas esta integração não os inibe do orgulho da origem e do crioulo a que dão voz, o papiá cristâng. É isto que perturba quem chega, tantas são as gerações passadas e tantas as voltas que a cidade deu em 350 anos, entre domínios de holandeses, franceses e ingleses.
Há quem defenda que o papiá é o Português arcaico, ali deixado e mantido na forma pura. Seja o que for, a verdade é que um estranho desembarca e logo encontra o velho Manuel Bosco Lazaroo, respeitado líder do bairro, técnico de obras públicas reformado, tocador de «biola» e contador de histórias. Chega e pergunta «qui bos nome?» (como se chama?) e «de onde bos ja bem?» (de onde vem?). Depois convida o visitante para casa, oferece-lhe uma bebida – «bos qui quer beber? Tem secura?» – e logo se lhe juntam os Teiserah que foram Teixeira, os Fernandis, os Sequieras e os Aranjos. E ainda há os Costa, Rosário, Melo, Santa Maria, Colares ou Lopes. De todos os que conheci naquele encontro, só um tinha vindo a Portugal, havia mais de vinte anos. Mas a saudade era partilhada por todos.
Levaram-me à Rua de Eredia, afluente da Rua de Sequeira e esta da Rua de Albuquerque, a principal, que vai dar à Praça Portuguesa, aliás Portuguese Square, aliás Medan Portugis (em malaio). Foi um aprazível largo fronteiro ao Estreito de Malaca até que uma urbanização em aterros novos cortou o acesso ao mar. Os moradores do bairro protestaram e chegaram a pedir ajuda a Portugal, através da embaixada mais próxima, na Tailândia, sem resposta. Abandonados à sorte, trataram de pedir algum para eles, em troca do acordo sobre a construção do empreendimento. Assim se fez. A compensação deu para construir uma igreja e um centro social. E toda a recuperação da praça foi paga pelo governo da Malásia, em nome da integração cultural e do respeito pelas minorias. E é assim, com uma parte assinalável de apoio público, que a comunidade organiza as festas dos santos populares e mantém dois ranchos folclóricos, o «Tropa de Malaca» e o «Tiroliro», que animam as noites na praça e são presença frequente em festivais etnográficos em Singapura, a cidade-estado que fica de Malaca à mesma distância que a Guarda de Cuidad Rodrigo.
E Portugal, que apoio dá? «Nicles!», diz, não sei se em português se em cristâng, o amigo Bosco Lazaroo. «Nem um livro, nem um jornal, nem um filme, nem um disco, nem um mapa, nem nada!», acrescenta Jorge Alcântara, dono do restaurante «Faial», o ex libris da praça.
O estabelecimento português em Malaca durou escassos 130 anos, entre 1511 e 1641, até à tomada pelos holandeses. Mas a velha cidade está impecavelmente recuperada e mantém outras marcas da presença lusa. O Museu Marítimo, por exemplo, está instalado numa espantosa réplica de uma nau portuguesa. E o postal ilustrado por excelência é a antiga porta da fortaleza, conhecida como «A Famosa», junto das ruínas da Igreja de S. Paulo. E imponente é a Igreja de S. Francisco Xavier, onde ainda se vêem pedras tumulares com dizeres como estes, datados duzentos anos após a saída de Portugal: «Aqui jaz o mui reverendo Francisco Gomes que houve relevantes serviços para com esta Igreja de Malaca desde 1826 e 1840 (...) Regeu a Diocese com zelo até à morte, que teve lugar a 17 de Janeiro de 1858, tendo de idade 64 anos, dois meses e seis dias. À sua gloriosa memória. Dedicação esta dos seus reconhecidos amigos e fregueses, fazendo votos pelo remanso da sua alma».
É nestas alturas que se regressa, inevitavelmente, a Pessoa: «Outros haverão de ter/O que houvermos de perder./Outros poderão achar/O que, no nosso encontrar,/Foi achado, ou não achado,/Segundo o destino dado».

