20 de agosto de 2002

20 Ago 2002: Os portugueses do papiá cristâng

Bem dizia Fernando Pessoa que «o mar sem fim é português». Mas nem isso explica o mistério de haver em Malaca, quatro séculos depois, quem chore quando fala sobre Portugal. Lá longe, nos antípodas do nosso mar, sobrevive um povo agarrado à saudade de um país que nunca conheceu.
São pouco mais de dois mil e vivem no que chamam «jardim à beira-mar plantado», tal como a terra que lhes inspira a mítica identidade. No lugar onde fingem ver o Atlântico longínquo têm apenas um curto braço do Mar da China, conhecido como Estreito de Malaca.
A vida corre mansa e nostálgica naquele kampung portugis (bairro português, em malaio). Talvez mansa demais para o ritmo frenético da Malásia, um «tigre» económico em potência. Tal é o contraste, que na primeira vez que visitei Malaca, vai para cinco anos, o guia turístico que apanhei em Kuala Lumpur (a capital da Malásia) ficou de má catadura quando soube que havia portugueses na jornada. Confessou-me, no fim, que o programa costumava incluir graçolas sobre a calma que se vive naquele exótico bairro. Qualquer coisa semelhante à estafada anedota do alentejano que tem uma cadeira à cabeceira, para descansar quando se levanta...
Este ferrete provém dos hábitos da comunidade luso-descendente de Malaca. Até há quase duas décadas, o mar era o sustento de grande parte desta gente. Como povo piscatório, os homens cumpriam a faina pela madrugada. No resto do dia, entregavam-se ao arbítrio dos elementos naturais e das fomes do corpo e da alma, livres de horários. Num país fortemente industrializado, seria no mínimo excêntrico este vagar de horas a fio à sombra dos embondeiros da marginal, nas esplanadas da Praça Portuguesa ou nos umbrais das casas feitas de madeira e chunambo.
Agora, os portugueses de Malaca empregam-se na administração pública ou nas numerosas fábricas. E a comunidade orgulha-se de contar entre os seus ilustres com um juiz, um embaixador, vários advogados e professores. Mas esta integração não os inibe do orgulho da origem e do crioulo a que dão voz, o papiá cristâng. É isto que perturba quem chega, tantas são as gerações passadas e tantas as voltas que a cidade deu em 350 anos, entre domínios de holandeses, franceses e ingleses.
Há quem defenda que o papiá é o Português arcaico, ali deixado e mantido na forma pura. Seja o que for, a verdade é que um estranho desembarca e logo encontra o velho Manuel Bosco Lazaroo, respeitado líder do bairro, técnico de obras públicas reformado, tocador de «biola» e contador de histórias. Chega e pergunta «qui bos nome?» (como se chama?) e «de onde bos ja bem?» (de onde vem?). Depois convida o visitante para casa, oferece-lhe uma bebida – «bos qui quer beber? Tem secura?» – e logo se lhe juntam os Teiserah que foram Teixeira, os Fernandis, os Sequieras e os Aranjos. E ainda há os Costa, Rosário, Melo, Santa Maria, Colares ou Lopes. De todos os que conheci naquele encontro, só um tinha vindo a Portugal, havia mais de vinte anos. Mas a saudade era partilhada por todos.
Levaram-me à Rua de Eredia, afluente da Rua de Sequeira e esta da Rua de Albuquerque, a principal, que vai dar à Praça Portuguesa, aliás Portuguese Square, aliás Medan Portugis (em malaio). Foi um aprazível largo fronteiro ao Estreito de Malaca até que uma urbanização em aterros novos cortou o acesso ao mar. Os moradores do bairro protestaram e chegaram a pedir ajuda a Portugal, através da embaixada mais próxima, na Tailândia, sem resposta. Abandonados à sorte, trataram de pedir algum para eles, em troca do acordo sobre a construção do empreendimento. Assim se fez. A compensação deu para construir uma igreja e um centro social. E toda a recuperação da praça foi paga pelo governo da Malásia, em nome da integração cultural e do respeito pelas minorias. E é assim, com uma parte assinalável de apoio público, que a comunidade organiza as festas dos santos populares e mantém dois ranchos folclóricos, o «Tropa de Malaca» e o «Tiroliro», que animam as noites na praça e são presença frequente em festivais etnográficos em Singapura, a cidade-estado que fica de Malaca à mesma distância que a Guarda de Cuidad Rodrigo.
E Portugal, que apoio dá? «Nicles!», diz, não sei se em português se em cristâng, o amigo Bosco Lazaroo. «Nem um livro, nem um jornal, nem um filme, nem um disco, nem um mapa, nem nada!», acrescenta Jorge Alcântara, dono do restaurante «Faial», o ex libris da praça.
O estabelecimento português em Malaca durou escassos 130 anos, entre 1511 e 1641, até à tomada pelos holandeses. Mas a velha cidade está impecavelmente recuperada e mantém outras marcas da presença lusa. O Museu Marítimo, por exemplo, está instalado numa espantosa réplica de uma nau portuguesa. E o postal ilustrado por excelência é a antiga porta da fortaleza, conhecida como «A Famosa», junto das ruínas da Igreja de S. Paulo. E imponente é a Igreja de S. Francisco Xavier, onde ainda se vêem pedras tumulares com dizeres como estes, datados duzentos anos após a saída de Portugal: «Aqui jaz o mui reverendo Francisco Gomes que houve relevantes serviços para com esta Igreja de Malaca desde 1826 e 1840 (...) Regeu a Diocese com zelo até à morte, que teve lugar a 17 de Janeiro de 1858, tendo de idade 64 anos, dois meses e seis dias. À sua gloriosa memória. Dedicação esta dos seus reconhecidos amigos e fregueses, fazendo votos pelo remanso da sua alma».
É nestas alturas que se regressa, inevitavelmente, a Pessoa: «Outros haverão de ter/O que houvermos de perder./Outros poderão achar/O que, no nosso encontrar,/Foi achado, ou não achado,/Segundo o destino dado».

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