6 de agosto de 2002

6 Ago 2002: Zhao Weng, aliás, João Manuel

Agostinho da Silva dizia de Portugal que a plenitude do Espírito Santo concorria com a bênção de se ter construído, à beira do Atlântico, o cais que nos sagrou para todo o futuro do mundo. O meu amigo João Manuel pensa algo semelhante, embora a matriz cultural lhe coloque os ensinamentos de Confúcio e Lao Tse no lugar das graças do Espírito Santo, que lhe parecem um tanto exóticas.
João Manuel chama-se, na realidade, Zhao Weng. Nasceu em Xangai no mesmo ano e no mesmo mês em que eu nasci na Guarda, em Dezembro de 68. E, quais almas destinadas, acabámos por travar conhecimento num Outono em Pequim, vai para quatro anos. Eu vivia em Macau e visitava a cidade dos imperadores pela primeira vez. Ele, ex-estudante de Português, era o contacto de um amigo comum e um anfitrião desejoso do convívio com nativos da língua de Camões.
João Manuel é o nome adoptado – um «aliás», como se diz naquelas. Eu próprio possuía, naquele tempo, o meu «aliás» chinês (Loi Si Do), o que originou, no imprescindível ritual de troca de cartões de visita, o caricato de eu o tratar pelo nome português e ele a mim pelo chinês.
Reposta a verdade dos factos, fiquei em desvantagem: chame-se Zhao ou João, ele fala a minha língua de forma impecável, muito ao invés de mim em relação à dele. O rigor gramatical e a eloquência do vocabulário são notáveis. Era preciso ir a Pequim, não digo para ouvir falar bom português mas pelo menos para lembrar expressões muito nossas, caídas em desuso ou abafadas por estrangeirismos. Disse-me, por exemplo, que me levaria aos famosos estanqueiros da Rua Liu Li Chang e de Xiu Shui. E levou-me. Só que eu chamar-lhes-ia num caso antiquários e noutro armazenistas.
De facto, a Universidade de Línguas e Literaturas Estrangeiras de Pequim, muito prestigiada nos meios diplomáticos, não brinca em serviço. Lecciona todas as línguas oficiais do mundo – mesmo todas! – e mais uns quantos dialectos expressivos. O curso de português tem a duração de quatro anos intensivo e é acompanhado pela mesma equipa docente do primeiro ao último dia. Só ao quarto ano é que volta a admitir caloiros. E cada curso não aceita mais de quinze alunos, pelo menos nas línguas consideradas difíceis. O português é uma delas, devido à complexidade da gramática. Os professores habilitados (chineses na quase totalidade) são poucos – mas bons, a avaliar pelo resultado que João Manuel exibe.
Este contacto com a língua e com a cultura lusas aconteceu por acaso. Ao ingressar na universidade, Zhao, que ainda não imaginava vir a chamar-se João, indicou o inglês como primeira opção, porque julgava ter no já familiar uso desta língua alguma vantagem. Puro engano. Não foi admitido porque os vícios que levava da aprendizagem autodidacta contrariavam a filosofia da formação que ali é ministrada. Os mestres criam a obra a partir da pedra em bruto, com paciência e perseverança, nunca pegam em trabalho começado. Tal é o sentido do ensino do Português, em Pequim.
Há males que vêm por bem, diz o aforismo muito nosso. Quando o conheci, Zhao admitia que o diploma de Língua e Cultura Portuguesas seria uma carta de alforria. Dadas as relações privilegiadas entre Portugal e China no quadro da transição de Macau, as próprias instituições da República Popular estavam a absorver uma grande parte dos diplomados.
Zhao iniciara os estudos em 1988 mas um ano depois a universidade encerrava, na crise provocada pelo movimento estudantil pró democracia, que culminou nos acontecimentos de Tian An Men a 4 de Junho de 1989. Perguntei-lhe se esteve lá, se assistiu ao massacre. Respondeu-me com uma evasiva: «Em Maio fui visitar os meus familiares em Xangai». A conversa torna-se num jogo de sombras.
Na tristemente célebre praça, os heróis daquela Primavera só já existem no imaginário do visitante. O local parece apropriar-se do nome, que significa à letra Praça da Paz Celestial. Há velhos que praticam Tai Ke, a «ginástica do espírito», crianças que lançam papagaios de papel, turistas ruidosos e soldados que ao nascer e ao pôr-do-sol hasteiam e arriam a bandeira nacional, num ritual empolgante.
Qualquer pessoa se sente ali minúscula. Obra de Mao, tal como a avenida de mais de trinta quilómetros que a atravessa, a praça é gigantesca e está ladeada pelos edifícios sobranceiros do Museu da Revolução, do Grande Palácio do Povo, do antigo Palácio Imperial e do mausoléu do «grande líder». Mas o maoísmo não passa já de um relicário, que resiste como pode no país que inventou o paradoxo da economia socialista de mercado e regista uma das mais elevadas taxas de crescimento económico do planeta.
Voltemos a Zhao. Na pele de João Manuel, já tinha lido Camões, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Mário de Sá Carneiro e Sofia de Mello Breyner, pelo menos. Em português e em chinês. A universidade dispõe de um acervo assinalável de literatura portuguesa traduzida, nuns casos por acção dos próprios investigadores, noutros por iniciativa editorial tomada a partir de Macau.
Desde que foi criado, há mais de trinta anos, o curso de português formou um total de cerca de três centenas de pessoas. Uma grande parte ingressou na carreira diplomática, arte na qual a China dá cartas. É impensável que uma embaixada em qualquer parte do mundo não tenha quadros que falem fluentemente a língua do país.
Aos trinta anos, João Manuel era já um alto quadro numa empresa estatal ligada ao Ministério do Comércio Externo e da Cooperação. Por falar português tinha estado destacado três anos em Cabo Verde e dois em São Tomé. Agora costuma escrever-me maravilhas de Moçambique, onde exerce há dois anos o cargo de adido comercial. Em Portugal chegou a viver oito meses, a trabalhar na área da cooperação económica. E foi aqui que deu de caras com um mistério que nem toda a sabedoria oriental consegue desvendar: como pode a pátria dos Descobrimentos ser tão fechada sobre si mesma e tão estreita de vistas? Perguntava-me disto a propósito do relacionamento comercial unilateral, do mercado português inundado de made in China, em contraste com a falta de iniciativa no sentido inverso. E indignava-se: «Vocês não vêm que este é o maior mercado do mundo? Que a compra de um produto vosso por um por cento da nossa população é um negócio para valer milhões?!» O quê, por exemplo?: «O vosso vinho e o vosso azeite». Não, nós não vemos sequer um negócio da China.
Ficamos assim. E à noite, numa animada ceia no afamado «Rei das Sopas» de Pequim (sopas de cobra, que as boas maneiras obrigam a sorver ser esgares), Zhao recorda outras características dos portugueses, umas boas, outras nem tanto. Que temos um estranho fascínio em dizer tudo o pensamos. Que somos conversadores e bem dispostos. Que discutimos muito. Que nos queixamos de tudo. Que contamos anedotas.
E as mulheres portuguesas, o que as distingue? João Manuel medita por instantes. E sai-se com esta, que nenhum de nós terá, sequer em poemas, alguma vez pensado: «Têm a simpatia, a doçura e os gestos de ternura breve»...